terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Que seja o maior partido

Também tiro lições a título pessoal. Toda a minha vida adulta andei a ler Hayek, Friedman, a escola de Chicago, o liberalismo político clássico. E depois da crise internacional, mas sobretudo neste mês muito intenso na comissão do GES, tudo isso abalou de uma forma muito profunda as convicções que eu tinha sobre o liberalismo (...) Eu, neste momento, estou com mais do que suspeitas, com a convicção, de que a lógica do liberalismo económico tem uma contradição insanável com a natureza humana. O agente económico deve ter regras fortes e devem existir instituições que forcem a sua aplicação. Caso contrário, a ganância, a prevaricação, o instinto de fuga às regras (…) Se nós olharmos para o que aconteceu em 2007 nos EUA e aqui, houve uma margem de liberdade dada aos agentes económicos, sobretudo financeiros, que pura e simplesmente eles não mereciam. Não estavam à sua altura. Por isso vou fazer-vos uma revelação: eu já não sou liberal. Não chego ao ponto de dizer, como João Galamba, que quero o controlo público da banca… (...) O Estado tem de ter força. Se o Estado não tiver força, é da natureza humana que surjam pessoas que vão prevaricar, vão iludir, vão enganar, vão dissimular, vão martelar contas e isto é mesmo assim. Temos de criar um sistema que torne estas derivas mais raras e pontuais. Por isso é que as minhas convicções liberais estão a desaparecer. E sou contrário a todas as práticas de ocultação. 

Excertos da entrevista do Público do passado Domingo a Carlos Abreu Amorim, um “ex-liberal” (este ainda há-de ser o maior partido, ultrapassando o dos ex-comunistas, espero). Já em 2008 aqui tínhamos notado elementos de dissensão. Num país politica e intelectualmente dominado pelo “liberalismo”, ou seja, pelo neoliberalismo que não é um slogan, é sempre reconfortante ver movimentos em contracorrente. Na história das ideias, é sabido que a dúvida instala-se, entre outras, sempre que os liberais decidem ver como é que funciona o capitalismo realmente existente, sobretudo o que não tem freios e contrapesos significativos da base ao topo. A comissão de inquérito ao BES tem tido, entre outros, o mérito de nos mostrar exemplos do que o José Maria Castro Caldas aqui já chamou de psicopatologia das organizações.

Gostaria de deixar duas ou três notas adicionais, não necessariamente discordantes, sobre as razões de Abreu Amorim, começando pela questão da “natureza humana”. Diria apenas que está na nossa natureza sermos produto das instituições, ou seja, muito do que somos depende da natureza das instituições em que interagimos. O problema é que os chamados instintos predador têm ganho demasiado espaço, têm-se tornado habituais neste capitalismo, enquanto que as disposições cooperativas têm sido aí atrofiadas. O problema é institucional, e logo ético-político, portanto. Os mecanismos são mais do que muitos: da concorrência excessiva em demasiados sectores, o que faz com que possa valer tudo, às desigualdades excessivas, também resultado de cada vez mais situações em que os ganhadores levam tudo. Multiplicam-se as situações que corroem o carácter.

De resto, não se trata tanto de o Estado ter desaparecido, já que o Estado é indispensável no neoliberalismo, ou em qualquer outra fase/modelo de capitalismo, mas sim da sua autoridade ter sido colocada ao serviço das forças capitalistas mais predadoras, em especial financeiras, e deslocada para instituições supranacionais sem escrutínio democrático, como o banco central que está em Frankfurt. Hoje, as regras do jogo que sempre estruturam os mercados são demasiado favoráveis à redistribuição de recursos de baixo para cima. Temos então de reinstituir a autoridade do Estado nacional, a autoridade do Estado democrático, do Estado ao serviço da criação de freios e contrapesos, incluindo controlos de capitais, que facilitem a redistribuição de recursos, em sentido amplo, incluindo poder, de cima para baixo. São poucos ainda, da esquerda à direita, os que apostam neste projecto. São poucos ainda os que dão visibilidade e lutam por dar espaço institucional às nossas melhores disposições cooperativas, permitindo o seu florescimento.

2 comentários:

D., H disse...

Tomámos boa nota!
Obviamente que hoje não é tempo de prescindir do Estado.
“Temos então de reinstituir a autoridade do Estado nacional, a autoridade do Estado democrático, do Estado ao serviço da criação de freios e contrapesos, incluindo controlos de capitais…”

Unknown disse...

O problema da "natureza humana" é quando o individualismo se sobrepõe à solidariedade.