terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Não vale a pena discutir...

"Não vale a pena discutir com as agência de rating porque só vai agravar o problema." Vítor Bento, Conselheiro de Estado de Cavaco em substituição de Dias Loureiro. Claro que não vale a pena discutir. É só aceitar as estruturas de constrangimento e os desequilíbrios criados pela globalização neoliberal e aceitar sem pestanejar os cortes nos salários nominais. Enfim, deixo-vos um excerto do artigo que eu e o Nuno Teles publicámos no Le Monde diplomatique - edição portuguesa do mês passado:

A análise dos economistas-2012 tem sido focada numa mão cheia de dados macroeconómicos sobre a economia portuguesa (…) Se a falta de competitividade é um facto, as análises convergem na atribuição desta aos crescentes custos laborais. Os salários em Portugal, ainda que dos mais baixos a nível europeu, seriam demasiado elevados. Neste ponto, o economista Vítor Bento (...) destacou-se pelas propostas de congelamento do salário mínimo nacional (já em 2008) e de corte salarial generalizado de forma a promover as exportações nacionais. No seu livro, Vítor Bento compara a evolução dos custos unitários de trabalho nominais entre 1999 e 2007 na zona Euro: Portugal aparece como um dos países onde estes custos mais cresceram desde a adesão ao Euro, a par da Espanha e da Grécia e atrás da Irlanda. No entanto, as diferentes taxas de inflação não são levadas em conta. Se o fossem, através do cálculo custos unitários do trabalho reais, observaríamos um decréscimo durante o mesmo período. O que esta diferença nos mostra é que, desde então, a repartição do rendimento entre capital e trabalho foi favorável ao primeiro, sinónimo do aumento da desigualdade, uma das mais altas da Europa. A causa dos diferenciais nos custos de trabalho não está, pois, no dinamismo da evolução salarial face aos restantes custos, mas sim na subida generalizada dos preços acima da média europeia.

Por outro lado, importa perceber quais os efeitos da prescrição do corte salarial e do mais eloquente congelamento do salário mínimo. Se a receita aponta para cortes generalizados nos salários nominais, o objectivo está na redução dos salários mais baixos, já que são estes os predominantes nos sectores que se pretende dinamizar, as indústrias exportadoras nacionais (por exemplo, os têxteis e o calçado). O elevado número de trabalhadores pobres engrossaria, o consumo interno (variável mais resistente no actual contexto de recessão) cairia e a crónica ineficiência de alguns dos sectores industriais sairia premiada. Por outro lado, nada garante que a saída da crise pelas exportações esteja garantida, a partir do momento em que a generalidade dos países siga por este caminho de cortes salariais generalizados e de contenção da procura interna, estratégia que é aliás facilitada pelo aumento do desemprego que funciona como poderoso mecanismo disciplinador das classes trabalhadoras. De facto, o que parece de duvidosa racionalidade para cada país – promover as suas exportações por via da compressão dos custos relativos do trabalho e conter o consumo interno – gera um resultado global irracional sob a forma de um mercado interno europeu desequilibrado e contraído por um défice permanente de procura.

Através de uma análise estatística superficial e de prescrições simplistas, ignoram-se assim as raízes do problema. Se, de facto, Portugal perdeu competitividade externa nos últimos anos, tal deve-se, não às reivindicações dos trabalhadores, mas sim a uma entrada deficiente na moeda única, o euro: a chamada convergência nominal, no quadro da aceleração liberal da integração europeia, contribuiu para uma duradoura sobreapreciação da nossa moeda, que se prolongou com o euro. Esta opção enfraqueceu a competitividade do sector de bens transaccionáveis para exportação num período crucial e canalizou muito do esforço empresarial para o sector de bens não-transaccionáveis, como foi o caso da construção. Por outro lado, a moeda única foi instituída sem a necessária coordenação no campo das restantes políticas de integração económica, simbolizada num orçamento comunitário residual, que não permite uma política europeia de redistribuição e de investimento contra-cíclico, na ausência de uma políticas fiscais, salariais e sociais convergente e na impossibilidade de emissão de dívida pública europeia, o que seria o corolário lógico de um processo de integração monetária.

Tudo isto reflectiu-se na contínua perda de competitividade nos mercados externos da nossa indústria. Os países da zona euro têm a mesma política monetária, mas diferentes realidades económicas. Nos anos que precederam o Euro assistiu-se a uma convergência das diferentes taxas de inflação, devido aos critérios de adesão. No entanto, a partir da criação da moeda as taxas de inflação começaram a divergir nos países aderentes. Esta insustentável miopia resultou de um entendimento estreito, partilhado pelos economistas convencionais, da exclusiva determinação da taxa de inflação pela política monetária do BCE. O resultado foi a degradação da estrutura de custos das economias com maiores taxas de inflação em relação às restantes. A exigência de uma reconfiguração da política económica europeia tem, pois, que estar nos programas de quem pretende ultrapassar a crise no nosso país.

34 comentários:

Bruno Silva disse...

Onde, em toda esta análise, me enquadro EU? onde é que EU tenho um papel a desempenhar na economia e que pode ser positivo ou negativo? Serão as performances das economias principalmente resultantes de políticas de gabinete? Podem as pessoas ser consideradas como "cordeirinhos", cujas acções individuais são totalmente irrelevantes para efeitos de teoria económica?
O sucesso de Portugal depende mais das acções de um gabinete do que das acções agregadas de cada português?
Se EU me esforçar, se EU for perspicaz, se EU escolher especializar-me em determinadas áreas, investir, ter sucesso.. etc..e assim ganhar muito mais do que outros, essa diferença é uma falha do sistema? da política de gabinete?

