sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

O presente envenenado de um eventual resgate europeu da banca portuguesa

O Rui Peres Jorge (RPJ, jornalista do Jornal de Negócios) escreveu o melhor texto que li sobre o Novo Banco (NB). Alerta-nos para um facto básico: "o que as ofertas conhecidas até agora nos dizem é que o terceiro maior banco nacional, já aliviado de muitos passivos e perdas, com mais de seis mil colaboradores, 20% de quota de mercado e a maior carteira de clientes empresariais não vale nada!".

Este paradoxo só pode ser compreendido se assumirmos que não é apenas o NB que está em causa. Não há propostas de jeito para o NB porque ninguém espera que os bancos em Portugal tenham lucro elevado no futuro previsível. Isto por causa do crédito mal-parado que os bancos têm em carteira, mas também porque toda a economia está endividada e as perspectivas de crescimento são fracas (por vários factores, incluindo uma estrutura produtiva débil, que não se muda do dia para a noite).

RPJ sugere que a solução passa por um "programa de recuperação específico para o sistema financeiro" conduzido pelo Mecanismo de Estabilidade Europeu (MEE), à semelhança do que aconteceu em Espanha. Percebendo o argumento, vejo nisto dois problemas fundamentais:

1) não estamos hoje onde a Espanha estava em 2011: embora ainda haja muito crédito mal parado nos bancos portugueses, o Estado já teve de assumir grande parte das perdas e terá de assumir ainda mais até que um programa desta natureza possa ser implementado; por outras palavras, os nossos maiores problemas hoje são o elevado peso da dívida pública e as fracas perspectivas de crescimento - e em relação a isso a intervenção do MEE dirigido à banca de pouco valeria;

2) a julgar pelas posições que vão sendo assumidas pelo presidente do MEE sobre a actual experiência governativa portuguesa, tal programa viria quase seguramente acompanhado de exigências no sentido do prosseguimento do programa da troika no nosso país.

Ou seja, embora partilhe do diagnóstico elaborado pelo RPJ, não creio que a solução que propõe seja a mais adequada - ou sequer aceitável. Os problemas da economia portuguesa continuam a ser os mesmos: no curto e médio prazos, como reduzir o peso da dívida pública; no longo prazo, como compatibilizar uma estrutura produtiva débil com a participação numa zona monetária dominada por economias muito mais avançadas, sem que sejam criados mecanismos compensatórios. Isto implica enfrentar a necessidade de reestruturar a dívida pública e de alterar as regras de funcionamento da zona euro (ou desmantelá-la).

Se as coisas apertarem nos próximos tempos (o que não é de todo de excluir), a solução proposta por RPJ vai atrair muita gente, que vai querer convencer-nos de que se trata da melhor opção para o país. Na prática, arriscar-se-ia a ser mais um presente envenenado.

19 comentários:

Anónimo disse...

Mt bom. E um aviso claro à navegação

Jose disse...

Sempre fica por dizer quais as condições operacionais fora da zona euro, o que aconteceria à política de rendimentos e consumo da geringonça e como e até onde iria a reestruturação da dívida.

Fora desse contexto todas as soluções são inaplicáveis; já quanto às que refletem esse contexto ficam ao critério ou imaginação do leitor...

Anónimo disse...


Triste sorte a nossa.
Andar um povo inteiro em uma vida inteira sôfrego, quase pedinte a produzir para meia dúzia de dirigentes facínoras arrumarem-se a seu belo prazer em paraísos fiscais, mandando as urtigas o Estado e a população produtora da economia nacional.
Esses algozes sempre insatisfeitos com o que tem, sabiam muito bem que as pontes e autoestradas, os campos de futebol custavam caro ao país. Os tais rios de dinheiro que viriam da CEE alguém os teria de pagar mais tarde. Que os Centros Culturais – Belém e outros mais, não cairiam do céu por não ter asas.
A Banca e os banqueiros nunca tiveram tanto, recebiam a 1% e endossavam ao estado a 6 ou mais por cento, dinheiro que era do próprio estado.
Não contentes com o ritual do ouro viriam a declarar-se falidos e, eles que repudiam o estado, foram ao estado buscar mais ate a´ falência desse mesmo estado ao ponto de a venda de um banco custar ao estado 5, 6 mais do que o valor da venda.
Os governos não tem tido pejo algum em fazer pagar ao povo os maus negócios da banca e dos banqueiros.
Dentro deste sistema com predominância do capital financeiro e´ o mais forte que ganha. E como disse a´ dias nem a geringonça se salva. De Adelino Silva

Anónimo disse...

