segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Mercados de alta tensão

Um artigo do New York Times da semana passada mostra como, nos EUA, o preço da electricidade é menor nos estados com preços regulados publicamente do que nos estados com mercados de electricidade liberalizados (ver evolução no gráfico abaixo). A subida dos preços dos combustíveis, aliada ao aumento da procura de energia, resultou em excelentes oportunidades para a especulação no mercado de electricidade. Especulação esta, favorecida por estarmos perante um estratégico sector onde o nível de produção é razoavelmente constante face a um consumo muito variável.

O resultado, contrário às previsões dos fanáticos da concorrência, foi, então, o encarecimento de um dos mais «pesados» custos de produção da generalidade das empresas. A construção deste mercado resultou assim num arranjo ineficiente, penalizador da competitividade de economia, que só beneficia um punhado de empresas eléctricas retalhistas.

Os EUA parecem não ter aprendido com os anteriores desastrosos resultados destas ficções mercantis. Já em 2000/2001, um dos Estados com mercados desregulados, a Califórnia, assistiu a consecutivos cortes de energia, devido à manipulação especulativa e fraudulenta do mercado retalhista eléctrico por parte de empresas como a Enron. A mesma Enron que, pouco tempo depois, entrou em processo de falência.

Entretanto, Portugal parece querer seguir, a passos largos, os erros dos outros, como indiciam as privatizações no sector (primeiro da EDP, recentemente da REN) e a criação de um mercado eléctrico ibérico que ainda ninguém viu. (Obrigado a Tiago Antão pela referência do NYT).

4 comentários:

Tiago disse...

Eu penso que este caso é uma excepção em termos de "cultura regulamentista" nos EUA, isto é:

Os estados mais regulamentistas são precisamente a Califórnia, Oregon, Washington e a Nova Inglaterra (Massachusetts, NY, ...). Também são os estados com mais impostos.

Ou, dizendo de outra forma: Tirando o Texas, os estados que produzem riqueza são precisamente os que mais regulam e mais taxam. E até que ponto a riqueza do Texas está associada ao recurso natural que ainda têem (petróleo) seria uma questão a ver.

Os estados que produzem riqueza tendem também a votar democrata.

Mais ainda, praticamente toda a produção em IT dos EUA vem da Bay Area, uma zona bem esquerdola dos EUA (estamos a falar de S. Francisco e arredores). Mesmo a que vem de outras áreas (A Microsoft está em Washington) é também uma área com impostos e intervenção do estado.

Muita da regulamentação ambiental que vai fazendo caminho nos EUA começa na Califórnia.

Podíamos também falar das "questões individuais" como o casamento homosexual (Massachusetts) ou da liberalização do casamento (que começou, se a memória não me falha, na Califórnia com... Ronald Reagan como governador).

Penso que MA têm também um esquema de seguro universal com cobertura a toda a população...

Tudo isto para dizer: à verborreia neo-liberal sobre os EUA convém lembrar que os EUA são uma entidade heterogénea e que boa parte da riqueza, por acaso (ou não) é produzida naqueles estados que mais fogem ao estereotipo americano.

Estou a tirar nabos da púcara, não estudei o assunto a fundo, mas muita da informação que me chega à mão vai neste sentido, indo contra muitos dos preconceitos e estereotipos que eu próprio tinha dos EUA.

Tarzan disse...

Sabe que a crise energética da Califórnia se deveu à regulação completamente desajustada da realidade, não sabe? Num ambiente de concorrência e de preços a reflectirem a realidade dos custos, a crise não teria ocorrido, não sabe?

Tiago disse...

A única coisa que me parece ("saber", não sei nada) é que há uma forte correlação nos EUA entre regulação, taxação e riqueza. Regra geral, por estado, quanto mais regulador, mais rico.

Provavelmente, o estado mais regulator friendly (MA) é também aquele que tem melhores indices de literacia, menos pobreza, etc... Para não falar em excelência académica.

-sarcasmo-
Mas, claro, mais literacia e menos pobreza são coisas sem importância... donde, porquê olhar para estes indicadores?

Pedro Sá disse...

A lógica está errada, porque na Europa os mercados da electricidade são fortemente regulamentados.