terça-feira, 29 de maio de 2018

Às escondidas, como um criminoso



«Caros juízes, autoridades políticas e religiosas. O que é para vocês a dignidade? Seja qual for a resposta das vossas consciências, saibam que para mim isto não é viver dignamente. Eu queria, ao menos, morrer dignamente. Hoje, cansado da preguiça institucional, vejo-me obrigado a fazê-lo às escondidas, como um criminoso. Saibam que o processo que conduzirá à minha morte foi cuidadosamente dividido em pequenas ações, que não constituem um delito em si mesmas e que foram executadas por diferentes mãos amigas. Apesar disso, se o Estado insistir em punir os meus ajudantes, eu aconselho que lhes sejam cortadas as mãos, porque foi essa a sua única contribuição. A cabeça, quer dizer, a consciência, foi proveniente de mim. Como podem ver, ao meu lado tenho um copo de água, que contém uma dose de cianeto de potássio. Quando o beber deixarei de existir, renunciando ao meu bem mais precioso, o meu corpo. Considero que viver é um direito, não uma obrigação, como foi no meu caso. Forçado a suportar esta penosa situação durante 28 anos, 4 meses e alguns dias. Passado este tempo, faço um balanço do caminho percorrido e não me dei conta de ter havido felicidade. Só o tempo que passou, contra a minha vontade, durante a maior parte da minha vida, será agora o meu aliado. Só o tempo, e a evolução das consciências, decidirão algum dia se o meu pedido era razoável ou não.»

Mar Adentro (2004), de Alejandro Amenábar

9 comentários:

Anónimo disse...

Recomendo a leitura de D. Manuel Linda, bispo do Porto, no Expresso deste fim de semana. Existem boas pessoas e bons argumentos de ambos os lados. Este é o primeiro passo para saber discutir problemas morais!

Pedro disse...

Nunca me vou esquecer que os conservadores da extrema esquerda se uniram aos conservadores da extrema direita para me negar o direito à liberdade de escolha.

Anónimo disse...

Numa Democracia é o Povo que decide a moral que deverá ser passada a Lei. Quem não se revê na moralidade maioritária poderá formar uma comunidade independente.

Anónimo disse...

Não esqueças não Pedro.
Mas não andes a lastimar-te que o povo votou nos euroliberais mais a tua colecção de ídolos de estimação com o Coelho como pulíticu mais votado. Houve alguma votação para isso?
Portanto não te queixes mas a maioria do povo europeu e ocidental tem o que pediu… e o que merece.
Bahhhhh

Teresa Rodrigues disse...

Com ou sem democracia, quem decide o que fazer da minha vida SOU EU...

António Ribeiro disse...

Há quem mate os perfeitos de saúde, certamente é um criminoso. Este filme mostra só uma parte. a parte do doente, a vida do doente.Falar de faca na boca não é a mesma coisa que falar de faca em punho, de um copo de cianeto na mão ou de pistola apontada para usar noutra pessoa e como fica a primeira pessoa se não for um criminoso? Em democracia por votos decide-se e cria-se uma lei para matar, parece tão fácil e gasta-se tanto latim, e quem mata ou manda matar? Quem será o matador se for mandado? Há sempre uma mão, mesmo à distância, que coloca o copo de cianeto ao alcance da pessoa doente.

Anónimo disse...

O zeigst do nosso tempo é o liberalismo! Esses ideal e utopia permanecem lá no fundo e nós corremos nesse sentido. Também um ideal individualista! Esse é o progresso pensamos nós. De qualquer forma não sei se esse local, no final desta linha será assim tão feliz, comparado por exemplo com o ideal comunitarista. Além disso não nos podemos esquecer que a democracia tem como uma das funções principais o evitar de guerras civis, de derramamento de sangue. Por isso não podemos entrar na linha da chantagem com os nossos co-cidadãos, com o rasgar das vestes. As causas fracturantes servem pra isso mesmo: fracturar a coesão da comunidade. Depois de muitos entorses podemos acordar, sem comunidade, sem democracia, com guerra e aí sim, veremos o quanto regride essa liberdade que nos enche os pulmões...

Anónimo disse...

O liberalismo como zeigst só como zeigst medíocre e paupérrimo

Agora como ideal e utopia, só mesmo na cabeça de um neoliberal, perdão, de um social-liberal

Anónimo disse...

Quanto ao derramamento de sangue é um facto que a dita democracia made in UE já o fez e em grande quantidade.

Olha o que fez na Líbia?