Sempre fica por dizer que o sujeito que anda por aqui a dizer que as soluções são inaplicáveis é o mesmo sujeito que gastou milhares de posts a garantir, a jurar e a bramar que a austeridade era a única via e que a troika era a santinha da ladeira a que havia de adorar e obedecer.

A memória é mesmo uma coisa muito chata para alguns vendedores de banha da cobra de inevitabilidades invertebradas

Jaime Santos disse...

A aplicação de um novo programa de austeridade implicaria o fim da atual solução de Governo, pelo que isso estaria fora de causa, penso eu. Note-se que o mesmo aconteceria em caso de reestruturação significativa da dívida pública, porque ninguém acredita que os credores aceitariam um hair-cut sem impor novas condições de controle da despesa que garantissem da sua perspetiva que recuperariam pelo menos parte do investimento. Duvido por isso que ficasse capital disponível para o investimento público. A solução é continuar a fazer tudo às pinguinhas, tentar reestruturar a dívida por pequenos passos e fazer figas para que não nos caia uma nova recessão em cima nos próximos 10 anos, pelo menos. E claro, preparar o terreno para uma eventual saída da Moeda Única ou desagregação da zona Euro em caso de nova recessão, porque aí nem todos os santos do Céu nos poderão valer. Só que isso exige tempo e tem que ser feito com razoável discrição...

Anónimo disse...

Até que enfim percebemos o programa de Jaime Santos que todos os dias nos inquire sobre o programa para a saída do Euro:

"fazer figas"

Jose disse...

Ó das 19:16! Lê de vaaagariiiinho!

Antonio Cerveira Pinto disse...

Ricardo Paes Mamede é um jovem economista que sofre dos males da maioria dos economistas: é um economista político! Pior ainda, é um economista da Geringonça. Ou seja, engoliu o DVD do Orgulhosamente Sós - versão marxista-leninista. É pena, pois, como sabemos, o marxismo leninismo foi um desastre em toda a linha e custou milhões de mortos pelo planeta fora. E quanto ao Capitalismo de Estado que Mamede, Louçã e outras luminárias da Geringonça advogam, a coisa é muito simples de desmonatar: o Capitalismo de Estado (forma económica do Socialismo num Só País) só é viável em países continente, ou, à escala de uma globalização arquipelágica, onde a Europa, se conseguir manter a sua trajetória, será um dos arquipelagos determinantes. Ou seja, as teorias tardias de Ricardo Paes Mamedes e Francisco Louçã são um embuste fácil de desmonatar, e revelam sobretudo que não aprenderam nada com a história das ideologias.

Resposta às duas prguntas de RPM:

RPM -- "como reduzir o peso da dívida pública" ?
ACP -- reduzindo, nomeadamente reduzindo o paquiderme do regime que é a aliança entre a burocracia inútil, o capitalismo corportivo indigente que anda mudou desde Salazar, e um sistema partidário insaciável. E ainda mudando de alto a baixo a filosofia do Estado Social, sem perdas para os que precisam, mas grandes perdas para os intermediários da fome e da ignorância popular.

RPM -- "como compatibilizar uma estrutura produtiva débil com a participação numa zona monetária dominada por economias muito mais avançadas, sem que sejam criados mecanismos compensatórios"?
ACP -- deixando funcionar a concorrência, limitando a atividade predadora fiscal e o intervencionismo político-partidário constante...

RPM: Isto implica enfrentar a necessidade de reestruturar a dívida pública e de alterar as regras de funcionamento da zona euro (ou desmantelá-la).
ACP: a restruturação está em curso desde que o BCE começou a comprar dívida pública dos países endividados e a prolongar as maturidades das obrigações; está em curso desde que o BCE começou a promover novas regras de confiança no sistema bancário; está em curso desde que todos nós percebemos que o dinehrio fácil para falsos investimentos acabou.COncluindo, fechar Portugal para curar as suas doenças endémicas seria o mesmo que transformar o país numa leprosaria nacional!

Antonio Cristovao disse...

Concoedo com um dos directores da Empresa que defende a liquidação do banco. Andar a empurrar o problema com a barriga, deixando para depois o ajuste necessário de tanto balcão, tanto bancario (a CGD tinha previsto reduzir 2500), tanto competir a um mercado pequeno, é fazer com que daqui a uns (poucos )anos tenhamos que pagar juros, novas imparidades as que já lá estão e encargos entretanto criados. AcLiquda-se o bicho, m,elhora o mercado para a CGD e privados que ficam e lambem-se as feridas criadas por bandidos que infelizmente nem presos estão.

