quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Antifascismo militante


No seu primoroso blogue A Terceira Noite, Rui Bebiano apela à “organização de um antifascismo militante”, capaz de fazer face à “extrema-direita mundial” em ascensão. Sem esquecer a solidariedade internacional possível e a atenção aos fenómenos internacionais de contágio, a escala nacional é hoje a mais importante para acção política, partindo de análises concretas das variadas situações nacionais concretas, incluindo das forças sociais em presença e suas bases materiais. Neste sentido, partindo da situação portuguesa, reafirmo: não importemos problemas, embora, dado o caso Bolsonaro, talvez tenha sobrestimado o grau de compromisso democrático de certa direita portuguesa dita liberal. É realmente preciso estar sempre vigilante. Sobre o fascismo, termo que realmente não deve ser vulgarizado, repito algumas notas a pensar sobretudo neste lado do Atlântico:

1. É necessário adaptar para estes tempos sombrios a famosa fórmula de Max Horkheimer sobre a relação entre capitalismo e fascismo: aqueles que não querem falar criticamente de neoliberalismo, da forma dominante de economia política hoje em dia, e que até querem defender as instituições supranacionais que garantem a sua perpetuação em parte do continente europeu, devem ficar calados sobre tendências fascizantes de novo tipo que lhe são endógenas.

2. A lógica da frente popular, do antifascismo mais consequente, nunca deve ser esquecida. Assim, vale a pena ler ou reler o discurso de Georgi Dimitrov sobre a estratégia das frentes populares, definida, em 1935, pela Terceira Internacional. Para lá da crítica ao sectarismo e da defesa de uma unidade política consequente, uma das apostas passou por não deixar a inevitável imaginação nacional entregue às direitas: “O internacionalismo proletário deve aclimatar-se, por assim dizer, a cada passo e deitar profundas raízes no solo natal. Ao revoltar-se contra toda a vassalagem e contra toda a opressão é o único defensor da liberdade nacional e da independência do povo”.

3. No seu extraordinário livro A Democracia – História de uma Ideologia, Luciano Canfora assinala precisamente como o antifascismo passou de um programa negativo, de resistência, para um programa positivo, de reforma na estrutura, sobretudo a seguir a 1945. Destacando justamente Palmiro Togliatti, outro dos grandes estrategas do antifascismo, Canfora localiza nesses anos de esperança o maior avanço do ideal democrático, consubstanciado constitucionalmente na república democrática, baseada no trabalho e na remoção dos obstáculos socioeconómicos no caminho de uma igualdade substancial, ou seja, de uma democracia avançada. Por cá, teríamos ainda quase três décadas de luta antifascista, rumo à revolução democrática e nacional.

4. Hoje não há internacional e desapareceu um dos freios e contrapesos que tinha contribuído para a institucionalização de formas menos polarizadoras e agressivas de capitalismo. Mas, de novo, só podem defender consequentemente os valores universais da solidariedade, que ganham densidade em estados soberanos, as forças democráticas enraizadas no solo nacional e que não aderiram à lógica supostamente leve dos fluxos e de um cosmopolitismo que mascara tantas vezes o imperialismo.

5. As sociedades mais igualitárias, seguras na sua identidade, são internacionalmente mais cooperativas, sabemo-lo há muito. E nós também sabemos bem como são hoje poderosas as forças que apostaram em destruir Estados no bloco afro-asiático e em esvaziá-los na Europa do sul. A história é repetição e novidade. Uma das boas novidades é que vivemos num mundo muito mais multipolar. A outra é que dispomos, aqui e ali, de constituições nacionais onde ainda sobrevivem algumas das marcas do antifascismo; constituições que de resto o capital financeiro e as suas instituições de suporte europeias ainda consideram um empecilho, lembrem-se.

14 comentários:

Jose disse...

Muito prudente e avisado.

A esquerdalhada só se sente confortável ou no papel de vítima ou no papel de autoridade, o que significa que é intrinsecamente antidemocrática.

Ao seu papel de autoridade no julgamento da situação no Brasil, para além de despropositado, logo a derrota lhes sugere verem-se vitimadas por um fascismo avassalador.
Nas suas certezas imperiais entendem nunca ser aplicável a 3ª lei de Newton.

Obviamente nunca lhes ocorre que possam ser histéricos e presunçosos.

Jaime Santos disse...

Ah, pois, ou estamos com o nacionalismo popular ou temos que ficar calados. O João Rodrigues esquece a maior das lições saídas da Segunda Guerra Mundial: só a aliança entre o liberalismo ocidental e do comunismo soviético (não sem que antes este último se aliasse a Hitler, por mais que se tente racionalizar o pacto Ribbentrop-Molotov como uma defesa precisamente contra o liberalismo ocidental) permitiu a derrota do fascismo (e não sem que antes Estaline sentisse as forças de Hitler a entrarem-lhe pela porta dentro).

Na atualidade as coisas são menos dramáticas, mas não são assim tão diferentes. Quem quis colocar Macron e Le Pen no mesmo saco não tinha moral alguma para apelar ao voto da Direita Brasileira contra Bolsonaro (mas não, note-se, o L'Humanité).

