sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Para lá da economia-2012

Muitos economistas falam como se tivessem tido acesso à profecia que proclama o fim do mundo em 2012; profecia que se concretiza num cinema perto do leitor, cortesia de Hollywood. A radiografia da cena intelectual portuguesa, feita pelo filósofo João Cardoso Rosas no jornal i, aplica-se-lhes na perfeição: “[P]ara nós o tempo tem um sentido, ou seja, decorre entre um qualquer alfa e um ómega final. Se, em certos momentos de optimismo social, o ómega é vivido como utopia, noutros é experienciado como apocalipse”.

O apocalipse económico está mais na moda, mas curiosamente este é anunciado pelas mesmas vozes, as que quase monopolizam o debate público, que até ao início da grande crise do capitalismo neoliberal, em 2007, tinham participado activamente na grande utopia de mercado que nos levou até ao actual desastre económico português e internacional: um processo de integração económica marcado, entre outras coisas, pela liberalização financeira, por políticas públicas que fragilizaram o mundo do trabalho e por uma desatenção às necessidades dos sectores industriais.

O resto do artigo, escrito em co-autoria com o Nuno Teles, pode ser lido no Le Monde diplomatique - edição portuguesa deste mês.

14 comentários:

Anónimo disse...

O crescimento do estado português até metade do PIB nacional é o reflexo de uma ideologia neoliberal?

Anónimo disse...

Os anos de António Guterres no poder foram um reflexo de ideologia neoliberal?

Anónimo disse...

O forte crescimento do sector da construção civil devido a uma elevada promiscuidade entre poderosos burocratas e a administração de empresas privadas é o reflexo de uma ideologia neoliberal?

Anónimo disse...

A manifesta falta de visão de mercado das universidades que são postas num pedestal de intelectualidade, pois é opinião de alguns, que não pode ser manchada pela frieza mundana do mercantilismo é o reflexo de uma ideologia neoliberal?

Anónimo disse...

O crescimento desregulado e sem critérios eficazes da segurança social, que todos os santos 14 meses do ano vai "sacar" 23,75% do rendimento de cada trabalhador às empresas e 11% do rendimento aos próprios trabalhadores, e que acaba por desmotivar e alhear muita gente da muito mais eficaz solidariedade espontanea e directa feita com muita maior proximidade e justiça, é isto um reflexo de uma ideologia neoliberal?

Anónimo disse...

São os salários elevados, pagos pelos contribuintes, que alguns professores mais velhos auferem para darem uma ou duas aulas por dia e depois fazerem balurdios em explicações e aulas em escolas particulares um reflexo de uma ideologia neoliberal?

Anónimo disse...

É a total inexistência de um discurso responsabilizador e que apele aos deveres individuais, substituído pela demagogia populista um reflexo de uma ideologia neoliberal?

Anónimo disse...

São o acréscimo da burocracia ao nível da justiça e o decréscimo da autoridade ao nível da segurança, e que têm como objectivo uma das mais consensuais funções do estado que passam pela manutenção das liberdades individuais um reflexo de uma ideologia neoliberal?

Anónimo disse...

o neoliberalismo tem umas costas tão largas...


Bruno Silva

Marcadores disse...

Esta conversas de economistas que todos os dias vemos na televisão ou lemos nos jornais, de que os problemas do 'mundo' são problemas económicos e se resolvermos os problemas económicos pelos mecanismos da economia o 'mundo' fica salvo é, para mim, conversa da treta.


Os problemas económico-financeiros que as sociedades ditas ocidentais hoje apresentam foram criados pelos economistas, isto é, pelas políticas económicas aplicadas por estes ou outros ditos pensadores e fazedores das economias dos países.
São estes senhores 'engenheiros da moeda' que ao raciocinarem (mesmo que de boa fé) sobre as sociedades destas formas económico-financeiras, que levaram a todo este global descalabro.
E vêm agora com receitas e medicamentação do mesmo veneno que aplicaram à sociedade. O problema e solução, neste caso são faces da mesma moeda, logo terá de se repensar o que levou a sociedade a este caos. E para mim, os 'economistas' não estão no lote dos que podem agora opinar, quanto mais pensar.
O problema existe porque a sociedade (o Homem) evoluiu no sentido do 'dinheiro' em vez da 'felicidade' (realização enquanto seres humanos). Não é por acaso que aparece o ditado “o dinheiro trás a felicidade”. E é por isso que aparecem os ‘economistas’ para nos fazer ganhar dinheiro. Só que a realidade (o presente) mostra que não foi assim.
O dinheiro trouxe sim, miséria para muitos e dinheiro (poder) só para alguns.
Certo é que já não andamos de ‘pés descalços’ nem vivemos em ‘casa dos pais’. Mas certo é também que nos custa imenso andar calçados e pagar a prestação da casa e não temos vida para além destas efémeras regalias. Esquecemo-nos de ser felizes.
Temos uma aparente melhor vida mas não somos mais vazios. Quem só evolui nos bens e esquece a alma, torna-se pior ser humano. Hoje todos os nossos filhos (e até nós) têm um curso superior (são doutores) mas estão desempregados ou a trabalhar fora da área de formação e ganhar de forma insuficiente (não chega para as despesas que assumiram) e não estão realizados (são infelizes).
A sociedade só poderá regenerar-se através dos valores sociais e da família (da vizinhança, do bairro, da cidade e do país) que se foram perdendo no caminho inverso do poder social – económico. Temos de voltar a perceber que não somos todos iguais, não temos todos direito ao sucesso económico (direito à propriedade) pelo facto de existirmos.
Perdeu-se a vivência e aprendizagem com os mais velhos (vão para os lares ou são abandonados) e as crianças perderam a educação dos pais/família (vão para a creche ou ficam fechadas em casa ou na rua).
Evoluímos no sentido de mais instrução mas abandonámos a educação. Porque a escola não trás obrigatoriamente educação. E era possível ter conjugado as duas e eu quero acreditar que ainda é possível. Mas reconheço que o temo urge e já é muito difícil de o fazer porque estamos a atingir uma fase em que as gerações que têm ainda educação já estão a 'morrer'. E ninguém pode dar o que não tem e a geração da economia (dinheiro) só pode dar o que tem, dinheiro e este começa a faltar e a estar muito caro.

