sexta-feira, 9 de março de 2018

«Memorizar e debitar» (reloaded): a educação segundo Crato

De quando em quando, Nuno Crato dá sinais de vida. Desta vez, com um artigo no Observador, aparentemente motivado pelo discurso de António Guterres na sessão de atribuição do doutoramento honoris causa pelo IST.

Pergunta Crato se «gostaria algum de nós de ser tratado por um médico que, na universidade, tivesse aprendido Literatura Germânica, não tivesse prestado grande atenção à Anatomia nem à Histologia, mas que tivesse sido fantástico a "aprender a aprender"?». Ou se gostaria algum de nós de «andar num avião mantido por uma equipa de mecânicos que, na sua escola de formação técnica, tivessem estudado Anatomia Patológica, nada sobre motores nem sobre aeronáutica, mas que fossem extraordinários a "aprender a aprender"?». Exagero? «Não», diz o ex-ministro da Educação: «pensemos na mensagem que, no limite, se está a transmitir aos estudantes: aprendam a aprender, não interessa tanto o que aprendem».

Garanto-vos que não faço por isso, mas quando a argumentação chega a este nível vem-me à memória uma recordação de infância: a imagem de vendedores de banha-da-cobra, alçados em carrinhas de caixa aberta, com o frasquinho numa mão e o microfone na outra, a convencer os incautos que têm a solução para todos os males. Ou, numa versão mais atual, os anúncios televisivos a frigideiras anti-aderentes, com o número para as encomendas a passar no rodapé do ecrã durante o engodo. A dúvida com que ficava ao reparar no empenho dos vendedores de banha-da-cobra é a mesma que me assalta com Nuno Crato: acredita mesmo no que diz ou está conscientemente a ludibriar as pessoas?

Será que o ex-ministro Nuno Crato acha mesmo que o que está em causa é a opção entre «conteúdos» e «aprender a aprender»? Terão as matérias programáticas das disciplinas desaparecido e ninguém deu conta? Em que consistirá na prática o programa do «aprender a aprender»? Não perceberá o ex-ministro que os conteúdos continuam lá e que a diferença reside no modo como são tratados, bem como nas finalidades que se pretendem atingir com os processos de ensino e aprendizagem? Que os «conteúdos» servem para «aprender a aprender» e não, simplesmente, para «memorizar e debitar»? Que uma coisa é «aprender a decorar» e outra é «aprender e problematizar»? Perceberá Nuno Crato a diferença entre o papaguear mecânico de uma tabuada e a ideia de que a mesma traduz a soma sucessiva de um algarismo? Ao vir com esta conversa requentada, terá Nuno Crato a expetativa de poder regressar à 5 de outubro com a sua agenda retrógrada, depois de ter ouvido Rui Rio no encerramento do 37º Congresso do PSD?

19 comentários:

Aires Costa disse...

Apreciei o seu texto, mas não posso deixar de me interrogar se tem prática de cozinha. Se de facto cozinha, aconselho-lhe vivamente as frigideiras revestidas a cerâmica: são mesmo antiaderentes.

Nuno Serra disse...

Prática de cozinha tenho, caro Aires Costa. Nunca experimentei foi dessas frigideiras anti-aderentes, que posso em alguns casos estar injustamente a desqualificar. Não era o meu propósito: o foco era na verdade esse tipo de programas de vendas (admitindo que a generalização pode de facto ser injusta).

Jose disse...

Este mantra de «aprender a aprender» é algo que poderia surpreender ser bandeira de uma ideologia que dedica enorme esforço em manter uma permanente e muito rigorosa receita de conhecimento 'correcto'.

Mas de facto não passa de uma mais eficiente fórmula dessa receita: serve-se em exclusivo o conteúdo autorizado e tudo o mais fica destinado a ser aprendido por quem adquiriu essa nova e obscura valência de 'aprender a aprender'.

Nunca se ouve qualquer referência ao que é o sentido sério do «aprender a aprender»: adquirir uma base de conhecimento suficientemente ecléctico para que, no exercício da variedade e divergência, adquiram o capital de conhecimento que vos possa conduzir à variedade de opções de especialização e prováveis evoluções/ alterações nas áreas de acção que se venham a apresentar num futuro incerto.

