sábado, 29 de abril de 2023
Factos, valores e enviesamento ideológico dos economistas
sexta-feira, 28 de abril de 2023
A Tirania do Mérito
Ontem fui à apresentação de Michael J. Sandel na Gulbenkian, onde expôs a sua crítica à ideia da meritocracia. Apesar de ainda não ter lido o seu livro sobre o assunto, a verdade é que a visão de Sandel não parece ser particularmente nova. No entanto, não deixa de ser uma ótima capacidade a de nos fazer repensar coisas que deviam ser óbvias, que é o que também vou tentar fazer.
O mérito e a meritocracia estão no centro da nossa vida social atual, mas, apesar de tudo, são muito mal definidos. A minha definição é a de que o mérito consiste numa adequação entre meios e resultados de uma determinada ação humana. Dizemos que alguém tem mérito quando determinado resultado é considerado adequado, ou justo, em relação aos meios empregados, sejam eles talento, esforço, trabalho etc.
No seguimento, a meritocracia surge como um ideal social onde o princípio do mérito é aplicado na distribuição dos bens sociais, em particular rendimento, mas também honra, reconhecimento ou poder.
A ideia do mérito e a aspiração à meritocracia são, assim, dos principais reguladores morais da nossa vida social. O princípio do mérito começa com uma visão benigna. Como notava Sandel, o mérito parece facilmente um melhor regulador do que uma aristocracia hereditária ou o nepotismo. Mas apresenta vários problemas.
O primeiro, e mais óbvio, problema com este princípio é se ele se verifica ou não na prática. Aí surge uma divisão importante. O mérito aparece, ora como uma descrição, ora como uma prescrição para a sociedade.
Como uma descrição, o mérito assume-se como uma "justificação", próxima do seu significado teológico relacionado com a Salvação.
Apesar das estatísticas que mostram a injustiça das desigualdades, é difícil avaliar a validade do princípio do mérito, porque os meios são em grande medida incomensuráveis. Não existe uma medida capaz de comensurar o talento, o esforço ou muitas vezes, o trabalho. Pelo contrário, os resultados podem, muito mais facilmente, ser contabilizados, seja monetariamente, seja através de rankings ou classificações.
O mérito não pode ser medido, mas a necessidade de justificação mantém-se. Nesta circunstância, o mérito ressurge numa confusão entre os ditos meios e resultados, ou seja, passa a considerar-se que os resultados refletem de forma fiel os ditos meios, o dito esforço, o dito talento, o dito trabalho.
Se uma visão moral do mérito consistia em, perante um resultado, avaliar se os meios para lá chegar se adequavam, esta visão possível consiste em assumir que perante um resultado, os meios para lá chegar foram, certamente, os adequados. Os resultados, em particular a desigualdade dos resultados, autojustifica-se. Desta forma, se temos desigualdades sociais elas tornam-se justas e se alguém está numa má situação, apenas se pode culpar a si própria. A reivindicação, a luta social, a crítica, a procura por um futuro melhor, tornam-se, quando muito, um assunto privado.
Em abono da verdade, esta não parece ser a visão dos teóricos do neoliberalismo, que procuram abandonar este problema, dizendo que ele não existe, retirando a moral da equação. Qualquer preocupação sobre se os resultados realmente se adequam aos meios empregues para lá chegar é fútil. Haver sorte ou desigualdades à partida é algo que acontece e é melhor ser um mercado livre a distribuir os fins do que um Estado que, de qualquer maneira, também não consegue medir os meios.
É aqui que Sandel adquire uma real importância. Em primeiro lugar, quando nota que a retirada da moral da economia é artificial. A verdade é que qualquer um de nós sabe reconhecer critérios morais na distribuição dos resultados, sejam eles rendimento, poder, honra ou reconhecimento. Sabemos usar critérios de bem comum, de necessidade, de justiça. Sabemos reconhecer sorte. Sandel perguntava em certa altura, à plateia, se Cristiano Ronaldo merecia receber milhares de vezes mais do que "o melhor professor que tivemos na escola" e, 95% da plateia, obviamente, concordou que não. E sabemos também que a política tem a capacidade para moldar os resultados de acordo com critérios desses que sabemos assumir como mais ou menos justos. Aliás, é exatamente por esta capacidade que o princípio do mérito nos soa tão apelativo.
Mas essa capacidade tem um lado subversivo. Por isso, assumir que já vivemos numa meritocracia é, apesar de tudo, necessário como justificação do neoliberalismo, para apagar exatamente estas posições morais que todos temos e que todos compreendemos facilmente. Quantas vezes ouvimos justificar a riqueza pornográfica de alguns com o seu mérito? Quantas vezes já ouvimos falar até em coisas bizarras como "mérito da família" para justificar diferentes pontos de partida?
