segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Agora que eles já sabem

As previsões sobre riscos globais do Fórum Económico Mundial são sempre uma “lufada de ar fresco” para as nossas mentes desatentas. Ao relatório de 2009, apresentado na semana passada, acresce a pretensão de estabelecer as orientações para sarar as feridas provocadas pelo ‘desastre’ de 2008. Aos líderes mundiais é recomendada prudência: numa altura como estas, a precipitação poderá converter-se no maior risco que o mundo pode enfrentar em 2009. Na leitura que propõem sobre os riscos globais, sugerem que seja dado um passo atrás e, simultaneamente, se olhe para o longo prazo, agarrando as oportunidades e aprendendo as lições resultantes dos erros cometidos nos últimos anos. É esse o mote para Davos, aprender com os erros!

Pede-se, carinhosamente, aos líderes mundiais: deixem que 2009 seja o ano em que o mundo encontra uma agenda comum que permita começar a mitigar os impactos dos riscos globais acumulados. Mas qual é verdadeiramente a novidade trazida pelo relatório Global Risks 2009? Na “paisagem de riscos globais” anunciados para o ano que agora entrou destacam a deterioração/derrapagem das contas públicas (sobretudo nos países do G8), o risco de agravamento da queda do mercado de acções, as ameaças para a saúde resultantes das alterações climáticas, o aumento do desemprego, a queda dos níveis de confiança dos consumidores e das empresas, o desinvestimento em infraestruturas essenciais, a falta de liquidez financeira, entre muitos outros. Das previsões parece não vir muito suplemento de novidade. Passemos aos problemas que lhes estão associados: continuação do colapso do mercado de acções, crédito mal parado, ameaças à produção alimentar, deflação, ameaças sobre o clima do planeta, ameaças sobre os recursos naturais, escassez da água, mais tensões entre os países, entre outros. Também não parece ser por aqui. Será, então, nas respostas? O Fórum Económico Mundial propõe que se redefinam as instituições multilaterais para adaptá-las ao mundo actual e deixam, a título de aviso, muitos cuidados – cuidado com as decisões, cuidado com as vistas curtas, cuidado com o excesso de intervencionismo estatal, cuidado com a forma de regulação adoptada para que esta não enfraqueça os mercados, cuidados com as escolhas de empresas a salvar para que não se premeie a má gestão e se prejudique a concorrência. Aqui parece já haver alguma novidade. A novidade de quem pede que tudo mude para que tudo fique na mesma. O exercício de aprendizagem com os erros cometidos em mais não se traduz, afinal, do que na criação de instrumentos ou na redefinição dos existentes para que o mercado continue a funcionar na sua melhor forma. A maior novidade vem, enfim, da falta de novidade.

Mas há, de facto, outras novidades, e essas passam pela inclusão de “novos riscos” no Barómetro dos riscos globais. O Fórum Económico Mundial tem identificado todos os anos os riscos globais, dividindo-os em cinco grandes categorias: riscos económicos, riscos geopolíticos, riscos ambientais, riscos sociais e riscos tecnológicos. A turbulência de 2008, se outro efeito não teve, fez com que o Fórum Económico Mundial reconhecesse a existência da “novidade” nos tipos de riscos que devem ser avaliados anualmente. Nos riscos económicos foram incluídos como novos riscos o custo da regulação e o risco de sub-investimento em infraestruturas; nos riscos geopolíticos foi incluído o risco de falhas na governação global; aos riscos ambientais acrescentaram-se os riscos de inundações costeiras, de poluição atmosférica e de perda de biodiversidade; nos riscos sociais acrescentou-se o risco de migração (!); e, finalmente, aos riscos tecnológicos juntou-se o risco de perda ou fraude de dados. A ‘novidade’ destes riscos dispensa comentários. Agradecemos o aviso.

Agora que eles já sabem, o que podemos esperar de Davos 2009 senão uma vontade incontornável de cumprir (ou mesmo ratificar) protocolos e convenções internacionais sobre direitos humanos, desenvolvimento sustentável ou saúde, como, por exemplo, o Protocolo de Quioto? Agora que eles já sabem, não é legítimo que esperemos respostas fortes que não coloquem sistematicamente as ‘urgências’ económicas à frente de prioridades estratégicas no domínio do desenvolvimento sustentável? Agora que eles já sabem, talvez consigam, finalmente, fazer a distinção entre crescimento e desenvolvimento, perceber que os “riscos globais” têm impactos locais muito desiguais, que o sistema capitalista neoliberal gera modelos de produção injustos e insustentáveis, que o papel regulador dos Estados e que as instituições públicas contam sempre e não apenas na aflição.

É pena que ainda não saibam o quão exíguas são as fronteiras do ‘mundo de partida’ e do ‘mundo de chegada’ patente neste diagnóstico.

3 comentários:

Carlos Santos disse...

Excelente análise. Permita-me sugerir que ela sej filtrada pelo catalisador global em que se converteu a tomada de posse de Obama: http://ovalordasideias.blogspot.com/2009/01/livro-sobre-presidncia-de-obama.html

Carlos Santos

José Manuel Pureza disse...

Não, eles não sabem. Nem sonham.

Anónimo disse...

É espantoso e mete nojo como é que aqueles srs, apesar de todas as desgraças, permanecem com a treta de que "é preciso que tudo mude para que fique tudo na mesma."
Não há dúvida de que tal gente não se enxerga.