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domingo, 30 de janeiro de 2022

O declínio editorial também é a ofuscação global


1.
Francisco Pinto Balsemão tem um podcast de entrevistas chamado deixar o mundo melhor, mas aposta em figuras que o deixaram bem pior, como o estreante Durão Barroso, da Guerra do Iraque à Goldman Sachs. Isto não se inventa. É esta comunicação social em declínio editorial tão expresso, tão parcial neste período, que merece ser defendida? 

2. Seguindo uma tradição de exclusão, exceptuando os painéis partidários, comunista não entra no comentário eleitoral televisivo de hoje, mas entram fascistas capitalistas como José Miguel Júdice e outros comentadores ditos independentes, mas igualmente ligados a partidos, da esquerda à direita.

3. Nas relações internacionais, como já aqui defendi, o debate público ainda é mais enviesado do que na economia. Ainda hoje ouvi o programa semanal visão global da aparentemente mais equilibrada Antena 1 e aquilo foi literalmente equivalente ao direitista Observador, de Bruno Cardoso Reis a José Milhazes. Dada a ausência de pluralismo, ofuscação global seria um nome melhor, na realidade.

4. Só nos resta desejar que o impacto eleitoral deste declínio editorial seja mínimo, mas lá que não é nulo, não é.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

O declínio editorial não é o mundo


O declínio editorial é público, expresso e observável. É tão banal, que já nem sequer é notícia. E é levado a cabo de forma transparente em múltiplos suportes, em particular na televisão. Esta última depende mais dos jornais do que se reconhece do ponto de vista editorial. 

Uma das suas principais traduções é o já estudado enviesamento para a direita no comentário político, cujo pico é a televisão para milhões, com os facilitadores Marques Mendes e Paulo Portas, péssimos exemplos para a juventude, ainda para mais sem contraditório. 

Esta comunicação social é subsidiada pelo Estado, mas, e para usar por uma vez as ferramentas da economia convencional, deve ser antes taxada, dadas as externalidades negativas que gera, sob a forma de poluição ideológica, de lixo editorial e de ameaças ao pluralismo democrático. 

Isto está de tal ordem que o marxismo mais simples explica o essencial: tudo passa pelas relações de propriedade, dado que a ideologia dominante é a das classes proprietárias dos aparelhos ideológicos dominantes. 

De forma um pouco mais sofisticada, é preciso também atentar no enfraquecimento dos freios e contrapesos jornalísticos, do poder dos sindicatos às comissões de trabalhadores, passando pelos conselhos de redação. Sem esquecer o estiolamento da propriedade pública e cooperativa. Obviamente, estamos sempre a falar das relações sociais de produção. E aqui a precariedade e o medo do despedimento reinam, para já não falar de outros incentivos à viragem para a direita. 

E é preciso valorizar as ideologias das frações da burguesia que investem na comunicação social. Sem ser necessário muito capital, adquire-se muito “capital” político. A viragem para a direita não pode ser desligada do controlo crescente da comunicação social por parte de exploradores turísticos, como Mário Ferreira, ou de gente com ligações familiares à extrema-direita, como Marco Galinha. Este último é tão poderoso quanto descarado na sua interferência, como denunciado por Sandra Monteiro num informativo artigo no Le Monde diplomatique – edição portuguesa. 

Termino por agora esta série, dando outra vez a palavra a Sandra Monteiro, diretora de um jornal cooperativo e em contracorrente (faz-se o melhor que se pode com pouquíssimos meios...): 

 “Não nos escondemos atrás de uma concepção neoliberal dos media, nem da democracia, para achar que as nossas páginas são meros espaços onde cabe tudo, sejam opiniões infundadas ou comentários ofensivos e discriminatórios (racistas ou sexistas, mas também classistas…), sejam formas de corrosão da racionalidade pela arbitrariedade. Não somos um espaço, muito menos neutro. Somos um projecto, exigente com a verdade e respeitador do jornalismo como garante da democracia.”

