segunda-feira, 2 de maio de 2016

A falácia da relação entre salários, competitividade e crescimento económico


O recente vídeo publicado no site do Expresso sobre o papel das exportações para o crescimento económico presta um mau serviço ao debate sobre as estratégias de desenvolvimento do país. Ao confundir causas com consequências, curto prazo com longo prazo e exportações com balanças externas, o vídeo baralha mais do que esclarece, dando a entender que foi mais motivado por uma qualquer irritação pessoal dos seus autores do que por ideias claras sobre os temas em questão.

Subjacente ao vídeo do Expresso está uma falácia que, a julgar pela amostra, continua presente em muitos discursos sobre a situação económica em Portugal e sobre as políticas mais adequadas para lhe fazer face. Em termos simples, o raciocínio é este:

1) para a economia portuguesa crescer é necessário que as exportações aumentem;
2) para que as exportações aumentem é preciso que o seu preço baixe;
3) para que o preço das exportações diminua é necessário baixar os salários.

É este raciocínio que continua a levar muitos a defender que os salários em Portugal têm de descer para que a economia cresça. Inversamente, sugerem que qualquer política que favoreça o crescimento dos salários está condenada a gerar mais desemprego. Acontece que qualquer um dos passos do raciocínio atrás referido é falacioso.

Primeiro, a descida dos salários não é condição necessária nem suficiente para que os preços das exportações se reduzam. Por exemplo, este estudo mostra que os custos salariais têm vindo a reduzir-se nos países do sul da UE sem que isso se tenha reflectido inteiramente nos preços dos bens produzidos (a razão é simples: a redução dos salários foi absorvida pelo aumento dos lucros). Por sua vez, este trabalho estima que nos países referidos os custos do trabalho são responsáveis por apenas 1/6 dos preços dos produtos. Ou seja, há factores muito mais relevantes para a determinação dos preços do que os custos do trabalho.

Segundo, a redução dos preços não é condição necessária nem suficiente para o aumento das exportações. Para além dos preços relativos, a evolução das exportações depende também de factores de competitividade não-preço (qualidade, inovação, serviços aos consumidor, acesso aos canais de distribuição, etc.), bem como das dinâmicas de procura dos produtos em questão e do crescimento dos mercados de destino. Por exemplo, ao contrário do que muitas vezes se diz, o sucesso das exportações alemãs na última década não resulta da compressão salarial que se verificou naquele país desde finais da década de noventa, mas antes do crescimento verificado nos mercados de destino dos produtos germânicos. Inversamente, o fraco desempenho das exportações dos países do sul da UE têm menos a ver com o crescimento dos salários do que com o padrão de especialização das suas economias.

Por fim, o aumento das exportações não é condição necessária nem suficiente para o crescimento das economias. O crescimento da economia pode ser induzido pela procura externa ou pela procura interna. Na esmagadora das economias avançadas, a procura externa representa apenas 1/5 da procura dirigida à produção nacional. Isso significa que seria necessário um crescimento extraordinário das exportações para compensar uma redução da procura interna. O problema agrava-se quando a procura internacional é fraca e se tenta assegurar o aumento das exportações por via dos baixos salários – pois isso significa que a procura interna vai diminuir, penalizando fortemente o crescimento. Não é, pois, surpresa que alguns estudos mostrem que as políticas de desvalorização interna – visando promover o crescimento por via do aumento da competitividade – conduzam, pelo contrário, a um crescimento mais fraco.

Em suma, por estranho que pareça, nem a redução dos salários conduz necessariamente à redução do preço dos produtos, nem a redução dos preços conduz necessariamente ao aumento das exportações, nem o aumento das exportações conduz necessariamente ao crescimento económico (principalmente se for obtido à custa de baixos salários). Nada disto significa que devamos ser indiferentes às relações entre salários, competitividade e crescimento económico. Mas, como sempre, as coisas são mais complicadas do que parecem.

