terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Almas perdidas

Há um dito de Mário Soares, cujo contexto já não recordo, mas acho que foi durante a adesão à CEE ou na entrada do FMI. Teria ele dito algo assim: “Os estudos técnicos apenas justificam as opções políticas”.

Este desprezo pelo pensamento supostamente neutro e frio da “técnica” pode ser próprio de quem tenha preguiça de ler dossiers. E pode ser perigoso porque há opções políticas que nos conduzem ao precipício.

Mas tem um lado interessante: afirma que o que importa é a visão e os horizontes da actuação política. E porquê? Porque o debate técnico nunca existirá como tal – neutro e frio - mas sempre com uma opção política escondida e não declarada. Porque nunca os estudos técnicos serão testados como tal: serão sempre afirmações políticas camufladas de tecnicidade, mascaradas num modelo repleto de pressupostos políticos e falsos sensos comuns transformados, incrustado numa “caixa negra”, fechada aos olhos de todos.

O enviezamento do discurso técnico vem a propósito de muita coisa. E de como, olhando bem, tudo parece ter sempre por detrás apenas... dinheiro. Ou seja, em última instância, como justificar “tecnicamente” que se continue a produzir a transferência de rendimento do Trabalho para os detentores das empresas.

1) Poderia vir a propósito da polémica em torno da TSU. Nunca a TSU foi um bom incentivo à criação de emprego: é apenas dinheiro dado às empresas. E até às grandes empresas que não necessitam dele.

2) Vem a propósito do recente relatório da OCDE, pedido (mas não pago) pelo anterior governo, e divulgado pelo actual. Eis, pois, um exemplo de uma política que nos conduziu ao precipício social, sem efeitos práticos visíveis que não os do aumento da desigualdade.

3) Vem a propósito de um artigo bem interessante de Diogo Martins, na edição portuguesa do Le Monde Diplomatique (“Flexibilizar para criar emprego?”), em que se chama a atenção para como os modelos podem não ser fruto de uma investigação séria, mas a forma “técnica” de obter certos resultados económicos, politicamente necessários à defesa de uma certa tese.

4) E finalmente, vem a propósito de outro artigo da mesma edição, sobre as razões que poderão estar por de trás de quem apoia em França a Frente Nacional (“O meu vizinho bora da Frente Nacional”).

Um homem comum de “48 anos, operário qualificado na embalagem industrial, poliéster, PVC plastificado. Antes trabalhou 16 anos na Saint-Gobain”. E a sua mulher, “cujos pais vieram de Marrocos na década de 70. É vendedora no sector de vestuário. Tem 43 anos. Foi despedida três vezes porque as lojas fecharam. Tem muitas vezes vontade de chorar.”

“Vivendo onde vive, imobilizado num espaço em declínio, impotente face ao desabar de um mundo que já não funciona”, diz ele sobre Marine Le Pen: “Quando a ouço, ela mexe comigo, esta mulher... Não sei, é por causa da maneira como ela fala dos franceses, ficas com orgulho”.

Isto é um sentimento normal, após a política seguida na UE durante décadas. Esta humilhação impotente de largas camadas da população, a desertificação do tecido produtivo nacional em nome de uma globalização que beneficiou sobretudo transnacionais, que nem pagam impostos sobre os frutos mal repartidos, tudo com a cumplicidade da OCDE e de uma política ineficaz de combate aos offshores, da cumplicidade de governos legítimos (ver, por exemplo, Luxleaks) que promovem buracos negros na fiscalidade europeia.

Um sentimento normal com a criação de um enorme exército de desempregados e de desprotegidos que contribui para a baixa salarial, a asfixia sindical, mas - mais que tudo - deixa uma população sem força, desarticulada e desorganizada, ferida na sua auto-estima, doente, apática, carente de orgulho e de materialização de força e raivas reprimidas.

