terça-feira, 2 de junho de 2015

Poiares Maduro e a emigração

Que Maria Cavaco Silva diga que «a emigração sempre existiu, mesmo sem crise», e que o mundo «encolheu», proporcionando aos que abandonam compulsivamente o país todo um universo de «oportunidades», vá que não vá... é Maria Cavaco Silva. Que Joaquim Azevedo, responsável por um relatório sobre promoção da natalidade (tão cauteloso quanto irrelevante), diga que «o problema da queda demográfica não é consequência da crise», pois «é um fenómeno que tem trinta anos», enfim... Agora que Poiares Maduro considere que «o aumento da emigração é uma tendência desde a Segunda Guerra», começa a ser um bocadinho demais. Sobretudo tendo em conta que o ministro-adjunto e do Desenvolvimento Regional, substituto de Miguel Relvas, foi apresentado à opinião pública, em Abril de 2013, como «o académico».


Estará o ministro Poiares Maduro a sugerir, implicitamente, que mesmo os países que hoje exibem saldos migratórios positivos (diferença entre os que entram e os que saem), não têm emigração? Quererá o ministro-adjunto convencer-nos que Portugal está numa trajectória normal e «pré-definida», que torna irrelevantes os impactos da crise e das políticas de austeridade (ainda para mais «além da troika») nas dinâmicas demográficas recentes?

Vejamos os números:

a) A média trienal do número de emigrantes registada entre 2011 e 2013 (o período do «ajustamento» e da «mudança estrutural») chega a superar o triénio mais negro da sangria migratória registada no início dos anos sessenta do século passado (gráfico aqui em cima). Nunca, de facto, ao longo das últimas quatro décadas e meia, se tinha ultrapassado o valor médio de 100 mil emigrantes por ano;

b) O que é ainda mais relevante para a análise dos fluxos migratórios de um país - e o académico Poiares Maduro sabe-o perfeitamente bem - é o «desempenho» (como agora se diz) do saldo migratório. No triénio 2011-2013 Portugal registou saldos médios anuais negativos na ordem dos 30 mil migrantes, quando esse valor era ainda positivo no triénio anterior (em valores próximos de um saldo líquido de 10 mil migrantes). De facto, é necessário recuar ao início dos anos noventa para encontrar saldos migratórios negativos idênticos.


c) E como se não bastasse, a maioria de direita PSD/PP, com o seu glorioso «ajustamento», tratou também de agravar substancialmente a quebra do saldo natural (diferença entre nascimentos e óbitos), dando origem a uma situação absolutamente inédita na história da demografia portuguesa: a acumulação de saldos naturais e de saldos migratórios negativos. Isto é, ao «inverno demográfico» em todo o seu esplendor. Estão pois de parabéns, senhor ministro-adjunto!

22 comentários:

Anónimo disse...

Ficaria mais correto, e o segundo gráfico mais compreensível, se definisse o saldo migratório como a diferença entre os que entram e os que saem (em vez da diferença, como no texto, entre os que saem e os que entram).

Nuno Serra disse...

Tem toda a razão, caro Anónimo.
Está corrigido. Obrigado!

meirelesportuense disse...

Eu até acho que o fenómeno da Emigração começou ainda antes da Fundação de Portugal...Pelo que sabemos teve movimentos contraditórios, umas vezes num sentido outros noutro...Só estabilizou depois do 25 de Abril mas durante pouco tempo. Logo a seguir vieram os Emigrantes de Angola. E mais tarde os de Leste.
Gostei particularmente do movimento no tempo das Descobertas, era sempre em frente, ora para a esquerda, ora para a direita!
Depois fomos para Norte à procura do Bacalhau e da Sardinha miudinha.
Agora estamos um pouco à deriva: China, Rússia, Tailândia?...Dizem que na China até dormem e trabalham debaixo do chão, é tentador...Com os investimentos que os Chineses estão a fazer em Portugal vão acabar por aproveitar o pré-existente em Mira D´Aire...

Anónimo disse...

precisamos de investimento para que o desemprego baixe.
Como somos pobres devíamos atrair investidores, que nos ajudassem a ultrapassar o problema.

cumps

Rui Silva

Nightwish disse...

São os alunos em Erasmus, Nuno...
Se dúvidas ainda havia sobre a seriedade e a sanidade deste governo, Maduro acabou com elas hoje.

