sexta-feira, 12 de maio de 2023
Lisboa: novas procuras de habitação e recomposição social urbana
Indissociáveis do despertar de interesse internacional por Lisboa - não só em termos de procura turística, mas também ao nível das novas formas de procura de imobiliário residencial, a par do impulso na atração de mão-de-obra que a própria intensificação do turismo suscitou - estas transformações não assumem, contudo, uma expressão uniforme na cidade, antes evidenciando padrões específicos de recomposição socioespacial.
Em termos gerais, e excetuando as freguesias da Misericórdia e Santa Maria Maior, que assumem comparativamente as maiores perdas de população residente (entre -5 e -10%), as variações tendem a ser ligeiras, tanto na perspetiva da redução como do aumento (oscilando entre -5 e 5%). Mas quando consideramos apenas os residentes nacionais, o acréscimo de população circunscreve-se a seis freguesias (sendo sempre inferior a 5%), prevalecendo portanto as perdas, que chegam a ser superiores a 30%, como sucede nos casos da Misericórdia e Santa Maria Maior.
Já relativamente à população residente de nacionalidade estrangeira, constata-se desde logo que nenhuma das 24 freguesias de Lisboa revela perdas, registando-se os aumentos mais expressivos (acima de 50%) em freguesias do centro e próximas do rio, incluindo o Parque das Nações e Olivais que, juntamente com as freguesias da Estrela, Campo de Ourique, São Vicente e Avenidas Novas, registam aumentos de população estrangeira residente iguais ou superiores a 75%, no período considerado.
No conjunto, é portanto clara a tendência para maiores perdas de população residente nacional nas freguesias do centro, ao mesmo tempo que é nessas áreas, e nas freguesias próximas do rio, que se verificam os maiores acréscimos a população de nacionalidade estrangeira. Dinâmicas que, como é natural, se refletem na alteração dos padrões de acesso à habitação, e portanto à cidade, como se procurará demonstrar num texto seguinte.
quinta-feira, 11 de maio de 2023
No próximo sábado, em Coimbra
«O neoliberalismo: o nome e a coisa, é um curso de formação que se vai realizar na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra no dia 13 de maio, durante todo o dia, das 10h às 18h. Nós pretendemos discutir aquilo que foi e que é o neoliberalismo enquanto processo político de transformação profunda das dinâmicas do capitalismo.Convocámos um conjunto de cientistas sociais que se têm debruçado sobre este tema. E vamos partir da relação entre o neoliberalismo e o liberalismo clássico, mostrando aquilo que é novo e também os elementos de continuidade, com base na hipótese de que o neoliberalismo é um poderoso processo de desencantamento em relação à política democrática, através da construção de uma forma de economia. Uma forma de economia menos igualitária, uma forma de economia menos capaz de gerar outros objetivos sociais.
Através de uma leitura histórica, nacional e internacional, que faremos da parte da manhã, e, à tarde, com um tratamento específico de três grandes temas: a relação do neoliberalismo com o processo de financeirização , de expansão do poder da finança e as suas consequências; a questão da ligação entre o neoliberalismo e o aumento dos direitos patronais e a redução dos direitos laborais; e, também, a relação entre o neoliberalismo e o processo de integração em parte do continente europeu.»
Da apresentação, por João Rodrigues, autor do livro «O Neoliberalismo não é um Slogan», do curso de formação que decorrerá no próximo sábado em Coimbra: «(Neo)liberalismo - o nome a e coisa». Atendendo ao elevado número de inscrições, as sessões decorrerão no Auditório da Faculdade de Economia (e não na Sala Keynes, como inicialmente previsto), havendo ainda vagas disponíveis (email para: abrilagora74@gmail.com).
Um jornal contra a corrosão da política
A generalidade das vozes que se exprimem na comunicação social e no mundo político, com tanta unanimidade que parecem falar a uma só voz, vão gritar que «a vida» (a deles) mostrou o contrário, que há que entregar a privados a linha violeta do metro, que há que subsidiar ainda mais a saúde privada com exames e internamentos encaminhados pelo público, que há que entregar aos privados a propriedade e da gestão pública («opaca», «abandalhada», «nepotista»). Vai ter de se lhes dizer que não, que não é assim. Que ao menos na esfera pública e democrática há mecanismos para exigir transparência, qualidade e ética de serviço público. Só não desistindo da defesa da política, e de uma exigente e plural construção diária de justiça social, poderemos derrotar a profecia auto-realizada da corrosão da democracia.
quarta-feira, 10 de maio de 2023
Infelizmente, ainda não conseguimos livrar-nos do BCE
As famílias portuguesas, espanholas ou finlandesas que se endividaram junto dos bancos e assinaram contratos de crédito indexado a taxas de juro variáveis (euribor) “estão a sofrer” diretamente o impacto das subidas de taxas decididas pelo Banco Central Europeu (BCE), mas “infelizmente, não as podemos aliviar”, disse a presidente do BCE, Christine Lagarde, lê-se no Dinheiro Vivo.
