quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Tempo de viragem


Portugal enfrenta uma grave conjuntura política que é parte da crise global em que nos encontramos. Em poucos dias, vários altos quadros da administração pública, assim como um ex-primeiro-ministro e pessoas que lhe são próximas, foram detidos e constituídos arguidos de crimes de corrupção e(ou) fuga aos impostos e lavagem de dinheiro. Acresce a escandalosa violação do segredo de justiça, que tem sido explorada pela comunicação social para melhorar o negócio. Isto pouco depois da constituição como arguido do presidente do BES, aquele que passava por ser o "dono disto tudo". Por estes dias, os portugueses tomaram consciência de que o crime de colarinho branco pode ter chegado ao mais alto nível do Estado, em articulação com o sistema financeiro. Agravando a situação, temos o novo líder do PS atingido pelo clima de suspeição associado a José Sócrates, seu apoiante de primeira linha, a que se juntam os fumos de corrupção há muito também perceptíveis no campo político do actual governo. Está em causa a saúde da nossa democracia.

Esta crise da política portuguesa emerge das relações promíscuas entre partidos, Estado e sistema económico financeirizado. Ao contrário do que os neoliberais querem fazer crer, não se trata apenas de delitos criminais e de falhas de regulação a resolver com melhor legislação. É o sistema neoliberal que funciona assim, e hoje só pode funcionar assim. Em Portugal, as políticas agressivamente promovidas por ideias e interesses ligados à finança, não só produziram um enorme desastre social, económico e financeiro como agravaram os problemas estruturais do país. Além do ataque imoral aos rendimentos de funcionários públicos e pensionistas, além da degradação criminosa do Serviço Nacional de Saúde e da escola pública, o neoliberalismo tem destroçado as vidas de centenas de milhares de desempregados, empobrecido a classe média, feito emigrar os seus jovens, delapidado o investimento feito em ciência, congelado o investimento público e privado e desprezado a cultura. O neoliberalismo inscrito nos tratados da UE é uma armadilha mortal para o país, mas os partidos do arco da (des)governação são parte integrante dessa mesma armadilha.

A saída deste desastre não será conduzida por estes partidos, nem pelas elites que prometeram o desenvolvimento do país com a sua participação no "pelotão da frente" da UE. Venderam tranquilamente a nossa soberania a troco de "fundos estruturais", disfarçando o negócio com a retórica da "soberania partilhada" e da Europa "social". Na verdade, foram responsáveis pela desindustrialização do país, o subdesenvolvimento da agricultura, das florestas e das pescas, assim como da desertificação do Interior. O dinheiro fácil comprou a sua submissão à globalização sem freios, facilitou o investimento público sem critério, financiou a especulação imobiliária, deixou em roda livre o sistema financeiro e conduziu o país a um dramático endividamento externo. Os partidos que governaram o país foram, no mínimo, cúmplices do saque dos recursos do Estado. Toleraram a criminalidade económica e fecharam os olhos à pequena e grande corrupção, dentro e fora dos partidos, nas autarquias e no poder central. Pior, contribuíram para a desmoralização geral porque garantem aos cidadãos que, qualquer que seja o partido eleito, no essencial a política será a mesma.

Estes partidos decepcionaram o povo e degradaram a nossa democracia. Portugal precisa de uma proposta inovadora e de novos protagonistas dispostos a recuperar o sentido de serviço público na acção política. Uma proposta que formule um novo horizonte para Portugal: um país soberano, aberto ao mundo, exigente na sua democracia, profundamente solidário, respeitador do ambiente natural, preocupado com a qualidade de vida dos seus cidadãos.

O povo português não se dá por vencido e não baixará os braços enquanto não recuperar o controlo do seu destino. Portugal precisa de uma alternativa, não apenas de alternância. Vivemos um tempo de viragem.

(O meu artigo no jornal i)

7 comentários:

Anónimo disse...

Plenamente de acordo.
E agora o que fazemos?
Uma nova revolução/golpe de estado (dos "guarda-chuva", "primavera lusa", "cravos-patuleia",...?)?
Criamos um partido novo (+1)?, radical? ou aderimos ao "Podemos+Syriza+..." Português e Europeu?
Pressionamos para uma coligação (de partidos de esquerda, ou de centro esquerda?)?
Fazemos uma revolução interna em cada partido, assaltando o poder/direcção e mudando as práticas e políticas e os militantes com "telhados de vidro"?
Fazemos uma grande marcha, ocupação e manifestação (na rua/praça, na internet, ...)?
Despoletamos a "guerra civil" (e internacionalizamos o conflito, pedindo o apoio de forças similares dos países periféricos da U.E.)?
...
Ressalva: sou contra "intrusões fora da U.E." ou apropriações religiosas.
Zé T.

D., H disse...


“Vivemos um tempo de viragem”

Oxalá! O bloco central (será que ainda haverá razão para tal denominação?) vai querer resistir contra tudo e contra todos, nem que seja necessário ir para além da aliança tácita. São os seus interesses e os de quem defendem, que estão em jogo.

Jose disse...

«Portugal: um país soberano, aberto ao mundo».
Antevejo que a abertura se fará para um mundo deserto de investidores e financiadores e onde credores enraivecidos se dedicam a apreender o que saia a porta.
Mas estou certo que a nova moeda vai cumprir a Constituição e todos os deveres e garantias do Estado, assim não falte o papel e a tinta.

Anónimo disse...

Uma ressalva.
Os "altos quadros da administração pública" não se enquadram no conceito até há pouco tempo de Funcionário Público.
São de facto os príncipes dos boys, escolhidos para os seus lugares por critérios de confiança política ou outros mais sórdidos.
Fazem parte do clã operacional.De topo.Governamental.E como tal devem ser considerados

Uma nota:
Os defensores da via de sentido único e entediantes repetidores ad nauseam das virtudes da submissão aos agiotas e aos credores repetem as hossanas da ordem aos investidores e financiadores".

Mas não deixa de ser cómico a tentativa de agitar o papão dos "credores enraivecidos que se dedicam a apreender o que saia a porta".

Não se sabe se também contribui o entusiasmo militante pela traição da soberania nacional empunhando outra bandeira de inevitabilidade, agora travestida de ameaça patente e patética.

(No post nem se falava nem da "nova moeda" nem da "Constituição"

Que respostas tinha Pavlov para tal tipo de respostas?)

De

Unknown disse...

"Antevejo que a abertura se fará para um mundo deserto de investidores e financiadores"

Ainda bem que o investimento estrangeiro é sempre a solução para tudo.

Jose disse...

«O estado de negação é uma condição psicótica que requer tratamento específico.
Os delírios que lhe estão associados não raro produzem textos de uma racionalidade aparente tendente a prolongar um tal estado.
Com o agravamento da condição psicótica é comum uma crescente irracionalidade associada a delírios mais frequentes.»

Anónimo disse...

Acho curioso que se recorra a um manual qualquer de psiquiatria, não citado (as pequenas pusilanimidades têm destas coisas) para se fugir do que se debate ou para escurecer o que se disse.

Ao menos não foi citada nem a Constituição nem a moeda nova, o que demonstra que a confabulação muda de conteúdo de acordo com o texto.

Nada disto é correcto de facto.

O tempo de viragem ter-se-á que fazer contra os discursos bolorentos e ideologicamente comprometidos que falam em investidores e financiadores da pátria, enquanto paralelamente se defende a submissão passiva e a traição a essa mesma pátria às mãos dos credores muito zangados que vão apreender tudo que saia à porta.

De