Como é que a disfunção do capitalismo internacional, em benefício de muito poucos, gerou a ascensão de um capitalismo nacional, mal representado na partilha dos frutos da globalização, em vez de uma aversão ao sistema em si?

Como é possível a uma certa esquerda – e falo da social-democracia internacional - não ter um discurso assim? É como se a social-democracia tivesse optado pelos valores da concentração e centralização extrema do capitalismo, sem perceber que se afastou da sua base social de apoio.

Uns diriam que se trata da sua vocação histórica. Mas como é que não é claro para eles?

Ter-se-ão perdido ou perdido a sua alma no caminho?

25 comentários:

Jose disse...

Começando por uma evidência, vem mais adiante desmonstrá-la na versão puramente ideológica, que pose dizer-se assim:
"Invoquemos a social-democracia para interromper o ciclo de repartição de riqueza a nível global, que fortalece os nossos capitalistas e nos obriga a interromper um percurso de facilitismo e crescente bem-estar."
Porque é grosseira falsidade dizer-se : «que beneficiou sobretudo transnacionais» ou « em benefício de muito poucos».
E quanto à «concentração e centralização extrema do capitalismo» basta ver o Trump muito f… com o proliferar de capitalistas por toda a Ásia e mais além, que ameaça o seu «America First».
Quanto são saudades do piegas terceiro-mundismo que só custava palavras e passeatas e não mordomias.

Jaime Santos disse...

Estou de acordo relativamente à questão de que os estudos técnicos servem sobretudo para apoiar escolhas políticas e que os piores são aqueles que só as assumem implicitamente e que vão camuflar opções regressivas através da novilíngua (fala-se de empregabilidade e flexibilidade quando o que se quer falar é de precariedade e desemprego, por exemplo). Mas, como bem refere, o problema é que o desprezo da tecnocracia pode levar ao precipício. Tsipras e Varoufakis também falharam porque foram absolutamente incapazes de desenhar um plano B que permitisse à Grécia sair do Euro e que poderia ter sido usado para adquirir 'leverage' nas negociações. Hollande falhou porque prometeu governar à Esquerda e guinou à Direita. As guerras políticas não se ganham só porque se tem a razão moral do seu lado, mas porque os programas de Governo estão bem desenhados e levam em atenção as condicionantes externas e internas. Quando Benoit Hamon propõe um imposto sobre robots, ele revela um pensamento neo-ludita absolutamente reacionário (e mais, absolutamente suicidário). Pode deter-se a revolução tecnológica internamente, mas outros irão aproveitar-se dela. Por muito que se queira, não é possível regressar ao modelo industrial dos anos 70, antes da crise do petróleo, que é aquilo que está implícito na defesa do modelo social-democrata de antanho, que funcionou até então (e em quem os radicais de então malhavam fortemente, é bom que se recorde, quando a URSS já apresentava sinais de colapso, que alguns, como Emmanuel Todd, intuíram). E não se defende que é possível combater a Extrema-Direita defendendo essencialmente o que ela propõe, exceto o racismo e a xenofobia (mas é fácil ser-se tolerante numa sociedade fechada e homogénea). Por isso, o problema, João Ramos de Almeida, não é só das almas perdidas social-democratas, e também daqueles que as tentam 'salvar' (passe-se o paternalismo implícito na sua utilização desta linguagem). É que as soluções propostas por eles mostraram à exaustão a falta de preparação económica dos Governos de Esquerda. Acha que esse operário de que fala ficaria feliz se vivesse na Venezuela? Uma sociedade de miseráveis é um bom exemplo de igualitarismo? Eu acho que não é. É por isso que eu disse um dia ao João Rodrigues que o Doutor Centeno é o mais radical dos Economistas à Esquerda, porque a política dele, não sendo ideal, parece até que funciona...

Alice disse...