Onde é que as acções individuais, o nosso esforço ou a nossa preguiça, o nosso mérito ou demérito, a nossa sorte ou azar, a nossa poupança ou endividamento, o consumo consciente (mas livre) de produtos nacionais em vez de consumismo desenfreado de bens importados, todas essas acções realizadas por cada um de nós, e que resultam da nossa consciência não obstante os estímulos externos, são completamente irrelevantes para os resultados Macroeconómicos de um país?

Se for digam-me! Que eu para já de tentar fazer algo útil pelo meu país e vou ouvir um reggae e fumar umas brocas com o pessoal do Bloco de Esquerda…as tantas são eles que têm razão…

rui fonseca disse...

Vale a pena discutir?

Discutir como?
Bate-se à porta dos ratingers e demonstramos que eles estão errados? Onde? Os valores da dívida pública até estão subvalorizados como sabe. Os do défice, talvez seja melhor não lhes falar muito nisso. A economia não cresce nem tem potencial para crescer.

Quanto ao seu ataque a V Bento, não tenho evidentemente nenhuma procuração de defesa, nem ele precisa, nem eu seria a pessoa indicada, devo, contudo, por uma questão de fidelidade à defesa da verdade, dizer que o J Rodrigues escamoteia o essencial da posição de VB:

A entrada no euro, não tido sido acompanhada dos ajustamentos que a nova situação exigia, promoveu os sectores dos não transaccionáveis (função pública incluida)
contribuiu para o agravamento da situação dos não transaccionáveis.
Passámos a ter cada vez menos par a troca. E quando não se tem nada para a troca acaba-se por termos de emigrar. Parece, segundo se lê hoje na imprensa, que desde a década de 60 que a emigração não observava valores tão elevados.

A solução que VBento preconiza pode não ser politicamente recomendável em Portugal mas foi já posta em prática em outros países, e mesmo em outras alturas, como deve saber. É a socialmente mais justa.

A alternativa é a morte lenta da economia, o aumento do desemprego, o ajustamento feito à custa dos mais desfavorecidos.

Ele explica isto tudo de uma forma muito clara. Ainda não vi quem o rebatesse de forma igualmente fundamentada. E, lamentavelmente, a evolução da situação vai no sentido que ele refere.

Mas gostava. Sinceramente que gostava que fosse demonstrado que existe alternativa.

V. João Rodrigues, e todos os que o acompanham neste blog parece esquecerem-se de uma questão trivial: a de que a dívida, como as árvores, não pode aumentar até aos céus. Ou pode?

Anónimo disse...

É sobejamente conhecido que os salários de quem trabalha mesmo em Portugal são os mais baixos da Europa. Ao invés, os salários, prémios, automóveis e demais mordomias de quem dirige as empresas médias e grandes são dos mais altos do Mundo. Veja-se, só a título de exemplo o que aufere o Governador do BdP e o titular da Reserva Federal Norte americana. Uma vergonha. Um escândalo. Uma provocação.
Se tudo isto não fosse complicado, como os economistas gostam, para continuarem a fazer o seu gosto ao dedo, as coisas resolviam-se facilmente como resolveu o Presidente da Câmara da Vidigueira. Cortou 10% dos rendimentos oficiais de todos os eleitos e dos escolhidos pelos eleitos e aumentou 20% os trabalhadores que ganhavam o salário mínimo.
Era de medidas destas que o país precisava. Nós precisamos de continuar a consumir para que a produção não baixe ainda mais, provocando mais desemprego. Mas se cortarem a quem ganha tão pouco, o consumo baixa, a fome aumenta e as doenças vão dizimar parte da população carenciada e, como diz o povo, “quem não come nem bebe, seca-se-lhe a pele”. É isso que querem? Se querem, vão conseguir tudo isso e mais alguma coisa. Mas a que preço? Se calhar, mais tarde ou mais cedo, vão passar a ter dificuldades a ter “criados” caseiros baratos, a não ser que os importem do Norte, do Centro ou do Sul da África como noutros tempos fizeram com os escravos. É isso que querem? Querem voltar aos séculos XVII, XVII ou XIX?
Então se cortassem metade das reformas de todos os Cavacos, de todos os Amarais, de todos os Lopes e outros que tais, esses senhores não continuariam a viver à grande e à francesa? E se lhes cortassem também algumas das mordomias (entra na cabeça de alguém que a o Palácio de Belém gaste mais que a família real espanhola?) incluindo muitos dos automóveis de alto luxo, que esses senhores bem instalados na vida, usam, mais à vontade do que se fossem seus, á custa do erário público ou das contas das empresas, vinha algum mal ao mundo? E se em vez de quererem fazer TGVs arranjassem as linhas da CP existentes tornando-as funcionais e competitivas a nível de preços/qualidade de serviço/cumprimento de horários, não se ganharia muito dinheiro, evitando de se gastar o que não temos? Será que os senhores que mandam, sabem que, por exemplo na Holanda, no após Guerra, as linhas foram recuperadas e os comboios de mercadorias com passageiros com bancos de suma-pau, começaram a fazer os percursos e a cumprir os horários?