17 comentários:

Anónimo disse...

e sai uma liçãozinha básica de economia que desmonta uma série de "mitos urbanos", como gosta de dizer o coelhinho

quanto ao pobre cagalhão zé virá por certo com a sua habitual parafernália argumentativa de grandioso rigor científico - "abrilada", "esquerdalha", "bestas", "tretas"...e de novo desaguará no rio

jo disse...

Sem contar as diminuições generalizadas de salários prejudicam a maioria da população.
Só se pode dizer que um aumento das exportações à custa dos salários é um bom método se concordarmos que a economia pode ficar melhor ficando as pessoas pior. Um conceito que considera que uma boa economia é a que remunera bem o capital, independentemente de os outros ficarem melhor ou pior.

Anónimo disse...

Um país absolutamente dependente das exportações é um país frágil.

Antonio Cristovao disse...

Tem toda a razão. Como também as falacias contrarias são banha da cobra para alimentar as seitas. Tudologos alimentam-se destas falacias.

Manuel Silva disse...

Caro Ricardo:
A sua explicação tem uma falha grave.
Como se explica (e faz compreender) a quem não precisa de explicação (para não compreender) porque não quer compreender (pois o seu objectivo é outro que não o do crescimento da economia por via das exportações) que para fazer crescer uma economia há outras vertentes tão ou mais importantes do que o salário.
E muitas multinacionais que operam em Portugal são o exemplo disso: Autoeuropa, Xerox, etc.
Têm não só bons salários como um conjunto de outras boas regalias para, precisamente, aumentar a competitividade, as quais oneram os custos do trabalho.
A Autoeuropa é a fábrica mais produtiva do grupo Ford-Wolkswagen.
Mas há matu,mbos que nem abrindo-lhes a cabeça a martelo.

Rui Gomes disse...

O problema é que somos totalmente dependentes, seja energicamente seja dos nossos bens do sector primário.Hoje em dia vemos nos Jornais a situação dos suinicultores e a situação dos produtores de leite,estamos dependentes de Espanha, porque os subsídios que a EU mandou e como não soubemos aproveitar para nos tornar competitivos(compramos Mercedes e fomos a Bora Bora de ferias), fez com que o sector morre-se e com isso ao começarmos a comprar a Espanha estamos a "exportar" euros por bens que se transformam em nada no final.... com esses euros eles tornam-se competitivos porque podem investir e inovar nas maneiras de produzir.Nos agora corremos atrás do atraso mas como não somos competitivos tornamos-nos subsidio dependentes e andamos a vender produções a perder dinheiro e com isso mais dia menos dia acabam por fechar portas porque não é rentável e porque faliram esses produtores....

A solução passa em aumentarmos o nosso consumo interno.Mas para podermos competir com os produtores espanhóis, temos o Cryptoescudo que é uma Moeda cryptografica, em que fazendo O produtor ao comerciante e ao consumidor aceitar essa moeda interna e dando-lhe um valor real de utilização fazemos a economia rodar sem que seja necessário recorrer a aos euros e em muitos casos não necessitar de ir ao banco pedir esses euros para o produtor pagar aos seus fornecedores....

Creio que sem politiquices e com algum esforço em implementar ferramentas que nos tornem competitivos podemos sair desta "dependência" e de respeitar certas regras da zona euro em que apenas nos cortam as pernas.... e que se queremos os dinheiros europeus temos de nos sujeitar a elas...

Jose disse...

A economia nunca é escassa em variáveis determinantes.
A escassez é tão só a das variáveis sobre as quais há alguma possibilidade de agir no curto prazo.
Mas o nosso exacerbado rigor científico e consequente forte carácter dubitativo sempre permite ir aumentando, entre outros factores, o salário mínimo...
No final das contas, o 'andando e vendo' parece ser a corrente dominante!

Anónimo disse...