Toda a treta do emprego estável, da casa própria, do endividamento permanente, da poupança prescindível, são a prática que atesta a falsidade do mantra do «aprender a aprender».

Jose disse...

Uma questão:

Será possível «aprender e problematizar» sem «aprender a decorar»?
Se aprendo ao ponto de poder problematizar, não decorei?

Aprender um mantra (naturalmente decorando) e problematizando (por qualquer modo rejeitando tudo que o contrarie) é exemplo que um bom número de comentários no LdB plenamente atesta sobre o essencial do «aprender a aprender» agora em promoção.

Paulo Marques disse...

O problema do aprender a decorar é que o Jose decorou o mantra e repete-o todos os dias apesar do que agora dizem o FMI e a OCDE, já nem para falar na realidade que o desmentia antes de ter nascido.
Outro problema real são os juízes terem decorado a lei, mas não aprenderam a habituar-se à lei, e temos o estado a pagar por não terem aprendido o que é liberdade de expressão.
Como informatíco, aprender a decorar é de chorar a rir, uma vez que as ferramentas mudam todos os meses e as boas práticas todos os anos. Embora o mesmo não se aplique a todas as profissões, não há nada que se decore e chegue e sobre para 40 anos de carreira, hoje em dia nem para 5.

Anónimo disse...

Na linha do vasto ecletismo que me caracteriza também tenho uma palavra a dizer sobre frigideiras e panelas de teflon e similares.

Ou antes, também tenho um linkezinho, porque é mais prático que quem esteja interessado leia o que doutra forma seria longo de explicar.

https://www.salon.com/2018/02/04/the-chemical-industry-doesnt-want-you-to-be-afraid-of-teflon-pans-you-should-be/

S.T.

Jose disse...

Agradeço ao Paulo Marques o exemplo de como um mantra é o negacionismo do real.

Verdadeiramente um programador é um tradutor que exprime um algoritmo em códigos de linguagem que actua sobre máquinas.
Que acompanhe as mudanças do léxico e da sintaxe dessas linguagens só significa que tem a memória bem treinada.

Anónimo disse...

Um post certeiro de Nuno Serra, denunciando o paleio insane e idiota dum tipo que foi ministro daquele génio "catedrático"

"Quando a argumentação ( de Crato) chega a este nível vem-me à memória uma recordação de infância: a imagem de vendedores de banha-da-cobra, alçados em carrinhas de caixa aberta, com o frasquinho numa mão e o microfone na outra, a convencer os incautos que têm a solução para todos os males..."

É de banha da cobra que se trata.

É também de banha da cobra que trata um tal jose

Anónimo disse...

As idiotias com que um sujeito de nickname jose nos brinda sobre o "aprender a aprender" merecem um reparo necessário.

A este propósito é notável o esforço como sem dizer objectivamente nada, vem em socorro do Crato. Sobre o "aprender a aprender", vejamos o que este sujeito debita

"Este mantra", "bandeira de uma ideologia" ," muito rigorosa receita", "uma mais eficiente fórmula dessa receita", "tudo o mais fica destinado ","nova e obscura valência"

Completará tais idiotices ( porque o são) com o tom de desonestidade que imprime às suas coisas:
"Toda a treta do emprego estável, da casa própria, do endividamento permanente, da poupança prescindível, são a prática que atesta a falsidade do mantra do «aprender a aprender».

O que é isto?

Como do "aprender a aprender" virá falar no "emprego estável" (prefere o desemprego e a instabilidade laboral) e da casa própria ( vive de rendas e gosta das bolhas imobiliárias)?

Onde vamos nós desembocar quanto temos que aturar estas frustrações dum ressabiado que como um verdadeiro vendedor de banha da cobra esquece, rasura, esconde o dito por Nuno Serra e debita a porcaria da sua ideologia sinistra?

Anónimo disse...

