sexta-feira, 26 de março de 2010

Economia: ciência dura?


Ouvi contar, já não sei onde, que um físico famoso, de cujo nome não me lembro, disse um dia que nunca tinha estudado Economia porque achava as ciências sociais demasiado difíceis. Acho que sei porquê.

Imaginem uma teoria que permite prever engarrafamentos na ponte sobre o Tejo. Às seis da manhã de cada dia os cientistas divulgariam previsões. “A ponte vai estar engarrafada”: se as pessoas acreditarem na previsão, irão pela ponte Vasco da Gama e a ponte 25 de Abril vai estar vazia; a teoria mostra-se falsa. Se não acreditarem na previsão, irão pela ponte 25 de Abril e a teoria revelar-se-á verdadeira. E ainda se podem dar situações mais complicadas: todos pensam que “ninguém vai acreditar na previsão e portanto vou mesmo pela ponte 25 de Abril”; a teoria revela-se verdadeira. A coisa é conhecida: uma teoria tanto pode ser verdadeira como falsa dependendo das crenças das pessoas acerca dela; além disso como o cientista não tem forma de observar o que se passa dentro da cabeça das pessoas, não pode testar a teoria.

Isto são malabarismos filosóficos sem nenhuma relevância para a Economia? Não é assim. Veja-se o que se passa com uma teoria que dá pelo nome de “equivalência ricardiana” que diz mais ou menos isto: tanto faz financiar a despesa publica com impostos como com o recurso à divida publica, em ambos os casos as pessoas vão diminuir as suas despesas de consumo e de investimento no presente. No caso dos impostos a razão é clara: o rendimento disponível das pessoas (depois de impostos) diminui e elas têm de gastar e investir menos. No segundo caso (emissão de dívida) a coisa é mais rebuscada: as pessoas sabem que a divida pública irá ter de ser paga com impostos e pouparão hoje para poder pagar impostos amanhã, reduzindo portanto os seus gastos presentes.

Outra teoria (chamemos-lhe keynesiana) dirá: se num contexto recessivo o governo recorrer à divida para aumentar a despesa pública e contrariar a recessão, as pessoas tenderão a manter os seus gastos no presente porque compreenderão que a divida poderá ser paga sem uma maior taxa de imposto no futuro quando a economia recuperar.

Qual das teorias é verdadeira? Depende. Se as pessoas acreditarem na “equivalência ricardiana” a teoria da “equivalência ricardiana” poderá ser verdadeira. Mas se as pessoas acreditarem na teoria “keynesiana” a teoria da “equivalência ricardiana” é falsa.

Em que é que a Física pode ser mais fácil do que a Economia e as outras Ciências Sociais? É que os átomos e as partículas não lêem livros de Física, nem discutem teorias acerca do seu comportamento, nem acreditam ou deixam de acreditar nelas. Deslocam-se em consequência de forças que lhe são externas, não têm propósitos. O físico compreendia isto. Mas há muitos economistas que não compreendem e que insistem em tentar simplificar a Economia à força, povoando-a de “agentes” que se deslocam movidos por forças que lhe são externas (incentivos) e cujas crenças (expectativas) são igualmente simples (ditas racionais), como se fossem partículas.

9 comentários:

António disse...

Excelente

Miguel Madeira disse...

Bem, seja "dura" ou não, parece-me (pelo que sei de Economia e pelo pouco que sei de Física) que a Economia sempre é um pouco mais "dura" do que a física (um exemplo - creio que não há nenhuma teoria económica que diga que o facto de sermos seres conscientes implica a nossa imortalidade - já que nunca teremos consciência que morremos - e há uma teoria de física que diz isso).

[eu imagino que a fisica foi introduzida aqui só como metáfora, mas talvez não tenha sido a melhor metáfora]

Miguel Fabiana disse...

José Castro Caldas,

Compreendo, aceito e concordo (em geral) com a metáfora do teu texto.

Relembro que desde 1927 "existe" o Princípio da Incerteza ou Princípio de Heisenberg (Werner Karl Heisenberg 1901-1976), segundo o qual é impossível medir simultaneamente e com precisão absoluta a posição e a velocidade de uma partícula, isto é, a determinação conjunta do momento e posição de uma partícula, necessariamente, contém erros (não menores que a constante de Planck).

Ou seja, quanto mais precisamente se medir uma grandeza, forçosamente mais será imprecisa a medida da grandeza correspondente, chamada de canonicamente conjugada... ou seja... não é possível ignorar as "interferências" que causamos a um "sistema" quando o "medimos".