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

O declínio editorial é público


Como leitor do Público desde o primeiro número, não tenho dúvidas em afirmar que os editoriais de Manuel Carvalho são o melhor sintoma de um declínio que só não é irreversível porque vale a pena à Sonae ter um “perdócio”, como dizia Belmiro de Azevedo. A influência política paga-se. Lobo Xavier pode explicar como é que esta economia política funciona. 

Carvalho converge ideologicamente com José Manuel Fernandes, mas sem a bagagem e a qualidade de escrita deste, escrevendo num tempo em que o desfasamento entre a ideologia liberal propagada e a realidade é tão avassalador quanto transparente. Fernandes foi para o Observador, um projeto explicitamente mais extremista, mas que pelo menos tem a virtude da clareza. A observadorização editorial do Público é clara para o leitor de sempre. 

Por exemplo, em editorial da passada quarta-feira, Carvalho regogiza-se com o pretenso regresso intelectual do extremo-centro, sem mencionar uma única proposta do dito, saudando o forte contributo dos fanáticos da iniciativa liberal, vejam bem a aldrabice ideológica. Omitindo naturalmente o perigo dos fascistas, para si o importante é que “os cidadãos perceberam o espartilho ideológico do Bloco e do PCP”, todo um programa de manipulação editorial.

BE e PCP impediriam as “reformas” agora não explicitadas, ou seja, a continuação da troika por outros meios. O Público deve precisar de jornalistas cada vez mais baratos e descartáveis, afinal de contas. 

Em modo ofuscador, Manuel Carvalho não se dá ao trabalho de apresentar dados sobre o investimento público, o emprego público, o peso das empresas públicas ou a robustez das respostas públicas na pandemia, num país tão abaixo dos outros que lhe são comparáveis. O seu problema é por definição a gordura de um Estado ainda não totalmente calibrado para defender e financiar certos interesses. 

A verdade é tão simples e está à nossa frente de forma tão clara que muitos até dizem – tem de ser mais complexo do que isso: só chega a director de um jornal deste tipo quem não se desvia da ideologia dos proprietários. 

O resto vem por arrasto, incluindo uma diversidade e qualidade funcionais em algumas áreas, mas só em algumas, graças a um punhado de jornalistas de excelência. No entanto, na questão europeia, ou seja, na questão nacional mais importante, há mais pluralismo na Comissão Europeia ou no BCE do que na propaganda europeísta deste jornal, cujas peças nesta área até são frequentemente financiadas pelas instituições europeias.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

O declínio editorial é um negócio semanal

Ontem tinha prometido acabar por agora com esta série do declínio editorial, mas hoje não resisto a deixar mais um exemplo. Estava a fazer zapping num destes dias e parei por breves minutos num programa chamado Negócios da Semana na SIC-N: estavam lá quatro viúvas de Passos Coelho a rezar pelas alminhas para que as taxas de juro subam.
  
Até parece que tal processo seria o resultado de uma desordem espontânea de mercado e não um processo deliberado pelas autoridades monetárias que controlam esta variável crucial e que se têm revelado mais sensatas por enquanto. O país no lixo é tudo o que as viúvas desejam e, dada a falta de soberania monetária, pode ser que triunfem uma vez mais a prazo, ainda que com outros protagonistas. Em última instância, dependemos de estranhos que não respondem pela nossa gente, não nos esqueçamos.

Este programa é imoderado por José Gomes Ferreira, cuja “ignorância enciclopédica” já foi escalpelizada por gente competente, e que inacreditavelmente ainda tem responsabilidades editoriais, mesmo depois de ter escrito o equivalente historiográfico de um panfleto negacionista das vacinas. Na economia política, Ferreira usa dos mesmos métodos obscurantistas. É consistente. 

E depois queixem-se das “redes sociais”, um verdadeiro Olimpo intelectual ao pé disto.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Linha editorial


Há um conjunto de treinadores de bancada, que se acham muito à esquerda, homens já sem grande ligação à vida política, descontando a simpatia pelo PS, com acesso à opinião nos jornais convencionais em declínio editorial, com muita tática para supostos ignaros e sem nenhuma estratégia para mudar o país. 

