sexta-feira, 26 de junho de 2015

Quo vadis, Europa?

A última etapa das negociações entre o governo grego e a troika deve ter eliminado as dúvidas dos europeístas que ainda mantêm os pés na terra. A insistência na austeridade, acompanhada de “reformas estruturais” que degradam o estado de bem-estar e impedem a saída da crise, tornou evidente que as “instituições internacionais” têm uma agenda política. Trata-se de formatar as sociedades europeias, de alto a baixo, pelos princípios de um neoliberalismo fanático, o ordoliberalismo inscrito nos tratados da UE.

O eixo Paris-Berlim já percebeu que esta crise tem de ser aproveitada para completar o projecto de Maastricht. A eleição do Syriza na Grécia e os resultados eleitorais do Podemos em Espanha, ambos à esquerda, aliados ao crescimento eleitoral da Frente Nacional em França e à entrada no governo de alguns países do Norte da Europa de partidos da direita críticos da zona euro, a que se juntou a eleição de um presidente eurocéptico na Polónia, constituem sinais claros de que o projecto europeu corre sérios riscos. Bruxelas está com medo do futuro.

Neste contexto, foi agora publicado um relatório dos cinco presidentes da UE, “Completing Europe’s Economic and Monetary Union”. Este propõe um aprofundamento da UEM visando responder ao risco de colapso do euro, que, agravado por uma possível saída do Reino Unido da UE, poria termo à aventura da construção dos Estados Unidos da Europa por pequenos passos. O documento é muito interessante e deve ser lido com atenção. Limito-me hoje a destacar o seu quadro conceptual porque ele permite perceber melhor por que razão as reivindicações do governo grego não podem ter acolhimento na UE.

O relatório mostra-nos como o quadro mental dos dirigentes, e da tecnoestrutura da UE, interage com a realidade social através dos óculos do neoliberalismo na sua versão alemã. Nele se diz que “o euro é uma moeda bem sucedida e estável” (início da p. 4). Estável? Até parece que os bancos europeus não foram profundamente afectados, nem houve resgates de bancos com dinheiro público por causa da sua participação activa no jogo do casino global. Ao contrário do que diz o relatório, a crise europeia não foi um “choque externo”, “uma tempestade” que atingiu o euro. A Alemanha investiu no sistema financeiro mundial o dinheiro ganho com os seus enormes excedentes comerciais e dessa forma deu um importante contributo para a bolha do crédito que explodiu nos EUA e depois na periferia da zona euro. No entanto, para os 5 presidentes foi um “choque externo” que tivemos de “absorver”.

Publicado na semana em que a elite europeísta anda com o credo na boca, por medo de um Grexit, o relatório perde toda a credibilidade quando invoca o sucesso do euro. Aliás, como é possível falar de sucesso e ao mesmo tempo reconhecer que há 18 milhões de desempregados na zona euro? Será isto apenas uma contrariedade de que agora se vão ocupar? Falemos com clareza: o euro foi um desastre social, sobretudo para a periferia, e isso deveria envergonhar os nossos dirigentes políticos, não fora a sua ideologia que tudo justifica e os interesses dos poderosos que servem.

Quanto à política orçamental, continuará por muito tempo no nível nacional, sempre limitada à acumulação de excedentes nos anos bons para serem gastos nos anos maus. Está excluído um orçamento federal significativo, entendido como instrumento de promoção do pleno emprego, o que se compreende porque não há um estado democrático europeu que o legitime. Por isso reconhecem que na periferia serão precisos “anos de consolidação para recuperar”. O relatório aponta explicitamente o mercado de trabalho, via redução de salários, como o substituto da taxa de câmbio para corrigir excessos de endividamento externo e por isso defende que deve ser ainda mais flexível (“flexible economies that can react quickly to downturns”). Talvez sem salário mínimo, sem subsídio de desemprego e com pouco poder sindical, como no início do século passado.

Finalmente, um salto qualitativo com a atribuição de poderes supranacionais ao comissário responsável pela supervisão e repressão dos desequilíbrios macroeconómicos, aliás inevitáveis numa “economia social de mercado”. Enfim, não difere muito do plano que a Alemanha tinha preparado para gerir a Europa após a vitória rápida que esperava alcançar na Grande Guerra (Jean-Pierre Chevènement, 1914-2014, L’Europe Sortie de l’Histoire?).

(O meu artigo no jornal i)

10 comentários:

Anónimo disse...

o projecto podemos parece bem menos interssante que o Syriza. Como lembra Vítor Dias, recusa os rojos da IU,mas aceita as rosas do PSOE

Sofia Cunha disse...

Ao considerarem o euro uma moeda estável e de sucesso, pergunto-me se serão assim tão incompetentes na análise ou se estarão claramente a assumir objectivos políticos para a União Europeia, diferentes daqueles que os sistemas políticos de cada país estão individualmente a transmitir?

Jose disse...

