quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Os perigos do europeísmo

Como tenho aqui insistido, o europeísmo é hoje fundamentalmente uma versão do elitismo liberal, cujos sinais de decadência são visíveis nos truques retóricos a que é obrigado a recorrer: o de que existiria uma Europa social é um dos meus preferidos. A sua maior realização é, na realidade, a destruição da social-democracia europeia. Por exemplo, a exigência de acesso ao mercado único por parte do trabalhismo britânico seria risível se não fosse um trágico sinal de naufrágio ideológico de um partido que noutros tempos olhava justamente para o mercado comum, ainda antes do Acto Único, como um inimigo das reformas socialistas, entendidas como processo de controlo político democrático da economia.

Numa análise ao discurso de Theresa May, Jacques Sapir recorda que o mercado único é um rolo compressor da diversidade política, a expressão institucional do pensamento único, bloqueando a escolha democrática sobre a economia, sendo tristemente parodoxal que sejam os conservadores que rompam com isto, em nome obviamente dos valores e dos interesses que são os seus:

“Ao materializar uma estratégia de ruptura e ao mostrar que sabe o que faz, Theresa May torna clara a fraqueza e a impotência da UE. Esta última é não só nefasta e perigosa para os países-membros, com excepção da Alemanha, como é incapaz de impedir que um país saia e que saia para com isso beneficiar.”

As direitas sabem o que fazem. Os europeístas de esquerda não. Entretanto, um dos truques ideológicos mais recentes consiste em gritar Le Pen e, desde esta semana, Trump aos que pela esquerda criticam a UE pelo que é realmente: um veículo da dominação do capital alemão. Triste. A família Le Pen prospera graças a este arranjo, como mesmo alguns conservadores notaram há já várias décadas atrás. Se esta chantagem fosse aceite, a esquerda perderia a sua razão de existir, já que toda a iniciativa política ficaria nas mãos das várias direitas, o que de resto já é uma realidade em muitos países.

O perigo cada vez maior do europeísmo é arrastar sectores das esquerdas para a ideia de que este arranjo disfuncional pode ser aprofundado com base no que não pode deixar de ser o reforço do militarismo do directório de potências centrais à boleia da russofobia, por um lado, e do putativo desinvestimento político e militar norte-americano nas suas criações institucionais europeias da Guerra Fria, por outro, acicatando rivalidades inter-imperialistas. Uma ideia tão perigosa quanto destinada a fracassar fragorosamente num arranjo neoliberal que só se sustém baseado na manipulação do passado e no medo do futuro.

20 comentários:

Filipe Martins disse...

É isso o melhor que arranja?! Colar cartazes nas costas dos europeístas de Esquerda? "Olha lá vai um elitista liberal [transvestido de esquerdista]"...
É suficiente para me fazer duvidar dos seus argumentos.

Porque é que não se limita a dizer que é o europeísmo é uma utopia que os desenvolvimentos dos últimos anos deixaram em maus lençóis? Seria um argumento respeitável e defensável, muito além do "chamar nomes".

esteves, ayres disse...

Estava visto que não lê todos os artigos, e posições de “esquerda”: Ou seja, quando se fala em esquerda, deve-se ter encanta qual e a esquerda que se refe? Ao do P"S" do P""P do B"E"/UDP ou ao dito partido dos animais PAN! E porque esquerda só conheço uma PCTP/MRPP, e que tem sido coerente ao logo destes seus mais de 40 anos!
Acredito, que mais 60 mil votos não lhes digam nada! Mas um clube de futebol, que por exemplo que tem 20 mil sócios a esses já diga alguma coisa, e têm um tempo de antena dos vários canais de Televisão (alguns deles pagos com os nossos impostos). O que é de estranhar o que muitos de vós tem um ódio de morte ao mrpp. Um dia vamos todos saber porquê!? E não digo mais nada porque posso ser preso ou multado, como foi o caso da investigadora Maria de Lurdes Rodrigues que se encontra presa na prisão de tires, desde o dia 29 de Novembro de 2016, por ter dito uma tantas verdades sobre a “justiça” em Portugal, e em pleno tribunal, e que muitos de nós, não temos a coragem de denunciar.

Jaime Santos disse...