Assim, a coesão do sistema apenas se mantém se formos convencidos da sua justiça, de que os resultados espelham, de facto, os meios empregues para os obter. O princípio do mérito é, então, um apêndice moral essencial do próprio neoliberalismo porque retira da vista as injustiças por ele produzidas.
Quer isto dizer que, acreditando na capacidade humana de avaliar moralmente a adequação dos resultados, devíamos procurar implantar uma verdadeira meritocracia? Não. Nota Sandel que mesmo como prescrição (ou se assumíssemos que o princípio meritocrático era real), tal teria, na mesma, um efeito profundamente nefasto na nossa sociedade.
A ideia de meritocracia emerge, na prática, como o desejo de uma sociedade tirânica, aristocrática, de castas, desigual por natureza, uma sociedade de vencedores que olham com nojo e arrogância para os vencidos, e de vencidos que olham de volta com ressentimento. Os vencedores tomam o rendimento, a riqueza, o poder. Uma sociedade onde tudo isso é justo com a justificação moral do mérito.
Qualquer semelhança com a realidade em que estamos mergulhados não é mera coincidência.
Como descrição ou como prescrição, o mérito é uma ideia nefasta. No fim de contas, como ficou bastante claro na sessão de ontem, a meritocracia corrompe qualquer noção de bem comum e ameaça os próprios fundamentos da democracia que só pode existir entre iguais. A única solução é abandonar completamente a ideia do mérito e substituí-la pelo princípio da dignidade humana.
Diz que são factos
A marosca (ou incompreensível leviandade) foi oportunamente assinalada pelo República dos Pijamas, que para o efeito partilhou gráficos ilustrativos da queda do número de passageiros nos comboios suburbanos (-84% entre dezembro de 2019 e abril de 2020) e no sistema metropolitano (-88%, no mesmo período). Isto é, uma variação consentânea com a descida, a nível nacional, para o transporte público rodoviário (excluindo táxis) e ferroviário, entre 2019 e 2020, na ordem dos -428 mil (-44%), como mostra o gráfico da direita.
Dado que a pandemia afetou incomparavelmente mais o transporte público que o privado, por óbvias razões, o ano de 2021 não serve, portanto, para o pretendido. Se o +Liberdade/IL quisesse fazer uma análise séria (ou sem ser em cima do joelho), utilizaria para por defeito o ano de 2019 (pré-pandemia). E se assim procedesse, chegaria a conclusões bem diferentes das conclusões a que chegou, como mostra a estimativa feita para esse ano na tabela seguinte.
De facto, comparando 2011 com 2019, constata-se que o transporte público é a única modalidade a registar um aumento de passageiros (a rondar os +0,6%), tendo o automóvel perdido cerca de 43 mil no mesmo período (-1,2%). O que significa que, em termos relativos, o automóvel assume em 2019 uma percentagem de 62,9% (e não os 66% que o gráfico do +Liberdade exibe), passando o peso relativo do transporte público de 16,5% em 2011 para 17,2% em 2019. O que não permite que se diga, como faz o +Liberdade na sua publicação, que nas últimas três décadas «o automóvel vai substituindo os restantes meios de transporte». Diz que são factos, mas vai-se ver e afinal não.
A Economia é para quem?
quinta-feira, 27 de abril de 2023
Tudo sempre ligado
Nos últimos 30 anos, o mercado de bens de luxo cresceu de forma quase ininterrupta, sobrevivendo a crises financeiras, tensões geopolíticas e até à pandemia. Em plena crise do custo de vida para a maioria das pessoas, o mercado de luxo atingiu máximos históricos.
quarta-feira, 26 de abril de 2023
Não é só em países distantes
Esta pancarta ilustra bem o ponto central de Clara Mattei, historiadora da economia política, num livro importante - The Capital Order: How Economists Invented Austerity and Paved the Way to Fascism -, saído no final do ano passado.
Recorrendo a ampla evidência textual, fruto de trabalho de arquivo e do engajamento com obras de economistas relevantes, Mattei indica como a austeridade foi uma reação de classe antidemocrática, movida pelo medo do empoderamento da classe trabalhadora, que requereu todo um trabalho de argumentação económica, articulado com várias formas de violência política estatal.
Ao desenvolver o seu argumento historicamente informado, Mattei fornece uma útil elaboração conceptual das três formas articuladas de que a austeridade se revestiu e reveste: (1) austeridade orçamental, ou seja, cortes na despesa pública associada ao bem-estar e consolidação de um Estado fiscal regressivo; (2) austeridade monetária, ou seja, políticas deflacionárias, assentes na elevação da taxa de juro; (3) austeridade nas relações laborais, ou seja, todo o esforço regulatório e de política económica para garantir a disciplina e a hierarquia nas relações laborais, ou seja, para garantir direitos dos patrões e correlativas obrigações dos trabalhadores.
