quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

«Tradição, autoridade, mercado»

Religião e economia são dois temas abundantemente tratados por João César das Neves. Neste fim de ano, além de «Um conto de Natal», artigo no Diário de Notícias, publicou O meu livro de economia (Texto, Alfragide, 2009), destinado a um público infanto-juvenil. O meu artigo deste mês na edição portuguesa do Le Monde diplomatique é uma leitura destes textos e pode ser lido integralmente aqui. Ficam alguns excertos. E fica também um apelo aos economistas com visões alternativas, para que no próximo Natal a oferta de literatura económica infanto-juvenil possa ser mais plural.

«(…) O meu livro de economia, “ciência que estuda algumas das coisas mais simples e naturais do mundo” e que no Natal voou das prateleiras das livrarias e estará agora em tantos lares para “explicar aquilo que a economia realmente é”, é muito esclarecedor. A linguagem é pensada para crianças dos 6 aos 10 anos, tornando o conteúdo de uma limpidez cristalina. O narrador é um pai, professor de economia, que responde às perguntas da filha. As «lições» surgem com exemplos do quotidiano, em família, deixando entrever o retrato de uma mãe, psicóloga, que se ocupa de tarefas domésticas e do cuidados dos filhos, só marginalmente intervindo na conversa.
A própria família do livro parece ser desenhada com traços e papéis do que César das Neves entende ser o primeiro pilar do bom funcionamento da sociedade e do sistema económico: a “tradição”, os “hábitos” e “costumes”, a “maneira normal de fazer”. A esta forma de entender a tradição, pela qual não passou nenhuma consideração crítica do quanto ela tem de construção social (e de invenção), o autor junta dois outros pilares: a “autoridade” e o “mercado”, formando os três um “equilíbrio” compensador das “falhas” um dos outros.
A autoridade de que fala o autor é o Estado, com as leis, obrigações e impostos que impõe aos cidadãos, porque ele “dá-nos muitas coisas” ("polícia, tribunais, muitos hospitais e escolas", etc.), mas “não produz nada” e “tudo o que gasta é nosso”. A este reino da imposição é contraposto o da liberdade e da democracia, uma vez que o “mercado” (terceiro pilar) é constantemente “referendado” em cada compra pelo consumidor, através dos “votos diários no mercado”. E nem vale a pena pensar em todos os arranjos institucionais que o fazem configurar-se e funcionar de uma determinada maneira, porque lá vêm o mito dos “mercados eficientes”, sempre a tender para o equilíbrio, a comparação da sua “instabilidade” com a “força da gravidade” (não é invalidada por os pássaros voarem) ou mesmo a negação da exploração (até no "mercado de trabalho", ninguém fica a perder), da troca desigual e da necessidade do recurso ao crédito (é sempre um investimento), já para não falar da pura equiparação do proteccionismo ao racismo ("Infelizmente, tal como há racismo entre pessoas de cor diferente, também há muitas pessoas que não querem ver produtos estrangeiros à venda cá no nosso país e fazem 'proteccionismo', procurando dificultar esse comércio que, no entanto, torna toda a gente mais rica", p.57).
Neste livro, César das Neves parece pensar que ainda não percebemos que mais vale a actual riqueza instável (de quem?) do que a pobreza imutável dos séculos passados, como se vivêssemos muito melhor mas não soubéssemos ser felizes (por ignorarmos que “a felicidade, afinal, vem do coração", "não depende da economia”). Mas estamos a percebê-lo. Não aceitamos é que nos encerre nessas duas “alternativas”, porque não temos seis anos nem ignoramos onde nos têm levado esses simplismos da narrativa neoliberal. Há que agradecer-lhe, ainda assim, por desafiar os economistas que não embarcam nestas narrativas a escrever para públicos infanto-juvenis. Espero que eles o oiçam, já em 2010.»

11 comentários:

Júlio Alves disse...

Feminismo barato...

A única forma não machista e conservadora de escrever este livro seria pôr a criança no seio de um casal homossexual, com um homem a aspirar a casa.. qualquer outra situação mais "normal" num livro sobre economia é um reflexo de um autor retrógada..

