quarta-feira, 7 de março de 2018

É melhor esperar?


Na Itália, o Movimento 5 Estrelas (M5E) assume a sua fidelidade ao euro e propõe-se liderar um governo que executará as reformas pretendidas por Bruxelas, em coligação com o PD, os sociais-liberais derrotados. É o que se pode deduzir do artigo publicado no Guardian por um académico, candidato do M5E nestas eleições.

Assim, parece que a Itália vai continuar dentro do colete de forças do euro, sob tutela alemã. Antevê-se uma nova etapa de agonia da sociedade italiana e, por isso mesmo, o aumento dos desiludidos que levarão a Liga ao poder. Não há uma esquerda soberanista, em sintonia com os anseios do povo humilde, em condições de oferecer uma saída do euro, e uma solução para o problema da imigração, pela esquerda.

Ao mesmo tempo, na Alemanha os sociais democratas repetem o erro de dar o braço a Merkel, o caminho mais favorável à ascensão do partido da extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD) que no ano passado entrou no parlamento pela primeira vez com 12,6% dos votos. Uma sondagem de Fevereiro dá-lhe 16%, acima do SPD, tornando a AfD o segundo partido. 

Desde há anos que estamos a assistir ao haraquiri da social democracia. Em Portugal, o xadrez partidário vai mesmo passar ao lado disto tudo? Não acham que era melhor começarmos a pensar na refundação da esquerda não-comunista? Eu sei, não há condições. É melhor esperar, talvez quando a nova etapa da crise bater à porta.

9 comentários:

Anónimo disse...

Decepcionante, sem dúvida. Demonstra as muitas maneiras de dar a volta à insatisfação do eleitorado. Nesse caso Luigi Di Maio seria uma espécie de novo "Tsipras", instalado no aparelho de uma formação politica com fraca coerência ideológica para oportunamente "tomar o controle" e salvar o "sistema".

Razão tinha Bagnai em suspeitar da incoerência do M5S.
Uma critica ao programa do M5S pode ser encontrada aqui (em inglês):

https://braveneweurope.com/guglielmo-forges-davanzati-italian-elections-the-5-star-movements-policy-prescriptions
S.T.

Anónimo disse...

Ou interpreto mal o que leio ou o artigo do Guardian pelo menos ainda não apresenta a coligação PD + M5S como um facto consumado. Talvez o meu comentário anterior seja senão infundado pelo menos prematuro.

Mas de qualquer forma, o que ressalta dos últimos tempos é a transformação da política e do seu braço armado, os meios de informação, num infinito jogo de espelhos, em que quase nada do que parece é, e mesmo que o seja cria-se a suspeição de que possa não o ser. Confusos? É normal.

Quem leia o post do João Rodrigues aqui mesmo abaixo não pode deixar de se interrogar se a destruição das esquerdas italianas é "natural", isto é, resultado das entropias inerentes às lutas politicas internas das diferentes formações, ou induzida por hábeis manipulações de personagens e grupos por parte de adversários mais ladinos.

Quem leia Sun-Tzu, "A Arte da Guerra" sabe que a decepção e o embuste são as armas mais poderosas e mais económicas em meios, e que só um cuidadoso nível de análise pode revelar pelo menos os logros menos sofisticados.

Acontece que com o advento dos meios de comunicação de massas e sobretudo com a internet e as redes sociais tornou-se ainda mais fácil a manipulação e decepção dos adversários.

Vem tuda esta prédica a respeito de uma tentativa de assacar a responsabilidade das escolhas dos eleitores italianos, nada mais nada menos do que a Putin, pela mão de Samantha Power

"Italy’s joins long list of elections influenced by Russia. Sputnik will do what Sputnik does. The question is: what are our democracies going to do about it? Will voters repudiate candidates who seek to benefit from Russian interference?" https://t.co/JbFe35Sw5n

O artigo está no site Zeroedge, sobre o qual repito as prevenções que julgo necessárias:
"Zerohedge é um site a seguir com precaução porque está minado por artigos ostensivamente ordoliberais "da pesada" e de tendência "direita libertária". Digamos que não é para quem não tenha o faro apurado e um sentido critico agudo do que está a ler."

O artigo do Zerohedge em questão é este:
https://www.zerohedge.com/news/2018-03-06/russia-blamed-italian-election-outcome

Não há dúvida que vivemos tempos interessantes, embora o potencial de logro a que as tecnologias de informação nos expõem seja cada vez maior.
S.T.

António Geraldo Dias disse...

Meu caro telegráficamente: "Em Portugal, o xadrez partidário vai mesmo passar ao lado disto tudo?" Não vai! "Não acham que era melhor começarmos a pensar na refundação da esquerda?"Acho que sim!"Não-comunista"? Não,para não repetir os erros da "esquerda democrática" que nos trouxeram até aqui.Já agora uma vez que a referência ao PC parece óbvia onde incluiria o BE?