É uma infelicidade, de facto. Mas uma infelicidade evitável.
No final de 2021, a inflação começou a subir, tendência que se reforçou com o início da guerra na Ucrânia, em Fevereiro de 2022. Em resposta, os bancos centrais adotaram uma política monetária fortemente restritiva, aumentando as taxas de juro de perto de zero para cerca de 5% e retirando reservas de circulação através de operações de venda de ativos (obrigações públicas e privadas e ações de empresas privadas) que tinham no seus balanços.
Há muito que contestamos que uma política monetária restritiva possa controlar este surto inflacionário a um preço socialmente aceitável. Um pouco por todo o lado, os salários reais diminuíram. A instabilidade instalou-se no sistema financeiro. O aumento dos preços reflecte claramente o impacto de margens de lucro historicamente elevadas e óbvios estrangulamentos da oferta.
Como se diz aqui, nestas condições, deixar o controlo da inflação aos bancos centrais é como pedir-lhes que resolvam os problemas de oferta gerados por uma má colheita agrícola. Só políticas específicas dirigidas ao aumento da produção e ao controle das margens de lucro em sectores estratégicos, e não o elevar do preço do crédito, podem surtir efeito.
No relatório de 2022 da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (United Nations Conference on Trade and Development, UNCTAD) já se avisava: “As campainhas estão a soar” (...) O mundo está a caminhar para uma recessão global e uma estagnação prolongada, a menos que alteremos rapidamente o actual rumo das políticas de aperto monetário e orçamental nas economias avançadas.”
Agora recentemente, em Abril último, a UNCTAD tornou público um novo relatório; nele pode ler-se:
“[A] incapacidade de distribuir vacinas eficazes a nível mundial prolongou a pandemia, permitindo que alguns dos fatores mais temporários se mantivessem, acabando estes por interagir com um aumento dos preços das matérias-primas, desencadeado em grande medida nos mercados de futuros. Com o início da guerra na Ucrânia, os preços de algumas matérias-primas subiram em flecha, aumentando ainda mais as taxas de inflação, especialmente na União Europeia (...) Em consequência desta miopia política, os preços em alguns sectores-chave com uma incidência direta no custo de vida, como o gás natural, os produtos alimentares e o sector da habitação para arrendamento, continuaram a aumentar, a par de um forte aumento das margens de lucro (...) Nos casos em que existem dados disponíveis, como na União Europeia, no Reino Unido e nos Estados Unidos, há indícios claros de uma contribuição significativa do aumento das margens de lucro para a inflação após a pandemia.”
Em conclusão, o referido relatório continua afirmando agora que “a inflação continua a ser impulsionada pelos preços internacionais dos produtos energéticos e alimentares (...)” e que “os países que passaram por uma rápida liberalização nestes sectores críticos e os que já apresentavam vulnerabilidades financeiras, continuam a ser os mais expostos (...) e que, assim sendo, “[n]estas circunstâncias, a opção dos principais bancos centrais de aumentar rapidamente as taxas de juro não conseguiu combater as principais causas da inflação (...) e que, “[p]or conseguinte, é necessário reconsiderar os instrumentos de política económica para a estabilidade dos preços, mesmo que os preços das matérias-primas comecem a descer”.
Ao contrário do que afirma o alargado, mas errado, consenso entre macroeconomistas neoclássicos e e banqueiros centrais, o tipo de inflação que vivemos não pode ser debelado com políticas monetárias e orçamentais restritivas sem incorrermos num custo social proibitivo. Sem acentuar a desigualdade, sem causar disrupções nos mercados de energia, sem acentuar a instabilidade do sistema financeiro, sem colocar em causa a solvabilidade das famílias, das empresas e dos Estados, sem impossibilitar o investimento necessário ao combate com sucesso das alterações climáticas.
Como afirma Ann Pettifor, a premissa de que não se pode confiar nos políticos democraticamente eleitos para gerir a economia, mas que se pode confiar em burocratas não eleitos e que não têm de prestar contas, não só não foi provada como é manifestamente errada.
