quarta-feira, 13 de julho de 2016

Tem de haver muitos jornalistas fartos disto tudo


«Não é possível que quem manda no jornalismo em Portugal seja defensor de uma só ideia. Não é possível que todos queiram mais austeridade e que esse querer esteja meramente associado a "interesses" económicos. Também não é possível que todos queiram Passos Coelho de volta ou, simplesmente, o fim de um governo de "esquerda". O que se passa? É que, na verdade, quem tem actualmente poder num jornal, numa televisão, regra geral, tem um sentido de argumentação único ou quase. O caso das sanções é paradigmático. E chega-se a cúmulos cada vez mais altos.
Comecemos pelo início. A Comissão Europeia está obrigada a velar pelo cumprimento do Tratado Orçamental. É a lei. Um país que não cumpre o tratado deve ser sancionado. Em quanto? Depois se vê. Pode até ser zero. Estou a falar de países fracos, claro. Nenhum jornalista com responsabilidade disse isto. Ainda não ouvi nenhum, pelo menos. Depois, as sanções, objectivamente, são relativas a 2015 e a anos anteriores. Isso até concedem, de tão evidente que é, mas logo a seguir acrescenta-se um "toda a gente sabe" que as sanções são também para pedir um Plano B ao actual Governo. Prova? Nenhuma, que isto não é jornalismo, na verdade. Depois, os mercados, mas como é que os mercados não respondem?, perguntou alguém. Isso não interessa. O que interessa é que o Governo não "arrepia caminho" e daí as sanções. E por aí fora.
Mas de onde vem tanta falta de rigor, tanta invenção? Será que serve aos "grandes interesses"? O Brexit, que aparentemente não é do agrado desses tais grandes interesses, na Grã-Bretanha, e que foi em larga medida provocado por esta forma de jornalismo, é prova de que isso pode não ser bem assim. Será que serve a Passos Coelho? Claro que serve. Mas acreditamos mesmo que toda esta gente está a trabalhar para um ex-primeiro ministro? Mesmo que isso fosse possível, não chegaria como explicação. Proponho outra, pelo menos complementar. Durante cinco anos ou mais, os jornalistas da "frente" foram bombardeados com uma ideia, uma ideia única em que acabaram por acreditar. Foram cuidadosamente conversados, com entrevistas "exclusivas", com depoimentos, com press releases, com tudo e mais alguma coisa. Agora, não têm outra ideia e estão pregados a essa que lhes foi entregue. Chegaram a um beco sem saída. Claro que o caso é mais geral, pois é comum acreditar-se que Portugal não é a Suíça por causa dos políticos e, em particular, de um tipo de políticos. Mas o beco tem saída, a saída do conhecimento, da informação, da satisfação intelectual, diria. Dá é trabalho. Há seguramente excepções, óptimas excepções, mas que têm um espaço de trabalho nulo ou quase. Também posso estar a ver mal, claro. Na verdade, seria talvez preciso fazer alguma coisa, alguma reflexão, dentro da classe. Tem de haver muitos jornalistas fartos disto tudo.»

Pedro Lains, Uma tentativa de explicação

7 comentários:

Jose disse...

O cientista Lains não alcança - como sempre acontece a tão altos pensadores - que os mais básicos se sustentam num básico senso-comum. Coisas do género:

- Se tudo o que se fez não chegou, vai-se chegar desfazendo o que se fez?
- Se quase tudo o que se planeou não se cumpriu, o resultado vai ser o planeado.

E na falta de um suporte científico do gabarito do que sustenta o serviçal Lains, quais baratas tontas acabam convergindo para um só buraco.

Anónimo disse...

Repare-se no odio sublimiar aos "cientistas".
Chega-se ao ponto de os apelidar de "serviçais".

A raiva com que se trata os demais e a tentativa de os minimizar vive paredes meias com a pesporrência ideológica?

Quem fala em buraco é assim quem vive num. Logo este, defensor oficial da vampiragem e pregador de "pátrias inventadas"

A escrever o discurso do Schauble

Anónimo disse...

Basta atentar nisto.

O discurso do das 12 e 49 pode ser o discurso dum saudosista do nazismo, quando após a derrota deste, se atreveu a protestar pelo facto de não se terem aproveitado as "coisas boas " do nazismo.Com as câmaras de gás

Pode , se não se quiser ir tão longe, ser o discurso dum saudosista do fascismo, a tentar justificar a permanência da Pide no pós 25 de Abril.

Que diacho, então os planos das cavalgaduras não são para se cumprir? Então temos que cumprir os projectos da canalha?
(Temos por exemplo que continuar a pagar do erário público, para o bolso de meia dúzia de escolas privadas, que estão paredes meias com escolas públicas?)

Anónimo disse...

Então não foi este tipo, o das 12 e 49 que saltava e pulava de alegria e, qual vampiro sedento de sangue proclamava em 2012, no auge do saque de Passos e Portas, o "fim dos direitos adquiridos", enquanto se babava com o roubo aos salários e às pensões?

Antonio Cristovao disse...

o Sr Schaubel disse exactamente que era um incentivo para Portugal tomar medidas. Por sorte que ele não tem que dizer o lero lero que as galambices obrigam, e provavelmente tem espinha mais direita que muitos tudologos da nossa praça.

Anónimo disse...

"Um incentivo para Portugal" diz Schauble , com aquele ar de alemão saído do Dr Strangelove.

Pois aquele que foi acusado de corrupto e que teve que pedir desculpa pelas pulhices que fez é endeusado desta forma pelo Sr Cristóvão.

Não se sabe o que admirar mais. Se o comportamento inqualificável do Schauble, que se comporta como um reles administrador imperial desta UE, se a falta de verticalidade de quem encontra méritos em tal crápula e que assim assina por baixo este rastejar cobarde e subserviente

Anónimo disse...

Pode-se sem grande margem de erro afirmar que Cristóvão é um tudólogo do alemão.

Está quase tudo dito