segunda-feira, 18 de julho de 2016

O velho sonho de entrar na CGD

Nada disto é novo. A velha questão que se está a perfilar nos mais recentes episódios sobre a Caixa Geral de Depósitos (CGD) é apenas a pressão à abertura ao capital privado - leia-se estrangeiro - da principal instituição financeira nacional que, por acaso, é pública.

O BCE - como supervisor do sistema financeiro europeu - está a tentar reduzir ao máximo o número de instituições financeiras a controlar. E acaba por se comportar como um intermediário dos grandes interesses financeiros internacionais. Foi assim com o Banif. E tudo parece se concretizar no caso da CGD. Nem que isso represente passar por cima da vontade do poder político soberano nacional.

Começou por limitar-se a possibilidade pelo Estado para reforçar o capital da CGD. Depois, face ao absurdo que era a UE permitir o reforço do capital dos bancos privados, mas não o dos públicos, surgem por parte das instâncias comunitárias as limitações à aplicação de verbas públicas por prejudicar as metas orçamentais previstas. Aplicam-se sanções, nem que sejam simbólicas, mas tudo aparenta ter outro objectivo. As metas não são importantes: a meta é a CGD.

E mais recentemente, o FMI vem lembrar que o nosso sistema financeiro tem lacunas de risco sistémico mundial... como se nada se tivesse passado quando cá estiveram.  

Neste contexto, o PSD tem-se comportado nos últimos anos como um agente de mão dessa vontade. E Marques Mendes acentua esse disparate, até para o seu próprio partido. Veja-se a recente cronologia.


* Em 2008, ainda longe do poder, Passos Coelho defendia irresponsavelmente a privatização total da CGD, mesmo indo contra os interesses da banca privada nacional que sentia os perigos da banca internacional. Veja-se este comentário de Ricardo Salgado em 2010 em que dá a entender que a privatização global iria contra os próprios interesses nomeadamente do BES: a privatização parcial da CGD «poderia dar entrada nos cofres do Estado de capitais e também permitir o reforço da capitalização» do banco. Mas se a CGD for totalmente privatizada «poderá ser facilmente adquirida» por um grupo internacional global tendo em conta a sua dimensão.

* Em 2010, Passos Coelho já arrepiava caminho: "Julgo não ter avaliado bem a reacção das pessoas, que mostraram intranquilidade perante a minha ideia. As pessoas percepcionam essa intervenção como reguladora, apesar de não competir à Caixa essa intervenção”, disse Passos Coelho, numa entrevista ao i. A posição da privatização surge no programa eleitoral do PSD.

* Em 2011, Passos Coelho voltava à carga. «E julgo que precisaremos abrir o capital da Caixa Geral de Depósitos a privados também. Significa empreender um processo de privatização, não que conduza a que Estado fique numa posição minoritária». «O Estado deve manter a maioria do capital da Caixa, mas precisaremos de dispersar uma parte de novo capital por pequenos aforradores, em Portugal, em bolsa».

* Em 2012, a questão da CGD volta a surgir no debate político. O PS de António José Seguro declara que o PS estará contra a privatização da CGD. O projecto não avança. O momento não era o mais apropriado. O país estava em recessão profunda coma aplicação de um programa de austeridade, os mercados sobrevoavam o país. O tema caiu.

* Mas em 2013, regressa de novo o velho tema, para de novo ser afastado.

* Em 2015, Passos Coelho dá uma entrevista que é interpretada pela oposição como a tentativa de concretização da privatização da CGD.

* E finalmente em 2016, o PSD dá o dito por não dito ao longo de tantos anos e afirma que afinal afasta a privatização da CGD. Mas pressiona a realização de uma comissão de inquérito à CGD. Marques Mendes surge a fazer mais um número sobre a CGD. Tudo ao mesmo tempo que a Comissão Europeia e o BCE actuam para limitar o reforço de capital da CGD pelo Estado. Caso a posição do BCE vá para a frente, o que - caso se concretize - conduzirá forçosamente à privatização parcial do capital da CGD. E nesta linha, a posição do PSD apenas terá servido para desvalorizar a CGD, tudo em sintonia com quem possa vir a comprar esses títulos.

