quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

A dinâmica da insolvência


Ouço na SIC-Notícias os comentários de doutos professores de economia e não quero acreditar no que ouço. Melhor, no que não ouço. Com discursos cautelosos relativamente à evolução das taxas que teremos de pagar em próximos leilões da dívida pública, todos deixam implícito que, gerindo bem a austeridade, controlando bem a despesa pública, fazendo as ditas “reformas estruturais”, o País até será capaz de ultrapassar a crise. Uns preferindo que esse esforço seja feito sem intervenção externa, outros admitindo que é necessária (e mesmo inevitável) uma “ajuda” da UE/FMI.

Pelo menos na SIC-Notícias tive direito a uma excepção. Parabéns ao nosso colega de blogue, o deputado do BE José Guilherme Gusmão, intervindo no debate moderado pelo jornalista José Gomes Ferreira já depois das 23h. Foi o único economista que disse, preto no branco, que só uma intervenção da UE, de natureza federal, nos pode salvar. E sublinhou que a “ajuda” actualmente oferecida pela UE/FMI traria austeridade em dose reforçada, o que só aprofundaria a crise das finanças públicas, para além das outras crises (económica, social e política).

E, acrescento eu, só ganhamos em enfrentar a realidade nua e crua. Que é a seguinte:
1) por muito perfeita que seja a execução orçamental no corrente ano, o ataque à dívida pública portuguesa não vai abrandar porque é a arquitectura institucional do euro que está em causa;
2) por imposição da Alemanha que vê nisso uma questão de princípio para punir países despesistas, a “ajuda” da UE/FMI terá uma taxa de juro idêntica à dos acordos celebrados com a Grécia e a Irlanda, ou seja, entre 5 e 6%.

Acontece que uma taxa de juro desta ordem de grandeza não é sustentável, nem sequer no curto prazo. Teodora Cardoso, administradora do Banco de Portugal, já muito diplomaticamente o deu a entender. Para que se possa ver com mais clareza o buraco em que estamos metidos (nós e o resto da periferia da Eurozona, o que além da Espanha, também inclui a Itália … e a Bélgica?) façamos umas contas com recurso a uma equação simples que vem nos manuais de macroeconomia. A variação do rácio da dívida pública relativamente ao Produto Interno Bruto [Δ(B/Y)] depende da soma do saldo orçamental primário [SPrim] com o efeito dinâmico da dívida. Este é dado pelo produto da dívida do ano anterior [(B/Y)-1 ] pelo diferencial entre a taxa de juro média da dívida e a taxa de crescimento do Produto Interno Bruto [(i-y) ]. Aqui trabalho com taxas nominais.

Alguns pressupostos muito benevolentes:
a) Mesmo com um reforço de austeridade exigido pela UE/FMI, a recessão prevista pelo Banco de Portugal para 2011 confirma-se; b) o País sai da recessão em 2013 graças a um grande esforço das exportações; c) a austeridade não é desastrosa do lado das receitas fiscais pelo que os saldos primários irão diminuindo; d) não considero factores exógenos, positivos ou negativos, na evolução da dívida (privatizações, BPN, …); e) com a reciclagem da dívida de curto e médio prazo e de uma parte da dívida a dez anos a uma taxa de 5,5%, a taxa de juro média da dívida pública alcança o valor de 4,5% em 2012.

O que nos dizem estas contas:
- Admitindo o recurso à “ajuda” da UE/FMI já nas próximas semanas, ainda assim em 2012 o rácio da dívida ficará perto dos 100%.
- Mais ainda, a “ajuda” da UE/FMI nem sequer permite estabilizar o rácio da dívida. Para o conseguir em 2013, ao nível de 99,4%, o Governo teria de apresentar um excedente orçamental de 3,5%.

Sabendo nós o que foi preciso em termos de cortes na despesa para ambicionar uma redução do défice no corrente ano, a que se seguirá mais um ano de cortes para continuar a reduzir o défice primário, é difícil imaginar o que significa apresentar em 2013 um excedente de 3,5% do PIB sem o apoio de um crescimento que se veja. Ou seja, ao contrário do que muitos comentadores deixam entender, a “ajuda” da UE/FMI não trava a dinâmica da dívida em que estamos lançados.

Por muito que nos digam que o leilão de ontem foi um sucesso, realidade é simplesmente esta: no actual quadro institucional, o Estado Português já é insolvente. Não acham que é tempo de começarmos a discutir um verdadeiro Plano B?