O capitalismo contemporâneo é deslumbrante. Vejamos:
Põe-se os escravos longínquos num qualquer país sem leis de protecção aos trabalhadores a fazer o trabalho efectivo, pagam-se impostos na Holanda e põe-se os lucros num qualquer offshore simpático. E é tudo legal!
Ficam os países a pagar as consequências sociais, ambientais e económicas destas opções e, já agora, a receber umas migalhinhas que ainda escapam da fabulosa rede de esquiva. Estas migalhinhas devem, obviamente, ser agradecidas de joelhos.

Mas quem é que não quer este sistema benfazejo e maravilhoso?! Nem consigo imaginar tal coisa...

José Peixoto disse...

Tendo tido responsabilidades políticas no passado, sempre disse aos técnicos que comigo trabalhavam que, sobre um qualquer problema, esperava que a sua lealdade não fosse para comigo e para com as linhas que eles poderiam pensar que eu mais me inclinaria a escolher. Pelo contrário, sempre lhes pedi para analisarem o problema sobre todos os pontos de vista, listassem as vantagens e desvantagens de cada solução, emitissem mesmo a sua opinião que e eu depois optaria e seria então verdadeiramente responsável pela orientação escolhida. Continuo a pensar da mesma forma.
No entanto, sei que quase nada existe que não tenha um fundo ideológico, pelo que quem tem a responsabilidade política de optar tem que saber discernir entre os "pratos que lhe são servidos". Seja em que domínio seja! A técnica nunca é neutra, serve sempre em cada momento os interesses dominantes e os decisores políticos que se opõem ao sistema têm que saber discernir e separar o trigo do joio. Tarefa difícil mas não impossível. Às vezes até bem simples, pois raras são as vezes em que tais interesses aparecem camuflados. O caso da TSU é bem simples de compreender: se o SMN nunca foi aumentado de acordo com a evolução de preços e a evolução da produtividade, isto TRADUZ OBRIGATORIAMENTE que a fatia que lhe falta foi para os bolsos do patrão: Parte, e digo "parte" à falta de estísticas fiáveis onde se possa saber rigorosamente a estrutura de custos sector a sector - admito que a falha até possa ser minha que não domino tais dados, seja directamente para os bolsos do dono, seja também para os pagamentos dos preços cartelizados da energia, etc., etc. Para os bolsos de quem produz é que não tem ido e isto é um facto!
Hoje vivemos num mundo onde o Capitalismo existente é de rapina e totalmente usurário. O Capital financeiro tudo domina e a indústria deixou há muito de ser e ter o atractivo que tinha para a realização de lucros apetecíveis, excepção para a das armas, das drogas, incluindo nesta a farmacêutica. O quadro estudado magistralmente por Lenine em 1916 não se alterou, apenas se aprofundou. Mesmo os conglomerados industriais existentes, totalmente fundidos com o Capital Financeiro, limita-se muitas vezes a "espremer" os pequenos e médios industriais, que não têm outra saída que não a falência ou o fabrico e venda com margens reduzidas, efectuando-se assim uma enorme pressão sobre os rendimentos dos trabalhadores face a um exército de desempregados gigantesco!
Quanto à social-democracia, ela afinal está no caminho que escolheu nos princípios do século XX, a de ser uma fiel defensora do capitalismo realmente existente, apenas tentando verbalmente mitigar os seus aspectos mais repelentes. Porque nas acções, o que temos visto é uma colagem total ao ideário "neoliberal"!

Anónimo disse...

Muito f...parece estar o Jose com a afirmação que a globalização beneficiou sobretudo transnacionais.

Afirmação incontroversa e sustentada por factos concretos e dados objectivos.

Pelo que só lhe resta mesmo que um piegas: " grosseira falsidade".

E mais nada.

Pensará que estamos todos numa prédica salazarenta, em que a propaganda em jeito de slogan se fazia passar pela realidade?

É preciso algo mais do que tais reflexos primários e infantis.

Anónimo disse...