De facto, em nome de valores e de interesses que são os seus. O sóbrio Chanceler Hammond ameaçou que se a Grã-Bretanha não obtiver boas condições de acesso ao Mercado Único (embora se retire dele, já que o ponto fulcral do Brexit é para os Conservadores o fim da livre circulação de pessoas, e não a saída do Mercado Único), o RU equaciona abandonar o Modelo Social Europeu e transformar-se num paraíso fiscal (ver https://www.theguardian.com/politics/2017/jan/15/philip-hammond-suggests-uk-outside-single-market-could-become-tax-haven). O Reverendo Fraser defendia esta semana no Guardian que o Labour deveria apoiar tal saída dita dura e tentar integrar as leis sociais europeias na ordem jurídica britânica. Só que o controle foi cedido a populistas de Direita que se estão (e sempre estiveram) nas tintas para os mais pobres. Um tremendo tiro no pé que a Esquerda pelo Brexit deu a si própria mas claro, vem aí a racionalização do costume, porque é que os liberais de Esquerda e Centro não pensam como nós (já dizia Cunhal a Soares, aliás)? A resposta é o truísmo óbvio, porque senão não seríamos Liberais e sim Reacionários de Esquerda a sonhar com um Capitalismo Industrial que morreu com o fim da energia barata nos anos setenta... E quanto à suposta dominação pelo capital alemão, é mil vezes preferível à dominação de Moscovo, seja o de Brejnev, seja o de Putin...

Jose disse...

Aquele programa designado de 20x20, é um europeísmo perigosíssimo?
Ou é a única possibilidade de a geringonça apresentar algo que se assemelhe a investimento?

Anónimo disse...

«As direitas sabem o que fazem. Os europeístas de esquerda não».
Antes de mais há que definir quem são os europeístas de esquerda se os houver. Para a minha pessoa ou se e´ de esquerda ou se e´ europeísta. As siglas pouco importam para o caso. Faz lembrar o PC Chines e sua prática ser toda ela capitalista.
Se o PS e´ um pouco a´ esquerda do PSD e se este e´ um pouco a´ esquerda do CDS isso não quer dizer que sejam de esquerda, quando muito serão do centro, como se autodeterminaram aquando da vigência do Bloco Central.
E como se poderá considerar europeístas de esquerda se «o europeísmo é hoje fundamentalmente uma versão do elitismo liberal, cujos sinais de decadência são visíveis nos truques retóricos a que é obrigado a recorrer» não me dirão…
De Adelino Silva

Jose disse...

´Como se diz num irritante anúncio: só depende do ponto de vista.
Se eu fosse candidato a pastor de um qualquer rebanho, naturalmente que privilegiaria a existência de uma cerca onde me fosse possível contê-lo a meu contento.
Nos grandes espaços de liberdade de circulação e comércio, os pastores 'democráticos' têm grandes dificuldades em explicar as maravilhas das democracias confinadas.

Anónimo disse...

Já dizia Cunhal a Soares e mais o Brexit e o tiro no pé mais o truísmo e viva a Alemanha e o Schauble que apesar de ser um crápula é um crápula branco, da elite, tecnocrata quanto baste e até quem sabe liberal, não é mesmo Jaime Santos?

Enquanto a França é a França e a Alemanha é a Europa, não é mesmo Jaime Santos?

Entretanto o PPE e os liberais partilham a mesa, a cama e os negócios e fazem eleger o italiano Antonio Tajani, do Partido Popular Europeu (PPE) que esteve envolvido «no escândalo das emissões poluentes da Volkswagen», para além de ter sido «um dos braços direitos de Berlusconi».

São uns amores estes europeístas.

Ah! Falta o breznev e o putin. Tenham medo, muito medo, mesmo muito medo. E o Ivan o terrível também

Anónimo disse...

O que será essa coisa de 20 x 20?

Uma marca de papel ou de pensos higiénicos? Um indiciador de gostos culturais ou de apresentação de investimentos e patati-patata?

Anónimo disse...

Mas parece que os gostos televisivos do sujeito das 18 e 11 e das 19 e 32 não se ficam por 20x20.

Parece que estes se alargam a "anúncios", algo que provavelmente virá do gosto e do afinco pelo slogan e pela propaganda...

Mas ficámos também a saber da inclinação pela prédica e pela teologia de pastoreio ávida de cercas a confinar a contento do pároco frustrado.

E ficámos a saber que o conceito da liberdade está tão tão deteriorado que já se confunde com a liberdade do mercadejo, tese defendida há muito por proxenetas encartados

O que não ficámos a saber é que a liberdade de circulação citada é uma treta metida a martelo por conveniência de slogan, perdão de propaganda, perdão, de anúncio.

É que quem afirma tal tem para aí não sem quantos posts a gritar e a urrar contra esta mesma liberdade de circulação, em defesa dos seus sacrossantos valores da pilhagem e do racismo. Como se pode demonstrar irrefutavelmente.


Com um pedido de desculpas mas para treteiros a minha receita é uma só: confrontá-los com a sua condição.

Anónimo disse...

