domingo, 20 de maio de 2012

Então sairemos



Se ficar no euro significar a destruição da Grécia, sairemos. 

Sofia Sakorafa, uma popular deputada do Syriza que veio do Pasok.

A questão da saída/fim do euro está cada vez mais presente no debate, até porque a realidade imparável de mais de 20% de desemprego e de colapso económico causados pela austeridade tem muita força, acelerando a erosão de duas décadas de propaganda ideológica e de complacência intelectual por todas as periferias. Antes de revisitar alguns dos seus termos, gostaria de dizer que do ponto de vista político me parece haver convergências fundamentais e mobilizadoras a montante em partidos e movimentos transformadores e plurais – a necessidade de uma profunda reestruturação da dívida, usando-a também como instrumento negocial de periferias que recusam a austeridade imposta de fora e aceite pelas elites de dentro; a necessidade de não anatematizar nenhuma posição a jusante, descrevendo-a como “nacionalista” ou como “euro-idiota”, por exemplo.

A jusante há então muito que só o debate e a aceleração da história clarificarão, quer sobre a possibilidade de usar esta arma negocial e ficar dentro do euro, quer sobre as vantagens de ficar no euro mesmo que algumas das reformas propostas sejam aceites – penso na emissão de um arremedo de euro-obrigações, a tal metáfora de um Plano Marshall que até num PSD desmemoriado faz o seu tardio caminho, assim se reconhecendo implicitamente o fracasso da austeridade. O problema é que neste contexto político e nestas estruturas europeias, no quadro de um tipo de federalismo que já é o nosso desde que aderimos ao euro e transferimos soberania para instituições supranacionais anti-democráticas, estamos mais perto do projecto de um Trichet para reforçar os mecanismos de governo directo, dito de excepção, das periferias pelo centro europeu do que qualquer outra coisa. De resto, como se conseguirá tocar num BCE pirómano ou resolver o problema dos desequilíbrios estruturais nas relações económicas, o que exigiria, por exemplo, quebrar as sacrossantas e liberais regras do mercado interno, por forma a permitir políticas de discriminação fiscal e outras políticas industriais?

Encarar o fim de um euro que se revela irreformável de cima a baixo é encarar um processo complexo, tantas são as variáveis em jogo e as modalidades de saída e de reconstrução de um princípio de coordenação monetária entre nações soberanas: taxas de câmbio fixas, mas ajustáveis, em função dos desequilíbrios, o que exige controlo de capitais e coordenação entre bancos centrais e entre estes e um qualquer fundo monetário europeu, por exemplo.

Entretanto, podemos considerar alguns exercícios comparativos que têm sido apresentados, usando sobretudo a Grécia, a Argentina e a Islândia. Já sabemos que estes dois últimos países, muito diferentes entre si, até em dimensão, recuperaram de uma crise brutal porque enfrentaram os credores internacionais, usaram a desvalorização cambial e reinstituíram controlos de capitais. Um tripé com várias declinações institucionais potenciais.

São exemplos que nos dizem algo que já tínhamos obrigação de saber pela experiência portuguesa na democracia até à década de noventa: a desvalorização cambial pode ser um instrumento muito útil de ajustamento, no quadro do controlo de capitais, para corrigir desequilíbrios externos, aumentando exportações e diminuindo importações e gerando crescimento e emprego, lembrando que o pico do desemprego foi inferior a 8% nesse país distante.

Assim se protegem muito mais os trabalhadores e a recuperação do seu poder de compra do que com a alternativa da desvalorização pela austeridade, do desemprego de um milhão de pessoas no nosso país, da desregulamentação laboral ou do sacrifício dos funcionários públicos portugueses, que no euro já perderam 30% do seu poder de compra, com os privados a copiar sem que o desemprego dê sinais de abrandar, claro.

A comparação da Grécia com a Argentina, em termos de capacidade exportadora, ou com a Islândia, em termos de recuperação económica e de quebra do poder de compra dos salários, é esclarecedora. Três gráficos ilustrativos:


Note-se que a recuperação da capacidade exportadora argentina foi só uma parte, e não a mais importante, de uma recuperação que dependeu essencialmente do mercado interno.
Aconselha-se então a leitura das análises comparativas dos economistas Bill MitchellMike Weisbrot, versões heterodoxas com convergências com as análises mais convencionais de Krugman ou de Roubini (em português). É claro que a Argentina e a Islândia tinham e têm moeda própria. A Argentina tinha e tem um sistema financeiro relativamente pouco integrado, mas a Islândia não.

Os custos de transição para a nova moeda são certamente elevados no curto prazo, muito dependendo da capacidade política interna e externa revelada numa situação em que não há saídas fáceis. O fim do euro nas periferias poderá facilitar uma ruptura com o processo de financeirização, com o comando de bancos ditos privados, com a “liberdade” irrestrita de capitais e com todo o cortejo de desequilíbrios económicos assim gerados, colocando a banca pública e o Banco Central de novo no centro de uma acção monetária e financeira mais funcionais. Sem combater a maldição do financiamento por poupança externa, associada a uma moeda demasiado forte num quadro de liberalização financeira, continuar-se-á numa trajectória de dependência que acabará com qualquer vestígio de soberania democrática e de possibilidade de desenvolvimento.

