domingo, 28 de dezembro de 2025

Projeto deseducativo


O à vontadinha de Pedro Santa Clara – “sistema soviético na educação” –, em entrevista ao Público, é um sintoma da atual relação de forças político-ideológica. 

Este liberal até dizer chega é um dos mais apostados, em nome do capital mais agressivo, em destruir a escola pública, no seu caso, e da restante extrema-direita nacional e internacional, à boleia da retórica anticomunista mais grosseira, a que, por exemplo, esquece que foi o sistema de planeamento na educação e não só que permitiu à URSS e a tantos outros países passar de uma posição de atraso imenso para uma posição invejável na educação e ciência. Além disso, paradoxo só aparente, o seu neoliberalismo tem de ser planeado. A questão é sempre quem planeia, para o quê e para quem.

Infelizmente, os financiamentos privados da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa (vulgo Nova SBE), através da sua obscura fundação, não têm sido alvo da atenção suficiente por quem de direito, do jornalismo ao Ministério Público. Os milhões para todas as cruzadas político-ideológicas falam mais alto nesta deliberada confusão público-privada, ou seja, nesta cada vez maior diluição da democracia, cada vez mais subordinada ao poder económico, mais puro e duro a cada dia que passa. 

Um detalhe basta para expor a demagogia neoliberal de Santa Clara: o modelo de concorrência com dinheiros público-privados não serve o bem comum, como indica, por exemplo, a longa experiência sueca de declínio educativo reconhecido. A sua irresponsabilidade e o seu fanatismo não cuidam de factos tão ululantes quanto inconvenientes, como se pode ler: fechem-se, fechem-se as escolas. 

O topete de quem alardeia preocupação com as desigualdades educativas é idêntico ao de André Ventura sobre a corrupção: o projeto socioeconómico de Santa Clara só torna as desigualdades mais abismais, tal como o convergente projeto de André Ventura só favorece os setores mais venais da sociedade portuguesa. As desigualdades, é claro, reduzem-se a montante da escola pública, na escola pública e a jusante desta conquista de Abril, sempre contra este liberalismo, desgraçadamente inscrito na lógica da integração.

Entretanto, é sempre a mesma história desde 1917, a da relação objetiva, e tantas vezes subjetiva, destes liberais com o fascismo - Maffeo Pantaleoni e Mussolini ou Milton Friedman e Pinochet. O ideal mais ou menos confessado é sempre um Estado autoritário de classe para guiar a transformação desejada, a regressão planeada. Um dos projetos público-privados de Santa Clara recebeu um prémio de uma fundação do Qatar (em Coimbra, deram-lhe um edifico imenso, antigos CTT, e tudo). É preciso fazer um desenho? 

O resto, o mais importante, a escola pública, tem de ser protegido dos efeitos obscurantistas desta gente perigosa do mais liberdade para explorar e expropriar. Infelizmente, as raposas já mandam no Ministério da Educação, como alertámos desde o início. Haja resistência, haja iluminismo radical.

2 comentários:

Anónimo disse...

Vi agora no Público e vi o nome Tumo. Não era uma coisa das escolinhas da Arménia ou coisa que o valha que Carlos Moedas queria apoiar nuns milhões e que quando a oposição na Assembleia Municipal exigiu concurso ele meteu na gaveta? Ou estou enganado?

Sempre me espantou um projecto educativo tão extraordinário vindo precisamente da Arménia, país que não passa por modelo em coisa de que me lembre.

Frederico Pinheiro disse...

Os alertas do João e a análise são cruciais.

Não concordando com a proposta apresentada na entrevista, devo reconhecer que o texto tem rasgo. Espero que possa dinamizar debates sobre os planos para a melhoria da escola pública. Porque precisamos de disputar essa hegemonia e esse espaço.

Apesar dos méritos, não podemos estar satisfeitos com o atual estado da educação pública e as soluções precisam de ser densificadas e atualizadas.