Anónimo disse...

Continuação
Os senhores que mandam, sabem tudo e mais alguma coisa. Sabem até que os direitos adquiridos pelos trabalhadores podem e devem, segundo eles, ser rasgados por decreto. Os seus, quer dizer os deles e dos seus amigos, esses é que são intocáveis, e quanto mais melhor. Alguns até têm pena de só poderem comer um almoço por dia. Mas se têm assim tanta pena façam como faziam os senhores de Roma. Os desgraçados é que se passarem sem almoçar, não faz mal porque se habituam depressa, segundo a filosofia dessa gente.
Também se fala muito da baixa produtividade como mais um mal para a situação a que isto chegou. Mas alguém alguma vez analisou correctamente o que é a produção de uma fábrica e qual a percentagem de produto acabado que conta como produtividade? Ninguém conhece o mercado paralelo de tudo e mais alguma coisa? Mas se conhecem as chamadas facturas falsas, deviam aprender a fazer as contas e não continuarem a atacar quem produz mesmo e não vê resultados da sua produção. Alguma, muita (?) escapa a quem trabalha e até escapa ao Estado que não cobra impostos daquilo que passa por fora. E o Estado não sabe disso? E o Estado não sabe que eu quando vou ao supermercado só tenho direito a factura se a pedir? E porquê e para quê? É só aplicarem-se as chamadas novas tecnologias. Se a máquina dá um talão porque é que não há-de dar sempre uma factura? Quanto é que o Estado ganharia com isso? Façam as contas e depois logo se vê. Mas isto passa-se nas grandes superfícies, nos combustíveis e em tudo o que venda muito.
Cuidado. As coisas estão más mas podem vir a ficar muito piores para todos, mas desta vez também para muitos desses senhores.
A terminar.
- Quem é que desbaratou o dinheiro que vinha a rodos da CEE? Foi o povo? Esse nem migalhas comeu a não ser naqueles pseudo cursos de formação que nunca funcionaram mas encheram a pança a muitos gabirus.
- Quem é que andou e anda para aí a espalhar betão, a torto e a direito e não arranja dinheiro para se taparem os buracos das estradas secundárias? Foi o povo? Esse até a habitação lhe cortaram para que a grande estrada passasse mesmo por ali.
- E eram precisas tantas auto-estradas se nunca houve dinheiro para se manterem as que existiam e por isso é que caiu a ponte de Entre Rios, mas depois, para calarem o tal povo até arranjaram dinheiro para fazerem duas? O povo, que mais uma vez querem castigar, como se fosse mau aluno, tem alguma culpa de tanto disparate?
Esses senhores de uma vez por todas devem ganhar juízo e excepcionalmente, pelo menos uma vez na vida, terem pensamentos e obras cristãs já que só sabem apregoar doutrina.
Alguns, para se tapar os olhos à plebe, até têm ido a Tribunal. Mas quantos é que foram condenados? Será que por cá não há mesmo Madoffes?
Para minimizar a situação catastrófica a que isto chegou, há tanta coisa que pode ser feita. Mas querem começar pelos mesmos, pelos pequenos, porquê?

Bruno Silva disse...

Caro anónimo,

Uma perguntinha apenas:

Se em Portugal é tão espectacular ser-se patrão.. por que raio é que cada vez há menos? e menos gente a tentar sê-lo?

aliás, duas:

Se uma economia melhora com aumentos artificiais dos salários, bora lá aumentar o salário mínimo para os 1500€? vai ser um forróbódó! Com tanto consumo a indústria iria disparar.. ou seriam as importações e a inflação? hummm...

JOSÉ LUIZ SARMENTO disse...

Rui Fonseca: a dívida não pode aumentar até aos céus. A desigualdade também não. Como neste momento a desigualdade é que está mais próxima da estratosfera, tratar dela é que é a prioridade.

Bruno Silva: aumentos artificiais dos salários? Eu só conheço duas espécies de salários: os artificialmente altos e os artificialmente baixos. Os primeiros são melhores porque obrigam os gestores a ser competentes, aumentando por essa via a produtividade. Os segundos são desastrosos porque só podem ser impostos pela força (veja como na China e na Colômbia se fuzilam sindicalistas) e porque constituem um prémio à incompetência dos gestores.

rui fonseca disse...

Caro Sarmento:

Não se esqueça do tema: Vale a pena discutir com as agências de rating?

Notícia de última hora:
Risco da dívida portuguesa dispara para valor recorde.

Acha que paramos isto convencendo as empreasa de rating com que argumentos?

Com os do J Rodrigues?

Wyrm disse...

Bruno,

Se a avaliação da divida publica portuguesa for tão acertada como as avaliações sucessivas que fizeram aos cdo's nos estados unidos......

E acredite que entre fumar ganzas e ouvir reggae ou ser um objectivista sociopata e ganacioso há muitas nuances bem mais produtivas...

Tiago Tavares disse...

(a) que o crescimento dos custos unitarios de trabalho estao estre os mais rapidos na ultima decada e' um facto - seja utilizando os custos nominais ou os custos reais.

