sábado, 29 de outubro de 2016

Ódios?


Num dos países mais brutalmente desiguais do mundo dito desenvolvido, Manuel Carvalho ecoava há dias, num aparte de um artigo sem grande interesse sobre a CGD, um refrão que me interessa há muito: “os portugueses odeiam quem ganha bem e esse é um dos atavismos que nos colam irremediavelmente ao atraso”.

E quem expõe os mecanismos da desigualdade e propõe políticas para as reduzir, a partir da crítica às práticas odiosas que vigoram entre as elites, é o quê, segundo Carvalho? Adivinharam: “populista”. O que para esta gente é um insulto, devemos nós tomar como um elogio. Se os populismos e, já agora, os nacionalismos, são o novo espectro que não sai da cabeça das elites ditas liberais, então devemos ligá-los na direcção certa: a tal vontade colectiva nacional e popular de que dependem as transformações democráticas necessárias.

Bom, reparem como a ideologia dominante gosta de se imaginar na oposição, de fora, contra o país: “os portugueses odeiam”. Pode ser que um dia isso se torne verdade. Pode ser. Numa cultura dominada e pervertida pelo poder do dinheiro concentrado, o diagnóstico diz pouco sobre “os portugueses”, mas muito sobre a ideologia dominante desde os anos oitenta e que inspirou as mudanças que demoliram grande parte da economia política do 25 de Abril, voltando a concentrar rendimentos no topo da pirâmide social depois do susto apanhado nas fases de democracia mais intensa e colocando o país nesta estagnação sem fim.

Apodar de atávica a preocupação de reconfigurar as instituições da economia para nelas inscrever princípios de justiça social é um velho truque neoliberal que qualquer leitor de Hayek identifica com facilidade. O debate aqui é entre os que querem regras que distribuam recursos de cima para baixo e os que querem regras que distribuam recursos de baixo para cima. Mais nada.

Enfim, se depender da linha dominante entre os que “transacionam ideias em segunda mão”, e a fórmula também é do grande pensador da direita intransigente no século XX, a economia política para os 1% continuará: de baixo para cima eternamente, irremediavelmente condenados?

17 comentários:

Jose disse...

Qual atavismo, qual nada!
É cultura de Abril a Março no seu esplendor de continuidade da 'modéstia salazarenta' adicionada de 'inveja progressista'.
Uma, recomenda que se ambicione modestamente a troco de moderadamente se despender esforço.
Outra, garante que ainda assim se assegure que o esforço de outros seja distribuído a contento de que não se aproveitem demasiado disso e que a igualdade seja, se não alcançada, mantida como bem absoluto para reconfortar os falhados e indigentes.

Anónimo disse...

Um exelente post de Joao Rodrigues.

Que fsz sair de debaixo das pedras os salazarentos personagens a esgrimirem pelos falhados e indigentes.

Anónimo disse...

A igualdade é atingida na pobreza, como qualquer pessoa, que se queira dar ao trabalho de olhar para a História.
Claro que para a Aristocracia dos administradores do sistema igualitário as mordomias nunca faltarão.
O caso mais recente é a Venezuela.

Viva o Progressismo em direcção à mais absoluta miséria:
https://www.noticiasaominuto.com/mundo/677880/exercito-venezuelano-vai-fiscalizar-empresas-de-alimentos-e-medicamentos

Rui Silva

Anónimo disse...

"O debate aqui é entre os que querem regras que distribuam recursos de cima para baixo e os que querem regras que distribuam recursos de baixo para cima. Mais nada."

Os de cima deixam implícito na sua argumentação que o que propõem é o bem para todos quando efectivamente apenas procuram salvaguardar a sua posição relativa. Não há nem nunca houve qualquer razão para a desigualdade e isto é inultrapassável.

Jaime Santos disse...