E depois há intelectuais radicais e competentes, como Sandra Monteiro, a olhar para todos os lados menos para o umbigo: o voto anti-austeridade, disponível na íntegra no sítio do Le Monde diplomatique - edição portuguesa. Infelizmente, raramente aparecem nos meios de comunicação social convencionais. É a vida. Não se desiste, claro.

 

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Declínio editorial violento


Na esteira das mentiras sobre a Festa do Avante, que incluíram uma capa falsa do New York Times em pleno jornal da noite, o grupo Impresa prossegue com a cada vez mais violenta campanha anti-comunista, legitimando o vandalismo. 

As mentiras novas não resistem, uma vez mais, a uma breve passagem pelo site do PCP. 

Neste mundo do avesso, estes produtores de lixo editorial são subsidiados pelo Estado. Deviam mas é ser taxados.


sábado, 5 de março de 2022

Interpretar para transformar


Compreender as origens deste ataque implica acompanhar as relações internacionais, a política externa dos países, os movimentos geopolíticos, geoeconómicos e geoestratégicos. Exige acesso a fontes plurais e o seu confronto, e é incompatível com visões do mundo a preto e branco, povoadas por agentes do bem e agentes do mal. Sem esse esforço não se esclarecem nem os mecanismos dos poderes, dos interesses, das relações de forças e das alianças, nem as suas hesitações e disputas internas. Mas o jornalismo internacional, considerado caro e que «não vende», é há muito desvalorizado pela generalidade dos media em Portugal, tendo perdido qualidade, profundidade e pluralidade. E a actualidade política nacional quase não trata, nem questiona, governos e partidos sobre política externa e relações internacionais. É por isso que as relações internacionais não são algo que «acontece lá longe». 

A generalidade dos media portugueses, apanhados de surpresa, passaram do silêncio habitual sobre estes temas para o metralhar de certezas absolutas, intolerantes à divergência. Tão superficiais quanto unilaterais, trocaram a crítica pela manipulação emocional e esconderam ignorância com arrogância. Pode ser cómodo para os poderes, que não se vêem questionados, mas cria comunidades sem memória e sem informação, manipuláveis por qualquer poder.

Excertos do editorial de Sandra Monteiro no Le Monde diplomatique - edição portuguesa de Março. Pode ser lido na íntegra no sítio do jornal. Um número com muito para ler e pensar, em contraste com o declínio editorial da imprensa dominante que aqui temos assinalado. 


segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

O declínio editorial é expresso


As memórias de sábados familiares, com jornais espalhados pelo chão, são inescapáveis e de vez em quando lá cedo à nostalgia e compro o saco com o Expresso. Arrependo-me sempre. Já basta a dieta diária do Público para imprensa convencional em português. Depois passam várias semanas ou mesmo meses antes de cair no mesmo erro. 

Afinal de contas, o Expresso é um símbolo maior da decadência e da vincada viragem para a direita desta comunicação social, que só tem paralelo na televisão público-privada. Juntem-lhe a complementar falta de gosto, bastando lembrar como promovem as Joanas Vasconcelos, expressão artística do porno-riquismo que propagandeiam naquela bolha. 

Um mero exemplo do que acabei de escrever, uma notícia sobre a liderança do PCP: 

“Ironia do destino, foi a esquerda de Jerónimo de Sousa que o deixou de fora deste seu novo combate político. Uma estenose carotídea na artéria esquerda do líder comunista – detetada nos habituais exames médicos de rotina antes de qualquer campanha eleitoral – ditou o seu destino político imediato.” 

Fazer ironia política com os problemas de saúde das pessoas é hábito decadente, num jornal dirigido por um produtor de lixo editorial, ou é só uma das facetas mais rasteiras do anticomunismo de sempre?