Alguém acredita que o problema do PSD tem por base qualquer papel estratégico por parte da CGD, como referência do sistema financeiro nacional ou como instituição necessária para a execução de uma política financeira nacional e soberana? O PSD transformou-se nisto: uma delegação estrangeiras da Comissão Europeia e do BCE.

20 comentários:

Jose disse...

Quando se fala n'« a execução de uma política financeira nacional e soberana» estamos fora do euro e da CEE.

Ninguém na esquerda fala em política económica sem pensar em políticos a distribuir dinheiro e crédito e aparentemente precisam de ser donos de um banco para fazer esse serviço. Não, só precisam de um banco porque não podem fazer isso mesmo com um orçamento que nunca chega para as encomendas e a compra de votos!

Fiquem-se pelo essencial:
sem imprimir papel-moeda não há políticas de esquerda, que a esquerda faz-se com empregados e seus direitos, não com desempregados, sejam eles empresariado, recibos verdes ou gente que não encontra trabalho.

Anónimo disse...

ah, o jose, sempre pronto a distribuir o panfleto pafioso-delirante da ordem.

distribuir dinheiro e credito? hum, a direita não o fez? curiosa amnésia.

e a melhor piada é ele falar em esquerda para se referir a certa corja do PS que nada tinha de esquerda. a esquerda não é uma sigla, são políticas. é como a sigla mentirosa do actual PSD, que de social-democracia tem zero.

a direita sonha com o tutano da CGD. e a direita portuguesa sonha vende-la ao desbarato para mãos estrangeiras, como fez com a EDP.

Anónimo disse...

"Ninguém na esquerda fala em política económica sem pensar em políticos a distribuir dinheiro..."

O essencial é que isto é ofensivo.

É ofensivo pela atoarda em si.
É ofensivo pela boçalidade que revela.
É ofensivo pela posição ideológica do sujeito, sujeito de direita-extrema,admirador de salazar e dos seus métodos e elogiador da Pide. E flautista a tocar a música ao compasso da troika e da Alemanha.





Anónimo disse...

“O PSD transformou-se nisto: uma delegação estrangeira da Comissão Europeia e do BCE.”
Infelizmente não foi somente o PSD.
Desde a entrada para a CEE que passamos a ser uma delegação atribulada da CE/BCE com a agravante de ser o PS o grande dinamizador da coisa.
Alavancaram o sonho de Marcelo Caetano – Mercado Comum Europeu -- .
De qualquer jeito o governo actual devia informar os portugueses da situação. Não tenho que receber informação sobre a CGD através de Marques Mendes ou de Passos Coelho. Ou que o BCE envia recados ao governo através da CGD. Num país onde ainda existe uma restea de democracia estes eventos não deveriam ter lugar..! De Adelino Silva

Jose disse...

A direita quer a CGD para quê?
A direita que se preza de o ser, quer antes demais leis claras e operativas e empresas no mercado e não cavalgadas ou a cavalgar por políticas públicas que viram a cada onda de opinião ou de acordos geringonçosos.
Metam a CGD onde lhes mais convenha, que para além de abrigar boys e distribuir pensões na província pouca mais serventia tem.

Anónimo disse...

A direita quer a CGD para quê?

O que a direita quer sempre. Fazer negócio.Cacau. Bagulho. Seja de que forma for. Seja por que processo for. Seja de que maneira for. Se necessário à porrada e sob a pata dum regime tipo o derrubado em 25 de Abril de 74.

Anónimo disse...

O tipo das 19 e 27 que fala em leis claras sabe do que fala. Defendia a Constituição de 1933. A clareza da Constituição fascista

O tipo das 19 e 27 que fala em leis operativas sabe do que fala. Defendia o capitalismo monopolista de estado e defende a concentração dos negócios num cada vez menor número de mãos. Em benefício disso mesmo: da operacionalidade do mercado. E do aumento da taxa de lucro dos empresários.

O tipo das 19 e 27 que fala em cavalgadas e em não cavalgadas, enquanto fala nestas cavalgadas e nestas não cavalgadas, tem um objectivo muito concreto. Esconder a boa trampa que a direita, nomeadamente o PSD, fez com a CGD. Envergonhado e impotente para desmentir o enunciado pelo João Ramos de Almeida parte numa missão corajosa, montado ou por montar, em direcção ao sítio que mais lhe convém, tentando esconder a cloaca constituída pelos boys que enxamearam o banco público. Montado pela direita e pela extrema-direita, ao serviço do Capital e dos interesses dessa mesma direita

Anónimo disse...