Merkel ou Macron podem ter todos os defeitos, mas serão sempre muito mais eficazes contra a AfD ou Le Pen do que Wagenknetcht (a tal do nacional-popular) ou o histérico Melenchon, que diz que a República é ele :-) ...

Palpita-me que com tais moralismos o anti-fascismo da Esquerda, que não tem hoje em dia nem músculo eleitoral nem sequer uma URSS para lhe manter as costas quentes, não sirva mesmo para nada... Teremos que passar sem ele, já se viu...

Anónimo disse...

Ora bem

Cá temos a prova provada que o andar nestas coisas de blogs a comentar desta maneira "em Portugal não é ócio, é uma trabalheira e não raro grande despesa".

Citamos o próprio comentador que assim se lastimava noutro post do LdB.

Obviamente nunca lhe ocorre que possa ser histérico presunçoso

Mas quantas vezes, Senhor, já foi confrontado com essas suas características

Anónimo disse...

Curiosamente o que sobressai no comentário do comentador, que está afanosamente a trabalhar nas suas certezas imperiais, é o agastamento.

E o disparate puro e duro

Uma parte substancial deste belo texto de João Rodrigues já teve a sua aparição nestas páginas. Ensina-nos a experiência que tão importante como o corpo principal do texto, os vários links para que somos convidados assumem uma enorme importância.


Nalguns desses textos temos a oportunidade de observar também a forma como o dito "comentador" reagiu perante o exposto

E observar o seu ódio destrambelhado à Frente Popular.

Tivemos assim direito aos elogios à trampa franquista por parte do sujeito em causa.

Uma vergonha abjecta?Ou uma abjecta vergonha?

Anónimo disse...

Temos agora direito a outra via de abordagem

Deixemos para lá aquele seu velho "esquerdalho", prova menor dum certo rancor histérico e assumidamente presunçoso

Dirá o referido comentador:
"só se sente confortável ou no papel de vítima ou no papel de autoridade, o que significa que é intrinsecamente antidemocrática".

O que é isto? Adivinharam?

Exactamente, uma imitação dum dos discursos claros e lúcidos do outro traste. Com uns pozinhos de um discurso do Thomaz. Já lá vamos

( O "esquerdalho") só se sente assim confortável no papel de vítima? Ou no de autoridade?

Mas como diabo alguém pode dizer tal idiotice se o conforto é alheio ao ser do sujeito em causa?
Estará numa de pitonisa disfarçada?

A irritação e a cabotinice todavia continua

Parece que por estar delimitado o conforto à vítima ou à autoridade tal significa que "a esquerdalhada" é intrinsecamente antidemocrática

Ahahahaha

Esta é mesmo tirada dum daqueles discursos idiotas mas sobremaneira cómicos do américo thomaz

Anónimo disse...

Continua o referido "comentador" no mesmo tom:

"Ao seu papel de autoridade no julgamento da situação no Brasil, para além de despropositado, logo a derrota lhes sugere verem-se vitimadas por um fascismo avassalador".

(Logo, logo, pois então)

Papel de autoridade no julgamento da situação no Brasil? Mas quem confere tal autoridade? Alguém reivindicou tal papel? A autoridade foi chamada para presidir ao debate?

Não se pode ter um juízo claro e fundamentado perante a situação no Brasil sem que nos apareça pela frente alguém a acenar com a autoridade? Ou isto é um reconhecimento indirecto da autoridade de quem defende os valores civilizacionais?

Mas isso é sinal de uma enorme impotência...argumentativa, claro.


Parece todavia que essa autoridade (assim convocada de modo um pouco inferiorizado por quem a cita) é "despropositada".

Porquê "despropositada"?

Porque não coincide e é antagónica com a leitura da situação no Brasil lida pelos cúmplices e coniventes com bolsonaro?

O juiz dos propósitos propositados e despropositados é a tralha bolsonarista? Mas então a autoridade convocada foi apenas para tentar demonstrar que a única autoridade propositada é de quem anda assim com a trampa do bolsonaro ao colo?

E que mais nenhuma autoridade será permitida e tolerada, heil,heil,heil?


Há ainda mais: Dirá o "comentador" em causa:
"logo a derrota lhes sugere verem-se vitimadas por um fascismo avassalador".

Entramos de novo no domínio da macaqueada ( e divertida) imitação dos discursos claros e lúcidos do outro.

A derrota sugere? Sério?
E vitimados? Assim do género das vitimas irremediavelmente vitimadas?
E o fascismo é avassalador? Assim avassalador de quem avassaladoramente vê desnudada a relação entre capitalismo e fascismo?

Ah,tocámos na verdadeira causa da agitação agitada e propositada de quem anda com este paleio aflitivamente treteiro

Anónimo disse...

Temos assim que "Nas suas certezas imperiais entendem nunca ser aplicável a 3ª lei de Newton."

Essa das certezas imperiais é uma auto-crítica indirecta à autoridade propositada citada pelo próprio?

Essa da lei de Newton é uma auto-crítica directa ao desconhecimento do que são Leis da Fisica? E daquela espatafúrdia que constituiu o movimento que tentou extrapolar tais leis para as relações sociais?