Anónimo disse...

A um post sobre as trafulhices do poiares maduro sai um comentário quase que em defesa da prostituição nacional.

A Maria cavaco silva subscreveria também esse desejo e diria que "prostituição sempre houve mesmo sem crise".

E botaria um letreiro na lojeca a solicitar mais investimento porque como somos pobres vale tudo.

Poiares e maria...estão bem para o papel

De

Anónimo disse...

E as fontes?...

pvilela disse...

Segundo o Department of Work and Pension britânico, os registos de novos trabalhadores portugueses no Reino Unido passaram de uma média de 10.000 por ano para uma média de 30.000 por ano desde 2010.
Podem fazer a vossa propria pesquisa aqui
https://sw.stat-xplore.dwp.gov.uk/webapi/jsf/tableView/tableView.xhtml

E explicar a Poiares Maduro que o triplicar sustentado de um valor é uma alteração significativa!

Já a Ministra das Finanças quando estev em Londres teve a mesma conversa - a "emigração teria sido a mesma, com ou sem crise".
Eu chamar-lhe-ia consciẽncias culpadas.

Jose disse...

A indignação da esquerda face às consequências do facilitismo esquerdista que infestou a política nos últimos quarenta anos seria de espantar não fosse saber-se que é sua forte convicção que a sua política é sempre mais do mesmo e que se corre mal é sempre por dose insuficiente!

Anónimo disse...

Desde que Manuel Nazareth publicou "O Envelhecimento da População Portuguesa", que persiste a minha incapacidade de compreender porque é que não parece aceitável que a população de um país seja uma variável ?! No tempo do meu avô, a exploração agricola que hoje administro empregava 24 trabalhadores permanentes e contratava 1800 jornas por ano ! Hoje faça o dobro com 2 tractoristas ! O panorama é o mesmo nos serviços ou na indústria. O crescimento da economia não implica necessariamente mais emprego. Portanto, continuo com a dúvida: qual é exactamente o problema de a população de um país se reajustar para baixo ?

MRocha

Nuno Serra disse...

Caro anónimo das 2h27 (3 Junho), as fontes são a Pordata e o INE.

Anónimo disse...

Este governo nunca mais muda para começarmos todos a fazer filhos. Os hotéis deviam começar já a preparar uma promoção para a noite eleitoral!

Anónimo disse...

" facilitismo esquerdista que infestou a política nos últimos quarenta anos"

Não passa. As políticas de direita têm infestado os últimos decénios. Tanto que temos um sujeito de nome cavaco silva, parceiro também intelectual e de honestidade de dona cavaco silva, como recordista nacional de ocupação de altos cargos na governança.

Que se chame de "esquerdistas" a coisas como cavaco ou poiares ou santana ou durão ou sócrates ou passos ou portas só mesmo vindo dum fundamentalista de direita-extrema.

Mas a necessidade de propaganda e de apagar os passos trilhados dá nisto. No fundo maria silva não está sozinha, nem o académico poiare. Esta é a forma comum de manipularem e de aldrabarem. Uma espécie de denominador (comum) da mediocridade e da desonestidade intelectual. A que se somam outros predicados bem mais pesados e repelentes.

Quando confrontados com os factos reagem assim.Ou fogem pela porta baixa arranjando lugares em hotéis rasca, utilizados por tal tipo de gente como pretexto idiota para fazer humor com o descalabro a que o neoliberalismo nos tem conduzido.

De

L. Rodrigues disse...

MRocha toca num ponto importante. Também creio que não há números mágicos para a população e que é natural que esta varie de acordo com os recursos disponíveis. Colocam-se no entanto duas questões, quanto a mim. O que fazer durante o período de adaptação, e qual a distribuição da riqueza produzida com menos pessoas (ou seja, quem beneficia dos ganhos de produtividade).

R.B. NorTør disse...

MRocha,

Em termos de "princípios" e de "moral" acho que nenhum, porque ainfa ninguém me conseguiu explicar os problemas de um Ivnerno Demográfico sem entrar pela Economia adentro.
Já em termos económicos, haverá por aqui quem melhor o explique, mas resumidamente, abraçar o Inverno Demográfico apenas poderá ser feito com uma mudança de paradigma extrema.

Anónimo disse...

