sábado, 17 de março de 2012

Isto é apenas o meu começo

António Borges é afinal uma espécie de parceira público-privada entre Passos Coelho, Alexandre Soares dos Santos e Leonor Beleza. A arrogância do dinheiro concentrado que personifica tem a vantagem de ajudar a tornar ainda mais transparente a economia política de um governo que tem dois perfis: a malta dos negócios e a malta da ideologia pura e dura. Borges condensa os dois como só um antigo vice-presidente da Goldman Sachs sabe fazer. Simboliza também as fracções do capital hegemónicas no presente contexto: uma aliança entre o capital financeiro internacional e grupos económicos nacionais cada vez mais extrovertidos, dada o esgotamento, para qual contribuíram, do seu ponto de partida nacional. Agora trata-se de aproveitar a tutela externa e a crise assim gerada para finalizar a acumulação por expropriação de recursos públicos e para consolidar a expropriação financeira dos trabalhadores – das desastrosas privatizações, como se vê agora na energia, até à erosão do Estado social, passando pelas parcerias público-privadas em que todos os riscos são assumidos pelo Estado. O cimento que vai assegurando o consenso da restante burguesia nacional foi bem sublinhado ontem por Borges: a queda dos salários directos e indirectos, tudo com a “harmonia social” que taxas de desemprego de 14% ou mais vão permitindo, sem esquecer que este processo é estruturalmente garantido para futuros ajustamentos pelas mudanças da legislação laboral e social. A ausência de alternativas politicamente viáveis neste euro facilita a tarefa, claro. Ulrich pode dizer com toda a confiança: “portugueses ainda vão passar muitas dificuldades”. Como dizia Brecht, “a exploração proclama, isto é apenas o meu começo”...

Adenda. Para não se pensar que isto é só com Borges, veja-se, por exemplo, o percurso de Carlos Moedas.

3 comentários:

O Senhor dos Queijos disse...

jura?
olhe que não olhe que não
há grupos com mais dinheirama

e não gostam muito do Borges
nem do Soares dos Santos
(doutros Soares e doutros Santos isse já aprovam)

Almerinda Teixeira disse...

"Harmonia social"? Esperem um bocadinho. O Borges quer concorrer com Ricardo Araújo Pereira.

Almerinda Teixeira

Diogo disse...

Que fazer então? A justiça está cheia de leis armadilhadas, escapatórias e alçapões. O que é que resta às pessoas fazerem?