O dinheiro pode ajudar a fazer a felicidade, mas só por si, não a dá. Só mesmo a efémera e essa tem juros altíssimos a pagar e caminhamos para uma sociedade que já não cumpre os seus compromissos, porque infelizmente é academicamente culta mas não é educada e por conseguinte já não tem honra.

Bruno Silva disse...

Pronto.. vamos todos trabalhar menos então.. seremos mais felizes...

Mas.. se todos trabalharmos menos vão ser precisos mais médicos, enfermeiros, professores, bombeiros, juízes, polícias, administrativos, etc..etc.. para manter o mesmo nível de "serviços públicos" que temos actualmente..

uma dúvida.. se com o nível de esforço actual já não os conseguimos pagar.. como será se passarmos a trabalhar menos?

Os portugueses gastam mais do que produzem e ponto final..que culpa têm os economistas disso? Na hora de produzir viramo-nos para nós próprios (serviços públicos e privados) na hora de consumir viramo-nos para dentro e para fora.. mas isto é um problema dos portugueses, não de teoria económica... o Liberalismo dá-nos a Liberdade, mas com a liberdade vem a responsabilidade, nós preferimos só pegar na primeira..

Luís disse...

Malvados dos economistas que dizem que não se pode gastar mais do que o que se tem.

E antes fosse que as políticas económicas deles fossem seguidas. Mas ainda não vi comércio livre internacional sem barreiras (uma grande ferramenta para tirar gente da miséria), não vi diminuição do peso do estado na economia. Onde é que estão as políticas neoliberais?

E sim, muitos dos problemas do mundo são económicos. Pode-se perder na procura da "felicidade", mas ainda bem que tem um tecto e barriga cheia enquanto o faz. Infelizmente, ainda há muita gente pelo mundo fora que não se pode dedicar à procura dessa felicidade porque ainda tem que lidar com os "problemas económicos".

"Historically, poverty reduction has been largely a result economic growth.[4][5] The industrial revolution led to high economic growth and eliminated mass poverty in what is now considered the developed world.[3][5] In 1820, 75% of humanity lived on less than a dollar a day, while in 2001, only about 20% do.[5]" (wikipedia, nem sempre fiável, mas na maior parte das vezes)

André Filipe disse...

"Historically, poverty reduction has been largely a result economic growth.[4][5] The industrial revolution led to high economic growth and eliminated mass poverty in what is now considered the developed world.[3][5] In 1820, 75% of humanity lived on less than a dollar a day, while in 2001, only about 20% do.[5]"

aahhahaha santíssima ignorância... Assim também eu era liberal!
Como é óbvio e basta abrir qualquer livro de história do secundário, a revolução industrial do século XVIII não acabou com a pobreza em massa. Pelo contrário, gerou grandes massas de trabalhadores não especializados assalariados sem discriminação de sexo ou idade, sem direito a contracto de trabalho ou a qualquer protecção por parte da lei, trabalhando 16 horas por dia por um salário miserável (uma vez que a oferta de mão de obra excedia largamente a procura)ou mendigando (porque o trabalho não chegava para todos), estando condenados a uma existência miserável de escravidão, de pobreza, de fome e de doença!

Eu bem sei que há por aí quem queira apagar de vez a existência do Estado Social, da social-democracia e do marxismo, mas tenham paciência... Só no século XX é que os países desenvolvidos conseguiram, à custa da redistribuição da riqueza e da participação activa do estado na economia, diminuir francamente as desigualdades entre ricos e pobres. E nos últimos 30 anos tem-se verificado, a par da destruição do estado social e da regulação da actividade económica, um agravamento dessa desigualdade.

Luís disse...

Caro André Filipe,

Não é uma questão de ignorância. Aí, ou são factos, ou não. E pode acreditar no que quiser: nos seus livros de história do secundário, ou naquilo que está geralmente aceite pelos historiadores. Acho que basta abrir os olhos para perceber como o nível de vida subiu.

Essas coisas evidentemente que aconteceram. Mas não me parece que fossem culpa da revolução industrial. Que eu saiba, esse episódio não retirou as pessoas de uma vida melhor e lhes fez isso; simplesmente apareceu num tempo em que as pessoas viviam de forma tão miserável, que isso pode acontecer. No entanto, não deixou de abrir porta para um crescimento continuado do nível de vida e para todos, não só para meia dúzia de "exploradores". Basta abrir olhos. Onde agora vê pessoas com dificuldades, é um tipo de dificuldades bastante diferentes dos encontrados há uns séculos.