A discussão da UE está envenenada pelas meias-tintas entre federalismo e nacionalismo.
Fala-se de federalismo para promover transferências de rendimento e estigmatiza-se a emigração em alternativa à denuncia da incompetência nacional de garantir a prosperidade.

Antonio Cristovao disse...

As opções nacionais apontando para uma resistencia a um estado federal são pormenores, ou os malvados alemães devem ignorar?

Anónimo disse...

A discussão sobre a UE está envenenada pelas meias-tintas?

Mas qual meias-tintas qual carapuça.Fartos destas palhaçadas das meias-tintas estamos nós fartos.Por trás deste "palavreado" um pouco untuoso está com uma clareza espantosa o convite à submissão abjecta ao directório europeu, à rendição perante a troika, ao rasgar da soberania nacional, à mais despezível apologia do miguiel de vasconcelos.

Parece que a "competência nacional" está nas mãos do capital sem pátria e sem pruridos.
Veja-se a competêncioa do traste do junker,um dos cabeças do polvo, no escândalo miserável da fiscalidade no Luxemburgo. Veja-se o esvcândalo que constitui o uso por parte de passos e de portas dos mesmos argumentos para começar a ruminar-se em alemão.

Curioso como a extrema-direita, fundamentalsita patrioteira e putrefacat antes do 25 de Abril e habituada a missas em memória dos cadáveres de que era responsável ,agora assume-se directamente como vende-pátrias miserável.
Repare-se contudo neste pormenor maior. É que tanto antes de 1974 como agora fazem o jogo e a apologia do Capital.Antes do capital financeiro, que era a forma de governo de salazar; agora do mesmo capital que é a forma de governo passos/portas/cavaco e restante cambada-

De

meirelesportuense disse...

A decisão do Governo Grego levar a proposta da UE a referendo popular é fantástica! -Será a maioria do Povo Grego quem decidirá e assim deve ser, se querem ficar completamente amordaçados não poderão culpar este Governo por isso, se pretenderem a Liberdade serão mais do que nunca eles próprios Homens Livres!
E retiram toda a máscara à União Europeia, não vale a pena fingir mais. Aprendam Portugueses como é tão bom poder ser LIVRE!...

magoal disse...

É UMA BOA OPORTUNIDADE PARA A GRÉCIA DEIXAR DE PAGAR INTEGRALMENTE A DÍVIDA QUE OS DONOS DA (des)UNIÃO EUROPEIA LHE ATRBUEM, PORQUE ESSE VALOR É INFERIOR AO PREJUIZO QUE ESSES donos, JÁ LHE CAUSARAM E REGRESSAR AO PODER SOBERANO DE TER MOEDA PRÓPRIA.

MANUEL GOMES ALEXANDRE disse...

O REFERENDO NA GRÉCIA É UMA EXCELENTE OPORTUNIDADE PARA A GRÉCIA DEIXAR A MOEDA EURO PORQUE ESTÁ DESAJUSTADA DA SUA ECONOMIA E SUSPENDER TODA A DÍVIDA QUE LHE É ATRIBUÍDA, PORQUE ESSE VALOR É INFERIOR AO PREJUIZO QUE OS «DONOS» DA UNIÃO EUROPEIA JÁ LHE CAUSARAM E RCUPERAR O IMPORTANTE E IMPRESCINDIVEL DIRETO E PODER DE SOBERANIA DE EMISSÃO DE MOEDA PRÓPRIA, E PORTUGAL DEVE FAZER O MESMO SE NÃO QUIZER SER O IV GOVERNO DOS FILIPES, COMO TEM SIDO O GOVERNO DE PASSOS COELHO.

Anónimo disse...

Se não fosse o próprio homem, quem faria os nós que o amarram?
O homem que constrói a cidade, o mesmo homem que cria as sociedades humanas, cria também sua própria amarração. Dentro da antropologia não há livres nem libertos. Há simplesmente seres humanos com tudo o que isso acarreta.
O homem lembrou a Utopia por que vislumbra imagens no Olvido. O homem não e´ livre, e, nunca o será!
O mesmo homem que cria os Deus do Olimpo. Cria também os Diabos do Inferno.
Ele mesmo criara´ formas mais certas de estar na Terra Mãe. Mas ate´ la´ os Rios nunca encherão os Oceanos!
O Siryza, O Podemos, mais os comunistas, socialistas e Sociais-democratas, da esquerda, da direita e do centro, os homens em si, um dia se hão-de unir.
Fazem lembrar o Conde de Volney em as “Ruinas de Palmira” Celebre Cidade Património Mundial (agora destruída) ao juntar todos os líderes numa assembleia perante o GRANDE SENHOR com cerca de seis mil ano de existência… ele estava ao serviço de Napoleão Bonaparte. E também me fazem rir agora que estou no FIM DA LINHA! Por Adelino Silva

Ricardo disse...

mais milhão menos milhão(gabam-se desde algum tempo,neste ano,da baixa da taxa de juros nos mercados que permite o pagamento antecipado ao fmi)aqui está o peso da nossa dívida anualmente http://www.ionline.pt/296298