quarta-feira, 10 de julho de 2024

Carta

Os últimos ganhos militares da Rússia na região de Donetsk (Dossiê, 5 de julho) reforçam a necessidade de uma solução negociada para a guerra na Ucrânia. Os EUA e os seus aliados apoiam o principal objetivo de guerra da Ucrânia, que é o regresso às fronteiras de 2014, ou seja, a expulsão da Rússia da Crimeia e do Donbass. Mas todos os analistas informados concordam que, a menos que haja uma escalada séria da guerra, o resultado mais provável será a continuação do impasse no terreno, com uma hipótese não negligenciável de vitória russa. 


Esta conclusão aponta para o facto de ser desejável, ou mesmo urgente, uma paz negociada, sobretudo para bem da própria Ucrânia. A relutância do Ocidente oficial em aceitar uma paz negociada assenta na crença de que tudo o que não seja uma vitória completa da Ucrânia permitiria a Putin “safar-se

Mas isto ignora o resultado, de longe, mais importante da guerra até agora: o facto de a Ucrânia ter lutado pela sua independência e tê-la conquistado - tal como a Finlândia fez em 1939-40. Algumas concessões territoriais parecem ser um pequeno preço a pagar pela realidade, e não pela aparência, da independência. 

Se uma paz baseada mais ou menos na atual divisão de forças na Ucrânia é inevitável, é imoral não a tentar agora. 

Washington deveria iniciar conversações com Moscovo sobre um novo pacto de segurança que salvaguarde os legítimos interesses de segurança tanto da Ucrânia como da Rússia. O anúncio destas conversações deveria ser imediatamente seguido de um cessar-fogo limitado no tempo na Ucrânia. O cessar-fogo permitiria aos dirigentes russos e ucranianos negociar de forma realista e construtiva. 

Exortamos os líderes mundiais a iniciar ou apoiar uma iniciativa deste género. Quanto mais tempo durar a guerra, mais território a Ucrânia tenderá a perder e mais aumentará a pressão para uma escalada até ao nível nuclear. Quanto mais cedo a paz for negociada, mais vidas serão salvas, mais cedo se iniciará a reconstrução da Ucrânia e mais rapidamente o mundo poderá ser retirado do precipício muito perigoso em que se encontra atualmente. 

Subscrito, entre outros, por:

Lord Skidelsky 
Professor Emérito de Economia Política, Universidade de Warwick 

Sir Anthony Brenton 
Embaixador britânico na Rússia (2004-2008) 

Anatol Lieven 

Jack Matlock 
Embaixador dos EUA na URSS (1987-1991) 

*Minha tradução. Artigo original acedível aqui

1 comentário:

tempus fugit à pressa disse...

os ganhos territoriais russos nos últimos meses são negligenciáveis, uma guerra de trincheiras que tende a eternizar-se com o apoio americano não me parece que a paz venha em 2025 excepto se houver grandes modificações na política externa norte-americana