terça-feira, 3 de novembro de 2015

Reformas




Francisco Assis declarou hoje ao Público ser favorável a “um reformismo social democrata”, fórmula potencialmente ambígua no debate nacional, sobretudo quando não traduzida em propostas de política pública concretas, prática habitual em Assis.

Se Assis é a favor de um reformismo social democrata a sério, feito de reformas para robustecer o Estado social, na sua dimensão igualizadora de provisão pública, de acção colectiva no campo das relações laborais e de política económica de pleno emprego, favorecendo a redistribuição de rendimentos e de poder de cima para baixo, então não se percebe a sua dissensão em relação à proposta de um governo apoiado pelas esquerdas. Do pouco que felizmente se sabe das negociações em curso, um reformista social democrata, ou qualquer outro membro das consequentes tradições da esquerda, só pode, quanto muito, criticar as propostas pela sua timidez, embora talvez seja sensato calar essa crítica em nome do mais importante na presente conjuntura: iniciar um processo de sentido contrário ao que tem sido dominante.

Se Assis é a favor de um reformismo social democrata à maneira do Partido Social Democrata nacional, ou seja, de reformas neoliberais destinadas a erodir os freios e contrapesos sociais e laborais no cada vez mais medíocre capitalismo nacional, em modo troika, favorecendo a redistribuição de rendimentos e de poder de baixo para cima, então já se percebe a sua dissensão, mas não se percebe por que é que alguém que supostamente valoriza “as ideias” usa a fórmula “reformismo social democrata”.

Assis tem vagamente falado de reformas ao “centro”, quando sabemos que o centro do conflito político e ideológico nacional está hoje estruturalmente enviesado em favor do neoliberalismo (e não de um vago ultraliberalismo que Assis convoca para tentar dar uma de esquerda), graças sobretudo à dependência externa a que o país foi reduzido.

E quem diz Assis, diz a maior parte dos editorialistas, sobretudo económicos, ideologicamente preocupados com a “paragem” das “reformas” nas áreas da saúde, educação, trabalho, etc., talvez também preocupados com o destino de negócios que até podem dar boas receitas de publicidade e que dependem de idas ao pote dos activos públicos e/ou de transferência de custos sociais para os trabalhadores. Não é aliás por acaso que Assis é a nova estrela de certa imprensa cada vez mais dependente.

Definitivamente, reforma é a palavra cujo significado hegemónico mais tem de mudar.

10 comentários:

vítor dias disse...

Há quem, incamsavelmente, lhes chame sempre de «contra-reformas». E bem !

meirelesportuense disse...

Nem me recordava desta votação. Mas explica tudo, o PPD/PSD e o CDS sempre foram contra o Serviço Nacional de Saúde, Serviço Nacional de Educação, Serviço Nacional de Contribuições, etc, etc, etc...E Assis que vem desse campo político, é, claro, mais um.

Dias disse...

Assis pode usar todo o fraseado que quiser, que o seu discurso não inspira qualquer confiança. Temos pena. Depois do martírio que sofreu a esmagadora maioria da população (que vai das classes mais baixas até à classe média e mesmo média-alta), quem pode aliar-se a este governo das “reformas do rolo compressor”?!
Os “mass media” pintam o cenário dos interesses, tentam manipular, Assis virou vedeta, mas as pessoas com quem falamos na rua têm outra leitura: do quanto a vida piorou e muito (rendimentos, serviços de saúde, transportes, educação, etc.).
E este governo, recomenda-se?

Francisco Guerra Tavares disse...

A memória tem destas coisas. Ajuda a esclarecer o ADN de muita gente.
O Assis tinha passado um pouco despercebido. Mas estas suas posições de efetivo apoio ao neoliberalismo não são novas.
Aliás, toda esta gente que enche a boca com as reformas estruturais, acaba sempre a falar no mercado de trabalho. Para baixar salários e precarizar, claro. Como o Ricardo Mamede bem o recordou há pouco no programa os Números do Dinheiro.

Jaime Santos disse...

A palavra 'Reforma' tinha um sentido político preciso, diziam os Conservadores que era preciso reformar para preservar. É nesse sentido que se pode dizer que são necessárias reformas no SNS ou no sistema de pensões de modo a assegurar a sustentabilidade de cada um deles. Mas a ideia da preservação queria dizer que o carácter das instituições não mudava. Também se podia falar de reformas no sentido fabiano do termo, alterações ao sistema capitalista que, não o pondo em causa, tornavam a vida das pessoas mais desfavorecidas melhor (o que no fundo pretende o programa mínimo das Esquerdas, se bem posso perceber dos parcos pormenores que têm vindo a público). Ora, não é nada disto que a Direita propõe, seja com o plafonamento das pensões, seja com a privação de recursos ao SNS, que empurra mais e mais pessoas (as que podem) para o privado, deixando àqueles que não têm escolha, os mais pobres, um sistema de saúde cada vez pior. Eu gostava de perceber o que Assis propõe em contraponto à Direita, porque se é para reformar à PàF estamos conversados...

Anónimo disse...

Realmente, avivar a memória faz falta. No fundo, não está no património do Puf o interesse e a defesa de um estado social, por isso é sempre, conscientemente, mais fácil acabar com ele. Não foi desejado - aborta-se; neste caso, é urgente impedi-los de o fazer.

fernanda disse...

Seria bom que as pessoas percebessem por que razões é que o serviço nacional de Saúde bem como o de Educação devem ser universais e tendencialmente gratuitos. Isto porque atualmente PSD e CDS aparentemente converteram-se em sua defesa, mas é preciso perceber bem qual é a cortina de fumo, o que é que eles pretendem fazer, se lhes derem tempo e vagar: no fundo querem conseguir que estes serviços sejam para os mais desfavorecidos e que a população restante recorra, mesmo com custos, aos serviços privados que poderão contar com subsídios estatais para engordarem. Atualmente os neoliberais já deixaram cair a bandeira da não intervenção do Estado na vida económica pois já perceberam que até é bom que o Estado intervenha desde que seja para proteger as corporações privadas.

Anónimo disse...

Salvo o devido respeito,Francisco Assis é pessoa completamente irrelevante. Não se lhe conhece nada de nada que se possa dizer que constitui uma ideia para o país. Sabe-se, isso sim, que ele fala muito ( talvez até demais...) mas quando se espreme a coisa, resulta em nada.
Do que ele gosta, isso sim, é de estar bem com Deus e com o Diabo, como aliás se via muito bem no programa da TVI em que ele dava quase sempre uma no cravo outra na ferradura. Isto, aliás, tem sido um dos grandes problemas do PS. Nao admira, por isso, que o F.Assis aproveite esta dualidade do próprio PS e bote discursos inconsequentes e muito "intelectuais". Ao que parece ele quer assumir-se como uma espécie de alternativa ao A Costa sem ter ido a votos. Estranho entendimento o deste individuo do que é a democracia.

Jose disse...

O Estado social,desde que se lhe acrescente uma dimensão ...dá para tudo o que se queira!

meirelesportuense disse...

É um contra-reformismo reformista ou um reformismo contra-reformista, para enganar papalvos...E há sempre quem queira fazer-se de distraído e levar-nos com ele a escorregar no lameiro.