Como gosta o João Rodrigues de recuperar a palavra 'populista' e como gosta de se ver a si mesmo como tal. E se calhar tem toda a razão.Se o que deseja é lutar contra as desigualdades, eu chamar-lhe-ia social-democrata, socialista, comunista, ecologista, o que seja. Mas para isso era preciso que assumisse qual é realmente o seu programa político. Não apenas aquilo contra o qual está, mas também aquilo que realmente defende. E como provavelmente nesse momento as pessoas iriam fugir a sete pés desse programa político, prefere atirar a pedra e esconder a mão. Era só isso que eu queria. Um programa político fundamentado. Como deseja sair do Euro e depois da UE e garantir o financiamento da República, como planeia recuperar a 'Economia de Abril' e com que dinheiro (presume-se que à custa de nacionalizações em massa, claro) e por aí a fora. O que verificamos depois do Brexit é que aquilo que une as diferentes fações que o apoiam é a total opacidade relativamente a um programa político de futuro. A Esquerda anti-liberal não costumava ter vergonha de assumir as suas opções (isto até à falência do modelo soviético, claro está), já a Direita nacionalista enveredou desde cedo por esse jogo de alargamento do universo de discurso em que se diz algo escandaloso, depois nega-se o que se disse, se repete, e a coisa vai fazendo o seu caminho até se tornar respeitável e o o Partido Conservador Britânico fazer seus os pontos de vista do UKIP... Vale lá, deixe-nos ver como entende que deve ser o futuro...

Anónimo disse...

"O debate aqui é entre os que querem regras que distribuam recursos de cima para baixo e os que querem regras que distribuam recursos de baixo para cima."

Independentemente de ser de cima para baixo ou de baixo para cima a questão essencial reside na diferença entre "regras que distribuam" e "regras que permitam que ocorra a distribuição". E essa pequena diferença distingue entre regimes totalitaristas e regimes liberais.

Anónimo disse...

A fuga para a Venezuela também serve de pretexto para os de cima perpetuarem a sua condição de.

Rui Silva mais uma vez confirma tal.

O silêncio ensurdecedor como responde ao texto de João Rodrigues é apenas contaminado pela propaganda bacoca como tenta fugir ao que se debate.

Anónimo disse...

A simples mas fundamentada (e elegante)denúncia da concentração da riqueza no topo da pirâmide e dos mecanismos usados pelos neoliberais de turno para a tentarem manter faz soltar de imediato a mola a alguns dos que se querem perpetuar lá.

Um repete com a pesporrência habitual o discurso do "jornalista" do Público e, como ele, gosta de se imaginar na oposição, de fora, contra o país. "Falhados e indigentes" proclamará num gesto impúdico de quem andou a beber para além das teses de Hayek, as teses de qualquer canalha a defender as teorias eugénicas que confortaram outras teses, de extrema-direita.

Curiosamente fala do salazarismo.
Já se esqueceu do que disse sobre o mesmo salazar, o líder, quando pensava que a governança estava de pedra e cal e não necessitava mais de fitas a esconder o seu verdadeiro pulsar

Nestes precisos termos:
"na composição da minha pouco importante figura, evita pôr-me como tendo Cavaco por líder! Põe lá o Salazar ou outro figurão qualquer mas não o Cavaco".

Anónimo disse...

Outro proclama uma velha máxima parida sabe-se lá de que calhamaço inquisitorial.
"Igualdade só na pobreza".

Será a partir desta premissa que partirá para a defesa da desigualdade, da concentração da riqueza no topo da pirâmide?

Mas então, pobre e infeliz coitado, confirma o dito por João Rodrigues, com uma violência assaz interessante, porque escutamos a própria voz em directo dum desses tipos que quer manter as regras que distribuem recursos de baixo para cima.
Para que a desigualdade se estabeleça é preciso que haja desiguais e portanto que uns tantos tenham quase tudo e todos os outros quase nada.

A luta de classes aqui tão puerilmente demonstrada.

