domingo, 21 de fevereiro de 2010

Notas sobre sedes de poder

Mais um documento fraquinho. Como fraquinhas têm sido todas as recentes posições colectivas da SEDES. Mais um relambório que mascara mal o projecto de submissão total da sociedade portuguesa às necessidades de uma utopia capitalista: “promover a criação de condições estruturais que permitam a adaptação da economia portuguesa às novas realidades de um mercado global, livre e altamente competitivo.” Esta é a ideia central do documento da SEDES. A economia global “livre” é assim uma espécie de facto da natureza: já aqui tentei desmascarar esta ficção que tem por efeito promover a via chinesa, mas sem política cambial, industrial e de controlo de capitais e do crédito, para um crescimento que nunca chegará.

Não se vê a insustentabilidade socioeconómica e política deste projecto, nem com todos os desequilíbrios que têm sido gerados. Não se vê que a estagnação da economia portuguesa é o resultado de um processo de integração europeu mal conduzido, mas sempre aplaudido, que reproduz dentro da Europa os desequilíbrios nas relações comerciais internacionais e nos fluxos financeiros descontrolados. Passa-se pela maior crise económica das últimas décadas como se não tivesse sido nada ou como se tivesse sido uma coisa que cai do céu, qual choque exógeno. Omissões só proporcionais ao vazio aparente de propostas.

Percebo bem: não convém analisar as causas da crise, das desigualdades socioeconómicas à liberalização financeira e comercial, nem o que evitou até agora a grande depressão: demagogicamente, ignora-se que os aumentos do défice e da dívida pública são a consequência da estagnação prolongada, e em especial da última crise, e não a sua causa. Além disso, num contexto de fragilidade económica, fazer, precipitadamente, da consolidação orçamental o fim último da política económica, pode matar a retoma e colocar-nos de novo nas armadilhas da depressão, como aliás alertam diversos economistas num país onde o debate é mais plural do que aqui: a consolidação orçamental só deve realizar-se, só pode realizar-se, num contexto de crescimento robusto. Esquece-se, adicionalmente, que o Estado predador, que aparentemente se denuncia, é o que resulta sempre, aqui ou em qualquer outro lugar, da aplicação prática das receitas teóricas do liberalismo económico: as parcerias público-privadas e as privatizações de sectores estratégicos são só dois bons exemplos do Estado capturado por uma burguesia crescentemente parasitária.

Sabem o que eu acho? Pelo menos, o seu colega Vítor Bento diz ao que vem com clareza e por isso é o melhor dos economistas-2012 que neste blogue temos criticado: cortes salariais, num país onde o salário mediano anda pelos 700 euros, e o trabalho como simples mercadoria para ser usada e descartada em função das necessidades de uma mítica “economia global livre”. É impressionante como uma ficção grosseira continua a alimentar projectos bem reais de transferência de custos sociais para os trabalhadores. Aceita-se pacoviamente todos os muito políticos constrangimentos europeus como outro facto da natureza. Será que é porque isso facilita a destruição do Estado social e a instituição do desemprego como mecanismo disciplinar, objectivos mal disfarçados por um pensamento económico mágico que tem em Belém o seu centro difusor?

De resto, é sempre interessante ver um antigo líder do lobby da banca subscrever um documento onde se fala vagamente, claro, da “promiscuidade dos interesses”. Que esta gente domine o debate económico como se tivesse chegado ontem ao país diz tudo sobre o consenso medroso e desmemoriado que aqui vigora. A esquerda não pode ter dúvidas: as sedes de poder são o adversário principal no campo das ideias, mesmo que estas não abundem por essas bandas...

4 comentários:

João Leitão disse...

Numa palavra: excelente!

Mas deixe-me dizer-lhe o seguinte: uma das soluções para o nosso futuro global colectivo, passa por superar as dicotomias esquerda/direita e liberal/conservador e criar novas categorias.

João Leitão

Co-fundador do Projecto Coisas do Vizinho

Co-organizador do Colóquio: Transição para uma economia e cultura pós-carbono

Bruno Silva disse...

"as sedes de poder são o adversário principal no campo das ideias" !

Concordo totalmente! Vamos lá atacar os estado burocrata e os seus boys!

Caro João Leitão, essa da dictomia liberal/conservador...hmmm.. o liberal é de direita (laissez faire). O conservador pode ser de direita ou de esquerda... a certa altura (2ª guerra mundial) esta noção perdeu-se quando os de extrema esquerda (Nazis) se viraram contra os de extrema-extrema esquerda (URSS) e, anedoticamente, ficaram rotulados de "Direita".. mas enfim... (ou vai me dizer que o Hitler promovia o laissez faire e um estado reduzido?)

Caro João Rodrigues, então globalização do mercado livre é uma artimanha arquitectada pela classe burguesa? Eu acho que você é que tem uma ficção paranóica…

Quando ainda hoje se vê tribos índias a realizarem operações comerciais livres entre si… sem qualquer barreira.. não lhe parece que o comércio livre é mais do que um DIREITO da humanidade?

Agora, se consumimos mais do que produzimos, é obvio que ficamos mais pobres.. mas a culpa é sobretudo nossa.. não do sistema.. a não ser que considere que as pessoas são umas criancinhas inimputáveis que não podem ser responsabilizadas pelos seus actos… mas enquanto houver pessoas como você a ilibarem o indivíduo comum das suas responsailidades, muitos vão continuar a serem mesmo irresponsáveis..

Bruno Silva

Co-fundador do projecto MaisIndústria.pt :)

Jorge MAteus disse...

caro João, todos sabemos que o objectivo dos ricos sem dinheiro(especuladores bolsistas)é a libertinagem e não o mercado livre.
venha dinheiro de preferência quanto mais sujo melhor. e que se este dinheiro falhar então aparece o estado a repor o equilíbrio á custa dos nossos impostos e da riqueza que criamos com o nosso trabalho.
bi-be-vilaseca-JM

JP Santos disse...

Leio este blog sempre com bastante atenção mesmo quando, como acontece quase semnpre divirjo do pensamento.
Concordo com várias das coisas que aqui são ditas e preocupa-me as possibilidades de crescimento da economia portuguesa no contexto das tais "realidades de um mercado global, livre e altamente competitivo", como as dúvidas/críticas aos modelos de empresarialisação de serviços públicos e o recurso às parcerias público-privadas. E concordo, julgo que será consensual, que será muito dificil concretizar a consolidação orçamental sem um crescimento económico (senão robusto) pelo menos significativo. Infelizmente, penso que a questão é a de como obter esse crescimento e temo que dizer que "a consolidação orçamental só deve realizar-se, só pode realizar-se, num contexto de crescimento robusto" seja em boa parte uma questão de wishful thinking. Existe uma alternativa menos agradável mas porventura infelizmente mais provável que tem vindo a ser salientada por economistas como Krugman e Blanchard a de que tenhamos pela frente um processo de ajustamento longo e doloroso.