O Brexit é apenas uma inevitabilidade decorrente de razões que vêm do seu passado: desde há séculos os britânicos não permitem que uma potência se torne absolutamente hegemónica na Europa. As declarações da PM Theresa May, foram duras de ouvir pela burocracia que gere a UE – a mais radical estrutura neoliberal a nível mundial. Como não gostaram de ouvir, os media trataram de escamotear ou distorcer.
Disse TM que o resultado do referendo não foi uma decisão de retirar-se do mundo, porque a história e a cultura na Grã-Bretanha é profundamente internacionalista, com amigos íntimos e familiares em todo o mundo.
Os britânicos esperam que o governo que lhes preste contas muito diretamente e instituições supranacionais tão fortes como as criadas pela UE são inquietantes em relação à sua história, sua política, seu modo de vida.
A GB sai da UE, mas não da Europa. A GB independente, autónoma, global procura uma parceria nova e igual entre e os nossos amigos e aliados na UE. A GB vai deixar a UE sem procurar conservar pedaços de adesão. Fará a negociação certa para a GB: numa negociação dá-se e recebe-se fazendo compromissos. Assim segundo TM:
- O corpo de legislação comunitária será mantido. Porém, o Parlamento britânico poderá decidir sobre alterações após exame e debate parlamentar. O acordo final com a UE será objeto de votação em ambas Câmaras, antes de entrar em vigor.
- Construir uma GB mais forte, significa tomar o controle de nossos próprios assuntos. Retomar o controlo sobre as nossas leis e pôr fim à jurisdição do Tribunal Europeu de Justiça: as leis serão interpretadas pelos juízes e tribunais da GB e não no Luxemburgo.
- Iremos controlar o número de pessoas provenientes da UE para a Grã-Bretanha.
- A GB não pretende estar no Mercado Único, o que significaria aceitar as suas regras sem ter voto nas mesmas. Em vez disso, procurará um novo acordo de comércio livre com a UE.
- A GB continuará a cooperar com os parceiros europeus em áreas importantes tais como a criminalidade, terrorismo e relações exteriores. Isto não quer dizer que fique de alguma forma com estatuto transitório ou presos para sempre em algum tipo de purgatório político.
- Se a GB fosse excluída do acesso ao Mercado Único estaria livre para alterar a base do seu modelo econômico.
A PM por fim cita o valor dos investimentos e das exportações da UE para a GB. Criar barreiras à GB só para a punir. poria em risco milhões de pessoas em toda a UE, tornando-os mais pobres.
“Uma das razões que a democracia da Grã-Bretanha tem sido um sucesso durante tantos anos é a força da nossa identidade como nação, o respeito que mostramos uns aos outros como concidadãos.A importância que atribuímos às nossas instituições significa que quando é realizada uma votação, todos respeitamos o resultado”.
Ora aqui está algo que a ditadura da UE se recusa a aceitar: que o voto popular possa contrariar os seus desígnios, as suas “recomendações” e “advertências”.
Texto completo em: http://www.informationclearinghouse.info/46245.htm

Anónimo disse...

Mais uns vez um muito excelente comentário de um dos mais lúcidos intérpretes da realidade politico-económica.

Os meus sinceros parabéns

Manuel Silva disse...

José(zito):
Parolito.
Então agora o investimento do Estado já é bom.
Essa agora.
Depois de durante 4,5 anos o teu dono, Passos Coelho, o ter diabolizado?
E antes dele outros.
Então agora criticas o 20x20?
Sabes quanto o teu querido Cavaco recebei do I Quadro Comunitário de Apoio, entre 1989 e 21993?
14,8 mil milhões.
É obra, por isso saiu tanta autoestrada, o CCB, a EXPO 98, etc.
Tudo investimento produtivo, como diria o teu actual dono.
Tens cá um,a lata, troll.

Jose disse...

Calma Manelzinho, começas a treler e a disparatar.
Pior, começas a falsear os factos e a assumir a plena condição de treteiro.
A questão do investimento é a outra face da questão da poupança.
Se a Europa nos faz donativo da sua poupança o investimento é Benvindo.
Mas se os cretinos nos endividam para bombar investimento não crítico nem produtivo, ou despesa para o mesmo efeito do foguetório esquerdalho, isso é não só estúpido como criminoso.
A última moda é orçamentar investimento para os festejos e a seguir cativar as verbas e chamar-lhe rigor orçamental!
E nem são precisos orçamentos rectificativos, basta esquecer o assunto - transparência esquerdalha.
Bom mesmo seria pôr as impressoras a trabalhar - o instrumento favorito da esquerda para desvalorizar salários e roubar poupança sem interromper o foguetório.



Anónimo disse...

Ah esta atitude abjecta e servil a quem ganha com os juros, a chantagem e o roubo ao trabalho.

