segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

O motor mudou mesmo?

O primeiro-ministro deu uma entrevista à RTP na passada quinta-feira. Digo "deu" porque, de facto, não houve muito contraditório consistente. E houve várias afirmações de Pedro Passos Coelho que mereciam contestação. Uma delas foi:

"O modelo económico que era prosseguido até à intervenção externa era um modelo gerador de desemprego. E nós temos de mudar o paradigma de crescimento em Portugal (...) E penso que já estamos a inverter isso" (ver, ao minuto 42:40).

Na verdade, o primeiro-ministro acabou por não elaborar muito sobre esse novo modelo. Mas supõe-se que a ideia seja a repetida longamente pelo Governo e que pretende mostrar que, afinal, estão aí os resultados da austeridade virtuosa, que visou alterar o défice de competitividade da economia portuguesa e prepará-la para os enormes desafios da globalização. Algo assim:


O gráfico representa a variação homóloga (em valor nominal) das várias componentes do PIB.

Leitura oficial: a contração da procura interna fez cair as importações, acabou por criar um superávite comercial que puxou para cima o PIB, o investimento, e com ele o emprego e o consumo privado.

Mas é um pouco mais complexo.

Em primeiro lugar, parece haver uma relação entre o crescimento da produção e a procura externa e interna, como é visível no saldo das respostas extremas nos questionários de opinião aos empresários, compilados pelo INE e que dão uma ideia das suas expectativas.


Algo aconteceu no final de 2012 e que marcou o andamento da economia. E esteve relacionado com a procura externa. Foram as nossas mercadorias que se venderam melhor, houve um aumento abrupto da competitividade a ponto de termos conseguido penetrar tão rapidamente nos mercados externos ou foi apenas uma subida da procura externa? Ou foi o aumento da produção de refinaria petrolífera? O certo é que parece ter se reflectido igualmente na procura interna. Foram as pessoas que pouparam menos, depois de um primeiro choque? Foi o Tribunal Constitucional? Era importante analisar melhor esta alteração.


E depois, um pouco depois, já no 2º trimestre de 2013, acabou por se reflectir no andamento do emprego. E teve um comportamento parecido no início de 2014, após uma ligeira inflexão na procura externa e interna.

É "isso" sinal de mudança de paradigma?

A situação que se vive em 2014 nem tem um perfil distinto da vivida antes da intervenção externa. Veja-se o contributo de cada componente da procura agregada para o crescimento do PIB, estimadas pelo INE, mas desta vez em volume (expurgado o efeito dos preços):

Ou seja, desta vez a recuperação do PIB parece ser explicada, antes, pela subida do consumo privado e do investimento (em menor grau) e que essas componentes acabam por prejudicar aquilo que - para Passos Coelho, Paulo Portas e a direita - seria um sinal de uma retoma mais saudável, com um equilíbrio das contas externas. Em volume, o saldo comercial já é negativo e é explicado pela elevada componente importada do consumo e do investimento. Ou seja, nada parece ter mudado em três anos, desse ponto de vista.

O que fica pelo caminho desta terapia é antes um enorme "exército de reserva" de desempregados e da delapidação do capital fixo (outro bom tema a abordar) que puxa a retribuição salarial para baixo, agrava os efeitos do envelhecimento populacional e com ele da estabilidade das contas da Segurança Social e do próprio âmbito da cobertura do Estado Social. Algo que, por acaso, nem está fora da estratégia da direita em Portugal. Só entre 2011 e 2014 foram destruídos 209,9 mil postos de trabalho, dos quais 42 mil na indústria, 147 mil na construção e 82,4 mil na agricultura. Os serviços criaram 73 mil.

Mas a recente subida do emprego não parece ser um sinal de mudança de paradigma. É mais o regresso ao velho modelo que Passos Coelho tanto condena e que finalmente, e malgré lui, está a respirar melhor. Mas que ainda se constipa quando a procura externa espirra e que se expande e encolhe consoante a procura interna. Será, antes, um sinal de que o Governo mudou de política e nem vê que isso está a acontecer diante dos seus narizes?

A prova é que, quando comparamos a estrutura do emprego por ramos de actividade (ainda que tendo em conta a alteração do inquérito ao emprego a partir de 2011), antes da crise e depois da intervenção externa, não se vêem mudanças significativas.

Veja-se onde estão a ser criados os novos empregos entre o 2º trimestre de 2013 e o 3º trimestre de 2014 (dados coligidos pelo INE, já revistos em 2014):

Por outro lado, quando se analisa as variações homólogas, verifica-se a recuperação dos "velhos" sectores, até dos ligados à construção e dos serviços com ele relacionados.

Estamos a voltar ao "velho" modelo "gerador de desemprego" porque a questão de fundo - a cambial - ainda não foi tratada como deve ser e tem sido omitida sistematicamente.

14 comentários:

Daniel Fins Santana disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Daniel Fins Santana disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anónimo disse...

O PCP já falou várias vezes da questão cambial.

São partidos como o PSD, CDS e o PS que ignoram o elefante na sala.

Que é impossível que a economia tenha taxas de crescimento aceitáveis (4%/5%) dentro da zona euro e sem uma política cambial adequada às nossas necessidades e objectivos.

Unabomber disse...

Para o anónimo das 18:57:

Quantos países europeus fora da zona euro tiveram taxas de crescimento médio de 4%/5% no período de 2008 a 2014?

Porque será que 1978 e 1983, ainda na época do escudo, Portugal teve que recorrer ao FMI?

Jose disse...

O fim do paradigma da construção civil de obra nova é já uma mudança estrutural de vulto.
Se a essa mudança se acrescer uma prolongada estadia em Évora do empreiteiro-mor, direi que está consolidada.

Anónimo disse...

