sábado, 20 de fevereiro de 2016

Os limites da «economia do empobrecimento competitivo» (II)

Um estudo recente mostra que «Portugal é um dos piores países da OCDE para trabalhar», com elevados níveis «de insegurança no mercado de trabalho e sendo um dos dez piores países em termos de qualidade das remunerações». Aliás, na generalidade dos indicadores do relatório, Portugal surge de forma sistemática em posição desfavorável. Em 25 países, é o 3º com maior «risco de desemprego»; o 4º com maior «insegurança laboral» e «desigualdade de rendimentos»; o 9º com níveis mais elevados de «stress laboral»; o 19º em matéria de «qualidade do rendimento» e «rendimento médio»; o 16º na «protecção no desemprego». No indicador síntese da Qualidade do Mercado de Trabalho, estabelecido a partir deste conjunto de variáveis, Portugal ocupa a 20ª posição, apenas superando a Polónia, a Hungria, a Grécia, a Eslováquia e a Turquia.


À escala europeia, o retrato que o estudo permite traçar é bem revelador das assimetrias existentes e do fosso de diferenciação entre centro e periferia, relembrando os círculos concêntricos de Heinrich von Thünen. Os elevados níveis de qualificação do mercado de trabalho nos países do centro e Norte europeu têm como contraponto a desqualificação do mercado de trabalho nos países da periferia e do Sul, num processo de clivagem e divergência que as políticas de austeridade e empobrecimento acentuaram nos últimos anos.

Não por acaso, de facto, muitos dos países pior posicionados no ranking de qualidade do mercado de trabalho são os que registam uma evolução particularmente negativa em termos de saldos migratórios (como sucede no caso de Portugal, Espanha ou Grécia). Do mesmo modo que muitos dos países melhor posicionados em termos de qualidade do mercado de trabalho são os que registam ganhos migratórios mais expressivos nos últimos anos (como é o caso do Luxemburgo, da Alemanha ou da Áustria).


O mercado de trabalho não é pois imune às leis da oferta e da procura, reagindo aos processos de desregulação laboral, empobrecimento e alegado «ajustamento» das economias. Como referia há tempos o Luís Gaspar, «baixam-se os salários no pressuposto que o trabalho é demasiado caro. O trabalho vai-se embora. Mesmo para o mais ortodoxo dos economistas, isto deveria querer dizer que o trabalho não estava caro. A única transformação estrutural da economia arrisca-se a ser esta: em vez de serem os salários que se "ajustam" à economia, é a economia que se ajusta aos salários baixos». Ou seja, as políticas de austeridade não são almoços grátis, como dizia o outro. Têm contradições e limites intrínsecos, que as tornam contraproducentes e que se pagam caro, no presente e no futuro.

Talvez sejam dados como os deste estudo que levam João César das Neves a concluir, nas Jornadas Parlamentares do PSD, que é necessário diminuir a «rigidez do mercado laboral» de um país que considera «em vias de extinção», devido à falta de nascimentos e à emigração. Para enaltecer, logo a seguir, o facto de o anterior governo ter sido «o que mais liberalizou o mercado de trabalho» em Portugal, lamentando por não se ter, mesmo assim, conseguido aproximar o país dos seus parceiros europeus: em matéria de rigidez laboral, segundo César das Neves, «estamos à frente da tropa toda». Como os dados ali em cima permitem constatar, claro.

11 comentários:

Antonio Cristovao disse...

Enquanto tivermos governantes que conseguem provar isso e o seu contrario, vamos continuar a endividar mo nos e pagar juros escandalosos.

Anónimo disse...

Logo nos primórdios da Nação, Portugal, que nos saibamos, logo ficou endividado a Leão/Castela.
Aquando do domínio Filipino/Castelhano a coisa deu para o torto e nunca mais se endireitou, nem com o oiro saqueado ao Brasil nos safamos..!
Sempre estivemos na cauda da Europa!
Não há como esconder…que não passamos de Xicos-espertos…
Ate´ no vasto domínio colonial fomos um fracasso – Enquanto Ingleses e Holandeses cultivavam o oiro e diamantes, madeiras e petróleo, nós virávamos para as flores e bichos-de-mato para Cardeal e Rei verem.
Como somos de vistas curtas imaginamos um El Dourado na CEE, hoje União Europeia, em que os ricalhaços mais se aprazem e os pobretanas mais barafustam. Isto não e´ fatalidade, e´ parvoíce. Não tem de ser sempre assim..!
de Adelino Silva

Jose disse...