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Declínio

Recupero o editorial de sexta-feira do Negócios onde Helena Garrido rompe com alguns dos dogmas da economia de austeridade que está a destruir as economias e os seus mecanismos de coordenação: “A Economia devia ser uma ciência social pensada em liberdade intelectual para resolver os problemas dos cidadãos. Mas não é. Os senhores que dirigem o euro estão contaminados por preconceitos e preferências que nos condenam ao declínio e a esta crise que parece eterna. (…) O combate sem tréguas à inflação e ao défice público deixa de ser racional e transforma-se em preconceito e incompetência. E é uma sentença para o declínio.” Estas ideias também têm tradução nacional, claro. Declínio com muita pilhagem à mistura é a linha do governo. Até quando?

segunda-feira, 25 de julho de 2022

Ser ou não ser Milhazes


Alguém deveria informar Milhazes, e seus congéneres, que esta forma de combater o Partido Comunista Português não resulta. Estão a radicalizar quem tiver uma mera simpatia, a chamar para as trincheiras quem só estava a apanhar sol. Sá Carneiro disse algumas boas frases e não tenho nada o costume de as citar, mas aqui não resisto: “A melhor maneira de combater o comunismo é melhorar as condições dos trabalhadores.” Sá Carneiro ao menos sabia qual era — e é — a empreitada do PCP. 

Carmo Afonso é particularmente certeira na sua crónica da passada sexta-feira no Público, dando pretexto para duas ou três notas. 

Em primeiro lugar, o espectáculo deplorável, e sem contraditório, de Milhazes e companhia é a demonstração do declínio editorial profundo de uma comunicação social dominante que dá infinitamente mais palco a fascistas de mercado do que aos que são fiéis ao melhor da Constituição da República Portuguesa. A impotência da regulação no neoliberalismo, neste caso da ERC, fica demonstrada em mais uma campanha contra a Festa do Avante na SIC. O declínio abismal da qualidade televisiva é um efeito da sua submissão ao nexo-dinheiro, uma grande obra iniciada pelo cavaquismo. 

Em segundo lugar, Sá Carneiro viveu num tempo em que o chamado reformismo do medo, dada a correlação de forças nacional e internacional, até chegava à cultura da direita, sobretudo depois de derrotado o fascismo. Os principais beneficiários foram os trabalhadores. Do marxista Eric Hobsbwam ao social-democrata Thomas Piketty, passando por Pierre Rosanvallon, discípulo do historiador anti-comunista François Furet, o breve século XX tem vindo a ser reinterpretado à luz do efeito externo do socialismo realmente existente: sem o medo da revolução a reforma social-democrata não teria cogitado tantos apoios entre uma certa elite mais conservadora pelo menos até aos anos setenta. Depois de 1989, outra foi a História, realmente. 

Em terceiro lugar, num contexto de “policrises” geradas pelo neoliberalismo, a sabedoria convencional no fundo, bem lá no fundo, sabe que o marxismo mais escorreito e despretensioso tem cada vez mais poder explicativo e prescritivo, até porque não lhes passa pela cabeça melhorar as condições dos trabalhadores, antes pelo contrário. Daí que insistam nestas campanhas perversas, onde vale tudo.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

Cá estaremos todos


Enquanto que o fundador do Livre e seus apoiantes costumam ter cerca de meia dezena de artigos no Público por semana, os apoiantes do PCP têm um por quinzena e já têm muita sorte. E isto sem contar com recorrentes artigos anti-comunistas, tão ignorantes quanto preconceituosos, da esquerda à direita. As bolhas comunicacionais ditas de referência funcionam com estes enviesamentos reveladores, dado o europeísmo próprio dos “passageiros frequentes”, categoria sociológica a mobilizar, e o declínio editorial que é público e notório. 

Bom, dou então a palavra ao historiador Manuel Loff, uma voz solitária e que vale sempre a pena ler quinzenalmente: “Aos que há 30 anos juram que o PCP vai morrer ou já morreu, e que (re)anteveem a morte do BE ao virar da esquina, lembro que há 20 anos, em 2002, estes partidos juntavam o mesmo meio milhão de votos que têm agora. Em 2015, depois de terem sido eles e não o PS a estar na batalha contra a catástrofe da troika, juntaram um milhão e impuseram a derrota da direita. Quando Costa começar a dizer que, afinal, não era bem como nos tinha contado, ele que se prepare. O 25 de Abril vai fazer 50 anos, e nós ainda cá vamos estar. Todos.” 

