quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Conversar e desconversar

A recente polémica em torno da censura do número da Análise Social pelo director do Instituto de Ciências Sociais é um bom retrato de uma certa academia em tempos de crise. O caso é claro, o proprietário da revista decidiu passar por cima do seu director e do conselho editorial e anular a publicação da revista em causa por causa de uma foto, parte de um ensaio visual, onde figurava a palavra “caralho”, mais concretamente “sacrifícios, o caralho” com nomes como Ricardo Salgado ou Soares dos Santos a acompanhar o graffiti. Não vou discutir o bom gosto, embora o gosto se discuta, claro (nos órgãos próprios, neste caso o conselho editorial). O que interessa aqui é, de facto, a ilegitimidade do proprietário da revista (e não da sua direcção) em cancelar o número, no que é claramente um acto de censura. Se alguém se serve da sua posição de poder, a propriedade, para ultrapassar quem de direito decide sobre os conteúdos de uma publicação, então parece-me clara a censura e claro o ataque a instituições de ciência consagradas.

O justificado escândalo ficaria por aqui não fosse a defesa montada pelo director do ICS e seus acompanhantes ter começado a desconversar, uma técnica conhecida. E aqui as coisas começaram a ficar mais interessantes. Primeiro, o comunicado do director do ICS assinala que o tal ensaio visual não tinha passado pelo habitual processo de revisão pelos pares das publicações científicas. Uma argumentação recuperada pela investigadora do ICS, Marina Costa Lobo no Facebook. Mas, então e os anteriores ensaios visuais publicados na Análise Social sem revisão pelos pares, o que aliás está previsto que aconteça? Os anteriores números também devem ser destruídos? E se no processo de revisão pelos pares o tal “caralho” tivesse passado (como na verdade passou na legitima decisão do director e do conselho editorial da revista)? Já não havia problema? Pois. Argumento fraquinho.

Mas eis que senão temos um novo argumento, desta vez do investigador do ICS, Pedro Lains, em post no seu blogue. Diz Pedro Lains que a direcção cessante da Análise Social tinha “uma agenda”. Confesso que a minha primeira reacção foi esperar bem que sim! Convém à direcção de uma publicação ter uma agenda científica para esta. Mas acho que não era a isso que Pedro Lains se referia. Marina Costa Lobo pode ajudar a perceber que agenda é esta: “desde a sua fundação [da revista] foi feito um árduo caminho com sucesso: o de separar investigação científica da política activa”. Ah, então a agenda é a da política activa que a publicação de fotos de graffiti supostamente consubstancia e que aparentemente o processo de revisão de pares anula. Enfim, o que começa a parecer mais claro é que o problema com os graffiti não é, nem o “caralho”, nem a ausência de revisão de pares. O enredo torna-se mais tortuoso.

E aqui, voltamos a Pedro Lains e a uma consideração final no seu texto sobre a relação entre o ICS e uma fundação: “Falta uma coisa. Qualquer fundação que ande por esse país e que não seja uma das consagradas depende mais do Instituto que publica a Análise Social do que o mesmo Instituto depende de qualquer uma dessas fundações. Certo, sabido, e facilmente reconhecido.” Como o graffiti tinha o nome de Soares dos Santos e sabendo do envolvimento de vários investigadores do ICS com a fundação do pingo doce, previsto aliás num protocolo entre as duas instituições, que deve ser lido, dados os seus termos, vou, perdoem-me a liberdade, considerar que, se calhar, o problema não é o “caralho”, nem a revisão pelos pares, nem a “política activa”, mas sim chatear quem não se deve. Diz Pedro Lains algures no seu texto “Portugal é livre, em todo o lado.” Aqui estão uma posição e uma agenda políticas que merecem o mais atento escrutínio científico…

8 comentários:

Anónimo disse...

Clap! Clap! Clap!

De

Victor Ruivo disse...

Fracote ! Costuma fazer melhor :-)

Victor Ruivo disse...

:-(

Anónimo disse...

Grande imaginação isso dava um filme, mas não no film festival no ESTORIL que é promovido no maoir antro de corrupção e traficancia de influências do país, o Casino Estoril que destruiu centenas de pessoas no despedimento coletivo para agradar aos familiares e amigos.

ISTO É CASO DE POLICIA!!!!!!!!

Daniel Ferreira disse...

epah, isto é procurar uma teoria da consipiração onde não existe! Uma agenda política, para não "incomodar" certos interesses, por causa de um ensaio com uma foto de uma mensagem à vista em todas as esquinas?!

Ricardo Noronha disse...

Vale a pena assinalar que a Análise Social sempre esteve saturada de política. Neste artigo (http://analisesocial.ics.ul.pt/documentos/1223054569H1eEZ2lh9Uf93ST5.pdf), por exemplo, Braga de Macedo, Ministro das Finanças, explica quão boa é a política levada a cabo por Braga de Macedo, Ministro das Finanças. Mas é tão fácil chamar 'científicos' aos argumentos que nos agradam e 'políticos' aos que nos desagradam que isso parece não ter a mínima importância.

Anónimo disse...

"Uma agenda política, para não "incomodar" certos interesses, por causa de um ensaio com uma foto de uma mensagem à vista em todas as esquinas?"

O problema é mesmo esse. O chamar o nome aos bois incomoda os "bois" e os que andam no mesmo prado que estes.

A mensagem vista em todas as esquinas é susceptível de ser perseguida e punida. E é uma mensagem tida como marginal pelos referidos "bois" e seus compagnons.

O mesmo já não se passa nos meios ditos académicos, onde a voz contestatária deve ser dominada, manietada e calada.

Que diabo as elites precisam de se resguardar destas inquietudes. E a transmissão da ideologia dominante não pode ser conspurcada por estas "coisas"que podem fazer despertar outras "coisas".

Perigosas

De

António Geraldo Dias disse...

O regresso da censura mais descarada a atingir o "centro"do serviço de informação científica a tentativa de controlo da produção de saber numa área da produção científica submetida ao avanço avassalador da mercadoria e instrumento dócil de "militarização social"a disciplina assegurada por serviçais -gente que faz aquilo para que lhes pagam como eles próprios gostam de dizer-compradores e mercenários ao serviço da desordem numa formação social periférica devassada pela maneira capitalista de pensar.