(b) a partir daqui gostava de ter mais informacao sobre a conclusao dos autores sobre o facto da parte no rendimento nacional do factor trabalho ter decrescido na ultima decada. De certeza que nao devem justificar essa afirmacao com base nos dados do INE que apenas apresenta uma rubrica, sem qualquer discriminacao, de 'excedente bruto de exploracao', onde, por defeito, incluem tudo o que nao medem como compensacoes de trabalhadores e impostos indirectos. De onde resulta entao essa corajosa afirmacao que fazem?

JOSÉ LUIZ SARMENTO disse...

Caro Rui Fonseca:

Não podemos discutir com as agências de rating pelo mesmo motivo que não podíamos discutir com os tribunais da Inquisição: porque elas, mesmo quando não têm razão, têm a força.

O que podemos é evitar cair no erro de pensar que elas são nossas amigas. Podemos também, unindo os recursos financeiros, técnicos e humanos dos partidos de esquerda europeus, instituir agências de rating mais idóneas que se dediquem, entre outras tarefas, a avaliar as actualmente existentes pela qualidade do seu desempenho e pela coerência dos seus critérios.

D., H disse...

“ Discutir com as agências de rating só vai agravar os problemas…”
Portugal existia muito antes das agências de rating… Este tipo de conselho do senhor Conselheiro VB está na linha das ideias veiculadas sistematicamente por ele, funcionando como rolo compressor no esmagamento social. É preciso não esquecer que não foram só as escolhas políticas que estiveram na génese desta desgraçada desigualdade social; houve (há) também o oportunismo e a fraude.

Um aparte. Que vergonha de representatividade é esta, a do Conselho de Estado, onde não se senta uma única alma bloquista ou comunista?! Cada vez mais e à medida que o tempo vai passando, me apetece dizer a tais “mentes iluminadas”: - É chegada a hora de embrulharem muito bem (e com laço vistoso) a vossa democraciazinha e de a depositarem no museu”.

Bruno Silva disse...

Bravo José Luiz Sarmento!!


"Podemos também, unindo os recursos financeiros, técnicos e humanos dos partidos de esquerda europeus, instituir agências de rating mais idóneas que se dediquem, entre outras tarefas, a avaliar as actualmente existentes pela qualidade do seu desempenho e pela coerência dos seus critérios"

Finalmente um gajo de esquerda a querer fazer algo e não só mandar bitaites!

Já agora! Podiam também criar Empresas... umas que não "explorassem os trabalhadores" e tal e tal e tal...


P.S: Ainda ninguém me respondeu às perguntas..

Alcides Santos disse...

Sobre o assunto da perda de poder de compra, desenvolvi uma aplicação que pode dar uma ajuda:

http://quantoperdi.blogspot.com

JOSÉ LUIZ SARMENTO disse...

Bruno Silva:

Primeiro: a palavra "empresas" escreve-se com letra minúscula e não com maiúscula.

Segundo: os "gajos de esquerda" não podem criar empresas pelo mesmo motivo que os de direita também não podem. As empresas não se criam: formam-se ou instituem-se, do mesmo modo que a riqueza não se cria: produz-se.

Segundo: o que não falta é "gajos de esquerda" a fazer propostas concretas, práticas, viáveis e moderadas para trazer justiça a uma sociedade obscenamente injusta. O que não falta, também, é "gajos de direita" a fazer tudo o que podem para impedir a discussão pública destas propostas.

Terceiro: você tem todo o direito de pôr entre aspas a exploração dos trabalhadores, mas trata-se aqui do direito ao disparate. Tem o direito, mas não tem a autoridade. Esta, só a poderá adquirir respondendo a uma pergunta: como é possível fazer da força de trabalho uma mercadoria sem fazer uma mercadoria também do ser humano concreto em que essa força reside?

Até hoje, nenhum prosélito da utopia do mercado livre foi capaz de responder a esta pergunta. Tente você ser o primeiro: se o conseguir,ficará com um lugar de honra vitalício na cimeira de Davos.

Bruno Silva disse...

Responder-lhe-ei de bom grado.. quando me responder às minhas!

Bruno Silva disse...

A sério: há alguém que me consiga explicar se é assim tão bom ser-se patrão em Portugal porque raio é que cada vez há menos???

João Dias disse...

Bruno Silva:

É "bom" (os meus princípios éticos obrigam-me a pôr aspas) ser patrão porque:

.Pode estruturar um plano onde, com base na sua perspectiva de quota de mercado e preço de inserção, determina os ordenados que lhe convêm à maximização dos resultados

.Pode aproveitar benefícios fiscais para aquisição de veículos e outras mordomias (aliás, a malta dos recibos verdes também, só que em geral ganham mal)

.Pode usar os contractos a termo para ajustar a seu bel-prazer os quadros à sua avidez de lucro

.Cometendo erros de gestão grosseira, quer a nível de marketing de produto quer a nível de mercado alvo etc...pode dizer que os resultados são maus e impor sacrifícios aos seus dependentes porque eles é que são pouco produtivos (quando na realidade não consegue escoar o produto como pensou)

.Constitui a sua empresa como sociedade de responsabilidade limitada, estando a sua conta e bens a seguro e apenas estando a capital social da empresa como garantia de responsabilidade social

.As acções que constituem o capital social podem ser valorizadas na bolsa, no entanto o valor do capital social afecto à responsabilidade social é apenas o inicial não incluindo as valorizações (é por isso que o capital social da PT é somente de ~27 milhões de euros com acções a 3 cêntimos quando na bolsa estão a ~7 euros)