Num contexto marcado por iniciativas liberais, dentro e fora do governo, até dizer chega, trata-se de um livro de história que merece ser traduzido; bem traduzido, claro.
Em defesa de Mamadou Ba, da liberdade e da democracia
O Ministério Público decidiu levar Mamadou Ba, um socialista, na linha da frente do combate antirracista, a julgamento por uma queixa por difamação de Mário Machado, um criminoso neonazi. O Ministério Público tem o dever de cumprir a Constituição.
Obviamente, estamos contigo, camarada. A liberdade e a democracia vencerão.
terça-feira, 25 de abril de 2023
segunda-feira, 24 de abril de 2023
Olhos abertos para a economia política
Como Vicente Ferreira não se tem cansado de assinalar, a investigação do próprio Banco Central Europeu (BCE) tem assinalado como os lucros estão a aumentar muito mais fortemente do que os salários.
domingo, 23 de abril de 2023
Fundamental
Ser verdadeiramente radical é tornar possível a esperança, em vez de convincente o desespero.
sexta-feira, 21 de abril de 2023
Abril ainda é das águas mil?
A 18 de abril de 2023, quando escrevo esta crónica, a previsão do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) para Santarém, a capital de distrito com a temperatura máxima mais elevada, é de 32°C; para Coimbra, onde vivo, é de 29°C. No início de abril, o território de Portugal continental foi atravessado por uma onda de calor, isto é, um intervalo de pelo menos seis dias consecutivos em que a temperatura máxima diária é superior em 5°C ao valor médio diário no período de referência. De acordo com o Boletim Climático do IPMA, março foi um mês quente e seco em Portugal continental; a 31 de março, 48% do território estava em seca meteorológica.
Eventos extremos como as ondas de calor e as secas prolongadas tornar-se-ão mais frequentes e severos à medida que as alterações climáticas se intensificam. Há mais de 30 anos que o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) alerta para os riscos associados a este fenómeno, através dos seus exaustivos relatórios de avaliação (o primeiro foi publicado em 1990). A diferença fundamental é que, atualmente, esses riscos já não são longínquos e abstratos, são bastante reais, sobretudo para as aproximadamente 3,3 a 3,6 mil milhões de pessoas que, segundo o recente Relatório Síntese do IPCC, “vivem em contextos altamente vulneráveis face às alterações climáticas”.
O resto da crónica pode ser lido no setenta e quatro.
quinta-feira, 20 de abril de 2023
Apoiamos
Existe também parte da esquerda liberal (peço perdão pela antonímia) descontente com a presença de Lula da Silva na Assembleia da República. Exatamente aquela parte da esquerda que não consegue aceitar análises da guerra da Ucrânia que ultrapassem frases simples e categóricas. A verdade é que aquele conflito serviu para aproximar essa parte da esquerda portuguesa à direita. Tem sido obrigatório observar, ou escutar, o uníssono que se criou e a caça que, em conjunto, fazem a quem se atreva a falar em paz ou em negociações diplomáticas. Que ideia tão inaceitável: há uma guerra e há quem pense em desenvolver esforços internacionais para acabar com ela.
Lula deu uma no cravo e deu outra na ferradura, ou seja, Lula não foi putinista, mas também não foi atlantista, e isso só é crime para fanáticos. O que Lula defende é, simplesmente, lúcido: ele quer procurar um grupo de países insuspeitos de serem aliados de qualquer uma das partes para abrir um diálogo que possa conduzir a Rússia e a Ucrânia até à paz (...) A escandaleira que eles, com a complacência e algum apoio do PSD, tentam provocar com a vinda de Lula nada tem a ver com a Ucrânia ou com a corrupção. É mesmo com o 25 de Abril, que lhes pesa na consciência política, e com o facto de Lula ser um político de esquerda vencedor, o que os enerva.
A descida do IVA não funciona nem faz falta
quarta-feira, 19 de abril de 2023
Como é bem sabido, a «economia do pingo» não pinga
Aliás, se nos detivermos no universo comparável destas empresas, face a 2017, verificamos que em cinco anos esta disparidade passou de 160 para 186 no caso da Jerónimo Martins, e de 39 vezes mais para 82 vezes mais na Sonae, sendo raros os casos de empresas em que o fosso salarial diminuiu, neste período. E tudo isto com uma pandemia pelo meio e uma crise inflacionária que subsiste.
