quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Para a história da inteligência emocional


Só uma inteligência artificial como Pedro Santa Claude, uma fraude tão mediatizada quanto bem financiada, pode tentar manchar Marx-Engels. E isto para defender Adriana Cardoso face à crítica que lhe dirigi, notai. 

Foi uma das mais belas amizades da história intelectual e política, reconhecida mesmo por adversários liberais  e conservadores que estudaram a fundo esta dupla. Ao mesmo tempo, Claude reconhece implicitamente a existência da mais-valia, confirmando que não tem argumentos válidos nesta área, como já ficou patente, creio, em anterior debate, chamemos assim a uma troca de ideias entre uma pessoa humana e uma máquina.

Aproveitemos este pretexto para fazer um pouco de divulgação histórico-moral, só serve para isto. Karl Marx, um mouro de trabalho, tem uma história de coragem e de sacrifícios materiais, feitos em nome do conhecimento, uma história de resistência às perseguições e de exílios. E que dizer do jornalismo de Marx, por exemplo, centenas e centenas de páginas escritas, tantas sobre o grande Lincoln e o seu combate contra a escravidão, por exemplo? 

Aproveitemos este ensejo para valorizar Engels, muitas vezes injustamente menorizado. Sim, Engels era filho de capitalista alemão, com investimentos no têxtil de Manchester, onde trabalhou e viveu em parte da sua errante vida, tendo um ponto de observação privilegiado nos vários sentidos desta palavra. 

Sim, Engels era rico e ajudou financeiramente Marx, porque reconheceu a importância do trabalho do amigo e coautor. Marx nunca acedeu, devido às suas ideias, a posições universitárias. O seu jornalismo sempre foi precário pela mesma razão. Marx e a família tiveram momentos de penúria intensa, sublinho.  Marx podia ter escolhido uma vida próspera e confortável. 

Sim, Engels foi um dos grandes traidores da sua classe, eterna honra. A estatura moral e intelectual de Engels está visível na relação com Marx, mas também no seu afincado trabalho científico e político, incluindo na hercúlea edição dos dois livros de O Capital depois da morte de Marx. 

Ele chegou primeiro à economia política do que Marx e ao socialismo também e partilhou generosamente esse conhecimento com o amigo recente, um amigo para sempre. 

Para mim, Engels está já todo, de corpo jovem inteiro, no terrível e pioneiro retrato que nos legou da sua Manchester tão brutalmente desigual: A situação da classe trabalhadora na Inglaterra (há só uma velhinha tradução da Afrontamento, Penguin...). A esperança média de vida na cidade industrial era muito inferior à média inglesa (30 anos, para uma média na Inglaterra e no País de Gales de 40, em 1838-1844, tabela 1 deste estudo). Engels tinha vinte e cinco anos, notai.

O discurso de Engels diante do túmulo de Marx é, na sua objetividade emocionada, o mais pungente que tive a oportunidade de ler: “A 14 de Março, um quarto para as três da tarde, o maior pensador vivo deixou de pensar”. Há uma grandeza imensa no reconhecimento da maior grandeza do outro num certo plano, neste caso o do pensamento. Tentemos imitar. E, sim, ambos viveram, vivem e viverão. 

Adenda. Como disse mariólé, “para quem todas as relações são transacionais, amor e amizade sinceros são uma anomalia”.