.Estando cotado na bolsa e anunciando despedimentos a cotação das mesmas costuma subir, precisamente pela perspectiva de subida de lucros com base na diminuição da despesa com mão de obra (lucros -> dividendos para os accionistas)

.Pode prescindir de trabalhadores no mês X e receber a facturação resultante da produção dos mesmos no mês x+y sem que eles entrem nos custos do mês de
facturação

Conheço patrões e filhos de patrões, e todos eles se queixam dos trabalhadores e de que é difícil...etc, mas nenhum quer passar a ser assalariado por conta de outrem e nenhum anda com um carro de menos de 45.000 euros. Têm aqueles "clichés" todos, caça, jantaradas à conta da empresa, telemóveis topo de gama em constante rotação...
Precisamente por eu saber de que falo é que não posso concordar com estas lamurias de quem devia ser mais responsável.

É certo que as empresas não são todas iguais, mas nunca é mais vantajoso ser trabalhador...haja pachorra.

Bruno Silva disse...

Porra, mas vocês não sabem ler e iterpretar??

Eu não estou a perguntar porque é melhor.. mas: se é assim tão melhor ser-se patrão em Portugal, por que raio é que cada vez há menos??? capisce?

João Dias disse...

Eu não sei aonde é que você viu que há menos patrões em Portugal?

Se está a pensar nos encerramentos para sustentar essa tese também terá de perguntar porque é que cada vez há menos trabalhadores. É que essa tese pressupõe que um patrão inactivo não é um patrão, logo um trabalhador inactivo também não seria um trabalhador.

Eu expus factualmente as razões porque é melhor ser patrão, porque a sua pergunta é, desculpe que lhe diga, estapafúrdia.

Quer ver outra pergunta estapafúrdia? Se é tão bom ser rico, porque é cada vez há menos ricos?

Bruno Silva disse...

Ai um patrão inactivo não é patrão? essa ta boa...

A minha pergunta não é descabida, criar uma empresa não é nada assim tão inacessível ao cidadão comum, ou a um conjunto de cidadãos comum. Mas a verdade é que a criação de empresas não é, de longe, suficiente para garantir o crescimento que Portugal deveria ter por forma a convergir. Tal como você referiu, em teoria, será sempre melhor ser-se patrão do que empregado (isto não é linear), então se há esta motivação, algo se passa para não serem criadas mais empresas, certo? ou seja.. há algum problema estrutural no país que faz com que não seja atractivamente rentável para se incorrer no esforço e risco do investimento. Problema(s) estes que não são imputáveis aos patrões (formação, localização geográfica, impostos elevados, justiça,etc..). Estes problemas são a raiz da estagnação do investimento (tanto do Belmiro, como meu ou como seu), e a estagnação do investimento é a causa do desemprego, da diminuição de melhores oportunidades de emprego e da diminuição da competição das empresas por mão-de-obra, o que como toda a gente sabe é o real mecanismo de subida de salários.

Concluindo, os problemas estão nas raízes que mencionei e não, como vocês cega e demagogicamente tentam colocar, ao nível da relação patrão/empregado, por que essa é, por natureza, interesseira em ambos os sentidos.

Bruno Silva disse...

José Luiz Sarmento

Você não me soube responder a mim, mas eu respondo-lhe a si.

A relação entre empregado e empregador, pode ser muita coisa, mas é uma relação comercial. Um exige um serviço e o outro um pagamento, esta é, per si, a definição de relação comercial, e portanto acho difícil que este facto seja refutado. Eu automaticamente "mercantilizo" o meu trabalho ao cobrar um pagamento por ele.


Tendo este pressuposto em mente, passemos à próxima fase. Você quando vai ao barbeiro não está a beneficiar do trabalho dele? e paga o valor de mercado por isso (que resulta da procura e oferta de barbeiros na sua zona). Se o preço que você paga ao seu barbeiro for três vezes inferior ao que um alemão paga no barbeiro dele, isso faz de você um "explorador sem escrúpulos" do trabalho do barbeiro?
Ou o pagamento de um serviço por 30 minutos é "mercantilizável" mas se for por 8 horas já não é? já é outra coisa completamente diferente?


Outra coisa: uma reflexão sobre essa treta do "sobrelucro" ou lá o que é:

Imaginemos que eu não sou grande apreciador de morangos, mas o José adora. Vamos os dois a um vendedor de morangos (neste caso é um produto mas poderia, noutro ser um serviço), e compramos cada um uma caixa por 1,5€ (o preço de mercado p.e.). Você que os adora vai retirar um prazer enorme dos morangos, eu nem por isso, só um bocado. Ou seja, o "output" que você retirou foi muito superior ao meu, certo? Agora, o que raio é que o vendedor de morangos tem a ver com isso? ele não vendeu o os morangos pelo preço acordado? faria algum sentido que ele fosse atrás de si cobrar mais só porque você retirou um "output" maior? Claro que não.