O empreiteiro-mor não está em Évora José. Mora em Belém. Ah, espera, parece que também tem casa na Urbanização da Coelha, Apartado BPN

Anónimo disse...

O empreiteiro-mor está em Belém quando não está escondido no Portugal profundo.

Mas quanto a tal personagem medíocre, sem carácter e sem princípio , parece que há alguns que lhe nutrem uma comovedora ternura, perfeitamente consolidada em animadas conversas de sofá com o dito. Apologistas da sua obra na destruição dos alicerces económicos do país e na subserviência nauseabunda aos credores e aos agiotas.

Pois é. O empreiteiro-mor ( a quem jose andou a fazer campanha para a eleição do traste), em visita a um país árabe, falou em “cavalos, mulheres bonitas, até aviões” na longa lista de “bens transaccionáveis” ainda disponíveis em Portugal.

O personagem bem tentou chegado a Portugal desmentir o que disse e desmentir "o jornalista da SIC que relatou a sua incontinência verbal nas arábias, onde – à mesa lauta de nababos de turbante - se lambuzou deleitada e ignobilmente a desfeitear as irmãs, as mães e as filhas de todos os portugueses".
Aqui:
http://ositiodosdesenhos.blogspot.pt/2014/12/o-gesto-e-tudo.html#links

De

Jose disse...

Confrangedor bate-boca que DE transforma em comentário.
...as mães e as filhas...!

Anónimo disse...

De repente desaparece a ode em torno do detido de Évora para se registar a confrangedora sintonia do jose com o idiota das arábias.

Até onde vai a fidelidade ideológica?

Fernando Assis Pacheco, via Fernando Campos, dá a resposta adequada ao das arábias...para desfalecimento de uns tantos , entrincheirados nas afirmações machistas,misginas, idiotas, ofensivas e sebentas do ídolo do jose´

De

Anónimo disse...

Portugal recorreu ao FMI em 1978 e 1983 devido a uma política cambial que sobrevalorizava o escudo o que contribuiu para a fuga de divisas. Veio o FMI, emprestou-nos o dinheiro, desvalorizá-mos a moeda e em pouco tempo voltámos a crescer a taxas elevadas.

Quanto aos países europeus, é curioso verificar que os país fora da zona euro registaram taxas de crescimento significativamente superiores às taxas de crescimento dos países da zona euro.

Para estimular o crescimento, é preciso estabelecer uma política monetária cujo objectivo seja o crescimento real do PIB e não a inflação.

Se o crescimento está abaixo da meta desce-se as taxas de juro, se está acima sobe-se as taxas de juro. Assim é possível manipular o valor da moeda, incluindo através da venda de escudos e compra de dólares, pesetas, francos, marcos, etc...

Unabomber disse...

Para o anónimo das 20:29 do dia 02:
a) O amigo anónimo não conseguiu indicar um país fora do euro com uma taxa de crescimento média de 4%/5% no periodo de 2008/2014;
b) Nem todos tiveram taxas de crescimento "significativamente"(!) superiores: ex: Croácia;
c) A libra (GB) desvalorizou "significativamente" em relação ao euro: apesar disso a Inglaterra tem um défice na balança corrente muito significativo - superior ao da França;
d)Depois da desvalorização a seguir à intervenção do FMI em 1978 voltamos a crescer assim tanto? passados 5 anos, em 1983, tivemos de recorrer novamente ao FMI.
e)Se a desvalorização da moeda fosse a solução para todos os males então o Zimbabwue seria um país rico - assim como, as desvalorizações das moedas na década de 80 teriam tornado ricos vários países da América do Sul.

Anónimo disse...

As saudades pelo FMI e a fé ideológica no euro atingem patamares comovedores.

De

Anónimo disse...

Caro Unabomber,

Rússia, Bielorússia, etc...


Não o quero maçar mais mas estes são países com taxas de crescimento médias superiores a 4%.

Efectivamente a Inglaterra ainda não conseguiu resolver os desiquilíbrios externos mas isso deve-se à necessidade uma depreciação adicional da moeda que aliás agora tem recuperado valor.

A questão de 1983 aconteceu porque o governo do PSD foi irresponsável e deixou o câmbio apreciar outra vez.

Quanto à questão da desvalorização, devia ter em conta que no caso do países da américa latina o problema deveu-se à dívida excessiva que foi causada pelo endividamento nos mercados internacionais. Mais uma consequência da liberalização financeira. Portanto, ao contrário do que diz, efectivamente uma taxa de câmbio subvalorizada conduz a um maior crescimento económico. Aliás, isso comprova-se facilmente. Basta ver o caso da China. Mas isto não é nada de extraordinário mas sim o que vem nos livros de economia monetária. E o exemplo do Zimbabwe não tem relevância já que se a moeda desvaloriza 1000% mas os preços aumentam 1001% não há aumento de competitividade. Ou seja, o exemplo do Zimbabwe só seria relevante se fosse possível verificar a existência de uma taxa de câmbio subvalorizada o que não era o caso. Aliás, é importante distinguir a desvalorização cambial do financiamento de elevados défices fiscais com recurso ao banco central. São coisas completamente diferentes.

http://mpra.ub.uni-muenchen.de/32710/




Anónimo disse...

Só para completar, entre 2003 e 2013 que países apresentaram taxas médias de crescimento anual do PIB superiores a 4%.

A lista pode não ser exaustiva mas penso que ilustra o ponto.

Albânia, Arménia, Bielorússia, Geórgia, Lituânia, Moldávia, Polónia, Rússia e Eslováquia.

A Eslováquia entrou no euro em 2009 portanto parte do crescimento é pré-euro. O crescimento pós-euro tem sido bastante mais baixo.

O resto desses países não faz parte do Euro.