terça-feira, 2 de junho de 2020

Silêncio, conivência e desculpabilização

«O problema está centrado numa sistemática brutalidade policial em relação aos afro-americanos. E isso é um espelho de um racismo estrutural na sociedade americana, que não é de agora, não vem com o Trump e não se limita à polícia, que é a face visível de uma brutalidade constante sempre sobre os mesmos, matando.
(...) A administração Obama, que foi bombeira em muitas situações, nomeadamente na crise económica e no desemprego, quis fazer uma grande reforma do sistema policial, em 2015. Tentou que a polícia fosse um parceiro da comunidade, e não um castigador permanente da comunidade, tal qual nós vemos em variadíssimas cenas de violência gratuita, sem acusação, sem nada... Essa lei foi contudo anulada em 2017 pela atual administração, que reverteu todos os passos que estavam a ser dados para que houvesse mais monitorização do comportamento individual das polícias nos Estados Unidos; para que houvesse responsabilização sobre os seus crimes; mais atenção para o diálogo entre polícias e comunidade; para que material militar não lhes chegasse com a flexibilidade com que estava a acontecer. Tudo isso foi revertido. E portanto a polícia ficou num livre arbítrio que não é sancionado pela administração. Nomeadamente num conjunto ideológico que permite, por exemplo, que líderes sindicais da polícia de Minneapolis vão a comícios e sejam oradores de comícios do Presidente Trump. Ora, isto é uma subversão total da separação de poderes e de uma ética profissional.
Além disso nós temos, em paralelo, um aumento dos crimes raciais praticados por grupos supremacistas brancos, neonazis - não lhes vamos chamar outra coisa - nos últimos três anos: 35%. Estão no topo da criminalidade interna, nos relatórios do FBI. Não é o Estado Islâmico, não são crimes de ódio por razões étnicas... É ódio branco contra outras comunidades, nomeadamente latinos, judeus e afro-americanos. A polícia - e aqui um parênteses: nem toda a polícia, nós temos vários exemplos de bom comportamento policial e de tentativa de repor o bom nome de muitas comunidades policiais que zelam pela segurança - não tem sabido distanciar-se.
(...) O presidente, face a vários casos de grupos de supremacia branca e violência policial foi absolutamente silencioso ao longo destes três anos, quatro anos já. Foi conivente, foi desculpabilizador. E portanto é um legitimador destas práticas. Isto é tanto mais grave quanto nós estamos num momento limite, não só de inversão do ciclo económico nos Estados Unidos como de uma tensão social que ao mínimo fósforo rebenta. É isso que está a acontecer. O presidente não é um gestor de crises, é um pirómano. Se Obama foi um bombeiro, este presidente é um pirómano. (...) E é por isso que ele faz os subterfúgios que faz: junta a China à Organização Mundial de Saúde, para encontrar um inimigo externo para a gestão caótica da pandemia, e agora a Antifa, sem que haja qualquer enquadramento jurídico para o terrorismo interno e quando nunca teve nenhuma ação no sentido de, por exemplo, colocar o Ku Klux Klan como atividade terrorista interna ou outros grupos estaduais de supremacia branca
».

Bernardo Pires de Lima (Telejornal da RTP1, a partir dos 24 min e 35 seg).

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