A única forma legitima de cobrar mais é se apresentar um serviço mais escasso face à procura, mangas por exemplo. Ou acha que ele deveria fazer uma "manif" com os outros vendedores de morango e artificialmente subir os preços dos morangos? sabe o que aconteceria? eu e as outras pessoas que não conseguimos retirar tanto "output" dos morangos, deixávamos de comprar, resultando em desemprego para uma parcela dos vendedores de morangos...
Quer mesmo passar a informação aos jovens portugueses de que estudando ou não, procurando formações ou não, têm um direito constitucional a ter um ordenado que dê para pagar casa, carro, internet e afins? Ou que podem escolher à vontade a sua área de formação, independentemente dos estado do mercado nessa determinada área, que também deverão ter um direito constitucional ao emprego e bem remunerado? O capitalismo faz coisas fantásticas, mas essas não são uma delas… você promete um sistema que o faria?

João Dias disse...

Bruno Silva:

"Ai um patrão inactivo não é patrão? essa ta boa... "

Também está com dificuldades em interpretar...

Eu estava precisamente a expor a incoerência da sua pergunta, dado que não apresenta dados que comprovem a diminuição de patrões eu perguntei se assumiu essa diminuição ("por que raio é que cada vez há menos???") baseado nos encerramentos de empresas. Ou seja, a sua pergunta até poderá ter um pressuposto falso, além de que, a ser verdadeira a suposição, a diminuição de patrões logicamente não implicaria nada em relação à vantajosa posição de patrão.

"criar uma empresa não é nada assim tão inacessível ao cidadão comum"

Experimente criar uma empresa com um rendimento de 600 euros mensais e com renda de casa e empréstimo de carro para pagar...por exemplo.

O a mediana salarial, ou seja o salário que mais pessoas ganham, é por volta de 600 euros. Portanto, terá de rever o seu conceito de cidadão comum...
As pessoas que eu conheço que abriram empresas (logicamente que isto não é universo dos portugueses), tinham um "background" favorável: o pai já tinha uma, eram pobres mas receberam uma herança choruda, eram ricos e há até os que acham uma canseira isso de criar empresas e preferem especulação bolsista ou imobiliária.

Além demais, é óbvio que não se pode ter muitos patrões, caso contrário não se fazia nada, não é? Pois é. Vá todos a dar ordens e a gerir a empresa, e quem produz?


"Concluindo, os problemas estão nas raízes que mencionei e não, como vocês cega e demagogicamente tentam colocar, ao nível da relação patrão/empregado, por que essa é, por natureza, interesseira em ambos os sentidos."

Pois claro, você não questiona o sistema e no entanto diz querer resolver os problemas deste, sem o beliscar uma nesga. E os que querem um sistema diferentes são demagogos...pois claro, como eu o compreendo.

Acredite que me agrada muito que você diga que é uma relação interesseira nos dois sentidos, é que é precisamente isso que se tenta esconder da opinião pública. "É tudo para o bem comum"; "os patrões não podem pagar mais coitadinhos"; "agora em crise os trabalhadores tem de ser solidários e trabalhar mais por menos dinheiro"...

Ainda bem que assumiu essa conflitualidade da relação laboral, quem me dera que os partidos de direita (PS incluído)a assumissem e se deixassem da lenga-lenga que as empresas é criam emprego como se fossem instituições de caridade.

Mas o problema é bem mais simples e está, não só mas também, na relação patrão/empregado. É que esta relação é baseada na exploração, não interessa quem seja o patrão, a empresa capitalista é suposto facturar acima dos custos da mão-de-obra (e de investimento...etc). Ora, isso gera logo um factor de desigualdade, e é precisamente a desigualdade gritante que gera esta crise, uma crise na procura. Os trabalhadores são consumidores, e são tão explorados que a sua fraca capacidade financeira gera crise de procura...é um ciclo fechado. Os neo/liberais gostam tanto falar da globalização em que tudo está ligado e depois "esquecem-se" de fazer a ligação mais básica entre baixos salários e crise de procura.
Aliás, basta ver que os artigos de luxo não sentem a crise ou até tem crescendos nestas fases. O dinheiro não foi para a buracos negros, simplesmente o sistema capitalista é mesmo assim, gera sempre crises porque gera desigualdade. Você até pode não gostar de coisas aqui e ali, mas o sistema em si agrada-lhe, aliás quem o desafia é demagogo.

João disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Bruno Silva disse...

Peço desculpa, correcção:

"Ai um patrão inactivo É patrão? essa ta boa... "


Quanto ao resto, deixo-lhe a resposta que dei de seguida ao José Luiz Sarmento, encontrará algumas respostas...

Mas sim, de facto assumo, sem "tretas" a minha posição quanto a condição humana. Não concordo com a simples posição de que os patrões TÊM de pagar mais só porque não são coitadinhos. Por essa lógica quase que posso assumir que considera a contra-parte como "coitadinhos", e é isso que eu me recuso enquanto liberal, olhar para pessoas como coitadinhos que precisam de almas caridosas para, solidariamente, lhes pagarem salários acima do valor de mercado. Fernando Pessoa chamava a essa atitude uma espécie de tirania, inversa, mas de igual valor à tirania convencional. Vejo-os (e sou um deles) como indivíduos com exactamente o mesmo valor que o “patrão” enquanto pessoas, e que devem desenvolver as competências para conquistarem, com mérito, aquilo que é seu por direito (livremente acordado por ambas as partes), num mercado de livre concorrência, sendo que esta aplica-se tanto às empresas como aos trabalhadores.

Bruno Silva disse...

PS: Mais um reparo:

"Vá todos a dar ordens e a gerir a empresa, e quem produz?"

