terça-feira, 12 de maio de 2026

Tempos reais


Como se não fosse nada, o editorial do Financial Times de ontem diz que a China tem reservas contracícilicas de bens essenciais e controlos de preços, o que ajuda a absorver os choques num contexto em que a República Popular é melhor vista pela maioria do mundo do que os EUA. 

Só falta dizerem que a propriedade pública de grande parte da banca ajuda a China a dirigir o crédito para os setores em que a política industrial aposta ou que os controlos de capitais são barreiras às crises financeiras...

Haja número



segunda-feira, 11 de maio de 2026

As coisas


Confesso que estou mortinho por conhecer os “novos rostos” que Daniel Oliveira vai tirar da cartola para a sua nova coisa político-partidária, essa sim, finalmente libertadora e realizadora. 

E mal posso esperar por ouvir os novos discursos dos novos rostos sobre a corrida armamentista e o quadro de regras austeritárias cada dia mais condicionadoras da UE, bem como o futuro do nosso Estado social neste desgraçado contexto, sem esquecer a luta laboral e outros assuntos menores conexos, tipo paz e solidariedade anti-imperialista. 

Bom, e nem falo de piquetes de greve e de outras formas de organização dos subalternos, indignos da esquerda brâmane, mas dignos dos que militantemente não desistem e que por isso são particularmente atacados pelas Impresas desta vida tão intensamente capitalista. Sim, estou a falar dos comunistas.

Tenho, entretanto, um conselho para os aspirantes a Tsipras: cuidado, se a história for destino, quando perderem, e obviamente perderão, serão mediaticamente trucidados pelo mesmo que vos aconselhou politicamente e promoveu mediaticamente.

Vira-latismo


A única virtude política alguma vez revelada por Seguro foi não se chamar André Ventura na segunda volta das eleições presidenciais. Por isso, e ao contrário de Rodrigo Sousa e Castro, não fiquei espantado com o seu discurso vira-latista num dos areópagos europeístas, o Instituto Europeu de Florença:  

“Em vez de minorias de bloqueio, precisamos de maiorias com ambição, lideranças que pensem em Europa para além dos egoísmos imediatos dos Estados-membros que representam.” 

Foi com discursos destes que o país se transformou numa semicolónia e agora querem acabar de transformá-lo numa colónia, totalmente controlada pelo egoísmo austeritário e belicista da Comissão Europeia e das grandes potências. E pensar que o Presidente tem por dever defender a independência nacional, base da solidariedade.

domingo, 10 de maio de 2026

Haja história

Do estudo do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social: “Os 80 anos da vitória na Guerra Mundial Antifascista – Quem salvou a humanidade: uma história restauracionista”.

Haja memória


O culto euro-liberal da desmemória numa imagem: em Berlim, quando se assinalou mais um aniversário da derrota do nazifascismo, os símbolos soviéticos estão proibidos. 

A base material deste culto é a pulsão de morte armamentista em curso na Alemanha, com a cumplicidade dos restos da social-democracia. O processo fascização está a passar por aqui. 

Pela minha parte, recordo sempre a formulação imorredoura de Ernest Hemingway: “Todo o ser humano que ama a liberdade deve ao Exército Vermelho mais do que conseguirá pagar numa vida”.

sábado, 9 de maio de 2026

Aqui estamos


«Se a História serve para alguma coisa é para nos tornar conscientes de que nenhum avanço social se conseguiu sem luta»: li no Twitter esta sábia formulação de um historiador chamado Josep Fontana, infelizmente por traduzir. 

Tenho Josep Fontana «catalogado» como o Eric Hobsbawm catalão, até dada as suas duas histórias do século XX, a última das quais publicada em 2017, um ano antes do seu falecimento, destilação de décadas de investigação e reflexão, onde a história política não passa sem a história económica e social. 