Enfim, este tipo de discurso enoja-me..

Tiago Santos disse...

Caro Júlio Alves, não sei se leu o referido livro nem se percebeu alguma coisa sobre as ideias políticas e económicas de César das Neves. Porque senão não faria esse comentário.

É muito baixo simplesmente.

Anónimo disse...

e assim ficámos a saber que o julio alves nunca aspirou a casa

Sandra Monteiro disse...

Caro Júlio Alves,
É justamente esse o problema: não, não seria "a única forma".
Há mais respostas aos simplismos do que os simplismos de sinal contrário.
E não se enoje, que parece estar a ilustrar o meu parágrafo sobre a dificuldade de conviver com a diversidade.
Obrigada a todos pelos comentários, boas noites.

Júlio Alves disse...

Enojo-me.. já estou farto deste tipo de discurso usado pela esquerda, neste e noutros casos, a saber:

Enoja-me o rótulo automático de "homofóbicos" a quem é contra o casamento homossexual (e eu sou a favor).

Enoja-me o rótulo automático de "anarco-capitalista" a quem é liberal...


Enoja-me o rótulo automático de retrógrada a quem se rege pelos princípios da igreja (e eu sou ateu)

Enoja-me o rótulo automático de "porco-capitalista" a um qualquer empresário

e enoja-me o rótulo automático de ultra-conservador, como via de descredibilização, de um homem só porque ao descrever uma cena familiar usou o "formato" que corresponde a 80% das famílias portuguesas, isto assente apenas na mesquinhez de um sentimento negativo resultante do facto de ele representar uma ideologia oposta à sua.

Concluindo, você é tão ou mais intolerante à diferença do que ele, seja pela via de não "encaixar" o sucesso do JCN como ideólogo de uma filosofia oposta à sua, seja pela via de nem toda a gente estar tão ralada quanto você com o casamento homossexual..

P.S. Aspiro a casa sim sr.

antónio m p disse...

Enoje-se à vontade, Júlio Alves. À falta de palavras para argumentar, vomite. É um direito seu. Bom proveito.

Anónimo disse...

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João Dias disse...

Vi este livro à venda, mas confesso que não imaginava que fosse tão longe na lavagem cerebral.

A propósito de lavagem cerebral a criancinhas, existe "agora" um substituto ao jogo Monopoly, chama-se Anti-monopoly...é giro ver o capitalismo a tentar reinventar-se sem alterar rigorosamente nada. E como eles sabem que as crianças são o futuro.

Wyrm disse...

Julio Alves,

Você sente muito nojo de muita coisa. Pena que o seu nojo seja dirigido a uma "esquerda" feita de palha e não à esquerda real.

O liberalismo, sonhado por Hayek e Mises não é mais que o prolongamento do feudalismo da Idade Média Europeia cuja populaça é mantida na ordem através do desemprego, do fraco acesso a cuidados de saúde e através de um estado supostamente reduzido mas que é grande o suficiente para benificiar a classe dominante.

Há uma diferença entre capitalismo e capitalismo predatório; há uma diferença entre mercado livre e mercado configurado para beneficiar quem detém capital e/ou propriedade. É por isso que combato este "liberalismo" proposto pelos austríacos e, de certa forma, pela escola de chicago. É o "liberalismo" ao estilo inglês ou, ainda mais para trás, atenience: o homem livre é o que possui berço e propriedade.

Não quero essa "liberdade", muito obrigado.

Júlio Alves disse...

Eu só vejo é carapuços a servir por todo o lado..

Anónimo disse...

JCN quem é.!!!!????
É algum individuo cujas opiniões interessam por poderem contribuir para o bem estar dos cidadãos deste país.!!???? Naaaaaaaaaaaaa.
Este JCN, há semelhança de muitos outros que aqui reinam na praça dos chamados economistas,é mais um dos vendilhões do templo.
Ele bem sabe que se não disser o que diz; se não vender a propaganda que vende, que os seus patrões lhe dão um pontapé no sim senhor.
É canja.