9 comentários:

Anónimo disse...

Como pode haver uma intervenção federativa se não há federação europeia?
Curioso.


Jorge Rocha

Anónimo disse...

Porquê punir e não apenas responsabilizar e exercer pressão contra o laxismo? Tivemos uma comissão europeia laxista e foi no que deu. Na Islândia o chefe de governo é julgado, na Grécia os criminosos que montaram uma fraude que a todos prejudicou não têm qualquer problema. Esta conivência do País com os governates criminosos não é suspeita. A mim não me parece castigo mas responsabilidade.


Jorge Rocha

Jorge Bateira disse...

Caro Jorge Rocha

A emissão de dívida pública da União Europeia seria uma intervenção da natureza federalista. Precisamente por isso é que tem sido rejeitada por Angela Merkel. Mas sem alguma mutualização do risco da dívida não se consegue fazer baixar significativamente as taxas de juro. E, como pretendi mostrar, com a taxa de juro a que a Grécia e a Irlanda foram "ajudadas" não se consegue evitar o incumprimento. Aliás, a Grécia já não cumpriu o primeiro pagamento e na Irlanda já se fala em renegociar a taxa. Mas por aqui ainda se fala com satisfação numa taxa de 6,7%!

rui fonseca disse...

Percebo os pressupostos e concordo com a tese: Portugal não tem hipóteses de se safar desta pelos seus próprios meios com assumpção de pagamento de juros a estes níveis.

Mas discordo que "por muito perfeita que seja a execução orçamental no corrente ano, o ataque à dívida pública portuguesa não vai abrandar porque é a arquitectura institucional do euro que está em causa;"

A irmos por aí tal significaria que não há nenhum esforço a fazer para conter muitas despesas públicas inúteis para o crescimento económico e ou a prestação de serviços sociais essenciais. E que o efeito em espiral crescente dos juros não possa inverter-se com uma política de austeridade conveniente.

Evidentemente que a emissão de eurobonds resolveria aparentemente a questão dos juros mas não a contenção de muitas despesas inúteis. Mas, sobretudo, é inexequível porque os alemães (e não só) não querem.

Merkel sabe que essas despesas existem, até porque todos os dias são noticiadas nos nossos jornais.
Sabe que os alemães não querem, seja a que título for, embarcar numa espiral inflacionista.

De tudo concluí, já há muito tempo, que não temos alternativa senão renegociar a dívida e os juros com os credores. Continuar a tentar enrolar a manta é que, certamente, não nos leva a lado nenhum.

Já agora. Posso deduzir que abandonou esta ideia? "Uma decisão dessa natureza (abandono do euro) teria de ser convenientemente preparada, mantida em sigilo, e executada com rapidez e determinação, por forma a impedir a fuga de capitais e a corrida aos bancos. Isso implicaria o seu controle público durante algum tempo. Aliás, com a experiência adquirida na introdução da moeda única, deve ser possível uma passagem rápida e organizada para o escudo."

Sarcodina von Mastigophora disse...

entre 5 e 6%

pois e 5 e 6% quê anuais?

é que os 6,7% são a pagar no 10ºano

se forem a 5% no 10º ano

e compensarem nos restantes 9

é que estranhamente nunca se fala da taxa média

quais os custos dos juros da UE a 10 anos

não que importe muito pois não amortizamos a dívida há anos

Sarcodina von Mastigophora disse...

é que só se fala no pagamento dos juros

e planos para tentar amortizar a dívida nesses 10 anos

há algum???

moi disse...

olá
vim cá ver como o João Rodrigues descalçava a bota perante o sucesso do leilão..no arrastão( onde todos estão felizes com a cena ) népia e aqui népia também.deve estar em quarentena a matutar como falar das políticas de austeridade e mercados após o "sucesso" de 6. tal de juros. as melhoras.

moi disse...

upss ..népia não. reescreveu um post , que não se percebe nada , lá pra baixo. as minhas desculpas e as melhoras na mesma. economia é uma "ciencia" difícil , quase tanto como a astrologia.

Carlos Albuquerque disse...

Quando há algum tempo Medina Carreira fazia umas contas deste género, chamavam-lhe nomes e a esquerda votava a construção do TGV e outras obras "imprescindíveis"...

Mas mais vale tarde do que nunca, fazer contas para o futuro.