Não, ninguém perdeu a alma!
Vão e´ de vez em quando mudando de poiso como almas penadas a´ procura do seu involucro. Como disse e bem e eu repito, e´ o dinheiro meu caro… acompanhado por uma desenvolvida cultura do medo.
“Neste mundo des¬pro¬vido de utopia, senso his¬tó¬rico e con¬fi¬ança na re¬pre¬sen¬ta¬ti¬vi¬dade po¬lí¬tica, o medo ocupa cada vez mais es¬paço. As forças con¬ser¬va¬doras nos in-cutem tal in¬se¬gu¬rança que, como cor¬deiros a serem tos-qui¬ados, acei¬tamos trocar a li¬ber¬dade pela se¬gu¬rança. Dei¬xamos de me¬lhorar a nossa qua¬li¬dade de vida ou fazer uma vi¬agem de lazer para manter in¬to¬cado o di¬nheiro no banco.Temos medo de sair da CEE, do de¬sem¬prego, da in¬flação, da re¬cessão. A toda hora soa o alarme: cui¬dado! A fera está solta!” E o antidote passa por praticas culturais revolucionarias de esquerda ate agora quase inesistentes e entregues a partidos desavindos. Esta´ ao nosso alcance emendar a pauta… de Adelino Silva

Anónimo disse...

Caro Jaime Santos,

O seu comentário é pertinente. Pena o exemplo com que ilustra o seu ponto, e que revela angelismo ou má-fé. Aquilo que faz é exactamente o mesmo que seria usar o caso de Cuba como ilustração da tese de que o socialismo não funciona, esquecendo as condições concretas ( embargo económico ) em que funcionou.

MRocha

Anónimo disse...

"Tsipras e Varoufakis também falharam porque foram absolutamente incapazes de desenhar um plano B que permitisse à Grécia sair do Euro e que poderia ter sido usado para adquirir 'leverage' nas negociações. "

Isto é mentira, esse plano não só existiu como estava pronto para ser executado, se tiver interesse pode procurar por "plano X", as suas imprecisões não têm nada de inocente.

Anónimo disse...


Já se percebeu há muito que não e´ por falta de conhecimento dos economistas que as economias deram no que deram.
Na actual situação político-económica internacional qualquer tenente-general das forças «dominantes» vale mais que os sábios da economia por junto. E´ que não basta ter uma economia saudável, esta precisa de forte apoio militar. Vejam
as grandes potencias. Estas são vistas como tal por mor do seu poder militar nuclear ou destrutivo e não pelo poder da sua economia real. Cada potencia militar hegemónica na sua periferia age como um Íman. Por isso a NATO…Que para além da proteção económica tornou-se um instrumento defensor da Globalização Ocidentalizada tal como se define hoje. De Adelino Silva

Anónimo disse...

"a falta de preparação económica dos Governos de Esquerda".

Uma afirmação gratuita que esconde uma coisa tão simples como esta. A traição da social-democracia aos ideários de esquerda. A questão não é mesmo a falta de preparação. A questão é a opção deliberada por opções políticas que traíram os trabalhadores e que fizeram funcionar a distribuição da riqueza de baixo para cima

Não se vá buscar a Veneuela que parece que é o disco rachado por essas bandas. Quando se falar na Venezuela fale-se na Venezuela. Mas ir buscar o país latino americano quando os exemplos que temos são bem mais numerosos e significativos. São da europa. Deste continente.
França? A traição de Hollande. Itália? A de Renzi. RU? A de Blair e seus companheiros. Espanha? A de Gonzalez.

Como José Peixoto muito bem diz "à social-democracia, ela afinal está no caminho que escolheu nos princípios do século XX, a de ser uma fiel defensora do capitalismo realmente existente, apenas tentando verbalmente mitigar os seus aspectos mais repelentes. Porque nas acções, o que temos visto é uma colagem total ao ideário "neoliberal"!