Mas a direita não quer a CGD?

Ela não quer mesmo é um banco público. Ela quer manter a banca sob controlo privado. Há por aí algumas odes perfeitamente deliciosas aos banqueiros e à banca por parte de alguns dos coniventes com os crimes da banca. A direita e a extrema-direita querem esconder as responsabilidades da banca privada e do capital financeiro na presente situação.Querem pôr-nos a pagar pelos desmandos dos donos disto tudo.

E quer esconder quem foram os governantes da CGD e as indicações dadas a estes por parte do poder político. Interessado no desmantelamento da CGD ( veja-se como apareceu logo aí o sôr jose, todo agitado e a colocar as coisas no sítio onde mais lhe convém) e interessado em passar o negócio por inteiro para o bolso dos privados.

Anónimo disse...

Portugal precisa de uma banca que, em vez de comprometer a sua soberania e agravar a dependência externa e a sua situação económica, defenda a soberania e independência nacionais, o mercado interno, o investimento produtivo, a expansão e modernização da sua capacidade industrial, a criação de emprego, o crescimento económico, o desenvolvimento social.

O que o PSD pretende é mover uma campanha de desestabilização da Caixa, favorecendo os seus concorrentes privados e abrindo o caminho para a sua privatização total ou parcial. O PSD integrou, juntamente com o CDS, o Governo durante os últimos quatro anos sem ter tomado qualquer medida para conter as necessidades de capital da Caixa Geral de Depósitos e para detectar eventuais problemas na concessão de crédito.

Anónimo disse...

"Os que hoje reclamam pelo apuramento das razões e dimensão dos montantes de recapitalização são os que aceitaram a imposição da troika de num quadro em que o Estado português se endividava em mais de 12 mil milhões de Euros pela recapitalização da banca privada (excluindo a CGD), se impunha como condição para aprovar o plano de reestruturação da CGD, que esta alienasse com vista à sua recapitalização alguns dos seus principais activos – Caixa Seguros, HPP e ainda importantes posições em grandes empresas como a EDP, a ZON, a CIMPOR e o BCP.

São os mesmos que empurraram a Caixa para a especulação imobiliária e para os prejuízos permanentes da “internacionalização” espanhola, com a criação de uma rede bancária suportada pela CGD.

Os que hoje reclamam pelo apuramento das razões e dimensão dos montantes de recapitalização são os que determinaram que perante o desmoronamento da banca privada, o banco público, ou seja a Caixa, fosse chamado a um conjunto de operações financeiras com o objectivo do Estado e dos recursos públicos se substituírem aos accionistas privados na resolução dos muitos problemas causados por uma gestão danosa de que são responsáveis, de que é exemplo o BPN.

Os que hoje reclamam pelo apuramento das razões e dimensão dos montantes de recapitalização são os que expuseram a CGD a entidades como a Parvalorem SA, a Parups SA, e Participações SGPS no valor de 2.100 milhões de Euros de obrigações subscritas e 1.000 milhões de Euros de papel comercial.

Os que hoje reclamam pelo apuramento das razões e dimensão dos montantes de recapitalização são os mesmos que nunca manifestaram preocupação pela concessão de crédito a clientelas e amigos como aconteceu entre Janeiro e Junho de 2007, quando a CGD financiou accionistas do BCP para adquirirem acções do seu próprio banco."

Jose disse...

A extrema-direita que pôs o Vara na CGD...até posso concordar que era extrema, mas era a extrema farsa esquerdalha, cheia de palavreado e de bolsos abertos a todo o arranjinho.

Armando B. Silva disse...

E porque é que o plano de capitalização da CGD, sem dinheiro público, preparado pela administração em 2015, não foi aprovado por este governo? Importantes decisões estratégicas estão adiadas e, paralisado, a Caixa perde terreno e valor face à concorrência, dia após dia. Este governo revela tanta incompetência, e vocês aqui, em vez de discutir o essencial para a Caixa, entretêm-se com o acessório... O que é que interessa discutir "este velho sonho de entrar na CGD", quando o governo deixa a Caixa em "banho-maria" durante 8 meses, a perder valor diariamente?
http://www.tsf.pt/economia/interior/administracao-da-cgd-entregou-plano-b-de-recapitalizacao-ha-7-meses-5292591.html

Anónimo disse...