Fica assim claro, uma vez mais, à escala das grandes empresas, que a «economia do pingo» não funciona. E por isso desconfiem, quando ouvirem os partidos à direita defender que «primeiro é preciso criar riqueza para depois a distribuir», e que para isso é preciso reduzir os impostos e a sua progressividade, priorizar as empresas na atribuição de apoios públicos, ou conter salários e flexibilizar o mercado de trabalho. Desconfiem e lembrem-se do PSI 20.
terça-feira, 18 de abril de 2023
"Criminoso" em série
| Ana Mendes Godinho ontem na Sic Notícias |
O comportamento do Governo PS - com a cumplicidade dos militantes do seu partido - parece assemelhar-se ao de um criminoso em série que vai cometendo crimes sem plano enquanto a sua vida acontece e, à medida que verifica que não é apanhado, vai escalando a sua gravidade. Até que, um dia, faz um disparate e é apanhado. E nunca se saberá se foi um erro por ter atingido o seu nível de incompetência ou se foi uma inconsciente vontade de ser apanhado, porque estava farto da vacuidade do seu papel.
Nesse dia, o PS - que, em 50 anos, foi deixando esturricar ("na gaveta") a palavra "Socialismo" - entregará o poder à extrema-direita ultra-neoliberal - ou à direita neoliberal coligada com a extrema-direita ultra-neoliberal - para no momento seguinte, já em oposição, se apresentar no Parlamento, a proferir os discursos mais à esquerda, próprios de quem pouco liga ao peso das palavras que usa. E um dia desaparecerá.
Há cerca de seis meses, o Governo PS - supostamente surpreendido pela subida da inflação - recusou-se a aplicar a fórmula legal de actualização das pensões, desenhada para manter o poder de compra dessas pensões. O primeiro-ministro (PM) disse então que nunca aprovaria medidas que pusessem em causa a sustentabilidade da Segurança Social, abrindo o dossier da reforma da Segurança Social que a direita - e a direita europeia - vem tentando há décadas (ver Caderno nº17). Agravando esse argumento, a ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social apresentou ao Parlamento, números que sabia estarem errados. O ministro das Finanças disse mesmo que a fórmula legal não fora construída para conjunturas de inflação elevada, parecendo pressupor que, nessas conjunturas, os pensionistas deveriam ter perdas de poder de compra. Face a isso, o Governo aprovou medidas cuja aplicação tinham pressuposto - ao desvalorizar o valor-base da pensão a actualizar em 2024 - uma perda de poder de compra das pensões nesse ano. Mas nunca o admitiu. Para se esquivar a essa intenção, a ministra remeteu todas as respostas para o trabalho da "comissão para a sustentabilidade das pensões" entretanto nomeada por si. Apesar disso, o secretário de Estado da Segurança Social adiantou - passando por cima da comissão e da ministra - que se estava a pensar numa nova fórmula de actualização - cuja expectativa era ser aplicada já em 2024 (!) - partindo de um valor médio da inflação de vários anos, de forma a "alisar" os valores de actualização e, consequentemente, dos encargos financeiros com as pensões em cada ano.
Mas ontem, o Governo deu um pontapé nisto tudo e de uma penada - sem nunca falar na insustentabilidade da Segurança Social ou nos trabalhos da comissão ou no alisamento da fórmula de cálculo - decidiu que, afinal, já era possível actualizar o valor-base das pensões em 2023 de acordo com a lei que o próprio Governo suspendera. E até prometeu que a lei seria aplicada estritamente em 2024.
Os discursos do PM, da ministra Ana Mendes Godinho e de Fernando Medina passaram uma esponja sobre tudo o que disseram antes. Única razão aventada: fora tudo por prudência governamental. O que mudou? As respostas dadas são muito parcas e superficiais. E deixam no ar qual a verdadeira razão para esta reviravolta num tema tão sensível.
Segue uma longa, e ainda assim não exaustiva, cronologia dos factos atrás sintetizados (para memória futura):
Uma imagem de economia política...
... também pode valer mais do que mil palavras: o governo, enquadrado pelos, subordinados aos, pequenos grandes ditadores. Estes são os que fazem birras e que acumulam poder também à custa da falta de instrumentos de política e, logo, da falta de autoridade política. Isto já não é bem um Estado soberano, afinal de contas. E pensar que a Constituição da República Portuguesa rejeita a subordinação da democracia ao poder económico...
O povo merece +SNS
No âmbito do processo de criação, em curso, de um movimento social nacional em defesa do SNS, que se pretende seja duradouro, descentralizado, plural e inclusivo, terá lugar no próximo dia 21 de abril, sexta-feira, na Cantina Velha da Cidade Universitária, em Lisboa, a partir das 19h30, um jantar-convívio de apresentação do manifesto do movimento, devendo a respetiva inscrição prévia ser feita aqui (ou através do endereço: movimento.maissns@gmail.com).