A não ser que seja um comunista, há de concordar que o capital também produz riqueza. Conheço uma série de máquinas que passam horas a produzir sem ninguém por perto. Ou só porque foi o trabalhador que carregou no "on", toda a produtividade deve-se a ele? Logo, o accionista até pode estar em casa que as máquinas (entre outro capital), que são dele, estão a produzir, rendimento que será dele por direito.

João Dias disse...

Oh meu caro, vamos ver se nos entendemos.

Por haver trabalhadores no desemprego você não diz que há menos trabalhadores, certo? Certo. No mesmo sentido, o facto de haver patrões que encerraram por falência não quer dizer que haja menos patrões. E porquê? Porque tanto trabalhadores como patrões estarão dispostos a retomar a condição activa, não é certo assumir que num cenário de aumento de desemprego e falências que tanto trabalhadores como patrões não queiram reassumir a sua actividade, trata-se de uma situação conjuntural...que em nada beslisca o que se disse sobre a condição de trabalhador e patrão.

"olhar para pessoas como coitadinhos que precisam de almas caridosas para, solidariamente, lhes pagarem salários acima do valor de mercado"

Não falamos de caridade, falamos de justiça. Falamos do contrário de exploração e você fala em caridade, como se os patrões pagarem o preço justo fosse caridade...haja pachorra.
Acima do valor do mercado? Mas que porra é essa, qual valor de mercado? Se para a mesmas qualificações é possível encontrar salários diferentes e se o mercado que você fala é na realidade a exploração do trabalahdor pela pressão do desemprego e de uma relação desigual (detentor de meios de produção vs força de trabalho).

"o mesmo valor que o “patrão” enquanto pessoas, e que devem desenvolver as competências para conquistarem, com mérito, aquilo que é seu por direito (livremente acordado por ambas as partes)"

Depois de todas as vantagens que eu enumerei de ser patrão ainda se referir a uma relação como se fosse de igual para igual...é obra.
Quem decide o mérito? O patrão, que por acaso também ganha mais financeiramente se pagar menos aos trabalhadores, pelo menos no imediato. Ainda a pouco assumiu a conflitualidade da relação laboral e agora exerceu um raciocínio que a negligencia por completo.

João Dias disse...

"A não ser que seja um comunista, há de concordar que o capital também produz riqueza. Conheço uma série de máquinas que passam horas a produzir sem ninguém por perto."

Lamento, mas quem faz as máquinas não é capital. Investir é uma coisa, fazer é outra completamente diferente. É o mesmo que eu comprar (investir) um carro e dizer que fui eu que fiz o carro...quer dizer, não tem ponta por onde se pegue.

E quem faz a manutenção das máquinas? E que máquinas maravilhosas são essas que não precisam de monitorização? E calibragem? E que conhecimentos estão na concepção da máquina? Quem a produziu? Pagou "royalties" a todos os cientistas que ao longo dos anos estiveram na base do conhecimento que permitiu fazer essa máquina?
Acha que trabalho é só manual, está esquecer-se do intelectual (se calhar é você que ainda pensa com os clichés do tempo da União Soviética).

Já viu se quem lhe arranjasse/vendesse a máquina exigisse os rendimentos que você tirava dela? Afinal de contas, antes de você adquiri-la ela era de alguém. Ou mesmo que você produzisse a máquina os fornecedores de matéria prima exigissem o mesmo?
Ninguém faz nada sozinho, muito menos com o grau de complexidade actual. Tudo depende de uma rede mais complexa do que você consegue admitir, basta um dos elos exibir o comportamento parasitário ("isto é meu e vou ficar com tudo apesar de o que tenho ser fruto de propriedade e trabalho de outros") que você descreveu e as coisas começam a ficar feias, mesmo para o lado de quem pensa que tem todo o poder.
Aliás, se os próprios trabalhadores tivessem uma consciência de classe mais aguda, aí digo-lhe eu que não queria ser patrão por nada deste mundo...
Desde a especulação financeira ao sector produtivo, nada funciona sem trabalhadores (esqueça a visão limitada do trabalhador somente como o que arregaça as mangas) e por isso, eles têm imenso poder, não podem é tomar consciência disso, se não era uma chatice.
O capital não vale de nada se não houver gente disponível a trocá-lo por trabalho. Imagine que em sinal de protesto as diversos sectores não lhe prestavam os serviços apesar de você ter dinheiro: o dentista, o operário, o engenheiro, o professor, o canalizador, o carteiro, o cirurgista...

Não sei se percebe em que pé fica o accionista e a sua máquina nesta conjuntura que lhe descrevi?
Eu ajudo, ficam na merda.

João Dias disse...

errata:

cirurgista -> cirurgião

JOSÉ LUIZ SARMENTO disse...

Bruno Silva, leia "The Great Transformatios" de Karl Polanyi e aprenda que há três coisas que a utopia do mercado livre trata como se fossem mercadorias quando toda a observação empírica mostra que o não são: o trabalho, a natureza e o dinheiro.

Tudo o que você faz no seu último comentário é papaguear uma treta mais que desacreditada, mas que lhe parece óbvia à força de a ver repetida em tudo o que é comunicação social.

E para me "ensinar" essa treta recorre à mais pueril das falácias, que é o raciocínio por analogia. Não se incomode: não tente levar-me para aí, que eu já de lá venho e não sou criança.

JOSÉ LUIZ SARMENTO disse...