Tudo recomeça de forma resoluta e abertamente eurocéptica, como argumentou Paulo Coimbra, partindo de uma indicação do eurobarómtero...

sábado, 17 de agosto de 2024

Enfim


A sociedade indigente de comunicação usa e abusa do sinal aberto, um bem público, difundido ideias fascistas, de que o machismo e o ódio à cultura são parte integral, conjuntamente com o belicismo, o classismo e o racismo. 

Há mesmo um défice de autoridade do Estado, quando temos José Gomes Ferreira com responsabilidades no que passa aí por informação, só para dar um exemplo. Já há fascistas, como Nuno Rogeiro, a partilhar impunemente toda a espécie de mentiras, como não se cansa de denunciar Luís Galrão. 

E, sim, José Miguel Júdice, da extrema-direita estudantil na Universidade de Coimbra, membro da rede bombista de extrema-direita no PREC e negocista desde aí, também é tecnicamente um fascista. E é mais um poderoso sinal do declínio editorial e isto para já não falar da situação financeira do medíocre grupo Impresa. 

Perante mais um momento fascista de José Miguel Júdice, Pedro Marques Lopes limitou-se a um “enfim”. Quem me lê, sabe que uso muito o “enfim” como muleta. Por isso, sei que o “enfim” tem múltiplas camadas. 

O “enfim” pode ser a reação de um conservador ao fascismo. “Enfim”, são uns brutos, mas o que tem de ser, tem de ser, trata-se de salvar as pratas da família. O “enfim” pode ser um “que maçada e inconveniência este tio, porque não se cala?”, um “cala-te boca”. 

O “enfim” neste contexto pode mesmo ser o reconhecimento dos limites da liberdade de expressão em meio laboral no capitalismo realmente existente: “é melhor sinalizar muito discretamente a crítica, mas sem melindrar o patrão, que o herdeiro anda nervoso e ainda me despede”.

Enfim, os patrões têm poder, porque têm a capacidade de infligir custos significativos a quem, neste caso, só colabora, mas ganhando várias vezes mais do que um jornalista que aí trabalhe.

sábado, 23 de abril de 2022

Geometria invariável?

Ouvi ontem na Antena 1 um programa chato, mas mesmo chato, que já vai no número oitenta. Chama-se geometria variável e tem Nuno Severiano Teixeira (PS sem D) e Carlos Coelho (PS com D) como comentadores residentes, coadjuvados por Maria Flor Pedroso. 

Tinha melhor opinião desta jornalista: não é de todo um programa de debate, dado que todos estão basicamente de acordo – “como disse Carlos”, “como disse Nuno”. Trata-se da geometria invariável do liberalismo armado, entre Washington e Bruxelas, incapaz de compreender um mundo em mudança.

Por coincidência, ainda ontem, ouvi o programa contraditório, com Raul Vaz e Luísa Meireles. Um programa sem qualquer contraditório. E que dizer do programa visão global ao Domingo? É sempre só uma visão e é paroquial. 

Confirma-se que a situação no comentário sobre questões políticas, sobretudo internacionais, consegue ser ainda pior do que na economia sempre política. 

Sim, o declínio editorial é óbvio também entre os melhores.

 

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Já seria um bom começo

Preocupados com o coro monolítico e redundante de economistas e comentadores, que clamavam sem contraditório por austeridade, foi entregue à ERC, em outubro de 2010, uma petição pelo pluralismo no debate político-económico. Nesse documento, exigia-se aos «órgãos de comunicação social – em particular às televisões, e sobretudo àquela a quem compete prestar “serviço público”» - respeito pelo pluralismo, «de modo a que se possa construir uma opinião pública mais ativa e informada», indispensável a uma democracia verdadeiramente capaz de fazer escolhas.