Repete-se o que Nuno Serra escreve para demonstrar o contraste entre a seriedade deste e a forma manhosa, decrépita, desleal e desonesta como jose distorce e papagueia o seu aprendizado dos bancos de escola salazarenta:

"Será que o ex-ministro Nuno Crato acha mesmo que o que está em causa é a opção entre «conteúdos» e «aprender a aprender»? Terão as matérias programáticas das disciplinas desaparecido e ninguém deu conta? Em que consistirá na prática o programa do «aprender a aprender»? Não perceberá o ex-ministro que os conteúdos continuam lá e que a diferença reside no modo como são tratados, bem como nas finalidades que se pretendem atingir com os processos de ensino e aprendizagem? Que os «conteúdos» servem para «aprender a aprender» e não, simplesmente, para «memorizar e debitar»? Que uma coisa é «aprender a decorar» e outra é «aprender e problematizar»? Perceberá Nuno Crato a diferença entre o papaguear mecânico de uma tabuada e a ideia de que a mesma traduz a soma sucessiva de um algarismo? Ao vir com esta conversa requentada, terá Nuno Crato a expetativa de poder regressar à 5 de outubro com a sua agenda retrógrada, depois de ter ouvido Rui Rio no encerramento do 37º Congresso do PSD?"

A agenda retrógada do Jose sabemos nós qual é. Faltava apenas ele meter a martelo as "casas" e o "emprego estável", testemunhos independentes do que o faz mover e para onde lhe escorrem os fluidos



Anónimo disse...

As tretas debitadas inicialmente pelo Jose sobre o "aprender a aprender" chocam com o "sentido sério" que mais tarde o mesmo sujeito quer dar a tal expressão.

Ou seja,o vazio contorcionista de banha da cobra em torno do "aprender a aprender" converte-se depois numa "coisa séria" que, nos seus traços gerais e até certo ponto, ninguém contradisse
(Pese o tom de pregador evangélico a proclamar às ovelhas tresmalhadas e aos fiéis do rebanho os caminhos visionados por quem vive de rendas e de heranças dúbias)

Anónimo disse...

Mais uma vez o circo continua. Agora em torno do "Será possível «aprender e problematizar» sem «aprender a decorar»?" e do "Se aprendo ao ponto de poder problematizar, não decorei?"

Sejamos frontais. Estes jogos de palavras idiotas servem para esconder o que se disse:
"Que uma coisa é «aprender a decorar» e outra é «aprender e problematizar»

A diferença é abissal. Jose abraça a primeira e rangem-lhe os dentes perante a perspectiva duma aprendizagem crítica e aberta. E faz este exercício de bailarino em torno da própria palavra "decorar", quando o que se discute não é mesmo isso , não é o conceito mas sim o método de aprendizagem.

Jose pensará que somos parvos. Temos a confirmação ulterior de tal:
Dirá jose: "Aprender um mantra ( naturalmente decorando)"

Porquê naturalmente ? Porquê decorando? Porque é um mantra? Mas os mantras são do vocabulário típico em uso pelo jose, uma espécie de contra-senha com que povoa o seu vocabulário, como "mamões", esquerdalhos","cretinos". Portanto os mantras são os rezados pelo próprio josé, agora em promoção desta forma desconchavada

Dirá jose:"problematizando (por qualquer modo rejeitando tudo que o contrarie)

Porquê problematizando implica rejeitando? E porquê se rejeita tudo o que o contrarie? Porque se desconhece o que é problematizar? E esse misterioso de "qualquer modo" significa mesmo o quê?

Parece que o que está em promoção é outra coisa. Adiante para não baixarmos o nível da conversa

Anónimo disse...

Depois jose agradece o exemplo de como um mantra é o negacionismo do real

Mais uma vez uma frase feita.Ninguém contesta tal. O que se põe em causa é o arrazoado que se segue

Deixemos para lá a definição à "consultor financeiro paroquial " do que é isso de "informático".

Mas francamente. Usar como argumento da mais-valia do "aprender a decorar" o facto de um "informático acompanhar as " mudanças do léxico e da sintaxe dessas linguagens" é de cabo de esquadra. Ao que parece o excelente argumento apresentado pelo Paulo Marques referindo a mudança das ferramentas todos os meses e as boas práticas todos os anos "significa que tem a memória bem treinada".

E que se lixe o aprender a aprender, tão bem exemplificado neste exemplo feliz do informático?