Por isso o tal operário por que se chora não chora por estar na Venezeuela. Revolta-se por estar na Europa, num país europeu traído pelos que o deviam apoiar. Insensiveis aos excluídos a dita "esquerda" o que faz é alimentar a extrema-direita.
Sem termos que fugir para a Venezuela, prova da ausência de argumentos concretos e de necessidade de criar fumo para tapar o indesmentível.

E o indesmentível é que a traição da Social-democracia alimentou e alimenta a extrema-direita.
Falta de preparação? Uma treta. Opção friamente tomada pelos ditos governos de "esquerda"

Anónimo disse...

Dizer-se que "o Doutor Centeno é o mais radical dos Economistas à Esquerda" pode-se dizer. A opinião mesmo que tida por disparatada e tola não deixa de ser uma opinião. Quem a queira que a compre e tente não se rir com isto. Ou rir-se tanto faz.

O que não se pode fazer é mentir e falsificar os factos.Quando se diz que Tsipras e Varoufakis também falharam porque foram absolutamente incapazes de desenhar um plano B que permitisse à Grécia sair do Euro é falso. havia um plano B. Só que Tspiras traiu ( mais um que traiu o voto popular) e foi incapaz de se assumir como um protagonista da vontade livremente expressa do seu povo.

Anónimo disse...

Alguém aí em cima fala de "Trump muito f… com o proliferar de capitalistas por toda a Ásia e mais além, que ameaça o seu «America First»".

O coitado nem repara que a sua afirmação é a comprovação da validade das teses de Lenine sobre o imperialismo, nomeadamente da lei do desenvolvimento desigual do capitalismo, que mostra a impossibilidade de constituição de um mecanismo único capitalista (um «super-imperialismo») que anule a concorrência dos monopólios e as contradições inter-imperialistas, causa primeira do militarismo, da agressão e da guerra.

É ver também o panorama desta UE e o que quotidianamente se passa

Venham mais pedaços de prosa, que mesmo cheia de saudades e de piegas terceiro-mundistas e de passeatas e de mordomias, é uma oportunidade para
desmistificar tretas começadas por f...

Jose disse...

Sobretudo
é preciso não tocar na ideologia:
- Todo o lucro é sobretudo excessivo
- Todo o comunismo ineficiente e brutal é vítima (sobretudo do capitalismo, naturalmente).

Antonio Cristovao disse...

As crenças e credos que se notam em muitas das "predicas" politicas, posts, campanhas...são uma praga que tem prejudicado os cidadãos, levado a que tomem posicão por anacronismos, pos verdades, selvajarias e mais que condenadas politicas.
Que dizer dos socialismos, de diversas facções , se nos focarmos nos factos mediveis : que país governado por adeptos dessas agremiações conseguiram um desenvolvimento e progresso dos seus povos, comparado ao que temos no Canada ou UE.
No entanto gente até com estudos, diariamente defende os seus lero lero com convicção.
Factos ? para que serve isso , se a nossa visão "acha" o contrário.

João Ramos de Almeida disse...

Caro José,
Quando se diz que a globalização beneficiou sobretudo transnacionais, não invalida que tenha beneficiado outras pessoas (trabalhadores onde houve investimentos) ou entidades (subcontratantes, etc.), a par de ter prejudicado uma actividade nacional. O problema está na repartição de benefícios e dos custos. E aí não há dúvidas: a globalização foi feita para quem possa produzir a baixos custos, vender a preços altos e transferir a diferança para um sociedade que, por acaso, tem sede num paraíso fiscal (que até pode ser civilizado, como o Luxemburgo).

Caro Jaime e José Peixoto,
Tem razão. É preciso sempre fazer contas e pensar nas alternativas. Apenas quis dizer que cada vez que se faz contas, se faz de certa maneira. E cada maneira de fazer contas, escolhe o que é para si o precipício. Exemplos latino-americanos levar-nos-iam muito longe. Muito longe, no recuo ao passado.