Encarar a possibilidade desta experiência monetária ter um fim nacional criará outra margem de manobra política para forçar a renegociação de tudo o que conta com coragem, dignidade e esperança.

6 comentários:

miguel serras pereira disse...

Caro João Rodrigues,
é sempre com interesse e, não raro, com todo o proveito que leio os teus posts e crónicas.
No entanto, hoje terei de te fazer um reparo: a citação da dissidente do PASOK e actual militante do Syriza sobre uma eventual saída do euro não diz mais do que tu ou eu diríamos se disséssemos: se o coiso ou o Relvas nos limparem o sebo hoje, amanhã já cá não estamos.
Mas acresce que, do dossier bem documentado do Luís Branco sobre o Syriza, tudo o que podemos concluir é que, neste momento e oficialmente, o Syriza não está comprometido com a saída do euro, nem a deseja, ainda que em cenário de default ou bancarrota. Todo o discurso politicamente assumido sobre a matéria aponta para uma aposta contrária à saída "independentista" do euro, assente na "europeização" do problema e na demonstração da necessidade de resolver a questão da dívida grega como um problema de toda a zona euro e da UE.
Se já me custa perceber os termos em que por vezes te tornas paladino de uma variante local das teses do KKE, subestimando gravemente - mas não és caso isolado nem, apesar de tudo, um exemplo de extremismo na matéria - as consequências devastadoras da solução da ruptura com o euro = independência nacional e possibilidade de uma política económica alternativa, e pareces não compreender que um país isolado, como Portugal, a Grécia, ou mesmo a Espanha ou a Itália, sobre os escombros da UE, disporá seja como for de muito menos capacidade ainda do que, no quadro actual, para enfrentar as "potências estrangeiras", do mesmo modo que julgo não te dares conta das ameaças de balcanização, eventualmente guerra e proliferação de ditaduras, regimes militares ou autoritários, que a desagregação da UE traria - ou, desgraçadamente para nós, talvez venha a trazer - consigo, acho que aqui pecas também por - quero crer que involuntária - desonestidade intelectual, quando aproveitas uma passagem do dossier que o Luís Branco organizou sobre o Syriza para insinuares que as tuas posições são idênticas às e solidárias das dessa coligação.
O nosso dever e o nosso interesse são contrariar e combater os ensaios de "expulsão" do euro a que vemos que recorrem os porta-vozes do actual governo efectivo da UE, e não apresentar essa solução como a advogada pelo Syriza ou, sobretudo, pela maioria da oposição grega ao memorando, etc.

Cordialmente

msp

E as megatones de petróleo? disse...
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Anónimo disse...
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D., H disse...

Em primeiro lugar, toda a minha solidariedade com povo grego, cuja dignidade é de realçar. Com 20% de desemprego e com austeridade à bruta, e espezinhados os mais desprotegidos, queriam o quê? Que aplaudissem o Venizelos ou o Samaras, ou todo o coro de eurocratas estabelecidos que não abdicam da sua zona de conforto? A situação começa a tornar-se verdadeiramente caricata com os apelos ao “interesse nacional”, vindos de quem vêm. As pessoas também querem viver, nada é imutável…

Por cá, ouvimos com estupefacção o senhor do PSD falar de um Plano Marshall, tal como Cavaco vir hoje dizer – no seu registo habitualmente inócuo - que espera que a troika concilie agora austeridade com crescimento económico...

O melhor para quem vive nesta região…poderá mesmo ser “colocar a banca pública e o Banco Central de novo no centro de uma acção monetária e financeira mais funcional”, mesmo que o senhor Jardim do BCP ache que não foi para isto que se fez o 25 de Abril (convenhamos, Jardim incluído, que os banqueiros “não estavam preparados para tanta liberdade”).

João Rodrigues disse...

Caro Miguel Serras Pereira
Obrigado. A declaração que eu citei faz parte de uma entrevista dessa deputada ao la Vanguardia, que precisamente lhe dá destaque no título. Não creio que seja inócua, antes coloca um cenário que nunca pode ser afastado, até porque é cada vez mais provável. De resto, como sabes, se lês o blogue, já apresentei a posição do syriza e nada do que eu escrevi dá entender neste poste que a saída do euro é a posição desse partido. Rasgar o memorando e fazer default não terá consequências? Estou convicto que poderá conduzir à saída, intenções à parte. De resto, estou tão próximo do kke como tu estás da banca europeia e da troika, que coloca a saída nesse pé dantesco, ou seja, esse tipo de convergências forçadas não nos leva muito longe. O cenário de saída é incerto, mas eu sei que a democracia não depende em nada da zona euro, pelo contrário, mas sim da capacidade popular. Também sei que há vantagens que podem ser aproveitadas e que a reconquista de margem de manobra, como a experiência passada e a de outros países citados mostra, pode bem fortalecer a democracia, que é aquilo que nos une.
Um abraço
João

João Rodrigues disse...
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