Anónimo disse...

Um economista político!

E logo o António Maria se persigna,faz cruzes, reza uma missa e se apressa a debitar uma série de disparates. Primeiro desconexos, depois em jeito de diálogo imaginário com RPM.

Ora António Maria parece que não gosta de economistas políticos. O coitado esconde assim desta forma a Pulitika que faz. Que a faz e de forma particularmente expressiva é um facto. Confirmada de resti por aquele apatetado "economista da geringonça"

Dá vontade de perguntar, perante este nível argumentativo primário e burgesso, se o António é o economista dos pafistas? Ou da troika? Ou da tralha neoliberal?

Anónimo disse...

Vale a pena desmontar o argumentário dum tal António Cerveira Pinto, ACP de sua graça.

Começa por referir que "Ricardo Paes Mamede é um jovem economista que sofre dos males..."

Começa mal. Adivinha-se um António Pinto já a cair da tripeça e a invocar a idade como factor de relevo no debate de ideias. Tentará fazer passar a ideia de imaturidade a que alguns pateticamente associam à juventude? Esquecer-se-á que RPM já entrou na quinta década de vida?

Coitado do sr Pinto. Nem sequer terá reparado que os senhores com que Ricardo Paes Mamede debate são bem mais velhos que ele em todos os aspectos. Na idade e na incapacidade manifesta como brandem os seus argumentos. Uma brigada do reumático constituída por ex-ministros das finanças que se mostram tão impotentes e anquilosados perante o "jovem" RPM.

Cai por terra a forma manhosa como o sr Pinto se refere ao autor desta posta

Anónimo disse...

Queixa-se depois o sr Pinto que RPM é um "economista político".

Ignorará o Sr Pinto que este blog é um blog de economia política?

Pode-se questionar se ACP sabe o que isso é. Mas quanto a tal facto nada a fazer. Recomenda-se isso sim que o Sr António Pinto saia da sua zona de conforto e vá aprender e estudar. Para evitar fazer estas figuras tristes

Anónimo disse...

Mas infelizmente, para a seriedade do debate, ACP continua na senda da anedota.

Depois de exorcizar RPM por ser um"economista político" envereda desaustinado pelo jargão político mais primário e propagandista.

Nem sequer tem o bom senso de reparar que para quem se lastima do economista político termina o seu primeiro parágrafo no reino da política pura: na "história das ideologias".

O que é isto? Hipocrisia ou simplesmente uma fraude intelectual?

Anónimo disse...

Não acabam aqui os trejeitos do Sr Pinto para com RPM:
"Pior ainda, é um economista da Geringonça. Ou seja, engoliu o DVD do Orgulhosamente Sós - versão marxista-leninista."

Economista da geringonça? Sério? O odiozito de estimação para com a geringonça que perpassa nesta frase não pode fazer esquecer que RPM tem uma visão própria que ultrapassa o programa económico do governo. Visão crítica e vigilante. Pelo que à pesporrência do comentário sobre o engolir do DVD se junta a ignorância do que RPM defende.

Ou aqui também haverá má fé?

Porque o festival à Pinto continua. Quer a verdade que se diga que RPM não é marxista-leninista. Algo natural, conhecido, que se deve absolutamente respeitar, que faz parte da vontade livre do cidadão em causa.

Não se percebe assim o desviar para este campo e polvilhar o comentário com boçalidades saídas dos seus livros negros. Uma forma cobarde de tentar amarrar o seu adversário a um universo que não é o seu. E aqui começamos a ver que afinal o tal ACP é mais do que uma fraude.

É mesmo desonesto.

Anónimo disse...

Virá depois apenas o non sense de comentários avulsos que falam por si.