"descalabro a que o neoliberalismo nos tem conduzido"

Por falar em alternativas:

http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/tag/gr%C3%A9cia%20antiga

Para memória futura.

Anónimo disse...

Totalmente de acordo com o anónimo das 10.57.
Da gentalha direitista e reaccionária nada se pode esperar a não ser a estupidez natural.
É assim neste país como todo o mundo. A gentalha direitista e estúpida não presta nem nunca prestou. De tal maneira que ainda hoje o mundo está a sofrer as consequências das politicas de dois dos piores representantes de tal gentalha ( a Margareth T. e o Ronald R.- que já lá estão e que, faço votos, a terra lhes seja bem pesada).

Anónimo disse...

O que Portugal precisa é de um governo patriótico, com bons ministros e secretários de estado, que nos salve e resolva o problema do desemprego, do crescimento, da pobreza, da dívida, do défice, da natalidade, da segurança social, da educação, do SNS, ... enfim, que resolva tudo o que este governo neo-liberal provocou.
Mal posso esperar pelas próximas legislativas para votar. Se todos votassem estava o problema resolvido.

Anónimo disse...

É do cnhecimento geral que a emigração em Portugal é hoje superior à decada de sessenta do século passado.Durante essa decada 0 País estava mergulhado numa guerra em três frentes , havia um regime autoritário e havia uma situação de grande pobreza , factores muito importantes que contribuiram para aquele facto.
Tendo a emigração hoje números superiores ao da época citada , fácilmente se conclui que a situação económica , financeira e social , é hoje muito grave.negar o contrário só pode ter como motivação um fanatismo ideológico.Fácilmente se verifica também que se regressou a uma situação de subdesenvolvimento muito semelhante ao daquela época. Verificou-se um fenómeno pouco abordado e estudado que é a desindustrialização.Outra questão nunca abordada e que parece que há receio da abordar mesmo no seio dos partido de esquerda é o estabelecimento de um balanço donde se possa quantificar se foi positivo ou negativo a troca da EFTA pela CEE

meirelesportuense disse...

Na década de sessenta do Século passado, o Português fugia da miséria em que se encontrava, particularmente o que vivia nos campos ou zonas Rurais.
Fugia muitas vezes a salto em condições deploráveis, correndo riscos de vida, e ia encontrar em muitos casos, condições igualmente miseráveis, como nos guetos de Paris, nos bairros de lata da capital Francesa...Mas nessa altura ainda havia algum trabalho em Portugal, embora muito dele fosse quase trabalho-escravo, assalariado a preços muito baixos -em Angola ou Moçambique ganhava-se 10 vezes mais-, hoje quase não há trabalho, em todo o lado só existe emprego nos supermercados -todos ocupados-, ou para fazer limpezas nas casas dos que ainda possuem algum emprego decente.
E as perspectivas são terríveis, mesmo para quem tem habilitações superiores...

Anónimo disse...

Queria fazer uma ressalva em relação ao comentário anterior ( 3 de junho de 2015 -20.50 ) onde se lê " Negar o contrário " deve-se ler "Dizer o contrário "

mario olivares disse...

Excelente Nuno, é inevitavel a emigração?, o dito de outro modo porque os mexicanos emigram para USA e não ao contrário. Ha uma emigração "natural", os ingleses emigram para Australia, Nova Zelandia, ou os sicilianos emigraram para Milano, como quem vive em San Juan emigra para Buenos Aires. Creio que a mobilidade da força de trabalho é inerente ao Capitalismo, como a emigração do Campo a Cidade gerada pela indutrialização do agro, como a emigraçao gerada pela desindustrializão.
O que tem de particular esta emigração forçada dos portugueses? É gerado pelo enorme desemprego que as medidas de austeridade provocaram, por isso incluso engloba todo tipo de profissões, é também provocada pela queda dos salários, ha muitas profissões que hoje são remuneradas muito melhor na Europa que Portugal, e os portugueses sabem disso. Dizer que emigração sempre houve, sempre houve protugueses que emigraram é verdade, e continuaram a emigrar, mas como tu bem colocas, são bue de malta, o que ira perjudicar ainda mais a debil economia portuguesa, e depois ha um desperdicio criminal, na formação de médicos, enfermeiros, dentistas, enegenheirods, avogados.