E não acho que se defenda o mesmo que a Extrema-Direita. As cabeças mais elegantes dela apoiam-se num tecido desestruturado, propõem o óbvio (não é possível continuar assim e ter-se-á de defender o território nacional porque é nele que estão as pessoas), mas quando chegados ao poder era bem possível que, na prática, a teoria fosse outra. Agora enchem-nos de orgulho, jogam com essa emoção humilhada, tem programas que não envergonham soberanistas (apenas porque os soberanistas se mantêm calados sobre isso). Mas é bem possível que, em defesa desse território nacional (agora já falando das empresas), o velho lema contnuasse de pé: os "custos laborais" ter-se-ão de reduzir em favor de alguém.

João Ramos de Almeida disse...

Caro José,
Quando se diz que a globalização beneficiou sobretudo transnacionais, não invalida que tenha beneficiado outras pessoas (trabalhadores onde houve investimentos) ou entidades (subcontratantes, etc.), a par de ter prejudicado uma actividade nacional. O problema está na repartição de benefícios e dos custos. E aí não há dúvidas: a globalização foi feita para quem possa produzir a baixos custos, vender a preços altos e transferir a diferança para um sociedade que, por acaso, tem sede num paraíso fiscal (que até pode ser civilizado, como o Luxemburgo).

Caro Jaime e José Peixoto,
Tem razão. É preciso sempre fazer contas e pensar nas alternativas. Apenas quis dizer que cada vez que se faz contas, se faz de certa maneira. E cada maneira de fazer contas, escolhe o que é para si o precipício. Exemplos latino-americanos levar-nos-iam muito longe. Muito longe, no recuo ao passado.

E não acho que se defenda o mesmo que a Extrema-Direita. As cabeças mais elegantes dela apoiam-se num tecido desestruturado, propõem o óbvio (não é possível continuar assim e ter-se-á de defender o território nacional porque é nele que estão as pessoas), mas quando chegados ao poder era bem possível que, na prática, a teoria fosse outra. Agora enchem-nos de orgulho, jogam com essa emoção humilhada, tem programas que não envergonham soberanistas (apenas porque os soberanistas se mantêm calados sobre isso). Mas é bem possível que, em defesa desse território nacional (agora já falando das empresas), o velho lema contnuasse de pé: os "custos laborais" ter-se-ão de reduzir em favor de alguém.

Anónimo disse...

O Jose sente-se acossado

Nao quer ou quer falar de ideologia, não se sabe bem. Mas o que se sabe é que ele próprio faz o seu papel ideologico.

E apesar do "gozo" está inquieto pela cada vez maior denúncia do charco em que estamos.

É o capitalismo estupido

Anónimo disse...

"Porque todo o lucro é sobretudo excessivo."

Uma afirmação curiosa. Porque reveladora. Da ânsia pelo lucro sobretudo a que preço for.
Da avidez canina pelas taxaa de lucro?

Então não é que mais uma vez parece que Marx tinha razão?

Anónimo disse...

Há mais.

" Todo o comunismo ineficiente e brutal é vítima"

Ora bem. Sabemos que a iliteracia entre o patronato é superior à dos trabalhadores.

Mais uma vez se confirma a regra.

Comunismo? Onde foi? Quando foi?

E enquanto se aguarda mais uma vez a confirmação do referido acima e passando por cima do brutal e ineficiente qualquer coisa,chama-se a atenção para a vitimizaçao piegas do capitalismo. Apresentado agora como um pobre carrasco.

Não riam por facor. É desta massa que.

Anónimo disse...

Cristovão sr.

Gente até com estudos têm a lata de contrariar a visão de Cristóvão Sr.

A razão ou os lero leros estarão na posse de Cristovão. Os factos assim o indiciam? O Haiti é a prova? A Grécia? Os EUA? A Libia?

Claro que não. A prova reside que foi por confidencia divina que Cristovão sr sabe que tem razão.

Isto é fanatismo religioso. E tentar passar um atestado de menoridade a quem não segue a beatice de Cristovão sr.

Jose disse...