Serão igualmente realizadas sessões de apresentação do manifesto no Porto e em Albufeira. No caso do Porto o jantar-convívio decorrerá também no dia 21 de abril, a partir das 19h30, no restaurante Monte Aventino (Praça Velasques) e, no caso de Albufeira, com a realização de um almoço-convívio a 22 de abril, sábado, a partir das 13h00, no restaurante Sabores do Poente.
segunda-feira, 17 de abril de 2023
E o Papa Francisco, também?
Muito boa questão, a colocada por Vitor S. no twitter: «depois destas declarações, também é para proibir o Papa de vir a Portugal em Agosto?».
Os liberais dizem que vivemos acima das nossas possibilidades. Não caiam no truque
O deputado Carlos Guimarães Pinto (CGP), da Iniciativa Liberal, publicou um artigo de opinião no semanário NOVO no qual atribui a atual inflação às políticas prosseguidas pelos bancos centrais: “voltaram a injetar dinheiro na economia a um ritmo nunca visto […] como forma de garantir que os governos mantinham os rendimentos de quem ficava em casa sem trabalhar".
O que devemos fazer?
domingo, 16 de abril de 2023
Múltiplos
Portugal preconiza a abolição do imperialismo, do colonialismo e de quaisquer outras formas de agressão, domínio e exploração nas relações entre os povos, bem como o desarmamento geral, simultâneo e controlado, a dissolução dos blocos político-militares e o estabelecimento de um sistema de segurança colectiva, com vista à criação de uma ordem internacional capaz de assegurar a paz e a justiça nas relações entre os povos.
sábado, 15 de abril de 2023
Ecossocialismo ou barbárie?
Aproveito para deixar uma crónica que escrevi no setenta e quatro sobre o tema:
As alterações climáticas são uma das manifestações mais perniciosas de uma crise ecológica planetária que ameaça a vida na Terra e acentua desigualdades geográficas, socioeconómicas e ambientais. Com efeito, as alterações climáticas afetam desproporcionalmente camadas da população estruturalmente empobrecidas e invisibilizadas, nomeadamente as mulheres, as crianças, os idosos, as pessoas racializadas, os povos indígenas, os migrantes e os refugiados.
Embora nos seja frequentemente apresentado como um mero exercício tecnocrático, o combate às alterações climáticas é eminentemente político, constituindo um terreno fértil para a contestação e construção de alternativas, desejavelmente à esquerda. Tal implica colocar a luta de classes, o género e a raça no centro do debate, revelando como as suas múltiplas intersecções vulnerabilizam determinadas comunidades num cenário de intensificação das alterações climáticas.
Torna-se imperativo reconhecer que o sistema capitalista explora, simultaneamente, os trabalhadores e a natureza, depende de trabalho reprodutivo não remunerado e assenta e perpetua as desigualdades de género e o racismo. O combate às alterações climáticas parte, pois, da imaginação e edificação de futuros anticapitalistas, feministas e antirracistas.
Uma proposta radical chega-nos do Ecossocialismo, uma corrente de pensamento e um movimento que procura aliar os ideais fundamentais do marxismo à ecologia crítica. O seu princípio basilar está contido na seguinte formulação: não pode haver uma verdadeira revolução ecológica que não seja socialista, e uma verdadeira revolução socialista que não seja ecológica.
O Ecossocialismo expõe uma contradição insanável: a expansão do modelo de produção e consumo dos países capitalistas avançados, alicerçado na acumulação de capital e lucro, no extrativismo e nos combustíveis fósseis, colide com os limites biogeofísicos do planeta, intensificando a crise ecológica e as desigualdades multidimensionais que dela decorrem.
O objetivo primordial do Ecossocialismo seria construir uma sociedade fundada na democracia, na igualdade e no respeito pelos limites ecológicos do planeta. Defende-se o controlo coletivo dos principais meios de (re)produção e o planeamento democrático da produção e do investimento. Os seus atores políticos centrais seriam as classes trabalhadoras urbanas e rurais e os seus sindicatos, numa aliança com protagonistas de outras lutas socioecológicas.
Aspetos como o papel do Estado, as escalas de operacionalização do planeamento democrático e a definição de um programa capaz de competir pelo poder, permanecem em disputa no campo Ecossocialista. Se o Ecossocialismo nos oferece um vislumbre de futuros mais democráticos, ecológicos e igualitários, os caminhos para lá chegar serão necessariamente distintos, já que os contextos nacionais, onde reside a soberania democrática, são também eles diversos.
sexta-feira, 14 de abril de 2023
Querido diário - Quando Poiares queria despedimentos
Quando o aperto político se tornou excessivo, Pedro Passos Coelho largou alguns "pesos mortos". Foi o caso Miguel Relvas, criticado na comunicação social por estar ligado a casos polémicos de utilização de fundos comunitários - para criar uma rede nacional de aeródromos e respeftiva formação profissional... - e de ter "acelerado" o seu currículo.