Não por acaso, termino assim o último artigo no AbrilAbril:

Num gesto de que Eric Hobsbawm foi o pioneiro, logo em 1990, e que se tornou um marcador da visão crítica do «breve século XX», o historiador Josep Fontana, no livro El siglo de la revolución: Una historia del mundo desde 1914 (2017, Editorial Crítica), cita Karl Kraus traduzido diretamente do alemão, num texto de 1920, aparentemente de homenagem a Rosa Luxemburgo, assassinada um ano antes: 

«Que Deus preserve o comunismo para sempre, para que esta ralé — os capitalistas — não se torne ainda mais desavergonhada (...) e para que, pelo menos, tenha pesadelos ao irem dormir.» 

Fontana defende que, desde os finais dos anos 1970, «a ralé pode dormir tranquila, sem medo da revolução, decidida a recuperar tudo o que havia cedido»: «o resultado foi este mundo em que vivemos hoje, onde a desigualdade cresce desenfreadamente, com a estagnação económica como dano colateral». 

Mas a história está cheia de contradições e de lutas que necessariamente irrompem: «o apogeu da desigualdade significa necessariamente o começo do fim do sistema que a engendrou», defendeu. A escolha luxemburguista continua diante de nós: «socialismo ou barbárie». A ideologia dominante faz gala de ofuscar esta escolha, mas aqui estamos.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Pedras



Na senda Lisboa “chic”, uma equipa de trabalhadores do município inscreveu o nome de uma empresa (privada), segmento luxo, no passeio (público) da Avenida da Liberdade. Há buracos por essa cidade fora? Pois que haja. Mas a partir de hoje há um “je ne sais quoi” na calçada…

O JNcQuoi é “um espaço de indulgência único” detido pela Amorim Luxury, ou seja, pela herdeira mais rica do país, Paula Amorim, e pelo seu marido, o mesmo que disse: “não podemos ter pessoas de classe média ou média baixa a morar em prédios classificados”. Está mesmo tudo ligado no porno-riquismo, no consumo conspícuo na era das desigualdades pornográficas. 

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Carlos Brito


Faleceu um resistente antifascista e construtor da democracia. Faleceu Carlos Brito. Em jeito de singela homenagem, deixo por aqui uma nota de leitura que escrevi em 2021:

Fôlegos

Já não sei quem disse que pode haver nas derrotas uma dignidade que escapa às vitórias, às grandes e às pequenas. Quem tem essa dignidade sabe que nada está garantido, mesmo quando se ganha politicamente alguma coisa ou quando não se perde tudo. Lembro-me disto ao reler o livro de Carlos Brito, Álvaro Cunhal - Sete Fôlegos do Combatente

Não tenho por hábito reler livros. Este é um livro de memórias políticas que já li e reli desde o seu lançamento, em 2010. Conheço, por exemplo, poucas clarificações tão cabais do posicionamento comunista durante o PREC, um dos sete fôlegos de Álvaro Cunhal. Um posicionamento que de resto parece indicar um padrão: a história escrita por supostos vencedores pode ser pura ideologia, enquanto ofuscação, incluindo quando se trabalha com palavras como “totalitarismo”. 

Esta palavra só serve para ofuscar o fascismo e apoucar o antifascismo, ao colocar os comunistas num caldo pouco recomendável em termos da verdade histórica. Aposto que futuros historiadores, com ainda maior distância, irão corroborar mais aspectos da versão comunista da nossa história recente do que de outras versões políticas, dado o trabalho que já foi feito até ao 25 de Novembro e depois. 

A revelação da surpresa que Álvaro Cunhal teve pelos resultados do trabalho constituinte, fazendo de 1976 um marco unitário com novo fôlego estratégico, num momento de refluxo, é um dos vários momentos que nos dá a ver a acção política como um exercício de filosofia da conjuntura com impactos na estrutura, mesmo quando a correlação de forças já mudou dramaticamente. Tinha ficado uma cristalização institucional de outra correlação e de convergências político-ideológicas típicas dos anos setenta, a Constituição da República Portuguesa, e era necessário fazer dela uma trincheira para enfrentar o que aí vinha. Somos filhos dessa visão na esquerda, incluindo as várias propostas de convergências consequentes feitas ao PS, quer reconheçamos tal facto, quer não. Fez-se o que melhor que se pôde. 