Caro João
A cena do paraíso fiscal é matéria um tanto ridícula:
Se eu fosse progressista diria que esse dinheiro era devido aos países onde os proletários foram explorados.
Ora o dinheiro não vai estagiar - feito vinho de boa colheita - nos paraísos fiscais e tarde ou cedo acaba por movimentar a economia algures ( ou mais prosaicamente financia governos compradores de votos).
Por outro lado, é completamente seguro que a manutenção de sociedades como as europeias - envelhecidas e confortadas a níveis que não poderão ser indefinidamente crescentes - dependem em absoluto do crescimento em outras paragens.

Lucros excessivos são sempre erodidos pela concorrência, não por improváveis regulações provavelmente pasto de corrupções e outras actividades criminosas.

Anónimo disse...

Se eu fosse progressista diria que o dinheiro era devido aos países?

Mais uma boutade assinalável. Pode-se continuar assim ad eternum. A discussão, já não no reino das variáveis em questão,mas sim função directa da farpela que alguém assume vestir. Na forma condicional

Esta forma de discutir é tão confrangedora que nem vale a pena ir por aí

Anónimo disse...

Mas o que não pode passar impune é a defesa inqualificável do crime.

Repare-se. A justificação para que os patifes ponham o dinheiro nos offshores - e Jose defende tal prática - é apresentada como benéfica para a economia.

A justificação do crime é agora apresentada em função do lucro que pode mover. Já não interessa a origem do produto do roubo.A patifaria está perdoada porque vai beneficiar alguém já o dinheiro não vai estagiar. Como o vinho.

Eis até onde chegou a falta de vergonha. Um mafioso reles ou um mandante de crimes néscio, um proxeneta provinciano ou um torturador especializado, um banqueiro que provocou a queda de um banco ou um crápula a fugir ao fisco estão todos perdoados na sua actividade de recolha do dinheiro em offshores já que fazem "olear" a economia.
Algures

Simplesmente abjecto

Anónimo disse...

Mas há mais.

Na sua tacanha defesa do Capital, dos capitalistas, deste modelo de sociedade Jose apresenta, mais uma vez de forma involuntária, uma realidade indesmentível

Na fase actual da história – ou seja, desde o fim da Segunda Guerra Mundial até a actualidade – o capitalismo depara-se com um limite cada vez mais insolúvel devido à contradição entre o crescimento da produtividade do trabalho, por um lado, e as relações de produção entre o trabalho e o capital, pelo outro. Esta contradição está cada vez mais forte e o capitalismo está a esgotar a sua capacidade para desenvolver-se no contexto desta fase histórica. A forma concreta adoptada por esta contradição, a sua incapacidade crescente para desenvolver-se, consiste em crises cada vez mais violentas.

O ponto-chave é a taxa de lucro, o indicador chave da saúde da economia capitalista.

Traduzida aqui neste texto de jose pelo paleio em trono da Europa - envelhecida,confortada e outras tretas -que necessitam de ir buscar lucro a outras paragens.

Tão claro que até dói, como aquele acto falhado sobre o Trump

Anónimo disse...

E a cereja no topo do estrume.

Depois de justificar os crimes pelo contributo do produto deste à economia, depois de involuntariamente mostrar que afinal Marx tinha razão...jose atira-se à "regulação"

Porquê?

Porque pode ser pasto de corrupções e outras actividades criminosas.

Curioso.Quando defendia os paraísos fiscais não lhe deram estes achaques emocionais e estas pieguices sentimentais

Foi pela desregulação de todo o sistema que a crise se agravou da forma como todos vimos. Este convite ao deixar o mercado e a concorrência funcionarem é um convite descarado à continuação desta trampa de sociedade e à concentração do Capital.

Mais uma vez Marx aparece a ensombrar o apetite guloso de Jose. Ele já tinha avisado que esta seria a forma de actuar dos joses do futuro.

Com as consequências que todos conhecemos