Estarrecedor. Estamos no verdadeiro âmbito do processo de criação de mantras do jose.

Negacionismo do real e patetice surreal

Jose disse...

O mantra não é uma frase que exprima um pensamento cujo sentido se problematize.
O mantra é antes demais um artigo de fé ao serviço de mentes não problematizantes, insones crentes com suas rezas, almas em ânsia pela paz das certezas.
São âncoras para imbecis na sua enorme variedade de pathos.

Coisas tão simples; como ser a memorização beneficiada pelo treinamento; não haver problematização do que não me lembro ou nunca soube existir; aprender sobre o que necessito ou me atrai não implica problematizar coisa alguma;
estando em inconformidade literal com o mantra, sempre levantam ondas de indignada rejeição ...

Anónimo disse...

Escusa José de debitar o que é um mantra

Faz figura ridícula. Mas isso é com ele, embora seja potenciada por ser o próprio pastor a agitar-se inquieto, espanejando mais uma vez os seus próprios mantras.

Talvez para poluir espaço em modo de fuga do que se discute?

Anónimo disse...

Antes de mais!

"O mantra exprima um pensamento cujo sentido se problematize....O mantra é antes demais um artigo de fé...de mentes não problematizantes,.. insones crentes... rezas, almas em ânsia pela paz das certezas... âncoras para imbecis ...enorme variedade de pathos."

Eis um resumo fidedigno das idiotices por atacado. É demais.

Porque infelizmente essa coisa que ai em cima se expressa, nem sequer sabe a diferença entre "demais"e "de mais"

Não aprendeu a aprender. Antes de tudo o mais

Anónimo disse...

Compreende-se esta raiva surda e mantida sobre o "aprender a aprender", oculto agora por debaixo de outro pano, o do «aprender e problematizar».

Os exemplos dados foram demasiado pesados para o Jose. A incapacidade para sustentar tolices é mais um marco no seu percurso. O foguetório com que acompanhou a palavra "decorar", como contraponto a um processo de aprendizagem, é manifestamente um processo confrangedor. A retirada apressada e um pouco "apoltroada" perante os exemplos dados por Paulo Marques, nomeadamente no caso do informático, é sinal evidente duma incapacidade argumentativa e duma impotência discursiva.Traduzem-se uma e outra num arrazoado penoso e degradante sobre os"mantras" e afins.

O que sobra?

-"Coisas tão simples; como ser a memorização beneficiada pelo treinamento" ...
Ora bem. Ninguém contestou esta questão. Ninguem levantou ondas de indignada rejeição

-"não haver problematização do que não me lembro ou nunca soube existir" ; "aprender sobre o que necessito ou me atrai não implica problematizar coisa alguma";
Ora bem. Ninguém levantou esta questão. Ninguém levantou ondas de indignação. Isso é problema único e exclusivo de Jose. Estamos todos nós nas tintas para o que ele se lembra ou que saiba que existe, se problematiza ou não, se necessita de algo ou se prescinde desse algo, o que o atrai ou deixa de atrair.

Isto é aquilo a que prosaicamente se designa como baboseira. Com o seu quê surpreendentemente ( ou talvez não) de pieguice incontida

A.R.A revolução disse...

Eheheheh! Realmente as conversas são mesmo como as cerejas ... um post dedicado ao Sr. N.Crato mais a sua ideia enviesada da Educação (e esteve este homem à frente da Educação dos nossos educandos?) e damos por nós a discutir "mantras" e coisas de fé!

Realmente para as pessoas de fé, e não só, só de pensar que N.Crato foi um dia M.Educação é coisa para qualquer um se benzer

Bom, como dizia o outro, havia tanta coisa a dizer deste senhor mas ... não temos tempo! Ou melhor, tempo até podemos ter mas seria sempre uma perda de ... tempo.

Anónimo disse...

Volto a este post apenas para divulgar um artigo da francesa Marianne que dá conta de um estudo que demonstra que as escolas privadas não têm melhor qualidade de ensino que as públicas.

https://www.marianne.net/societe/une-etude-universitaire-conclut-que-les-ecoles-privees-n-enseignent-pas-mieux-que-les-ecoles

Boa leitura
S.T.