quinta-feira, 12 de maio de 2011

Pequenas heresias #3: Incrustações dependentes da trajectória


“Incrustação” (embeddedness) e “dependência da trajectória” (path dependence) são dois dos conceitos-chave da nova sociologia económica, que ao longo das últimas duas décadas têm também vindo a adquirir crescente popularidade entre certas abordagens timidamente heterodoxas em economia. Neste contexto, os fenómenos económicos são caracterizados como sendo incrustados em redes de relações sociais, de modo a assinalar que não existem num vácuo e que os aspectos mais relevantes do “contexto” social e político devem ser de alguma forma incorporados nos modelos que descrevem esses fenómenos. Por outro lado, os mesmos fenómenos são representados como dependentes da trajectória no sentido em que, tal como sucede com processos físicos caracterizados por histerese, os estados futuros não podem ser previstos tendo apenas em conta os valores pontuais presentes das variáveis, pois dependem também dos valores passados dessas variáveis: do estado C poder-se-á caminhar, alternativamente, para D ou para E, conforme o sistema tenha estado em A ou em B antes de chegar a C.

Por outras palavras: as dimensões social, política e histórica dos fenómenos e processos económicos são relevantes para a sua compreensão. Perguntarão os mais cínicos: como é possível que uma tal lapalissada tenha alcançado estatuto de grande inovação teórica? Na verdade, que assim seja diz muito sobre a história do pensamento económico após a revolução marginalista. À economia política de clássicos como Smith, Ricardo ou Marx, cujas análises combinavam descrição idiográfica e formulação nomotética, indução e dedução, segue-se uma economia (pretensamente a-política) neoclássica, inspirada na mecânica, com um carácter obsessivamente hipotético-dedutivo e metodologicamente-individualista. Desaparecem o poder, as instituições, a história e as classes sociais. No seu lugar, uma única coisa: a dedução mecanicista das implicações, em diferentes contextos, de uma representação objectivamente falsa do comportamento humano - a racionalidade optimizadora. Mas uma desgraça nunca vem só: no último quartel do Século XX, uma vez consolidada a condição de paradigma dominante ao nível da análise das interacções mercantis, a economia neoclássica lança-se à conquista da análise das interacções não-mercantis. Como? Equiparando-as a mercantis: as instituições políticas, a coesão social, a paz e a guerra, o casamento, a amizade – tudo é explicável e explicado como se de mercados implicitos se tratasse; e como se, em cada um desses mercados implícitos, nada mais existisse do que a livre interacção de “interesses nus e pagamentos a pronto”.

E no entanto, se esta abordagem desempenha o seu papel ideológico de forma irrepreensível, já a sua capacidade explicativa é claramente risível. É difícil aos cientistas sociais mais inteligentes e sérios que trabalham no interior da ortodoxia aceitá-la acriticamente na sua versão mais simplista e simplória. Há por isso que acrescentar, adoptar e adaptar algumas coisas, nem que seja para reforçar a camada protectora que envolve o núcleo duro do paradigma. Surgem assim as fricções e a assimetria de informação dos Novos Keynesianos; surgem assim as instituições do Novo Institucionalismo (que, ainda assim, obedecem elas próprias a uma racionalidade de segunda ordem); e surgem assim a incrustação e a dependência da trajectória da Nova Sociologia Económica.

O problema é que o paradigma é errado e erróneo no seu núcleo, não apenas na camada protectora. O problema é a conjugação de individualismo metodológico e hipotético-dedutivismo, claramente inadequados para analisar sistemas complexos e sujeitos a evolução como são as sociedades humanas. Os fenómenos económicos não são incrustados em relações sociais e políticas – eles são relações sociais e políticas. E também não são dependentes da trajectória, mas sim intrinsecamente históricos e só verdadeiramente compreensíveis enquanto tal. Não precisamos de caricaturizar a história ou a política para acrescentar uma pitada de realismo a um paradigma fetichista e caduco; precisamos, isso sim, de enviar esse paradigma para o caixote do lixo da história do pensamento económico.

9 comentários:

Corega Eh Ficse disse...

bom essa aproximação à balística é interessante

e pode ter alguma razão

os processos cabalísticos fazem parte das teoria económicas

um a mais ou a menos

A. C. Martins disse...

Parabéns pelo «post». É um bom esboço de aproximação histórico-sociológica à economia, capaz de orientar a atenção para a alta relevância da crítica teórica e epistemológica aos «modelos explicativos» dominantes na actual ciência económica.