O Álvaro Cunhal que emerge da pena clara de Carlos Brito, sem acinte, nem ajustes de contas, é engrandecido, incluindo pela revelação elevada da política como trabalho de e para humanos falíveis, com os quais se concorda e com os quais se discorda, por vezes dolorosamente, como na parte final do percurso. E pode chamar-se hegemonia também à capacidade de reintegrar os perdedores. 

Há no livro uma destreza analítica que também é a do intelectual tarimbado por décadas de política. Nunca conheci melhor combinação, independentemente das convergências e das divergências, com as quais de facto se aprende sempre. Nestas últimas, está a mais recente demonstração de preocupação da associação política Renovação Comunista com o PCP, que não é nada fácil de compatibilizar com o apoio dado anteriormente ao PS, bem como com a participação noutros projectos partidários. Diria que a preocupação consequente pressupõe um apoio que é muito diferente deste tipo de manifestações públicas. 

No fim deste texto, fica o que mais me importa: Cunhal e Brito são dois dos muitos que têm um lugar nas melhores páginas da nossa História Política comum, assim com h e p grandes. Devemos tanto a esse H e P que tantos escreveram nas mais difíceis circunstâncias. Haja combate pela memória, até porque História haverá certamente. Sabemos bem que não terminou.

Da defesa ao ataque


Neste contexto, pode ser útil ler a desmontagem do embuste neoliberal da literacia financeira, feita por João Oliveira, prolongando argumentos mais detalhados de Ana Cordeiro Santos e Vânia Costa, estes dois minutos de Maria Clara Murteira sobre segurança social, bem como o texto sobre o investimento que precede a poupança escrito com João Rodrigues.

A ideologia dominante faz gala...


No Twitter, um anónimo designou-a por «espetáculo insano protagonizado por sociopatas ricos e alienados». Nela houve espaço para a atriz-milionária Sarah Paulson enfrentar os poderosos. Fê-lo num vestido de tule cinza da coleção Outono/Inverno 2026, reveladoramente chamada The One Percent, da Matières Fécales, previamente apresentada nas passerelles de Paris, complementando o vestido com uma nota de um dólar transformada em mascarilha, metáfora da cegueira do dinheiro. 

Este foi um dos momentos marcantes da Met Gala, que anualmente se realiza no icónico Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque e cuja entrada custa cem mil dólares por pessoa (trezentos e cinquenta mil dólares por mesa). Trata-se da expressão máxima do consumo conspícuo na era das desigualdades pornográficas, o que já apodei de porno-riquismo (Le Monde Diplomatique – edição portuguesa, março de 2018). 

Já não é a primeira vez que alguém se coloca naquela gala em preparos pretensamente críticos, mas tão funcionais que se não existissem tinham de ser inventados pelo sistema. A cada vez mais integrada Alexandria Ocasio-Cortez já ali se pavoneou, em plena pandemia, de vestido branco, com uma garrida inscrição a vermelho: «tax the rich» (taxar os ricos). 

O sistema não absorve todas as críticas, ao contrário do que pareceu afiançar uma certa «teoria crítica», de resto sob suspeita, cada dia mais fundada, de não ter passado de uma racionalização bem financiada da impotência coletiva. Adora, isso sim, todos os seus simulacros performativos, tão fáceis de mercadorizar. O poder do capital requer exibição para ser material; a componente mediática de ofensiva ideológica destina-se a alimentar aspirações e sonhos impossíveis, a criar desejos inúteis e fúteis, já o sabemos há muito. Uma certa dissensão performativa ajuda ao espetáculo, dando-lhe um certo drama, uma ilusão de acomodação plural. 

Patrocinada pelo bilionário Jeff Bezos e pela esposa, que terão comprado por dez milhões de dólares o direito de serem seus presidentes honorários este ano, a gala é todo um documento cultural despudorado da civilização-barbárie capitalista, sinal poderoso da validade da fórmula de Warren Buffet: «tem havido uma luta de classes e a minha classe venceu». 