A remodelação governamental promoveu, entre outros pessoas, o jovem Miguel Poiares Maduro, a ministro adjunto e do Desenvolvimento Regional. Jovem em idade, embora velho nas ideias. Professor universitário, passou pelo Tribunal Europeu de Justiça como advogado e foi membro da comissão política de candidatura de Cavaco Silva nas últimas eleições presidenciais. Em 2013, esteve na organização do debate sobre a reforma do Estado, promovido pelo Governo Passos Coelho, que redundou em nada.
Poiares Maduro criticou duramente os juízes do Tribunal Constitucional - não por defender mal os funcionários e os pensionistas cujos rendimentos o Governo queria cortar (inconstitucionalmente) - mas porque, na sua opinião, impunha a renegociação do programa de ajustamento ou um novo aumento de impostos e, se falhassem, obrigaria Portugal a sair do euro. Na sua opinião, teria sido preferível despedir funcionários públicos. "Em termos de distribuição dos custos políticos, o Governo não foi muito inteligente", escreveu.
Um ano antes, Poiares Maduro criticara - como Cavaco Silva já o havia feito nos anos 80/90 - o recurso crescente ao TC para dirimir questões que deviam ser decididas no campo da política. Estas complicações fizeram-no defender um "Governo técnico de iniciativa presidencial", apoiado por "um verdadeiro consenso político", que não existia há dez anos, devido à oposição.
"O PS deixou de acreditar que Portugal faz bem em cumprir o Memorando" de Entendimento com a troica e defende que este devia ser renegociado para eliminar grande parte da austeridade que contém. "É um pouco como se uma equipa estiver a jogar futebol e alguns dos seus adeptos sugerissem colocar um avançado junto do guarda-redes", escreveu. "O Governo entende que as opções de Portugal neste momento são apenas entre vários modelos de austeridade".Era assim há dez anos.
O outro PIB
«Suponha-se, por exemplo, que a variação da população num dado período é assumida com a mesma relevância que se atribui ao PIB. Como ficariam as recorrentes referências, em regra redutoras, aos rankings e ultrapassagens dos países baseadas no PIB per capita? Poderia continuar a dizer-se, por exemplo, que Portugal se deixou apanhar, e mesmo ultrapassar, pelos países do Leste europeu? O facto de, em regra, estes países terem quebras significativas de população na última década, não significa nada do ponto de vista da sua situação económica e social?
Não serão as dinâmicas demográficas, assentes na combinação de saldos naturais e migratórios, tão ou mais reveladoras das condições de vida e expetativas relativamente ao futuro, expressas de modo particular na evolução da natalidade e dos processos de emigração e imigração? Não correm as análises excessivamente centradas no PIB o risco de pretender que os "países estão melhor", mesmo quando "a vida das pessoas não está a melhorar", como disse sem pestanejar Luís Montenegro, em 2014, para descrever a situação da economia portuguesa?
Lembram-se da estratégia então seguida pela maioria de direita, ao abrigo da troika, empenhada num processo de "empobrecimento competitivo" que levaria o país para o "pelotão da frente", sem perceber os efeitos e os limites que, a jusante, essa estratégia implicou, tanto ao nível da quebra da natalidade como do aumento da emigração?»
O resto da crónica pode ser lido no Setenta e Quatro
Para além de terem asas e voarem, sabem o que têm em comum?
1) Todas estão entre as melhores companhias aéreas do mundo em todos os rankings relevantes do sector; e
2) as três têm os respectivos Estados nacionais como accionistas de referência.
Para quem acredita que as empresas públicas são sempre um problema isto deveria fazer pensar. Mas há quem nunca deixe que a realidade ponha em causa as suas crenças mais profundas.
quinta-feira, 13 de abril de 2023
Querido diário - O elefante no meio da sala
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| Público, 8/4/2013 |
Há cerca de dez anos, o economista e conselheiro de Estado Vítor Bento criticava o chumbo do Tribunal Constitucional (TC) à proposta do Governo de cortar nos vencimentos da Função Pública e nas pensões do pensionista. Na sua opinião, a opção do TC fora ideológica, dificultara "o processo de ajustamento" e estreitara "o caminho para a nosssa permanência no euro".
Por isso, Vítor Bento gostara da declaração que o primeiro-ministro Passos Coelho fizera criticando violentamente o TC... por ter defendido a Constituição então em vigor: "Foi muito boa". Na sua opinião, a decisão do TC não trazia muitas alternativas: "impostos, fecho de serviços e despedimentos". "Não vejo outra via", disse. Algo que, a ser aplicado, agravaria ainda mais a depressão económica criada pelo programa de Passos Coelho, respaldado no Memorando de Entendimento com a troica. E agravava ainda mais a situação social do povo português.