Em resposta, a ERC afirmou que sendo possível aferir a «diversidade da proveniência dos actores sociais presentes no comentário económico» (através do resenceamento de programas), já «o substrato ideológico subjacente às posições assumidas» pelos intervenientes era difícil de apurar. O que não impediu a entidade reguladora, contudo, de concluir que o comentário sobre assuntos económicos era «tendencialmente diversificado», consideração que levou os promotores da petição a endereçar à ERC um comunicado de resposta.

Percebe-se, claro, que seja mais fácil e exequível mapear comentadores, analistas e colunistas que escrevem em jornais e/ou participam em programas de rádio e televisão (exercício que a ERC não faz e devia fazer regularmente), que proceder a uma análise do seu discurso e à tentativa de definir o seu posicionamento político-ideológico, permitindo que se tivesse uma noção do grau de pluralismo de opinião em cada órgão de comunicação social.

Por isso, e face ao declínio editorial persistente, que o João Rodrigues tem assinalado neste blogue, através de uma certeira e oportuna sequência de posts (ver por exemplo aqui, aqui, aqui ou aqui), as televisões, rádios e jornais bem poderiam adotar um barómetro político, solicitando aos seus comentadores, analistas e colunistas - nomeadamente os que participam em programas ou espaços de debate e comentário político e económico - o seu preenchimento.


Escolhida uma versão aceitável desta ferramenta, como a original ou até, por exemplo, a recentemente criada pelo Público (mesmo sendo mais circunstancial), e evitando versões manhosas (como a do Observador ou outra, menos recente, ligada à Iniciativa Liberal), poderia obter-se uma ideia do grau de enviesamento e de preocupação com o pluralismo e diversidade de opiniões em cada rádio, jornal ou televisão. É pouco? É. Mas já permitiria dar um passo ao nível da transparência e da conformidade das escolhas com os estatutos editoriais, em regra pautados pela retórica da isenção, rigor e imparcialidade.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

O declínio editorial levado a cabo


A CNN é uma tragédia imperialista, já a CNN Portugal é uma farsa controlada por um pirata do Douro. 

As excepções servem para confirmar a seguinte regra: a opinião vai aí de um velho conservador de direita chamado Carlos Magno, que acha que se pode deitar a adivinhar a orientação sexual de uma deputada, a um jovem conservador de direita chamado Sebastião Bugalho, caricatura do original jovem conservador de direita. 

Não por acaso, este último traçou, em 2019, o perfil de um ex-jornalista prodigioso com vinte e poucos anos e que se candidataria sem sucesso pelo CDS, seguindo desde aí a sua fulgurante carreira mediática. Há muitos outros discípulos do facilitador dos negócios estrangeiros chamado Paulo Portas, que anda a ser lavado na máquina principal do tal pirata, a TVI, até estar presidenciável. Marcelo é um modelo. 

E é preciso não esquecer Sérgio Sousa Pinto, um conservador de direita de meia idade, que ainda está funcionalmente no PS. Pinto é muito importante e expressivo: se sóis antigos jovens socialistas e quereis ter carreira na TV, tendes de ir a encontros do MEL, fazendo aí figura de idiota útil no meio de fascistas e neoliberais de várias tonalidades, do azul ao castanho. Quem vos avisa, neste caso, vosso inimigo será.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Alemão, socialista e presidente do Parlamento Europeu

O presidente do Parlamento Europeu, o alemão Martin Schulz, criticou o facto de Portugal estar a pedir investimentos angolanos, considerando que, assim, “o futuro de Portugal é o declínio”.

E pensava eu que o nosso declínio se tinha iniciado com a adesão ao euro, à vista na famosa divergência do PIB por habitante. E agravado dramaticamente com a austeridade que nos foi imposta com os PEC e o Memorando.

Se alguém ainda tem ilusões sobre a saída da crise europeia com uma Alemanha pós-Merkel, em 2013, deveria estar mais atento ao que dizem os dirigentes do SPD e Verdes, de que Schulz é apenas um exemplo menos sofisticado.

