quarta-feira, 23 de maio de 2007

A desigualdade salarial é um problema de todos (II)

As decisões privadas têm diversos impactos públicos e como tal têm que ser sujeitas a escrutínio. As decisões privadas podem gerar o que em jargão económico se designa por «externalidades negativas», ou seja, potenciais consequências negativas sobre terceiros, neste caso a sociedade portuguesa no seu todo. Estão neste campo as decisões que contribuem e muito para o incremento da polarização social.

Como escreveu José Vítor Malheiros, o somatório de decisões privadas erradas reforça um sistema: «que amplia a conflitualidade social, que não promove a competência e a qualidade e que muito menos promove o investimento profissional ou o empenho profissional» (Público). De facto, muita investigação económica e sociológica tem mostrado que níveis de desigualdade elevados, gerados por regras do jogo vistas como injustas, têm impactos muito negativos sobre o desempenho económico dos países. A cooperação, a confiança, a reciprocidade e a motivação pelo trabalho bem feito, ingredientes fundamentais para um bom desempenho económico, tendem a ser corroídos em sociedades demasiado desiguais e injustas.

Estas são algumas das razões por que é relevante a indignação moral sobre a assimetria salarial no sector privado em Portugal. Isto diz respeito a todos e todos temos que alterar as regras do jogo que geram esta situação. E finalmente, não nos esqueçamos que foi Adam Smith que escreveu «A Teoria dos Sentimentos Morais» onde afirmou que: «a disposição para admirar e quase para adorar os ricos e poderosos e para desprezar, ou pelo menos para negligenciar, as pessoas pobres ou de condição humilde ... é ... uma grande e universal causa de corrupção dos nossos sentimentos morais». E sem sentimentos morais a riqueza da nação pode bem estar em causa.

Nota: Estas duas postas foram publicadas em artigo no jornal Público de 17/05/2007.

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