domingo, 30 de novembro de 2014

E agora?


Agora há um vazio. Partidos políticos que estão no lugar que há muito ocupam embora tenham perdido a confiança de grande parte dos seus apoiantes. Um governo que está a usar a proteção da União Europeia e das suas troikas para transformar a sociedade portuguesa em benefício de uma ínfima minoria.

Agora há uma maioria no poder que nas próximas eleições deverá ser afastada, mas nada de sólido e confiável para a substituir.

Agora queremos diferentes coisas. Coisas contraditórias. Segurança, por um lado. Mudança, por outro. Não queremos correr riscos. Queremos corrê-los para que tudo não fique na mesma. Sabemos que a política não é pêra doce, nem nada que seja sempre bonito de se ver. Não queremos meter-nos na política. Queremos meter-nos porque se não haverá outros (eventualmente os menos recomendáveis) que o farão por nós. Sabemos que a política nesta União Europeia deixou de ser a arte do possível. Sabemos que se não houver quem queira arriscar o (quase) impossível, outros continuarão a fazer o que dizem ser a única possibilidade.

Agora há um vazio político que começa a preencher-se. Vemos nascer novos movimentos políticos, partidos, candidaturas, muitos deles exprimindo sincera vontade de mudança. Vemos gente que se mobiliza e organiza. Alguns trazem consigo experiências anteriores. Outros chegam agora. Concordam, discordam, discutem, unem-se, dividem-se, aprendem. Não são super-homens, nem super-mulheres com estômago para tudo. São frágeis como é normal. Ainda bem que assim é. Talvez haja lugar para muito mais gente nessa política de gente frágil. Dessa forma não ficamos dependentes de heróis com estômago de aço.

20 comentários:

Anónimo disse...

Este nós é um pouco obscuro. Mas o texto talvez reflita bem o estado de alma de alguns apoiantes do consórcio da Associação Manifesto com o Livre. Esse sim, é o lugar de todas as contradições. Das quais a menor não será entre os que querem romper com o euro e a integração neoliberal europeia e os que querem permanecer nele e alimentar a ficção do europeísmo de esquerda, essa impossibilidade intrínseca da atual construção europeia. Ou dos que querem romper com a política de direita e dos que se prestam a continuá-la no fundamental sob outro rótulo: PS em vez de PSD-CDS, ou seja, a política da troika sem PSD-CDS no governo em vez da política da troika sem PS no governo.

Fernando Barros disse...

E agora?
Resta à esquerda consequente não ter medo de errar; ousar aliar sonho e pragmatismo. Não ser só uma esquerda de ideias mas de realizações, mesmo correndo o risco de lhe dizerem que falhou.
Vejo homens, neste blogue, de quem gosto, com quem estou de acordo. Só falta que eles se decidam a meter as mãos na política (boa e má). As grandes equipas por vezes têm de jogar mau futebol para vencerem. Não quero puristas.

Jose disse...

«São frágeis como é normal. Ainda bem que assim é.»
Antes de falar de política, fiquemo-nos por este interlúdio sentimental, neste dia em que ouvimos um ardente sermão que nos promete o paraíso se pusermos a confiança no senhor.

Rui tojal disse...

O vosso tecxto tem o condão de fazer duma forma simples o diagnóstico da situação sociológico-partidária do país. Aprecio a simplicidade.

Mas terminam com um elogio à fragilidade das novas iniciativas partidárias que se desnultiplicam, usando algo como "ainda bem que não são homens de aço".

Este culto um tanto poético da incipiência e que "não está com nada" - apetece-me dizer, já que escrevo a partir do Brasil (embora faça questão de usar normalmente o nosso Português daí, até ver...).

Isso é como perceber-se que tem que se construir um novo edifício em troca do anterior que ameaça ruína, e só porque os engenheiros (falsos e verdadeiros) que geriram o anterior edificio o geriram de forma desastrosa, proclamar: "ainda bem que os tipos que aogra vão fazer o novo projecto não percebem grande coisa de construções".