Faz lembrar a “equivalência ricardiana” versus abordagem (chamemos-lhe) keynesiana (em contextos recessivos?).

A eventual "dureza" da Economia está em forçar a Matemática como ferramenta de eleição ou preferencial, numa Ciência que se quer/deseja Social. A Estatística faz sentido, na Economia, mas ... modelos sociais, numa perspectiva ou no âmbito económico, fundados e baseados em Matemática ... é muito "duro" para o "social"(Pessoas), quando pensamos Ciência Social.

Já não sei quem é que disse (Economista) que a matemática servia para obter os doutoramentos em economia e depois se devia esquece-la rapidamente, porque não servia para mais nada (em Economia, não em econometria).

O Neo-liberalismo deixou "lastro"... "Ser contra um movimento é ainda fazer parte dele" - Pablo Picasso.

A teoria económica heterodoxa, revela-se desta forma, muito menos "dura", mas acredito firmemente que justifica muito mais, do que a pergunta, a afirmação: "Economia: ciência dura".

Abraço,
Miguel

PS: isto está mesmo muito duro, para as pessoas!

Bruno Silva disse...

Ok então. Vamos lá pegar na economia heterodoxa!

O que fará uma PESSOA que está numa posição onde, se for trabalhar, ganhará menos do que se ficar em casa a beber cervejas e ver séries pois recebe um cheque à conta do trabalho dos outros? Não trabalhará.

Que nível de esforço se poderá esperar de uma PESSOA ao nível de investimento em formação contínua e enriquecimento do seu CV quando está protegida por uma legislação laboral rígida?

Que nível de motivação se espera dos empreendedores (PESSOAS), quando uma PME ao ser criada é logo confrontada com uma carga fiscal(TSU, IMI, IMT, IS, ISP...) que torna muito difícil a sobrevivência de muitas empresas durante o débil período de arranque?

O que leva uma PESSOA a arriscar depressões atrás de depressões, ou então a meter baixa, mas nunca pensar em abandonar o estatuto de professor e de funcionário público e tentar outra profissão?

e muito mais se poderia dizer sem fazer uma única conta matemática...

Bruno Silva disse...

P.S: Abandonar o estatuto de professor para o qual não foi talhada.

Anónimo disse...

No outro dia no Plano Inclinado ouvi Henrique Neto muito zangado dizer que se se pedisse uam solução a seis engenheiros cada um tinha uma solução diferente e que não podia ser, acho que diz muito da mentalidade e inteligência até dos nossos mais ágeis empresários

Anónimo disse...

aliás, a caixa de comentário mostra mesmo que ainda há quem acredite que a Economia é uma ciência

Nuno Sotto Mayor Ferrao disse...

Caríssimo José Castro Caldas,

subscrevo inteiramente a sua tese. A ciência económica, como as demais ciências sociais são de maior complexidade interpretativa do que as ciências extactas passíveis de serem estudadas laboratorialmente. Todavia, a política neoliberal, tecnocratizante, quer-nos fazer crer que é possível e desejável seguir um trilho delineado pelo líder ( gestor ) e que os trabalhadores não deveriam passar de meras peças da engrenagem... Quase me rebolei a rir quando ouvi esta pretensa tese, defendida pelo empresário Henrique Neto, de que é possível um gestor responsável e politicamente neutro! Ora, como nos dizia Aristóteles "o Homem é um animal político..." e por isso a neutralidade no campo social ´será sempre uma miragem! Quem quiser fazer da Economia uma ciência exacta é porque se deixou ludibriar pelo paradigma neopositivista da gestão tecnocratizante das nossas sociedades...

Saudações cordiais, Nuno Sotto Mayor Ferrão
www.cronicasdoprofessorferrao.blogs.sapo,pt

João Aleluia disse...

Se as pessoas acreditarem na equivalência ricardiana, esta será realidade, mas se as pessoas acreditarem no keynesianismo, este não se torna realizade, porque para a economia crescer, não basta as pessoas acreditarem que vai crescer, para a economia crescer é preciso que se produzam mais bens e serviços, e isso implica trabalho e capital.

Só mais um paragrafo para dizer que como na pratica a equivalencia ricardiana não se verifica, porque as pessoas são ignorantes e não percebem que vao ter que pagar mais impostos no futuro, o endividamento publico apenas adia os problemas e causa crises maiores no futuro.