sábado, 29 de janeiro de 2011

Deolinda. Parva que eu sou.


Sou da geração sem remuneração e não me incomoda esta condição.
Que parva que eu sou!
Porque isto está mal e vai continuar, já é uma sorte eu poder estagiar.
Que parva que eu sou!
E fico a pensar, que mundo tão parvo onde para ser escravo é preciso estudar.

Sou da geração casinha dos pais, se já tenho tudo, pra quê querer mais?
Que parva que eu sou
Filhos, maridos, estou sempre a adiar e ainda me falta o carro pagar
Que parva que eu sou!
E fico a pensar, que mundo tão parvo onde para ser escravo é preciso estudar.

Sou da geração vou queixar-me pra quê? Há alguém bem pior do que eu na TV.
Que parva que eu sou!
Sou da geração eu já não posso mais que esta situação dura há tempo demais
E parva não sou!
E fico a pensar, que mundo tão parvo onde para ser escravo é preciso estudar.

5 comentários:

raisuna adimar disse...

é que até os escravos têm algo

têm dono

até os que têm dívidas tem algo

aqueles que nada têm

nem fome se podem dar ao luxo de ter

João Carlos Graça disse...

Caro Nuno
Deixo isto como comentário ao seu post, mas também podia ficar como comentário ao post anterior, do José Maria Castro Caldas.
Esta cena dos Monty Python, aqui
http://www.youtube.com/watch?v=8EI7p2p1QJI
faz referência ao que foi, no ano do próprio filme, 1979, o lema da eleição da sra. Thatcher: "...you're never going to get anywhere in this life, unless you're prepared to do a fair day's work", etc. (cf. minuto 2 e vinte).
Creio que em todos os tempos poucos filmes terá havido de tão aterradoramente cómicos como esta obra prima do Terry Jones.
Até mesmo porque esse parece já se ter tornado realmente um estado de coisas pelo menos geracional, talvez, quem sabe, essa fosse uma boa base para recomeçar a falar das coisas todas, para tentar repensar tudo. Em particular: será que alguma coisa de bom (de humanamente bom, de fundamentalmente bom) ainda é verdadeiramente esperável das sociedades "ocidentais", das sociedades que elegeram Thatcher e Reagan, e em que depois os "socialistas" se convenceram de que tinham de começar a falar como Thatcher e Reagan (e a fazer ainda mais do que eles) se queriam alguma vez voltar a ganhar eleições.
Bom, e daí, talvez este meu comentário seja um disparate. Deixem lá, não liguem. Foi só mesmo desatino meu...

D., H disse...

“Sou da geração vou queixar-me para quê?”

Espere sentado
Ou você se cansa…

E o desencanto não é só por estas bandas, o pano de fundo é global e é sombrio. No lado A, parece que vale mais ser reformado que activo… No lado B, a igualdade de oportunidades não passa de uma treta.
Fresca é a música dos Deolinda.

Rui Costa disse...

Embora goste imenso desta música, com uma letra certeira, a reacção do público não me surpreende. Talvez seja mais forte do que seria há 1 ou 2 anos, mas músicas de intervenção sempre tiveram, a meu ver, grande aceitação no público português.
O grande problema é que isso não se materializa nem numa acção progressiva, quanto mais numa acção revolucionária, porque não a querem! Fogem dela como o diabo da cruz porque, "deus me livre se o Bloco, o PCP ou a esquerda do PS algum dia chegam ao governo!". Não vamos ser idealistas, uma parte significativa do povo português protesta quando está mal, ou quando está pior que o vizinho. Se o caso muda de figura o seu discurso muda.

Maquiavel disse...

O Rui Costa acertou na mosca, parece um daqueles passes certeiros do seu homónimo!

O mais interessante é que após a eleiçäo a Tatcher e o Reagan propuseram-se a eliminar os postos de trabalho onde se fazia o tal "fair day's work" em favor da economia de casino da especulaçäo financeira, ou seja, trabalho *a sério* nem pensar. Aí começou o caos.

Agora se vê, até a alta do preço dos cereais tem mais a ver com a especulaçäo dos futuros do que com os anos agrícolas. Mas tem cabimento?

Ah, mas a economia virtual gera bem mais PIB, olhai a Isländia e Irlanda onde ele disparou à conta disso! Virtual é que é!

...

Ahn? A Isländia e Irlanda faliram? Näo pode! Quando? Tás a gozar! Bem, mas isso agora näo interessa nada...