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| Público, 8/4/2013 |
Este quadro de análise entrocava bem na forma como, em 2011, o mesmo Vítor Bento viu o dito programa de austeridade traçado pelo Memorando de Entendimento.
E desta vez, também vamos cair que nem patinhos?
Vítor Gaspar, o ex-ministro das Finanças de Passos Coelho que transitou para o FMI, apresentou ontem o Fiscal Monitor, dando nota de que a instituição «estima que nos próximos cinco anos a dívida pública mundial cresça a um ritmo muito mais elevado face ao período pré-pandemia» e afirmando que «parte da tarefa para evitar tensão no mercado da dívida e reduzir o risco de uma nova crise soberana passa por um “reequilíbrio das finanças públicas”». Como está bem de ver, daqui à reedição do «andámos a viver acima das nossas possibilidades», imputando aos Estados a responsabilidade pela crise, vai só um pequeno passo.
Vale por isso a pena ter presente a forma como a crise de 2008, causada pelos desmandos de um sistema financeiro desregulado, foi habilmente convertida numa crise das dívidas soberanas, como se fossem os Estados - que tiveram que responder aos impactos recessivos desses desmandos - os culpados pela situação, abrindo portas aos processos de «ajustamento estrutural» e às desastrosas políticas de austeridade, estúpida e contraproducente. Cortes de salários e pensões, retração dos serviços públicos, desregulação do mercado laboral e privatizações, tudo em linha com a agenda neoliberal, posta em prática com o espaldo da troika e que permitiram mesmo, no caso português, ir «além da troika».
Nesta segunda golpada que pode estar em curso, a crise que tem, na sua génese, a pandemia e a guerra - com impactos ao nível das cadeias de produção e do aumento do preço da energia - foi irresponsavelmente agravada pela opção política, de bancos centrais ditos independentes, de deixar as finanças públicas entregues aos apetites irracionais dos mercados financeiros privados e, ao subir a taxa de juro a um ritmo sem precedentes nos últimos 40 anos, fomentar falências e desemprego e impor contenção na política orçamental e na política de rendimentos. Isto é, orientações de política que geram abrandamento do crescimento e os défices que se antecipam. Tudo isto para depois se antever - como se não fosse essa a consequência óbvia destas medidas - a subida da dívida pública e a necessidade de adotar medidas de «reequilíbrio das finanças públicas», como já começa a receitar Vítor Gaspar.
Primeiro como tragédia e depois como farsa, parece pois que a história se repete, numa nova tentativa de nos fazer cair como patinhos, através da conveniente narrativa que parece estar a desenhar-se.
quarta-feira, 12 de abril de 2023
Um povo
Este ponto de Benoît Bréville, novo director do Le Monde diplomatique, não pode ser esquecido: “Macron, dócil perante a União Europeia que recomenda esta reforma, mas incapaz de convencer os franceses e os seus deputados, decidiu passa-la à força.”
domingo, 9 de abril de 2023
Páscoa
«Vindo das periferias de uma Igreja até então absolutamente eurocêntrica na sua estrutura de poder, Francisco quis ser fiel ao pobre de Assis e resgatou o que sempre devia ter sido o centro da vida da Igreja: os pobres, as sobras humanas, os descartados por esta economia que mata. Uma Igreja pobre e para os pobres, em que eles sejam “instância de evangelização da própria Igreja”, como escreveu na exortação Evangelii Gaudium – esse é o foco pastoral de Francisco.
(...) A Igreja precisava, para ser fiel a Jesus, de ser constipada pelo ar fresco dos debates a que Francisco a veio expor e que o poder curial havia vedado. Eu acredito que essa constipação – ou mesmo bronquite, sei lá – é necessária para que o organismo se torne mais saudável, ganhe imunidades (ao clericalismo, ao sexismo, ao autoritarismo, à administrativização) que agora não tem.
Esta Páscoa tem de ser a da tomada de consciência coletiva de que o clericalismo é uma “perversão da Igreja”, como lhe chamou o Papa. Em Portugal, parte importante da estrutura de governo da Igreja abjura tudo quanto possa pôr em risco o poder clerical. Como era de esperar, começam agora a vir à luz do dia posições de importantes membros do clero desqualificando expressamente o trabalho da Comissão Independente sobre os abusos sexuais na Igreja. (...) Por isso, nesta Páscoa da Igreja em Portugal, a ressurreição passará pelos gestos concretos de reparação das vítimas e de transformação da cultura de violência estrutural inerente ao que Francisco tem corajosamente designado por pecado do clericalismo.»