Enfim, o velho lirismo de quem tem ilusões no sistema porque está demasiado habituado ou de alguma forma instalado nele. Ou, como diria um marxista: ilusões pequeno-burguesas.

Por outras palavras: é bom que sejamos água. Devemos sê-lo, dede que não estagnemos. Mas o movimento da água tem que ser simultaneamente natural e inteligente. Porque mesmo sendo água, nunca seremos totalmente água.

Daniel Fins Santana disse...
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Daniel Fins Santana disse...
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Daniel Fins Santana disse...
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Tristan Mudanza disse...

J.M.Castro Caldas tem o mérito de dar nomes a algumas tensões que atravessam o momento: a tensão entre "Segurança" e "Mudança", entre a "arte do possível" e a pulsão para "arriscar o (quase) impossível"; entre a tentação de passar à ação política (sabendo que não se sai daí impoluto) e o desejo de se manter afastado dela para não sujar as mãos. As únicas políticas que não sujam as mãos são as políticas utópicas. Mas estas políticas - que pregam o Céu aberto na Terra - fazem lembrar o amor platónico em que o Outro nunca nos desilude. Só que, ser sempre platónico também cansa - é isso que explica Aristóteles.

José M. Sousa disse...

Muito bem! Talvez me junte a gente assim...

Rui Moreira disse...

Esta UE é um cadáver em putrefação. É necessário que os povos comecem a mostrar o seu repúdio pelo estado a que ela chegou. É necessário enterrar esse cadáver, começando pelo euro, para que não continue a propagar "moléstias" por todo o lado como o está a fazer. O nosso país será uma das vítimas mortais se nada fizermos. Talvez sobre os escombros desta UE se torne possível reconstruir outra. Outra que não se deixe capturar por uma ideologia neoliberal, ou plutocrático/crematística, como a CEE foi permitindo, e que se tornou mais evidente com o Tratado de Maastricht, que criou a UE e traçou a rota para o euro.
Para que se altere a dinâmica deste processo complexo em que o nosso país está mergulhado, é necessário que apareçam movimentos que se reivindiquem de um socialismo democrático, mas que defendam a nossa saída do euro sem tibiezas. Têm de se apresentar a eleições com um programa de restauração da soberania do nosso país, cujo principal ponto tem de ser a restauração da nossa soberania financeira. O projecto político expresso no Manifesto por uma DEMOCRACIA SOLIDÁRIA é o que, para os que não pertencem ao PCP como eu, mais estruturado se apresenta. Claro que temos de vencer os "velhos do Restelo" que nos tentam amedrontar com a encapelada navegação que teremos de enfrentar. O processo é complexo e difícil, mas não existem saídas fáceis para a situação em que nos colocámos. A saída do euro tem de ser evidentemente preparada, mas tem de ser realizada o mais rapidamente possível, porque só assim o nosso país terá a possibilidade de se desenvolver, sem a grilheta que nos prende o andar que o euro é.
O dia 1 de Dezembro é uma data simbólica para que um projecto destes se dê a conhecer.
Rui Moreira

Jose disse...

Politicamente falando, essa esquerda da Bastilha com seus serões e marchinhas comemorativos de quanta utopia ou mal-entendido se reclamou da igualdade e da fraternidade, merece-me a compreensão que reservo às Filhas de Maria.

Anónimo disse...

Mas ainda há saudosistas dos tempos decadentes do absolutismo monárquico que ainda salivem quando perante a Bastilha e o profundo significado da sua queda?

Nem o recurso assaz interessante ás filhas de Maria pode esconder o tenebroso apelo ao darwinismo social, questionando coisas tão simples como a igualdade e a fraternidade.

Como se sabe a defesa da igualdade de condição e de oportunidade entre os homens sempre causou raiva entre os neoliberais .Alguns perfilham abertamente teorias eugénicas. Outros perfilam-se na saudação laudatória de quem pregava o ódio à Revolução Francesa, como salazar e a canalha que o rodeava.

Muito interessante a fuga agora em direcção à Maria

De

Daniel Fins Santana disse...