"Se a europa nos faz donativos" é a expressao acabada da manipulação e da falsidade. Da mentira desavergonhada e da ode aos agiotas e aos crápulas que afinal nos fazem donativos. E que são benvindos pelos cúmplices desde que lhes arredondem a conta bancária, saqueiem rendas ou vendam o país em troca dos donativos da canalha.

Pensam que somos cretinos por engolirmos as palhaçadas de cretinos a tentar vender a sua condiçao de classe, nescia, pútrida, obesa e oleosa?

Anónimo disse...

Esta pieguice de sarjeta com os dadores de donativos é suspeita.

Por tudo e mais alguma coisa. Por exemplo para pagar com juros e com o País os desmandos dos banqueiros amados? A corrupção dos troikistas? As rendas das PPP inauguradas por Cavaco ou os Swap de Maria Luís Albuquerque?

Numa menor escala o saque ao erario publico por parte de meia duzia de patrões de colégios privados?

E agora me recordo. Quantos milhares de posts em defesa dos banqueiros e dos seus terratenentes, dos corruptos e de Borges, de Barroso e de Cavaco, de Albuquerque e da troika, dos troikistas e dos grandes patrões, dos junker e de Shauble,da Goldman e Sachs e do grande patronato...

Quantos milhares de posta em defesa desta espécie de "donativos" para saquear o país, nao era mesmo Herr Jose?

Anónimo disse...

Qt à desvalorização de salários.

Herr Jose vamos colocar o nome aos bois. Não foi desvalorização de salários. Foi roubo puro e simples. De salários e de pensões. Para engordar os seus amados dadores de donativos e meia duzia de corruptos e de patrões de alto coturno.

E qd o Tribunal Constitucional limitou os desejos dos gatunos...lembra-se Herr Jose dos seus insultos a este e dos seus berros histéricos?

Estao gravados e interrompem assim o seu foguetório estupido e criminoso.

Jose disse...

Pergunta num raro momento de lúcida percepção o das 15:11: Pensam que somos cretinos?

De facto!
Tudo mais é o bolsar do Cuco, como se os juros não fossem o resultado do voluntário e deliberado acto de pedir por empréstimo, de alcançar o que não se logrou por esforço próprio, de pôr os foguetes no ar sem ganhar para a gesta.

Anónimo disse...

Ensandecido, herr jose atreve-se a proclamar a lúcida percepção do das 15 e 11.

Ainda bem

Mas o que sobra depois é uma tentativa canhestra de definir o que é um "empréstimo" e a "justeza" dos juros (neste capitulo idênticas às "justificações de qualquer mafioso).

Deixemos para lá o cuco e o bolsar e mais apimentadas raivas tresloucadas de herr jose. Deixemos para lá a patetice do "não se logrou por esforço próprio" e a tralha ideológica dos foguetes e da gesta.

De frente e de caras, e desejando que herr jose não fuja com o rabo entre as pernas:
Herr jose, em vez de dizer sandices sobre empréstimos e outras tretas porque não responde à acusação de manipulação, de falsidade, de mentira desavergonhada e de ode aos agiotas e aos crápulas?
Traduzidas nesta espantosa frase :"Se a Europa nos faz donativo da sua poupança"

Herr jose, porque motivo em vez de conversa da treta sobre "empréstimos e bolsares" não define o que são "donativos"? Para se ver até onde vai a ignorância bacoca do português mais rudimentar ou a confirmação serena que as acusações são certeiras?

Anónimo disse...

E herr jose e a canção acanalhadada da "desvalorização dos salários" ? Quando afinal a governança neoliberal o que fez foi puro e simples roubo?

Mete mais uma vez o rabinho entre as pernas quando confrontado com os seus histéricos apoios a tal política e com os seus urros contra o TC por tentar limitar o saque?

E herr jose e os seus milhares de posts em defesa desta espécie de "donativos" para saquear o país? Em defesa dos banqueiros e dos seus terratenentes, dos corruptos e de Borges, de Barroso e de Cavaco, de Albuquerque e da troika, dos troikistas e dos grandes patrões, dos junker e de Shauble,da Goldman-Sachs e do grande patronato...

E agora quer apagar isto tudo com conversa da treta a envolver foguetes e cretinices?

Mais uma vez e com um pedido de desculpas pela rudeza dos termos mas para treteiros e desonestos a minha receita é uma só: confrontá-los com a sua condição.

Anónimo disse...

Hoje a União Europeia , o que não é o mesmo que Europa , é um espaço geográfico onde se faz a apologia e se pratica o ultraliberalismo económico tendo por base ideológica o monetarismo moderno de Milton Fredmen e o chamado consenso de Washington. Tem como instrumentos de controlo, o FMI, BCE, a autocracia de Bruxelas, etc.







































mesmo que Europa<,