Mobilizando Stefan Eich, Petiffor continua: “Muito do que se passa como "despolitização" seria mais correctamente descrito como a desdemocratização da política monetária, que deveria, ela própria, ser sujeita a um escrutínio democrático. (...) as tentativas de "despolitizar" o dinheiro assentam numa contradição performativa - um truque de magia - na medida em que negam que tais apelos sejam, eles próprios, movimentos políticos dentro da política do dinheiro.”
William Mitchell, por outro lado, diz-nos o seguinte: “O público mal sabe que há uma grande experiência global a ser conduzida pelos bancos centrais que nos permite reflectir sobre a veracidade das teorias e abordagens económicas concorrentes e alternativas. Actualmente, a maioria dos bancos centrais está a aumentar as taxas de juro, como reflexo do predomínio da prioridade dada pelos novos keynesianos [neoclássicos] à política monetária como instrumento de política contra-estabilizadora e anti-inflacionista, em detrimento da política orçamental. Mas um banco central não está a seguir o exemplo - o Banco do Japão (BoJ). O BoJ não alterou as taxas, mantém a sua política de controlo da curva de rendimentos e o governo está a expandir a política orçamental. O que está a fazer é diametralmente oposto à abordagem do chamado novo keynesianismo. Dispomos agora de dados suficientes para avaliar os méritos relativos das duas abordagens. O Japão regista uma inflação mais baixa, não há crise cambial e os seus cidadãos estão em melhor situação em resultado da sua política monetária e orçamental”.
O Japão. O incontornável Japão.
Somos assim, novamente, recordados da lição fundamental da economia política: “as leis naturais da economia, que parecem existir em virtude da sua própria eficiência, não são na realidade senão projeções de relações sociais de poder que se apresentam ideologicamente como necessidades técnicas.”
Dubailisboa
Alegrai-vos e ide viver e morrer longe: Lisboa já está mais cara do que o Dubai no segmento de luxo. A bolha do porno-riquismo incha, dadas as desigualdades pornográficas na era do investimento e do consumo conspícuos, promovidos por políticas públicas, incluindo fiscais, determinadas pelo nexo finança-imobiliário-turismo.
É o sonho dos liberais até dizer chega a realizar-se: se o trabalho se tornar ainda mais servil, se a intensificação do neoliberalismo se combinar com crescente autoritarismo ou se houver complexos imobiliários no meio do Tejo, então sim, seremos uma verdadeira distopia das arábias. As alterações climáticas farão o resto.
Os bancos não sabem o que são lucros excessivos?
terça-feira, 9 de maio de 2023
Inflação: como as ideias feitas (e erradas) complicam a vida da Zona Euro
Nos primeiros três meses deste ano, a economia da Zona Euro teve um desempenho mais favorável do que o que estava previsto. Se, em novembro do ano passado, a Comissão Europeia apontava para uma contração do Produto Interno Bruto (PIB) da Zona Euro no último trimestre de 2022 e no primeiro trimestre de 2023, o que se registou foi uma variação nula seguida de um crescimento de 0,1% nestes períodos. Apesar de parecer positivo, o Expresso diz-nos que este desempenho "complica a vida ao BCE", visto que "há um reverso da medalha: a resiliência da economia europeia também pode significar pressões inflacionistas mais persistentes, levando o Banco Central Europeu a subir (ainda) mais os juros".
domingo, 7 de maio de 2023
Este país é para mães?
“Este país não é para mães. Feliz dia a todas as que lutam contra isso”: concordo inteiramente com este diagnóstico de Daniela no mínimo por meia dúzia de razões.
sábado, 6 de maio de 2023
A pobre demagogia da extrema-direita 2
No meu último post, pequei por defeito.
A intenção era criticar a forma lacónica como a extrema-direita (neo)liberal apresenta as suas propostas, escamoteando os seus efeitos e esquivando-se a medi-los. Num curto artigo de jornal, a deputada da Iniciativa Liberal (IL) Carla Castro dá um passo de mágica - como num slogan publicitário - ao defender uma reforma radical nas pensões de velhice, sem mencionar - ou perceber - que a Segurança Social pública seria desnatada, que as pensões de velhice ficariam assentes na fé de que o mercado tudo haveria de prover. Pior: que se trata de o esquema que favoreceria - sem que seja dito! - as grandes entidades patronais e o sector financeiro, desprotegendo os interesses dos mais pobres e dos trabalhadores.
Ora, relendo a proposta de reforma inserta no programa eleitoral de 2022 da IL, estas conclusões ficam muito mais evidentes. E percebe-se as razões por que Pedro Ferraz da Costa tanto gosta da extrema-direita (neo)liberal (ver aqui e aqui)...
O que propõem?