Errata: Transformation.

Bruno Silva disse...

Caro José Luiz

Por favor.. deixe-se de respostas vagas e desmonte-me o seguinte argumento:

"A relação entre empregado e empregador, pode ser muita coisa, mas é uma relação comercial. Um exige um serviço e o outro um pagamento, esta é, per si, a definição de relação comercial, e portanto acho difícil que este facto seja refutado. Eu automaticamente "mercantilizo" o meu trabalho ao cobrar um pagamento por ele."

JOSÉ LUIZ SARMENTO disse...

Caro Bruno:

Acha que estou a dar uma resposta vaga quando afirmo taxativamente que o trabalho, a terra e o dinheiro não são mercadorias? Ainda por cima quando o remeto para uma obra clássica da História da Economia que conta esta afirmação entre as suas teses principais?

Uma mercadoria é um bem ou um serviço que é produzido para ser colocado no mercado. Quando os seus pais o fizeram, não foi para o vender, alugar ou arrendar: logo, você não é uma mercadoria. E se você não é uma mercadoria, o seu trabalho também não o é, uma vez que não é possível separar o trabalho da pessoa.

A relação entre empregador e empregado não é necessariamente, nem por natureza, uma relação comercial. Pode ser tratada como se o fosse, o que é muito diferente. A equiparação do trabalho a uma mercadoria é uma ficção, uma convenção altamente artificial que começou a ser imposta na Europa a partir do século XVIII; e falo em imposição porque para a fazer aceitar pela generalidade das pessoas foi necessário aos governos recorrer a meios extremamente violentos.

Quando você cobra um preço pelo seu trabalho não o está a "mercantilizar". Não está a transformá-lo na mercadoria que ele não é nem pode ser: está simplesmente a tratá-lo como se o fosse.

Ou nem isso. A convenção (ou "ficção", como lhe chama Polanyi) de tratar artificialmente o trabalho como se fosse uma mercadoria não releva da ordem natural das coisas, mas duma vontade política que se formou muito antes do dia em que você nasceu.

Se o empregador é obrigado a "comprar" trabalho e o empregado a "vender" trabalho, isto não acontece em resultado nem duma lei natural, nem da escolha livre por parte de um ou do outro: deve-se ao facto de as alternativas existentes há milénios terem sido sistematicamente destruídas nos últimos dois séculos e meio, a ponto de hoje quase não existirem.

Bruno Silva disse...

Sim, claro que é uma "ficção". Como muitas outras coisas, como a família, o casamento, a amizade e muitas outras coisas não naturais... a sociedade está repleta de ficções, e ainda bem em muitos casos, o facto de serem ficções não as torna estúpidas ou irrelevantes. Numa economia de mercado, o trabalho e o dinheiro são mercadorias e isto é um facto, pode ser uma ficção, mas é uma ficção factual. E, a verdade, é que vivemos numa economia de mercado e portanto é com essa ficção que temos de viver, independentemente de ser um sistema mais socialista ou liberal. Agora, se é contra a economia de mercado em todas as suas formas... isso já é outra conversa...

JOSÉ LUIZ SARMENTO disse...

A família, o casamento e a amizade são naturais na única acepção objectiva do termo: sob uma forma ou outra, existem em todas as sociedades conhecidas, São naturais na medida em que são universais.

Outra coisa universal é a organização económica: todas as sociedades conhecidas têm uma economia organizada.

Já o mercado não é natural nesse sentido: não é um fenómeno universal, é meramente um fenómeno frequente.

A regra geral, nas sociedades em que existem mercados, é a coexistência duma economia "para o mercado" e de outra para o consumo directo. Já Aristóteles observa, no seu tratado sobre a política, estas duas vertentes da economia.

O que já não é natural é uma economia totalmente regulada pelos mercados. De todas as sociedades humanas, só uma tentou (sem êxito) instituir uma tal economia: a chamada "civilização ocidental", e mesmo esta só a partir do Século XIX. Há hoje razões para acreditar que uma economia em que o mercado fosse o único factor de organização implicaria, como previu Aristóteles, uma sociedade de mercado - ou seja, uma não-sociedade.

Há também razões para acreditar que uma tal organização da economia e da sociedade é não só indesejável, como intrinsecamente impossível. Todas as sociedades em que existem mercados criam mecanismos de defesa contra eles. Não se conhece excepção a esta regra, pelo que esta tendência tem que ser considerada "natural". Nunca nenhuma sociedade prescindiu de regular os mercados, nem é previsível que alguma o faça, porque uma tal renúncia seria, ela sim, anti-natural.

A tentativa, em curso desde o fim do século XVIII, de instituir artificialmente uma sociedade de mercado só fará com que se reforcem estes mecanismos de defesa naturais. Daqui resulta necessariamente um conflito muito mais vasto e generalizado do que a mera "luta de classes" entre empregadores e empregados.

É precisamente a isto que estamos a assistir um pouco por todo o mundo: as guerras actualmente em curso, o terrorismo, a criminalidade, não são mais do que as manifestações visíveis duma guerra civil à escala mundial.

A questão em aberto é se o desenlace deste conflito será pacífico ou catastrófico. Se for verdade o que se diz do grande capital - que mais facilmente estará disposto a destruir o mundo que a perder um cêntimo - então o cenário catastrófico é a hipótese mais provável.