Esta declaração realista foi feita precisamente a propósito da substancial redução da progressividade fiscal nos EUA. De facto, no período de maior crescimento da produtividade da história do país, a seguir à Segunda Guerra Mundial, a taxa marginal do imposto, que incidia sobre o último escalão do rendimento, chegou a um máximo de 91%, em 1960, até descer, meio século mais tarde, para os 35%, como bem assinalou o economista social-democrata Robert Reich.

O resto do artigo pode ser lido no AbrilAbril

quarta-feira, 6 de maio de 2026

Desgovernado


O assessor de imprensa terá dito: Senhor Governador, pode regressar ao Twitter, passado um interregno de duas semanas, a memória é curta. Nós dizemos: tenha vergonha, nós temos memória.

Haja cultura proletária


Quando Portugal entrou na CEE, despertou-se uma vontade súbita de ascender socialmente. O brilho das novidades vindas do estrangeiro cosmopolita impunha-se, então, como um estímulo a uma nova forma de vida, inspirada pelo consumo e pelo crédito. A partir daí, espaços de sociabilidade foram perdendo relevância. Muito lentamente, as coletividades entraram num período de declínio, que já na transição do século refletir-se-ia até na dificuldade em formar listas para as suas direções. 

Quando comecei a frequentar os cafés da minha cidade com amigos e conhecidos, questionava-me, com frequência, sobre o motivo que levava um determinado grupo de pessoas a manter-se fiel a esses espaços e uma outra casta a preferir uma sociabilização mais restrita, doméstica, discreta. O movimento de ascensão de classe da minha família permitia-me experienciar as duas vivências.

O resto do artigo de Jorge C. pode ser lido no AbrilAbril. Gosto particularmente da forma honesta como nos seus artigos a primeira pessoa do singular se liberta numa certa e determinada primeira pessoa do plural. Somos de facto um conjunto de relações sociais, produtos e produtores de cultura. Haja cultura proletária. 

terça-feira, 5 de maio de 2026

Das nossas relações


5 maio – parabéns, Karl Marx: “[A] essência humana não é uma abstração inerente a cada indivíduo. Na sua realidade ela é o conjunto das relações sociais”.

Haja visão


Foi no terreno, contactando com comunidades devastadas pela violência, que Traoré terá consolidado a sua visão política, assente num diagnóstico simples: a independência política, conquistada em 1960, nunca foi acompanhada de uma verdadeira independência económica. 

Tenho comprado a Visão com alguma regularidade, depois ter contribuído para o projeto de controlo da publicação pelos próprios trabalhadores, uma luta meritória em curso. Esta semana fi-lo sobretudo por causa de uma excelente reportagem, da autoria de José Rodrigues, sobre o Burkina Faso e sobre o corajoso Ibrahim Traoré, discípulo do imortal Thomas Sankara. 

O jornalista foi lá e apreciou a reconstrução de uma nação digna nas mais duras, mas também esperançosas, circunstâncias, incluindo graças à conquista do controlo público de setores estratégicos. Ir e ver acaba por ser um antídoto em relação às campanhas imperialistas contra Traoré a que uma certa esquerda eurocentrada é absolutamente vulnerável. O jornalismo deve ser mesmo a primeira versão da história.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

A paz, o pão...


Acabei de almoçar no refeitório da liga dos combatentes, onde se come bem e barato, no magnífico claustro do Colégio da Graça, em Coimbra. 

Estavam lá três camaradas no sentido mais profundo do termo – e “um camarada é alguém com quem contas, com quem partilhas uma ideologia, um compromisso com princípios e objetivos para lá do que é momentâneo, numa luta que todos sabem ser longa” (Jodi Dean) – a acabar de montar uma exposição sobre os cinquenta anos da Constituição. 