1) Eliminação da componente da Taxa Social Única (TSU) das entidades patronais;
2) Redução da pensão pública;
3) Contribuições obrigatórias e voluntárias dos trabalhadores para o sector financeiro.
Quer saber como tudo tende para acabar mal? Veja a seguir.
sexta-feira, 5 de maio de 2023
Poder capitalista instalado
Politicamente, Pedro Ferraz da Costa deixa as coisas bem claras, em entrevista à TSF:
“A Iniciativa Liberal e o Chega são quem tem, neste momento, alguma
vontade forte de querer mudar coisas”. A encarnação do poder capitalista
instalado, não hesita: Chega e IL “vão ser barrados pelos poderes
instalados”. Diagnósticos ideológicos destes trazem, de certeza,
financiamento atrelado. Razão tinham os que empunharam cartazes nas
manifestações do 25 de Abril onde se podia ler: “um olho no liberal,
outro no fascista”.
quinta-feira, 4 de maio de 2023
Para lá do vazio: regras orçamentais geram mau ambiente
Neste estudo, conclui-se que, após a introdução das novas regras orçamentais, apenas 9 dos 27 Estados-Membros serão capazes de acomodar os investimentos necessários para atingir os objetivos climáticos do bloco.
Ligações na economia política
Adolfo Mesquita Nunes foi um dos mais destacados quadros do CDS, chegando a Secretário de Estado do turismo durante o governo da troika. Imitando o seu mentor Paulo Portas, passou administrador não executivo da Galp, sendo, ao mesmo tempo, um dos dinamizadores do generosamente financiado -liberdade e professor auxiliar convidado na Nova SBE. Agora, chega a vice-presidente da super-lucrativa Galp, a encarnação do capitalismo fóssil.
É um intelectual orgânico das frações mais agressivas do
capital. Ao contrário da tese hayekiana sobre a ordem espontânea, título da coluna que Mesquita Nunes teve no Negócios, o capitalismo sem
freios e contrapesos à altura, fruto de todas as privatizações e
liberalizações, é uma ordem politicamente construída. E tem padrões muito claros de distribuição regressiva, com toda uma infraestrutura intelectual para assegurar a sua reprodução política.
Nesta ordem, a grande
empresa dita privada é um actor político de primeiro plano. Paula Amorim, um
dos principais rostos do porno-riquismo
em Portugal, sabe bem o que faz. E Mesquita Nunes também. Política com grandes
meios. Sim, a política nunca fica para trás. Aliás, quando os jornalistas falam de política pura e dura é nestas ligações que devem atentar.
quarta-feira, 3 de maio de 2023
A pobre demagogia da extrema-direita
A extrema-direita fanática do (neo)liberalismo ou é ignorante ou é hipócrita (porque diz defender o que não quer e omite o que realmente defende) ou é simplesmente burra.
Num artigo publicado no jornal Público, a ex-candidata a líder dos fanáticos (neo)liberais, Carla Castro afirma duas coisas: 1) Que a Segurança Social está falida (o que é mentira, mas é um clássico argumento da direita usado há... várias décadas!); 2) Que a protecção social se faz com prestações sociais médias de baixo valor (o que é verdade, tem a ver com a História do sistema, com os baixos salários praticados, mas como se verá, a preocupação da deputada é outra).
Face a esse cenário, o que defende a extrema-direita? Um aumento do valor das prestações sociais, conseguido através... da “colocação de tectos às pensões”.
Para quem não está familiarizado, um “tecto às pensões” significa criar um limite máximo ao valor das pensões a pagar pelo sistema público de Segurança Social. Esse "tecto" é geralmente esgrimido com o argumento de que a Segurança Social pública não deve pagar a quem não precisa. Trata-se de uma velha ideia, importada do Banco Mundial, surgida em Portugal há quase 4 décadas (veja um historial aqui, Caderno nº17) e defendida pela direita como forma de retirar fundos públicos da Segurança Social e de os transferir para o sector financeiro, através da aplicação em esquemas complementares de pensões, incentivados por benefícios fiscais. Tudo embrulhado na falsa ideia de ser uma medida incentivadora da poupança privada, sobretudo dos mais jovens. Essa velha ideia está já em recuo internacional - veja a falência do fundo de pensões do Parlamento Europeu - mas surge agora, coincidentemente, a poucas semanas da "comissão para a sustentabilidade das pensões" apresentar o seu relatório.