Afinal a CGD parece que desperta o interesse do das 09 e 54. Da extrema-direita que reivindica o Vara como também o sendo, ou de como os bolsos abertos a todo o arranjinho vão singrando no meio do palavreado adequado

Eis a CGD a despertar os bofes de alguém que a resolveu tirar do sítio onde a tinha colocado

João Ramos de Almeida disse...

Caro Armando e anónimo das 16h15 e de certa forma José,
Tem razão e uma coisa não deveria estar desligada de outra. Mesmo as ineficiências da Caixa deveriam estar a ser detalhadamente discutidas e ultrapassadas, incluindo a falta de transparência de certas decisões e a lentidão que parece manifestar.

Mas esta parte arrisca-se a ficar para trás, caso "o velho sonho" se concretize. Apenas isso.

Jose disse...

O velho sonho da esquerda de imprimir moeda própria foi sublimado em direito a uma dívida sem limite a cargo da solidariedade europeia.
Falam em dinheiro como quem manda imprimir papel, e se se lhe opõem gritam que ofendem a democracia e a soberania e o mais que lhes lembre invocar.
A CGD é nossa? Outros que adiantem o dinheiro necessário a que assim seja!

Anónimo disse...

A dívida que aí um fulano em cima fala, refere-se à dívida da banca privada que a troika e a governança neoliberal tornou pública?

Os gritos que esse fulano aí imprime contra quem não está disposto a abdicar da sua soberania é uma invocação à submissão aos ditames da troika, que alguns aventesmas teimavam em propalar?

Finalmente, como é possível que o mesmo tipo que diz um pouco malcriadamente que "Metam a CGD onde lhes mais convenha" agora venha perguntar se a CGD é nossa? Quer nacionalizar o quê?
Ou trata-se de mero paleio de alguém verdadeiramente inquieto em prol dos bandalhos da banqueiros?

Antonio Cristovao disse...

Os culpados da má gestão dos dinheiros publicos na CGD ainda não acabou. Agora é a UE, BCE,enfim "eles" são os culpados.
A fome na Venezuela é culpa da direita liberal, Na Grecia é culpa da UE.A gestão nacional criminosa é culpa dos neo qualquer coisa. Haja crentes e a seita continua prospera.

Anónimo disse...

Pobre António Cristóvão.

Não consegue dizer duas coisas sem vir com a Venezuela atrás ( ou à frente). Seria pedir muito que avançasse com algo mais substantivo? Que deixasse de utilizar jargões que só demonstram a pobreza argumentativa da direita?

Tal como essa dos culpados da má gestão dos dinheiros públicos. Parece que esconjura a culpa, qual "cómico" com muita graça, para a UE e para o BCE

Pobre António Cristóvão. A responsabilidade das nomeações dos gestores da CGD cabe ao governo. Um governo que funciona em função dos seus interesses ideológicos, em que nalguns casos passa pelo objectivo de aniquilação da própria CGD como entidade pública. E tal responsabilidade de gestão é acima de tudo dos governos que a nomearam.

Para que até o próprio Cristóvão perceba é como se se atribuísse a responsabilidade de Dias Loureiro ter sido nomeado conselheiro de estado a entidades estatais vagas e difusas. "Esquecendo" que Dias Loureiro foi nomeado por Cavaco ,era da sua criação, bebia da sua água e foi responsável por crimes que se espera ainda venham a ser julgados

Anónimo disse...

Os accionistas das sociedades anónimas e os sócios das sociedades por quotas podem aumentar o capital das respectivas sociedades se assim for por eles deliberado.
não percebemos porque o Estado Português não pode aumentar o capital da Caixa Geral de Depósitos

Anónimo disse...

A situação dos bancos italianos e do Deutsche Bank é muito pior que a Caixa Geral de Depósitos. Este banco que é o maior da Alemanha e um dos maiores do mundo tem um activo tóxico , que no fundo será um passivo, várias vezes superior ao PIB alemão.
O que pensa o Governo alemão fazer?