(A invocação da Venezuela é apenas o recurso preguiçoso e impotente de quem defende desta forma bacoca a concentração da riqueza nas mãos dos de sempre. Segundo ele, para que haja desiguais...
Confessemos: uma pérola a justificar alguma apreensão pelo discernimento intelectual de)

Antonio Cristovao disse...

Que pena os amanhas que cantam estarem cada vez mais longe e reduzidos a países falhados. Admiro a religiosidade que mantém homens cheios de fé.indiferentes aos factos que negam o que aspiram. Valentes.

A.Pais disse...

Faço minhas as palavras do Anónimo das 18.42!

Anónimo disse...

Jaime Santos não seja assim.
Não minimize a sua inteligência com patetices.
O trilho ideológico de João Rodrigues é claro e só não vê quem não quer ver. Pedir um programa político fundamentado como pretexto para tentar criticar as ideias defendidas por alguém é um atentado à inteligência dos demais.E ainda por cima as pistas são-nos dadas do que se não quer, do que se quer e dos caminhos para lá chegar

As coisas estão assim tão mal entre os europeístas entusiastas que, à falta de mostrarem algo de positivo no caminho desta UE pós-dmocrática, insistem nestas teses que seriam arrumadas por qualquer filósofo do século XVIII?

Isto é um convite à censura para calar os que ousam criticar este modelo? Não falas porque não podes predizer o futuro? Não concebe que o direito à crítica é um direito da democracia e que os moldes em que esta se faz devem ser livres?
Mas JS parece que já sabe o que quer. Esta UE , a chantagem do Shauble e dos eurocratas reunidos. Quer contribuir para o crescimento da extrema-direita recusando ver o que se apresenta.As bojardas com que crismou quem não votou no Remain caem-lhe agora no colo e é bem feito
Chamou o Brexit de tudo e mais alguma coisa. Disse que as "pessoas iriam fugir a sete pés". Foi o que se viu. No RU a economia está melhor do que o esperado. E entre os conservadores e o Blair que agora tenta erguer a face de criminoso de guerra para liquidar Corbyn, que venha qualquer coisa menos tal canalha. Estamos todos fartos de cavaos de Tróia ainda para mais de criminosos de guerra sem escrúpulos e sem perdão.

Anónimo disse...

Valente mesmo Cristóva. Vakente mesmo.A cantar os amanhãs que cantam dos cúmplices dete estado de coisas.
E a falar de países falhados. Quais? os destruídos debaixo das bombas dos exércitos ocidentais? Os destruídos pela chantagem como a Grécia?
De quem falará Cristóvão?
Da miseria miserável a que a chantagem da UE nos quer amarrar?

Anónimo disse...

"regras que distribuam" e "regras que permitam que ocorra a distribuição". E essa pequena diferença distingue entre regimes totalitaristas e regimes liberais?

Regras que permitem que ocorra a distribuiçâo? Como as enunciadas pelo ministro alemão corrupto? Como os que saem da chantagem do directório europeu? Como as que resultam dos "acordos" que se estão a efectuar entre os EUA e a Europa?

Mas ó anónimo o que vossemecê diz é um disparate de todo o tamanho. As regras que permitem qualquer coisa têm a ver antes que tudo com quem faz estas regras. Como estas são feitas e levadas à prática. Por isso deixe-se de lérias e assuma que o que vossemecê quer são regras feitas à imagem e semelhança dos do topo da pirâmide.
Para lá ficarem instalados perpetuamente.

Jose disse...

O Cuco das 02:21 apoia o Cuco das 18:42!

Anónimo disse...

Herr Jose lá saberá. Acontece que a idade ou o álcool podem potenciar os seus fantasmas e originar estas cenas pateticas a raiar s paranoia

Mas nao se distraia com pormenores. Debata-se o que se debate e não senilidades umbilicais

Anónimo disse...

Pensará o Jose que todos são do seu estolo, aldrabões como ele?