Ora, o que é que Carla Castro não diz:
Razões antiliberais, razões antifascistas
Pedro Ferraz da Costa, antigo patrão dos patrões, deixou as coisas bem claras, em entrevista recente à TSF: “A Iniciativa Liberal e o Chega são quem tem, neste momento, alguma vontade forte de querer mudar coisas”. A encarnação do poder capitalista dos herdeiros há muito instalados garantiu: Chega e IL “vão ser barrados pelos poderes instalados”. Diagnósticos ideológicos destes trazem, de certeza, financiamento atrelado.
terça-feira, 2 de maio de 2023
Outra economia
Não é um slogan...
A CULTRA, em parceria com a Associação Portuguesa de Economia Política e do Centro de Estudos Sociais da Univ. de Coimbra, e no quadro do programa ABRIL É AGORA, comemorativo dos 50 anos do 25 de Abril, leva a cabo no próximo dia 13 de Maio, na sala Keynes da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, um curso de formação subordinado ao tema (Neo)liberalismo - O nome e a coisa.
segunda-feira, 1 de maio de 2023
O dia de Maio
O que se faz, nestes casos, é criar meios de autodefesa. E, como disse, algo que Mussolini, Hitler e também Thatcher compreendiam todos muito bem é que se tem de destruir a principal forma de as pessoas se defenderem – é preciso eliminar os sindicatos, impedir as pessoas de falarem umas com as outras. É preciso deixá-las separadas. Isto é o mercado ideal. Todos estão sozinhos, a perseguir as suas próprias fantasias, sejam elas quais forem. É o sistema ideal para controlar as pessoas. A longa luta de classes está sempre em curso.
domingo, 30 de abril de 2023
Querido diário - Baixos salários e a carestia de vida na mira da Polícia
| Jogo de Futebol entre SLB e FCP, 1956 |
Foi há 67 anos.
“A carestia de vida que dia-a-dia se agrava, a falta de alguns géneros da primeira necessidade, a pobreza dos salários e de vencimentos dos funcionários de menor categoria, dão lugar a queixas que se exteriorizarão em protestos, mais ou menos, violentos, quando a ocasião os permitir. Fala-se da alta de preços e da impunidade que parece rodear esta especulação e este dize tu direi eu não se limita aos centros urbanos, pois faz-se sentir grandemente nos meios rurais, onde a crise de desemprego, por motivo de inconstância do tempo e das baixas jornas (20$00 de sol a sol), mais perniciosa se tem tornado. Se não fosse o enfraquecimento do “partido” devido à repressão policial (27 “funcionários” presos de 1950 a 1955) e a diminuição da agitação nas classes operárias e nos meios rurais, pelas razões já expostas, poderiam, ter-se já dado acontecimentos de certa gravidade." (Informação da PIDE para o presidente do Conselho de Ministros, António de Oliveira Salazar, 18/4/1956)
Nessa altura, a repressão política não era apenas violência repressiva. Não era apenas um regime de partido único (União Nacional/Acção Nacional Popular), sufragado em eleições falcatruadas desde o recenseamento eleitoral. Não era apenas um regime de um organismo ideológico-policial dentro do aparelho do Estado.
A PIDE representou uma das peças essenciais articulada com a política do dito Estado Novo para criar as "melhores" condições políticas a uma dezena de grupos económicos, financeiros e monopolistas, detidos por um punhado de famílias privilegiadas. Impôs-se pela força baixos níveis salariais e de vida, o empobrecimento, o analfabetismo (em 1960, 40% dos portugueses não sabia ler nem escrever e havia apenas 4 anos de ensino obrigatório) e o subdesenvolvimento social como condição de impedir uma maior consciência colectiva de classe, premissa para uma maior exploração e desigualdade na repartição do rendimento.
Ao tempo de Salazar, cerca 61% do rendimento nacional cabia aos lucros e 39% aos salários. Essa era "a" tarefa da Polícia Política, instrumento do sistema capitalista, no seu regime mais violento e terrorista - o fascista.
E quando hoje se assiste à forma violenta, provocatória e desabrida como a extrema-direita actua no Parlamento; ao mesmo tempo que vota ao lado dos partidos "institucionais" de direita todas as iniciativas políticas visando rebaixar o poder dos trabalhadores face ao poder empresarial e desvalorizar a parte dos trabalhadores na repartição do rendimento; não se pode deixar de sentir em democracia o cheiro da função do fascismo. Ou seja, a vontade de certos grupos económicos - potenciais financiadores da extrema-direita - de usar forçar uma mais acentuada deriva à direita para criar um regime livre de todos os constrangimentos que a Constituição ainda lhes cria, nomeadamente na salvaguarda do Estado Social e dos seus recursos.
Veremos se as "linhas vermelhas" da direita não serão apenas boas intenções do momento. E se no momento da verdade, outros valores se erguerão. Cá estaremos.

