A coisa muito simples de "desmonatar" é o Capitalismo de Estado. E o que é este? Cita-se: "A forma económica do Socialismo num Só País".
Fica-se sem perceber o motivo das letras iniciais maiúsculas.
Fica-se sem perceber se este tipo saberá que o capitalismo monopolista de estado dominava a economia no tempo do fascismo em Portugal.
Fica-se sem saber se a verdadeira torrente de patetices que se segue é para levar a sério ou para soltar uma gargalhada. Mais uma vez se cita:"o Capitalismo de Estado só é viável em países continente, ou, à escala de uma globalização arquipelágica, onde a Europa, se conseguir manter a sua trajetória, será um dos arquipelagos determinantes"

E deste disparate geográfico parte-se para uma conclusão toda ela luminosa: "as teorias tardias de Ricardo Paes Mamedes e Francisco Louçã são um embuste fácil de desmonatar"

As "teorias tardias" é a cereja no topo do bolo. Estamos de facto diante dum verdadeiro teórico do fashion político-económico. Um maquilhador da modernidade. Um arquitecto da moda e da Hola a zurzir contra as teorias tardias e a iluminar sabe-se lá que "novas" teorias.

Um mimo

Anónimo disse...

Ficará para mais tarde o escalpelizar das "respostas" de ACP.

Mas fica a confirmação que ACP é acima de tudo um tipo à procura de protagonismo, amarrado a um discurso ultramontano. Impotente perante a queda dos axiomas neoliberais faz o que fazem geralmente os cobardes. Enceta uma fuga para a frente e repete as receitas troikistas da forma indigente como o faz.

A sua descrição do país chega ao cúmulo do extremismo neoliberal dum qualquer Pinochet de opereta. Ouçamo-lo: "Um país onde o marxismo-leninismo (estalinista e trotsquista), que durante mais de quarenta anos condicionou a praxis mole do PS e do PSD.

Pobre ACP. Pobre António Cerveira Pinto. Pobre sr Pinto. Até onde vai o desnorte destas coisas para assim negarem a governança de direita e neoliberal que o país experimentou ao longo de muitos dos anos pós-25 de Abril de 74? A herança do Capitalismo é de tal forma ruinosa que só mesmo estas fitas de "condicionamentos"e de "molezas" permitem espaço para se tentar manter de pé as tretas em queda livre dos neoliberais predadores? Cavaco, o mole. Barroso,o mole. Passos,o moleza. A sua herança é de tal forma terrível que até mesmo estas "coisas" os renegam?

Pobre ACP. Pobre Sr Pinto.

Anónimo disse...

Geralmente quem fala no perigo de Portugal se transformar numa leprosaria nacional está marcado por duas características:

- a primeira é uma ignorância sobre as condições sanitárias da actualidade e sobre a lepra. E ainda estar acorrentado - da pior forma possível- às leprosarias de outrora. Ainda tendo sonhos com campos concentracionários onde se podem acumular doentes (ou o que mais lhe aprouver) e registos sanitários provindos de outros tempos.
Derivará tal facto de não ser um "jovem" economista e de necessitar como de pão para a boca de leprosos para esconjurar?

- a segunda é a suspeita fundada que quem assim age está muito bem com a condição em que se encontra. Participa da classe dominante. Refastelou-se nos tempos da criminosa governança neoliberal. Tem náuseas e tonturas quando lhe falam na geringonça. E pretende manter e recuperar a todo o custo os privilégios acumulados e a acumular.

Anónimo disse...

Quando o António Pinto fala em " mudando de alto a baixo a filosofia do Estado Social, sem perdas para os que precisam, mas grandes perdas para os intermediários da fome e da ignorância popular".

O que pretende concretamente com as "perdas para os que precisam"?
Os que precisam da caridadezinha promovida pelas jonets e pelos antónio marias de ocasião, ignorando que o Estado Social é muito mais do que o acorrer aos necessitados?
Quem quer saúde paga-a, no dizer de um governante neoliberal e de direita de má memória.É a este modelo que a tralha neoliberal quer voltar sempre?

E o que serão os intermediários da fome? Se forem os intermediários que ganham dinheiro com a fome e com a exploração dos demais, completamente de acordo. Se for quem se apropria da mão-de-obra alheia idem idem aspas aspas. Se forem os grandes grupos económicos que se governam enquanto governam até há palmas.

Mais misteriosa é a afirmação sobre os intermediários da ignorância popular. O que será isto? Será a responsabilização dos nossos media pelo papel de voz do dono face aos seus donos e aos donos do poder económico?
Será a acusação frontal aos liberais perante a tentativa de promoverem a ignorância ao tentarem dar cabo da escola pública? Se for assim está certo

De qualquer forma impõem-se respostas mais claras do que respostas generalistas onde pode caber tudo e mais um par de botas. Até propaganda bacoca aos perdões fiscais aos grandes grupos económicos

Luis Cabrita disse...

Um presente envenenado...

Em sociologia chama-se uma profecia auto-concretizada, assim soprem os ventos políticos.