O Editorial do Público deu a resposta:

O presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, não gostou de ver Passos Coelho a pedir a Angola para investir mais em Portugal. No seu entendimento, Portugal (e a Europa) só poderá esperar "o declínio", se não "compreender" que só haverá futuro "no quadro da União Europeia".

Deixemos de parte a discussão sobre se Schulz tem ou não tem legitimidade para aprovar ou censurar as opções de política externa deste ou daquele país - como deputado europeu é normal que ele diga o que pensa sobre os negócios estrangeiros de qualquer estado-membro.

Concentremo-nos por isso na pertinência das suas críticas. Perguntando, por exemplo, que caminhos tem Portugal para crescer no continente da austeridade em que se transformou a UE? Ou inquirindo sobre que preocupação tem revelado o Governo alemão em expandir o consumo interno (o que aumentaria as suas importações) e ou em equilibrar o seu gigantesco superávite comercial.

O que resulta destas dupla resposta negativa é que o caminho europeu para a saída da crise está congelado. A UE continuará a ser o nosso principal parceiro económico, mas está na hora de realinhar as prioridades estratégicas e regressar a África ou à Ásia. Esta repartição de prioridades pode não ser do agrado da potência que começou a olhar a Europa do Sul como outrora os Estados Unidos olhavam a América Latina: como o quintal das traseiras. Mas só saltando o muro Portugal poderá evitar o triste destino que o mesmo Schulz traçou para a Grécia, quando, na semana passada, lembrou Atenas que "os que dão muito dinheiro para a reabilitação do país terão um papel fundamental nas decisões sobre como ele será usado".

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

O declínio editorial é observável

O “votómetro” do Observador é um daqueles inquéritos banais que supostamente servem para descobrir preferências eleitorais. Se responder sempre neutro surge a recomendação de voto nos fascistas do Chega logo em primeiro lugar, seguidos do resto das direitas. 

Nada que surpreenda num projeto de milhões para guinar a política bem para a direita, com Jaime Nogueira Pinto em lugar de destaque na denúncia da “lavagem cerebral” feita pela democracia. E não se esqueçam que se trata de uma publicação enxameada de liberais e o liberalismo, também com a sua ideologia da neutralidade, é na prática, e em alguma teoria, uma máquina de gerar fascistas. 

O Observador chega a milhões por via de uma parceria com a TVI em modo polígrafo, mais um sinal do brutal enviesamento desta comunicação social controlada por piratas.

quinta-feira, 8 de junho de 2023

Ressonâncias de um passado que não passará

Um dos piores sinais do declínio editorial das televisões ditas privadas, que usam e abusam de um bem público concessionado e ainda recebem subsídios, é a a poluição ideológica que emitem, já aqui assinalada. 

A intervenção semanal de José Miguel Júdice na SICN, fascista do tempo da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, ligado a um grupo terrorista a seguir ao 25 de Abril ou facilitador dos grandes negócios da década de 1980 em diante, é um dos melhores exemplos de tal padrão poluidor. Não tem contraditório, porque não aguenta tal coisa. 

O capitalismo sem freios e contrapesos alimenta um certo passado. Não passarão.
 

domingo, 16 de janeiro de 2022

O declínio editorial já não é notícia


Fascista nos tempos da universidade, em Coimbra, José Miguel Júdice tornou-se mais conhecido por ser um dos principais facilitadores, termo forjado para dar a ver uma certa advocacia de grandes negócios, expressão de toda uma economia política do bloco burguês, erradamente chamado de central. 

“Um fascista capitalista”, para retomar a fórmula de Paul Samuelson. Não os há de outro tipo, claro.

Daí à primeira página do decadente Diário de Notícias, que mimetiza uma televisão tão má ou pior, é um dois em um: aparecer é faturar e ideologizar, afinal de contas. 

Não gosto de sobrestimar o papel desta comunicação social brutalmente enviesada, em que os cada vez mais precários jornalistas já não conseguem manter sequer uma autonomia relativa em relação à lógica proprietarista, mas também convém não o subestimar. É uma das ameaças à democracia, afinal de contas.