Um exercício um pouco ao lado.
Se há rigidez do mercado de trabalho, dois factos concorrem para baixos salários:
- Manter pessoal ineficiente e de baixa qualificação implica dificultar remunerar adequadamente quem tenha qualidades opostas que, por esse facto, tenderão a emigrar para mercados menos rígidos, pois não os temem.
- Direitos e garantias concorrem para a manutenção do status quo ineficiente; acresça-se a abrilesca 'solidariedade proletária' que, repudiando a competição, concorre para o nivelamento por baixo. A desregulação de prémios de produção em CCTs é a face mais visível desta cena sindical.
Ignorar a componente prémios de produção para os rendimentos dos trabalhadores e quais os contributos para a sua qualidade que são custos das empresas, torna as comparações entre países distorcidas.
Interessante seria também saber qual a ponderação da função pública na análise, ou melhor ainda, autonomizar sectores privado e público.

Anónimo disse...

“Que se dane a TAP”!
Saía da boca de certa gentinha direitista e não só… que são patriotas de bolsa cheia…
É verdade que o governo fez bem em não deixar de todo a TAP por mãos alheias.
A palavra de ordem “não há caso de desenvolvimento bem-sucedido sem um Estado Firme, Competente e Decente”, aplica-se aqui por inteiro, muito embora se saiba que esses conceitos de “competente” e “decente” nem sempre são de fácil comprovação, tanto em Estados capitalistas desenvolvidos “bem- sucedidos” (há algum?), Como em Estados capitalistas de desenvolvimento falsamente “bem-sucedido”. Que e´ o nosso caso…
Só espero que o governo renegoceie a divida! negociar, dialogar e compartilhar com os parceiros -- os nossos males, e nossos bens também e´ bastante salutar, particularmente em política de Estado. Se Adelino Silva

Anónimo disse...

Emigrar para "mercados rígidos" pois não os temem...
Esta é a versão da "saída da zona de conforto " do Passos Coelho .Adocicada pela necessidade ,não?

Direitos e garantias é uam chatice.Estes só mesmo para a trupe gaiteira do Carlos Costa e sus muchachos...veja-se a choraminguice piegas em torno do governador do banco de Portugal, num excelente post de João Rodrigues
http://ladroesdebicicletas.blogspot.pt/2016/02/precisamos-de-um-banco-de-portugal.html

Anónimo disse...

"solidariedade proletária' que, repudiando a competição, concorre para o nivelamento por baixo.
Nivelamento para baixo?
Mas não era este tipo que dizia;
"Há uma regra de ouro para os proletários: ganhar tanto quanto haja alguém disposto a pagar!
O Borges consegue que lhe paguem muito bem. Parabéns!
Quem não consegue quem lhe pague, ainda que pouco, tem um problema a resolver".

Essa do proletário ...anda aqui uma grande confusão. No seu esforçado esforço até insinua que o Borges é proletário e afirma que os banqueiros são bancários.

Isso é que é defesa de classe.

E uma fraude na exacta medida que vai mudando tanto o discurso como muda da camisa castanha para a preta.

Anónimo disse...

Porque será que os axiomas neoliberais são uma treta e quando se apresentam dados os "bons rapazes e "os velhos gaiteiros enraivecidos" tentam tudo para os esconder.
Um dos refrões é este:
" torna as comparações entre países distorcidas".
Torna sempre. Com função pública ou sem esta. Com "prémios" ou se prémios. Com fotos de Salazar ou com de Passos Coelho

Anónimo disse...

"Manter pessoal ineficiente e de baixa qualificação Manter pessoal ineficiente e de baixa qualificação."
Esta é uma indirecta ao amigo Carlos Costa, companheiro de cavaquices e sicário de banqueiros?

Anónimo disse...

Os prémios de produção estarão incluídos nos ordenados de Draghi que ganhou 385.860 euros no BCE em 2015 e nos de Constâncio que açambarcou 330.744 euros?
O António Borges nem pagava impostos, o que como se sabe distorcia por completo a comparação com os restantes banqueiros...

Uma chatice essa dos prémios e das cenas acanalhadas que alguns são obrigados a fazer.

Majo disse...

~~~
A sua crónica está excelente.

Grata pela partilha.

Um fim de fim de semana

e semana ótimos.
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Anónimo disse...

sabujo zé
acreditas mesmo que os prémios e bónus em Portugal são tão bons que, considerados, nos poriam à frente de toda a gente ?
és mesmo sabujo
os malabarismos de circo que tu fazes para defenderes os teus amigos