Quando em 4 de Outuro de 2015 o extraordinário aconteceu na vida da nação Portuguesa, A história Apertou o passo no país e Tornou inutil reagir com as ferramentas da rotina habitual -
Quem não entender isso será atropelado pela velocidade dos acontecimentos.
E´ que a direita “O Partido da Ordem”, termo de Marx aqui designado de “Arco da governação Paf e tal não só perdeu o Rumo como ficou sem Leme.
A própria União Europeia foi abalada com este feito do povo Lusitano. Com mais um esticãozinho em…
Cabe ao governo e aos partidos que o apoiam sair pra Rua, dialogar com o povão…
Continuarem a fazer de conta no Parlamento não da, “já´ foi chão que deu uvas”.
Os recentes acontecimentos nas ilhas gregas mostraram a verdade da EU – Rapina --a que os povos do Sul e não só, rejeitam!
A Assembleia da Republica esta a virar sede de parlatórios mais ou menos cansativos, sem conteúdo
Ora agora falas tu ora agora falo eu…só serve para alimentar comentaristas Ex-governantes. E´ a profissão de ponta… De Adelino Silva

Anónimo disse...

"Tudólogos"

Uma prova da indigência mental e do preguiça argumentativa do neoliberalismo.

Será que se pensa que como slogan servirá? Parece que sim. Gostam de impingir estas ambrosices às massas

Anónimo disse...

"A economia nunca é escassa em variáveis determinantes.
A escassez é tão só a das variáveis sobre as quais há alguma possibilidade de agir no curto prazo."

Profundo! Muito! Tanto que se afunda como um pedregulho se afunda num qualquer mar das tolices quase demenciais

O Ambrósio de volta. Sem ainda o "A bem da Nação". É uma questão de tempo, cogitará, enquanto a escassez das variáveis determinantes tentará agir nas possibilidades do tempo

Anónimo disse...

-"Compramos Mercedes"? E fomos a Bora Bora de férias"?

-Nem eu nem a esmagadora maioria de quem trabalha fez isso.
Ah, estas generalizações.

-Subsídio-dependentes?
Quem? A banca privada que nos fez e faz pagar os seus desmandos?

-Sujeitar a quem? Um escravo nunca será livre enquanto as grilhetas adornarem os seus pulsos

Anónimo disse...

A instituição do salário mínimo foi um avanço civilizacional

Um bom post de Ricardo Paes Mamede, complementado com os primeiros comentários aí em cima colocados.

Deve custar imenso alguém estar tão desprovido de argumentos que é obrigado a produzir coisas como "nosso exacerbado rigor científico" e "consequente forte carácter dubitativo"

O rigor científico e os factos nunca foram o forte dos neoliberais.A prova provada que é nas rezas, nos mantras, nas preces e nos axiomas que se tenta manter de pé uma mão-cheia de falácias e de treteirices. Uma fraude macabra com tão grandes custos para 99% da população e com imensos ganhos para 1%.

(Exacerbado rigor científico? Essa nem o Ambrósio se lembraria. Já o "andando e vendo" aparece deslocado. O que quereria dizer seria mais o "lá vamos cantando e rindo , mais do seu agrado e de acordo com a corrente dominante do seu pensamento ideológico.

Anónimo disse...

"Exacerbado rigor científico".

Esta frase poderia ter iniciado o julgamento de Galileu Galilei pelo Santo Ofício, há cerca de 400 anos.

O que diz tanto , mas tanto de quem a pronuncia e do retrocesso civilizacional a ela inerente.

A pele dos Torquemadas modernos a aparecer à flor da pele desta forma tão epidérmica?

Rui Gomes disse...

Anónimo....
É certo que a banca esta hoje em dia no topo disso tudo.
Mas pense bem que,quando começamos o processo de "matar" as nossas explorações e em que Jorravam milhões diários de subsídios da EU para matar determinado sector com a treta das "cotas" o que aconteceu foi que ao invez de procurarem novas formas de produzir e produzir outras coisas, gastaram os subsídios não em tractores mas sim em ferias e carros.
Não mantiveram os empregos que davam.... e no fim quando deixaram de conseguir competir e estavam completamente falidos entregaram as suas grandes quintas aos ingleses/holandeses/espanhóis.