José Manuel Pureza, Tirar a pedra que sela o sepulcro
Um jornal que expõe fracturas
Abril entrou com as ruas do país a mostrar o que uma bela canção de A Garota Não e Chullage, intitulada «Não sei o que é que fica», vinha dizendo num dos seus versos: «Habitação é fractura exposta» (1). Dói por si e expõe outras dores. A negação do acesso à habitação — esse direito constitucional que continua por cumprir quase meio século depois da Revolução que o consagrou —, cobre de sofrimento os dias de quem só vê os preços das casas a subir e os salários a perder poder de compra. Como ficou patente a 1 de Abril no mapa das manifestações «Casa para Viver», a falta de habitação a preços comportáveis para a maioria dos trabalhadores estende-se pelo país, ainda que seja mais grave nas cidades onde se concentra, após décadas de desinvestimento no território, a maior parte do emprego. O problema nasce da insignificância do parque habitacional público e da ausência de medidas de controlo de preços e rendas, agrava-se com o fosso entre baixos salários (nacionais) e elevados afluxos de investimentos imobiliários (nacionais e internacionais), num contexto em que se multiplicam, com dinheiros públicos, os incentivos a proprietários e senhorios sem sequer serem adoptadas medidas que impeçam os despejos. Afecta todas as gerações, desde os jovens mais precarizados e com salários mais baixos até aos reformados com pensões que (já antes) mal lhes permitiam viver, passando pelos imigrantes que acumulam eixos de fragilização e são tantas vezes preteridos no acesso à habitação. Em comum têm, todas essas gerações que se manifestam juntas, o lado que lhes calhou na lotaria das classes em que nasceram ou acabaram vivendo.
sábado, 8 de abril de 2023
Querido diário - Só queremos "fechar esta crise de uma vez por todas"...
| Público, 8/4/2013 |
Foi há dez anos. Face ao novo chumbo pelo Tribunal Constitucional (TC), Passos Coelho começou a ensaiar a desarticulação entre o seu programa de governo e a aplicação do Memorando de Entendimento com a troika.
Aquilo que, dois anos antes, fora anunciado no discurso da tomada de posse do seu Governo, como "uma condição necessária para termos uma economia próspera e criadora de emprego no médio prazo", passou a ser apenas a obrigação de "fechar esta crise de uma vez por todas". Impedido pelo TC de cortar nos vencimentos dos funcionários e nas pensões em pagamento, o Governo Passos Coelho defendeu então um novo pacote de cortes no Estado Social para... poder garantir o Estado Social (!):
“Não duvido que aparecerão vozes a protestar que, com isso, estaremos a pôr em causa o Estado social e que o Governo não aprende a lição parando com a austeridade”, admitiu Passos. Para logo a seguir classificar tal teoria de “demagogia fácil”, porque “para se defender o Estado social precisa de se garantir o dinheiro que suporta as suas despesas”.
Público, 8/4/2013
E para isso, Passos Coelho exigia do PS que não deixasse a direita sozinha nesse papel de coveiro do Estado Social:
A necessidade de equilíbrio das contas públicas vai muito além deste ano, sendo fundamental estabelecer “compromissos duradouros” - um “objectivo nacional que ultrapassa as cores partidárias e não distingue governos”, “incluindo, claro está, os partidos do arco da governabilidade e os órgãos de soberania”. E dramatiza: “Mais do que nunca, a situação não se compadece com demagogias nem com tacticismos. Cada um dos agentes políticos tem de se pronunciar sobre esta matéria que, volto a repetir, é central para o futuro próximo do país no quadro europeu.” O Governo, “mandatado pelo povo português para vencer a emergência nacional, e apoiado na Assembleia da República por dois partidos numa coligação coesa”, mantém-se firme no “cumprimento das obrigações internas e externas” do programa de assistência, fez questão de vincar o primeiro-ministro que quer “fechar esta crise de uma vez por todas”.
Nessa altura, em contraponto a Mário Soares que elogiou o TC e descreveu o ambiente político como o de um Governo em que todos os ministros se querem demitir ("que o Governo deixou de existir, deixou"), o comentador Marcelo Rebelo de Sousa elogiou Passos Coelho:
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| Público, 8/4/2013 |
Dez anos depois, o Governo PS vê-se a braços com uma crise política semelhante, em que são impostas contenções ao desempenho do Estado Social, por se querer cumprir as obrigações europeias, em nome da salvaguarda dos valores da dívida e do défice. E o já o presidente Marcelo, se não critica a prolongada política de contenção da despesa pública, considera que a erosão do Governo - na realidade, fruto dessa política de erosão do Estado Social - o pode levar a dissolver o Parlamento.
O perigo é que, dando corpo a um Governo de direita - com o apoio de uma crescente extrema-direita, alimentada precisamente por essa política de contenção - se abram as portas para um rápido desmantelamento do... Estado Social.






