De acordo com quase tudo José, sobretudo o não haver super homens (os que chamo demiurgos).Por análise, ou melhor observação empírica, verificamos que onde os super homens menos se sentem à vontade é a democracia, por isso esta tem que ser o "lugar onde" temos que nos colocar. E temos que ter plena consciência que se o que aí vem não é sólido e nem sequer confiável, uma parte não irrisória dessa responsabilidade reside na proverbial demissão "embalsamada e superior" dos intelectuais. também nós contribuímos para que não "seja pêra doce" e "ainda menos bonita de se ver".É evidente que a UE deixou de ser "a arte do possível" (penso esta seja a questão fulcral), por isso há que pugnar pela "arte do possível" e esta só se explica no "lugar onde". Mas aqui também nós entramos ... quantas vezes nos ocupámos da UE, tendo a consciência que nela podemos incidir? Temos que com teimosa obstinação elogiar a arte do possível (como momento revolucionário, que de facto é) e com constância proclamar "como património inquestionável" a democracia... já não me pareceria nada pouco ...

Jose disse...

Sabias DE que a queda da Bastilha libertou um único preso político?
Era o senhor Marquês de Sade!
Quanto à igualdade e fraternudade ninguém a sente mais sentidamente que as Filhas de Maria, para que saibas.
Mas sendo gente inspirada, tem a inteligência de só dar isso por garantido num outro mundo.

Anónimo disse...

(Quando jose aprende que a intimidade suspeita que de quando em quando arvora é despropositada e um tanto tonta?)

Indo à substância do assunto.O ódio à Revolução Francesa vai ao ponto de repetir o anunciado nos blogs mais rascas em relação à libertação do único "preso político" da prisão da Bastilha?
O que como se sabe é falso. A denominação de "preso político" é algo que não cabe na libertação dos presos da Bastilha nessa data histórica. Nem o era para designar sade, nem a ignorância quanto ao sistema judicial absolutista pode justificar tais disparates. Talvez um pouco mais de cultura e um pouco mais de leitura ( por exemplo Victor Hugo) permita perceber um pouco mais do que se passou

O clero e a nobreza colocados em cheque.Pela primeira vez as classes populares a assumirem o seu destino
Eis o motivo da distorção histórica dos factos? Atrás do marquês de sade?
Que tristeza, que nem a missa beata às filhas de Maria atenua

De

Daniel Fins Santana disse...

Gosto

Jose disse...

A Revolução Francesa e as «as classes populares a assumirem o seu destino» de assolarem a Europa em roubos e violações sem fim...

Anónimo disse...

Há algo de pré-histórico em quem evidência tanto ódio à Revolução Francesa, esta que abriu as portas à mossa contemporaneidade.

Nem a ignorância histórica permite dizer tais disparates.

Os roubos e as violações eram o quotidiano das sociedades nas monarquias absolutas. Os roubos e violações que deixavam de o ser quando estavam envolvidos o clero e a nobreza.

Claro que nessa altura as estatísticas (que não existiam )desapareciam.

Mas o gosto pelas sociedades medievas e esclavagistas diz tanto de tais amantes que se torna desnecessário continuar o debate.
O direito de pernada sempre foi o sonho húmido das classes dominantes. Veja-se que até exultam com as palavras de cavaco a tentar vender as mulheres portuguesas para os árabes amigos ( de atacado, junto com a TAP)

Entretanto não se percebe que jose ainda não tenha pedido desculpa pelo disparate (ideológico e propositado?) acerca de sade e da tomada da Bastilha .
Distraído provavelmente a pugnar pelos torquemadas e pela inquisição?

De

Jose disse...

DE, bate à porta da vizinha e tem um bom serão de má-língua.

Anónimo disse...

Ou por outras palavras. Sai aí uma vizinha para "esquecer" os disparates sobre Sade e a Bastilha.

A repugnância pela Revolução Francesa, essa já é intrínseca.Ou o gosto sentido pelos tempos pré-Revolução.

De