sábado, 10 de novembro de 2018

Fogo na RTP

A decisão anunciada pela administração da RTP, de sancionar a nova direcção de informação (DI) da televisão pública, foi uma decisão incompetente. Por várias razões.

Primeira. A formação desta DI culmina um período de omissões e confusões em que a administração esteve envolvida. No meio de um processo de substituição do então director Paulo Dentinho, a administração acabou, afinal, por reconduzir o mesmo Paulo Dentinho e provocar a saída da RTP de um dos candidatos (ver a parte final deste artigo no Público). Dentinho chefiou então uma direcção escolhida por si, visivelmente desastrada, que se aguentou apenas uns meses, até Dentinho colocar o lugar à disposição.

E o que fez a administração da RTP para sair deste imbróglio que criou?

Segunda razão. Decidiu - sabe-se lá por que razão - convidar uma jornalista - Flor Pedroso - que pertence ao grupo público, tem os seus créditos e respeitos firmados na Rádio, mas que pouco sabe de televisão. Ninguém coloca em causa a capacidade de se aprender fazendo, mas seria preferível que um cargo da importância do ocupado não o fosse por alguém em regime experimental.

Terceira razão. Não se conhece as condições dadas pela administração da RTP a Flor Pedroso para formar a sua equipa, mas o certo é que a convidada teve carta branca para escolher pessoas da sua confiança pessoal, independentemente das suas qualificações para o cargo, e mesmo fora da RTP.

Foi o caso de Helena Garrido que, igualmente, é uma jornalista com créditos e respeitos firmados na Imprensa, mas que pouco sabe de televisão. Helena Garrido tem outra particularidade: não é uma pessoa que defenda a existência de uma televisão pública. Economista formada na Universidade Nova de Lisboa, sempre defendeu teses liberais. Enquanto directora adjunta do Jornal de Negócios, coerentemente sancionou a intervenção da troica, as políticas que fragilizaram o Estado, e até formulou opiniões contrárias à existência de uma televisão pública. Em Agosto de 2012, Helena Garrido criticou a hesitação do governo em não privatizar a RTP, defendendo que o serviço público deveria ser então concessionado aos operadors privados (TVI e SIC):

"E se se quer concessionar, não fará mais sentido lançar um concurso para o provisionamento de serviço público de televisão ao qual pudessem concorrer todos os canais? O problema com o serviço público de televisão não está no que gastou no passado. Está naquilo que gastará no futuro e nos efeitos que o serviço público de televisão terá no exercício da nossa liberdade." (Jornal de Negócios, 27/8/2012)


Helena Garrido foi igualmente a pessoa de confiança que Flor Pedroso escolheu para a ajudar a organizar o 4º Congresso dos Jornalistas, quando a direcção do Sindicato dos Jornalistas receou não o conseguir montar e convidou alguém de fora, perdendo o seu controlo. Os resultados não foram, na minha opinião, os melhores, embora (creio) a maioria tenha gostado. Releia-se o que já se escreveu aqui e aqui porque diz alguma coisa das pessoas em questão. 

Quarta razão. Possivelmente para colmatar os défices de conhecimento do sector televisivo destas duas pessoas, Flor Pedroso escolheu uma repórter televisiva premiada que passou quase toda a sua vida a trabalhar em televisão, sobretudo num dos concorrentes privados da RTP (a SIC). Cândida Pinto será uma das cerca de 30 pessoas que ultimamente saíram - voluntariamente ou não - do grupo, fruto da cega espiral recessiva de corte de despesas, dada a sua situação financeira. Aliás, nesta nova DI haverá três pessoas que, independentemente da sua entrega actual à RTP, vieram da SIC (António José Teixeira, Joana Garcia e agora Cândida Pinto), o que reflecte a ideia de quem escolhe: como se na televisão pública não houvesse quadros seus em número e qualidade para formar uma equipa.  

Quinta e talvez a mais sintomática da má gestão da actual administração. Desde sempre, a administração de RTP presidida por Gonçalo Reis se recusou a promover pessoas há anos no mesmo nível (algumas há 20 anos) ou a regularizar as centenas de precários ilegais, detectados pela ACT e que, mercê de um processo recambolesco e individualizado, provocou que a maioria nem esteja a ser regularizada. Tudo alegadamente por ter restrições orçamentais. Mas de repente, não se sabe como, não se sabe por que prioridades, urgências ou critérios, já apareceram verbas para pagar duas contratações externas de peso. A reacção imediata da Comissão de Trabalhadores foi a de pedir a demissão do presidente da RTP. Veja-se o seu comunicado.

Tudo é, na verdade, estranho. E teme-se o pior de um processo mal gerido, mal conduzido e mal decidido.

7 comentários:

Geringonço disse...

Não deve faltar muito para que Camilo Lourenço volte à RTP!

Jose disse...

Gosto em particular do serviço público da televisão pública a ser feito pro crentes na propriedade pública do serviço público.
O que tenha a ver com informação já não é tão claro.


Que os serviço público seja prestado a partir de receitas de serviço comercial em concorrência com privados até parece boa ideia, se não me caísse uma taxa em casa todos os meses.

Anónimo disse...

Muito bom

Luis Lopes disse...

Pois,estaria tudo bem se a RTP não estivesse inundada de publicidade,de conteúdos de "gosto" duvidoso,e,ainda por cima tenho de pagar uma taxa,não posso concordar que a RTP queira o melhor de dois mundos.

Anónimo disse...

JRA, Não se percebe quem foi o alguém de fora que a direcção do sindicato dos jornalistas chamou para organizar o congresso. Se Flor Pedroso, se Helena Garrido. Pode explicitar-se?

João Ramos de Almeida disse...

Caro anónimo,
Sim, a direcção do Sindicato pediu a Flor Pedroso para organizar o Congresso dos Jornalistas, que por sua vez pediu a Helena Garrido para a ajudar nessa tarefa. Creio que essa informação está nos links referidos no texto, cuja leitura aconselho vivamente.

Anónimo disse...

Caro JRA, Já tinha lido na devida altura e agora. Não ficou nada esclarecido a sua afirmação.

Tanto quanto sei, o sindicato escolheu um comissário externo para o evento (Flor) e nomeou uma comissão de honra ou comissão executiva (onde estavam Helena e outros).

O que é processo habitual de muitos destes eventos. A constituição da dita comissão e o processo de escolha dos membros foi bastante opaco, mas isso é outra questão.

Entendi a frase Chamou alguém de fora, dirigida mais a Helena. Flor (indicada pelo sindicato para levar a cabo a função, ao estilo alta-comissária independente) podia ter-se mostrado incapaz e recorrido sobretudo a Helena, figura em tudo estranha ao sindicato, tal como, aliás, outros dos membros da comissão (cuja real acção na organização do Congresso desconheço).