Generalizo sim porque para quem se destinava realmente os subsídios que era os micro produtores chegou ZERO e anunciaram que passado 1 ou 2 meses iriam acabar com a compra desses bens.

E olhe que falo do que sei, pois conheço a situação bem de perto(neste caso produtores de leite)
Com essa atitude mataram o pequeno rendimento de grande parte das famílias das áreas rurais(sim porque alem de porto e lisboa não é apenas mato), que com as vendas das produções de leite as cooperativas lá iam sobrevivendo.

O problema de generalizar serve para qualquer pessoa que agarre e veja que no pais a média salarial é de 1000 euros ou coisa que se pareça.Quando o real é que 60% anda a ordenados mínimos.

Pensa-se Macro economia/Grandes Produtores/Grandes superficies e não entendem que os pequenos produtores e pequenos comerciantes é que faziam o pais andar.

Resumindo enquanto estiverem convencidos que A Formiga Rainha e os seus Generais é que fazem andar isto estão muito enganados, pois quem realmente faz acontecer são os milhões de formiguinhas que se mexem diariamente para isso acontecer... enquanto os ditos Superiores pensam "eh pá troquei aquele da esquerda para a direita e começaram a brotar do chão para as mesa as coisas sem trabalho e sacrifício"

Nesta altura do campeonato ilusões só as tem quem quer ou precisa delas para não ter curto circuito......

Por isso tem de se procurar alternativas fora do que nos "vendem" diariamente na TV e temos de ser nos a fazer o nosso próprio caminho porque assim não vamos lá

Filipe Pereira disse...

Em Portugal continua-se a pensar que para exportar-mos temos que baixar preços através da diminuição dos salários, em vez de acrescentar-mos valor aos nossos produtos/serviços para que sejam valorizados pela procura externa. Só mentes muito pobres, podem achar que o problema das exportações se devem ao custo demasiado alto dos recursos humanos.

Jose disse...

Basta 'acrescentar valor'.

Um dos mantras mais em vigor nos treteiros da geringonça!
1 - Ver reconhecido o valor acrescentado não é pequena coisa.
2 - Ver o valor acrescentado compensado no preço, é matéria de negociação não fácil.
3 - Acrescer lucro ao valor acrescentado acresce dificuldade.

Então? dizem os treteiros... basta inovar quanto baste!
Como se inovar fosse a imediata consequência de quem julga ter a 'geração mais qualificada de sempre'!
E tudo isso é dito com a desfaçatez de quem sabe que este é um país em que os canais de distribuição do que produz são controlados pelo cliente e não pelo produtor!!!!!

Anónimo disse...

Que tristeza confrangedora.

"Mantra e treteiros". Com uns pozinhos de controlador do lucro e do valor acrescentado, mais o cliente e o produto, e não sei quantos pontos e exclamação a mostrar que o histerismo aparece quando as mentes muito pobres parem ( do verbo parir) anormalidades como este texto das 12 e 38

Que desfaçatez, embora comezinha no caso em concreto, em que o que sobressai são duas coisas ( para além dos disparates em letra de forma):

Por um lado o rancor pelo conhecimento e pela formação dos outros. Adivinha-se que a mediocridade empurra para a inveja (e frustração) e que esta "geração mais qualificada de sempre", com que crisma os demais, lhe cause engulhos, pesadelos e iras dignas dum Torquemada a julgar quem sabia bem mais. ( ah! estes auto-de fé tão ao gosto da direita-extrema)

Por outro os engulhos e os pesadelos e iras que lhe causam a geringonça.Esta de respeitar os resultados democráticos não lembra ao diabo, não é? Nem lembra aos que se manifestam de forma abjectamente racista como o faz este das 12 e 38, quando se refere a António Costa