O ensino baseado no senso-comum do paleolítico dá nisto

Anónimo disse...

Dirá Jaime Santos:
"não sem que antes este último se aliasse a Hitler, por mais que se tente racionalizar o pacto Ribbentrop-Molotov como uma defesa precisamente contra o liberalismo ocidental"

Racionalizar?

Porquê racionalizar o pacto germano-soviético? Antes não tinha ocorrido o pacto de Munique, assinado a 30 de setembro mas datado de 29 de setembro de 1938, entre Adolf Hitler, Neville Chamberlain, Édouard Daladier e Benito Mussolini?

Contra o "liberalismo ocidental"? Que ignorância da história

O êxito do fascismo nazi na Alemanha em 1933 e a política de Hitler nos anos seguintes agravaram muito a ameaça duma segunda guerra mundial. A crise económica de 1929 fez aumentar muito o perigo de conflitos armados entre as grandes potencias, pois a militarização da economia afigurava-se um meio expedito de resolver a crise económica. O armamento alemão atinge valores impressionantes. Impedir a formação de uma vasta coligação anti hitleriana que agrupasse as potências imperialistas do ocidente e a união Soviética foi o objectivo principal da política nazi (juntamente com o rearmamento, já enunciado). A política externa da URSS foi desde o início marcada pela tentativa de isolar Hitler e resistir à agressão. No entanto, a política do Reino Unido e da França foi sempre muito permissiva, limitando-se a condenações verbais. Aquando da assinatura dos acordos de Munique (setembro de 1938), já o Japão tinha declarado guerra à China (1932; 1937), tendo provocado alguns violentos incidentes com a URSS, e a Itália invadira a Etiópia (1935). Com os acordos de Munique Hitler pode anexar os territórios dos sudetas na Checoslováquia. Esta atitude da França e do Reino Unido só podia trazer inquietação à URSS. O Governo da URSS continuou a trabalhar na constituição de uma frente comum com a França e o Reino Unido, sem nenhuns resultados. É neste contexto que se tem de entender os actos posteriores dos dirigentes da URSS.

Qual "liberalismo ocidental" qual carapuça


Anónimo disse...

Já agora lembrar que a História é contada de acordo com o que se pretende no presente

E lembrar de carrinho a Jaime Santos que demasiados historiadores ( para ele, JS) concordam que o pacto germano-soviético é inseparável da antecedente atitude dos países ocidentais em querer empurrar a guerra para Leste (Paul Marie de La Gorge afirma mesmo que a Grã-Bretanha e a França chegaram a pensar numa intervenção militar conjunta contra a URSS antes da guerra).

Podemos agora continuar?

Anónimo disse...

Pede-se algum comedimento a JS.

Por favor. Corbyn é um dos seus alvos predilectos, a mostrar que o legado da social-democracia está entregue aos que assumidamente convocam as grilhetas de Bruxelas como suporte do seu discurso neoliberal

Agora é o Melanchon que é histérico.

Só mimos.

Que ainda se tornam mais mimosos quando se comparam aos mimos dirigidos ao traste do Macron e a Merkel, a tal amada tanto por Passos Coelho como odiada pelos gregos...

Anónimo disse...

Dirá JS:
"Merkel ou Macron podem ter todos os defeitos, mas serão sempre muito mais eficazes contra a AfD ou Le Pen blablabla blablabla


Entretanto há três dias ficámos a saber que Le Pen ultrapassou Macron nas sondagens para as europeias

João Rodrigues alertava já na primavera de 2017 que "A fórmula “Macron 2017 = Le Pen 2022” corre o risco de se confirmar"

E continuamos a ter direito às leituras completamente enviesadas de JS

helena andrade disse...

porque é que este comentador que se ocupa a defender o post e a contra argumentar sobre os outros comentadores nunca se identifica?????

vitor disse...

Voltamos sempre ao mesmo. Mas é possível falar criticamente de neoliberalismo, da forma dominante de economia política hoje em dia, da globalização e até da perda dos direitos dos trabalhadores até ao regresso ao trabalho à jorna no seio da UE. E a prova é que há mesmo quem o faça no seio da UE. Se é a corrente dominante da UE? Infelizmente não mas a luta é mesmo essa. Também não é a corrente dominante em Portugal e nem por isso o pais se rendeu ao FMI e ao governo anterior. Ou a Internacional também não era uma instituição supranacional. Um dos maiores problemas da globalização é mesmo um problema de escala. Do tamanho das multinacionais - autênticos monopólios - contra as quais uma economia pequena como Portugal pouco ou nada pode.

Anónimo disse...

Voltamos sempre ao mesmo

E mais uma vez joão pimentel ferreira faz nascer do éter o vitor, um outro nickname do próprio, com que assume a sua faceta de neoliberal escondido com o neoliberal de fora


Infelizmente o pobre coitado "esqueceu-se" que foi desmascarado aqui neste post.

https://ladroesdebicicletas.blogspot.com/2018/10/repeticao.html


Tão desmascarado que depois do acontecido foi a correr apagar o que escrevera e o denunciara

Pobre vitor pimentel aonio eliphis ferreira etc etc etc