Deixo aqui um dos painéis, confirmando que a luta pela paz não pode ser desligada do resto, do combate pelos direitos laborais, parte do Estado social e da democracia. Os mecanismos são brutalmente claros e o sindicalismo de classe conhece-os e dá a conhecê-los como poucos neste país. Também é por isto que os dominantes e os seus servos intelectuais mediáticos o odeiam.

domingo, 3 de maio de 2026

Guerras de classe


Em 1899, Thorstein Veblen publicou A teoria da classe do lazer – Um estudo económico das instituições (Actual, 2018). Trata-se de um estudo tão arguto quanto ácido sobre os hábitos da classe possidente norte-americana, da forma como as brutalmente desiguais instituições do capitalismo do seu tempo davam livre curso aos instintos predadores, sob a forma da especulação financeira, da corrosão de instituições não-mercantis ou de um ocioso consumo ostentatório; conspícuo, chamou-lhe. 

Três anos mais tarde, em 1902, John Hobson, escreveu Imperialism: a study (por traduzir), argumentando que o imperialismo, predação internacional ao serviço de interesses financeiros, não podia ser compreendido sem atender à forma como a desigual distribuição do rendimento e da riqueza nas principais potências capitalistas dava origem a um persistente subconsumo popular interno que tinha de ser de alguma forma compensado externamente. 

Encarnado internacionalmente por Bernard Arnault, um dos dez homens mais ricos do mundo, e nacionalmente por Paula Amorim, a herdeira mais rica do país, é fácil de ver que o porno-riquismo, o negócio do consumo conspícuo na nova era das desigualdades pornográficas, é indissociável das guerras de classe multiescalares em curso contra os povos e contra a natureza. O resto é só hipocrisia e ganância. 

Num sistema capitalista estruturalmente violento, a paz torna-se crescentemente um luxo para os povos. Por isso, a luta séria e intransigente, de recorte anti-imperialista, pela paz vai à raiz dos problemas. Sim, é radical lutar pela paz.

sábado, 2 de maio de 2026

Houve tudo


Vamos afirmar a nossa indignação e protesto, a exigência de uma vida melhor, da derrota do pacote laboral, vamos afirmar a poderosa força dos trabalhadores. Todos juntos vamos realizar uma grande greve geral no próximo dia 3 de Junho. E aqui, hoje, perante milhares de trabalhadores, a CGTP-Intersindical Nacional apela, mais uma vez, aos trabalhadores para a luta. Apela à convergência de todas as estruturas dos trabalhadores. Vamos construir dia a dia essa grande jornada de unidade, força e dignidade dos trabalhadores, pelos direitos, pelos salários, por um país mais justo e desenvolvido. 

Excerto da intervenção de Tiago Oliveira no Primeiro de Maio da CGTP. Fomos muitos, muitos mil para continuar abril em maio – e abril perde-se ou ganha-se em maio –, subindo a Almirante Reis, do Martim Moniz à Alameda, em Lisboa, fiéis a uma tradição de luta, de unidade, a partir da força do trabalho. Sem ela, como o Primeiro de Maio de 1974 tão bem ilustrou, não teria havido revolução democrática. Sem ela, já tínhamos o pacote laboral em vigor, parte de um plano de classe tão inclinado. 

Sim, foram muitos os jovens a participar, mas também havia velhos, com o corpo de quem trabalhou e lutou arduamente uma vida inteira, a solidariedade de classe real impede clivagens geracionais tão artificiais como o liberalismo que as promove. 

Quase no fim da manifestação lá estava ela, numa cadeira de rodas, na berma do passeio, tão frágil quanto digna, tão vulnerável quanto determinada, não desistiu. Fiquei com os olhos marejados uma vez mais, não a conhecia, mas gostaria de a ter conhecido. 

A cadeia do tempo não se quebrará, porque também houve alegria, camaradagem, amizade, comes e bebes, combatividade, houve tudo o que importa, é aqui que está o futuro, afinal de contas, porque é aqui que se defende a paz, os direitos de quem trabalha e a democracia que não fica à porta dos locais onde se cria tudo o que valor, igualização cidadã sem fim. A luta continua, cientificamente é aliás a única coisa que podemos prever.