Dito isto – e não havendo espaço nem oportunidade para mais profunda indagação -, queria apenas focar um ponto: uma sociologia do conhecimento contemporânea e consequente deveria estudar profundamente as modalidades de constituição da crença na pertinência da utilização de modelos ao «estilo neoclássico» para a «explicação» de domínios os mais diversos da realidade social e, assim, fornecer mais sólida base empírica a uma filosofia social atenta e crítica à tirania do predomínio de um modo de pensamento na representação das possibilidades presentes da vida social humana.

Uma sociologia (da) política deveria apoiar esta filosofia social no estudo das relações entre este problema e o problema da construção e reprodução das formas actuais de poder, designadamente político (stricto sensu).

João Carlos Graça disse...

Caro Alexandre
Sim, acho que globalmente tem razão. Hoje em dia aquilo com que se leva traz de facto uma imensa "camada protectora", vem quase sempre acoplado a um série interminável de contorcionismos.
A verdade é que só pode lidar-se com a economics através de "meta-leituras", considerando-a sistematicamente "a partir de fora" e enquanto "metáfora generalizada"... Mas o efeito de arrastamento para as disciplinas "de segunda linha" (sociologia, antropologia, mesmo, veja lá, a própria história, ou mais exactamente "historiografia") não é desprezível.
Entretanto, e felizmente, a economics tem também a particularidade de comportar um "panteão" muito diversificado, a cujo "baú" é sempre possível ir desenterrar coisas (estranhamente) novas e interessantes. Graças a isso, pelo menos, a "conversa" pode sempre recomeçar.
Mas fazem evidentemente mal (no meu modesto entender) os que buscam na economics as razões para as suas opções mais profundas ou "axiais".
Vamos conversando...
Um abraço.

Anónimo disse...

Excelente post.

Anónimo disse...

Parabéns pelo post é dos mais interessantes que alguma vez li.
Este vosso blogue é de facto uma referência.

francisco oneto disse...

Meu caro Alxandre Abreu, excelente o seu post! A Antropologia Económica há muito que leva o Polanyi a sério, ao contrário de muitos economistas. A questão que lhe coloco é: como deitar fora um paradigma obsoleto sem abandonar as prácticas que lhe dão expressão? É que no núcleo está a obsessão produtivista pelo crescimento e o dogma da imaculada escassez. O pleno emprego e a luta contra a desigualdade só se alcançará invertendo a marcha rumo ao desastre, substituindo a competitividade pela solidariedade, a ambição pela frugalidade, a teologia dos mercados pelo decrescimento programado.
Abraço

Alexandre Abreu disse...

Obrigado pelas palavras simpáticas e pelo comentário estimulante, Francisco. Em relação ao decrescimento enquanto programa político (pelo qual admito aliás sentir bastante simpatia), o que penso é que corre o risco de não passar de uma variante de utopismo socialista se não se fizer acompanhar de uma crítica sólida e sistemática do capitalismo. Ou seja, na sua versão mais ingénua será uma espécie de wishful thinking... Já se tiver como objectivo superar o "high modernism" do marxismo ortodoxo dando a devida atenção à dimensão ecológica, aí parece-me muito bem...
Abraço!

francisco oneto disse...

Caro Alexandre Abreu
Muito obrigado pela sua resposta, o que vai sendo raro nestes dias em que rede digital global dá as últimas machadadas nas lógicas de interacção de natureza mais epistolar...
Estou inteiramente de acordo consigo quanto à necessidade de uma crítica sólida e sistemática do capitalismo, o que, do meu ponto de vista, terá de passar por uma ruptura com o paradigma do crescimento/desenvolvimento ao abrigo do qual a luta contra a desigualdade e a injustiça se vê num impasse - e esta crise mostrou isso mesmo: depois das palavras bonitas de Barroso, Sarkozy e Merkel sobre a necessidade de um "capitalismo de rosto humano" o saque prossegue e o reforço da hegemonia do capital sobre o trabalho parece ter vindo para ficar. Deixo-o com as sugestivas palavras de Stéphane Hessel no opúsculo "Indignai-vos":
«O pensamento produtivista do ocidente conduziu o mundo a uma crise de que é preciso sair por via de uma ruptura radical com essa fuga para a frente do "sempre mais", "cada vez mais", no domínio financeiro como no domínio da ciência e das técnicas. É chegado o tempo de fazermos prevalecer da ética, da justiça e do equilíbrio durável".
Abraço

francisco oneto disse...

...«É chegado o tempo de fazermos prevalecer a necessidade da ética, da justiça e do equilíbrio durável".
Assim é que é!