Gonçalo Esteves disse...

Então qual é a alternativa ? Deixar que a CDU na Alemanha e o Centro Direita na Itália/Portugal governem livremente sem serem forçados a aceitar, debater, ouvir propostas dos partidos de esquerda ? Até o PODEMOS estava disposto a coligar-se ao PSOE...É claro que o SPD sofreu por estar coligado e o Renzi por ter feito reformas inaceitáveis a nível da precarização do trabalho e da flexibilização da lei laboral, mas a verdade é só uma, ou estes partidos aceitam estas coligações ou surge o caos com partidos de extrema direita. O artigo diz que não há uma esquerda não comunista que queira debater a saída do Euro, em Portugal só o PCP propôs esse assunto. Portanto sim, não há condições para ressurgir a social democracia de Olef Palme ou Clement Attlee.

Jaime Santos disse...

Pois, Jorge Bateira, o melhor é esperar para não apanharem nenhum banho nas eleições de 2019... O sistema político português tem-se revelado admiravelmente resiliente à crise, talvez porque os Portugueses na sua sabedoria sabem que as alternativas ditas soberanistas ainda deram piores resultados (vá ver o lindo estado da Venezuela, por exemplo). Agora, claro, pode-se sempre desejar uma crise, como o Dr. Passos Coelho, e esperar que a raiva faça o resto. O problema é que a raiva é muito má conselheira, a sra. May que o diga...

Anónimo disse...

A raiva é mesmo má conselheira Jaime Santos.

E o que faria se não pudesse citar a Venezuela? Cheira já mal e francamente é ridículo sustentar a perda de soberania acenando com fantasmas desta forma

Mas há sempre escravos que defendem os seus senhores

Anónimo disse...

Continua a múmia continua a mesma:

"Cavaco Silva lembrou que, enquanto chefiou o Governo em Portugal, de 1985 a 1995, conheceu nove primeiros-ministros italianos.

Independentemente dos eurocéticos, o antigo Presidente da República lembrou que mesmo o primeiro-ministro da Grécia, Alexis Tsipras, líder da coligação de esquerda radical, optou por um terceiro resgate financeiro a sair da União Europeia.

E até citou Tsipras numa entrevista em julho de 2017 quando disse: "Sair da União Europeia? E ir para onde? Ir para outra galáxia?"

Para Cavaco Silva, "perante os desenvolvimentos eurocéticos e nacionalistas em alguns países da União Europeia", a "zona euro deve assumir-se inequivocamente como o núcleo duro do projeto europeu e como motor do reforço do processo de integração".

Os consensos na União "serão mais fáceis de alcançar entre 19 estados membros que partilham extensas e importantes parcelas de soberania, a mais importante das quais é uma moeda comum".

O antigo primeiro-ministro fez ainda a defesa de um ministro das Finanças Europeu."

Heil, Cavaco

Anónimo disse...

Em relação ao M5S a sua inorgânicidade pode ser em parte explicada pelo caràcter basista que o seu fundador lhe imprimiu.

Até que ponto é que as metodologias organizacionais que são empregues num movimento ou partido condicionam o seu futuro?

Ver este artigo:

https://scalingdemocracy.net/2016/09/27/a-preliminary-analysis-of-the-political-values-embedded-in-rousseau-the-decision-making-and-organizational-platform-of-the-five-star-movement-part-i/

E isto coloca muito interessantes questões acerca de como desenhar um partido ou movimento para o crescimento rápido, para a coerência interna, para a preparação dos seus militantes para o exercício de cargos públicos, para a resiliência, etc..

Nos dias de hoje, uma plataforma informática interna é quase indispensável para um qualquer movimento, mas pode representar também um factor de fraqueza se houver falhas de desenho.

Para terminar com uma nota humoristica, um video de um senhor chamado Piero Fassino, do PD italiano, que involuntáriamente se tornou "vidente".

https://www.youtube.com/watch?v=pdND7TKJhfU

S.T.

Anónimo disse...

Via Vocidelestero

http://vocidallestero.it/2018/03/10/mario-nuti-state-attenti-a-cio-che-desiderate/

Um blogpost interessante sobre a esquerda italiana:

"Inevitably a two steps (at least) process is required to get rid of this false Left and open the Left again to being the representative of working people, of fairness, of the admittance of workers' organisations into governance, of preventing falling wages and mass unemployment, of strengthening the welfare state in all its manifestations, from education to decent health and pensions as well as its current, defective, merely safety-net functions."

https://dmarionuti.blogspot.pt/2018/03/be-careful-what-you-wish-for.html?m=1

S.T.