segunda-feira, 19 de maio de 2008

O jornalista, o economista e o status quo

«O rendimento dos executivos em Portugal é certamente mais elevado que o do resto dos outros trabalhadores, mas é um rendimento, apesar de tudo, inferior aos seus congéneres europeus. O problema que se põe é que a expansão económica internacional, nomeadamente a da China, aumentou a procura de bons gestores». A parte final da entrevista de Campos e Cunha ao DN é de antologia. Reparem bem no rigor e na objectividade das perguntas: «Quem ganha bem é quase um criminoso, não é?». E no rigor das respostas de um dos mais conhecidos economistas liberais. Um ex-ministro do PS que consegue ultrapassar Cavaco pela direita. Será que Campos e Cunha desconhece que os gestores portugueses auferem, em média, salários acima de muitos dos seus congéneres europeus mais desenvolvidos? Será que desconhece que Portugal tem dos maiores níveis de desigualdade salarial da Europa? Quantos «bons gestores» portugueses lideram empresas internacionais? A China e a expansão internacional são uma desculpa muito fraca. Admito que a criação de um maciço «exército industrial de reserva global» possa explicar parte da compressão continuada do crescimento dos salários em sectores económicos mais trabalho-intensivos, muito expostos à concorrência internacional. Mas mesmo estes efeitos são mediados por arranjos institucionais contestáveis. Agora, alguém acredita que isto possa explicar os sucessivos aumentos das remunerações dos gestores portugueses? Isto não é questão de procura. É questão de poder reforçado por más regras. De qualquer forma, quem quer defender um insustentável status quo tem de arranjar melhores argumentos. A denúncia e o debate não vão parar.

1 comentário:

D.,H disse...

“Toda a afirmação dos mass media repetida apenas duas ou três vezes, torna-se verdade”.

Os meios de comunicação ao serviço dos “bons gestores”, da situação. Muito bons gestores (até de procura internacional!?), mas que efectivamente gravitam maioritariamente em torno do sector público, das empresas públicas, das parcerias público-privadas, em perfeito concerto.
No 25 de Abril lá se põe um cravozito na lapela, o presente é bem vivido, a reforma assegurada, infelizmente que não dá para todos, já nada é como antigamente.