sexta-feira, 23 de junho de 2017

Pedrogão e Pavia não se fizeram num dia? (I)

Entre outros vídeos, igualmente disponíveis na net, há dois que elucidam de forma impressionante as condições meteorológicas excecionais registadas no passado sábado, dia que ficará assinalado de forma trágica na nossa memória coletiva. Cheguei a eles através da Maria João Pires. O primeiro, filmado em Pedrogão Grande, tinha já sido assinalado aqui (não deixem de ver). O segundo é o que se reproduz de seguida, captado em Pavia, no Alentejo, podendo ainda fazer-se referência a um terceiro, que mostra logo no início as trovoadas desse dia.



Curiosamente, apesar das longas horas de emissão dedicadas ao incêndio, marcadas pela repetição incessante das imagens devastadoras da tragédia, não tenho visto nenhum deles (ou outros vídeos), passar nas televisões. Tal como não me pareceu que tenha sido dado particular destaque televisivo à confirmação, pelo IPMA, das circunstâncias «que determinaram situações no terreno de excecional gravidade», resultantes «da conjugação da dinâmica do próprio incêndio e dos efeitos da instabilidade atmosférica», gerando um fenómeno, raro, de «downburst». Isto é, um «vento de grande intensidade que se move verticalmente em direção ao solo» e que, depois de o atingir, «sopra de forma radial em todas as direções». Frequentemente confundido com um tornado, este fenómeno assume «um grande impacto em caso de incêndio florestal, por espalhar fragmentos em direções muito diversas», amplificando assim, caótica e exponencialmente, a propagação do fogo, que fica fora de controlo.


Estas condições são de facto essenciais para responder a muitas das questões que o incêndio de Pedrogão Grande suscita. Basta imaginar o que terá acontecido, em termos de propagação do fogo, quando se vêem as imagens do vídeo aí captado pelas 18h00 do passado sábado (a cerca de 30 Km da tragédia), confirmadas que estavam as previsões meteorológicas (temperaturas muito altas, que chegaram a atingir os 42-45ºC, níveis muito reduzidos de humidade relativa, vento e trovoada). É assim que se pode começar a conseguir compreender o inconcebível e o inimaginável, com a voracidade inusitada do incêndio, acelerada pelas condições climatéricas e pelo downburst, a alterar por completo o «quadro convencional» de combate. A estrada que num dado momento seria segura a subitamente deixar de o ser; a multiplicação rápida de frentes de incêndio a retirar capacidade de resposta a todos os pedidos de ajuda; as armadilhas do fogo a tornar-se imprevisíveis e, em muitos casos, inultrapassáveis. Muitas das questões que normalmente são centrais, como a causa da ignição, tornam-se aliás, perante este fenómeno, irrelevantes.

Para se ter uma ideia do impacto que estas condições pode assumir, em termos de intensidade e propagação das chamas, recorde-se que foi este o fenómeno responsável pelo incêndio de grandes dimensões que destruiu a cidade de Fort McMurray, na província de Alberta, no Canadá, em maio de 2016, onde cerca de 80 mil pessoas tiveram de ser retiradas, devido ao avanço descontrolado das chamas, e mais de duas mil casas ficaram em cinzas:



Quer isto dizer que as causas deste incêndio, o maior da última década, e o mais grave em termos de número de mortes, se reduzem a um fenómeno climatérico excecional? Não, evidentemente que não. A isso junta-se o vasto e pesado rol de problemas estruturais da floresta portuguesa, há muito identificados e estudados. Aliás, a excecionalidade das circunstâncias climatéricas do incêndio do Pedrogão Grande, que será ainda necessário melhor compreender e detalhar, permite sobretudo enquadrar, e ajudar a compreender, a excecionalidade das suas dramáticas consequências, não retirando por isso um grama de importância e gravidade a esses problemas estruturais. Pelo contrário, redobram a necessidade e a premência de sobre eles agir, por pelo menos por duas razões: porque estaremos sempre a falar de mudanças num tempo longo, que importa impulsionar o quanto antes, e porque, estando as condições metereológicass excecionais associadas a alterações climáticas (como se pensa que estejam), a tendência será para a sua crescente repetição.

15 comentários:

Jose disse...

O que é raro não quer dizer ser improvável.
A questão é saber quais os limites do realizável face ao possível de acontecer.

Fácil é também dizer que a bandalheira florestal só tem como justificação o descuido e a anomia política.

Anónimo disse...

Não conhecia estes videos importantes para perceber o que se passou.

P.S. As pessoas não são evacuadas, os recintos/edifícios sim.

Nuno Serra disse...

Caro Anónimo, agradeço o seu reparo, tendo já feito a respetiva retificação. Obrigado.

Anónimo disse...

Não se pode de facto escudar sobre as circunstanciais climatéricas excepcionais desse dia para justificar as circunstâncias "normais" em que esta situação se propagou. A nossa floresta normalizada por falta de leis emanadas de estudos científicos válidos para a sua preservação, a adulteração normal da floresta por arvores de maior rendimento económico, o normal envelhecimento da população com ausência de massa jovem que pudesse estar no local, participar nos bombeiros, a diminuição normal das forças policiais factores que contribuíram inicialmente para um reduzido mas normal ataque ao fogo deixando propagar-se para uma dimensão incontrolável. Uma estrada agora da morte mas que até aí era uma estrada florestal normal com uma beleza natural apreciada por quem nos dias anteriores por ali passou e descreveu como um túnel de arvores que a protegia da canícula do dia e que assim estava por ser normal crescerem arvores ao longo dela em vez dos 10 m regulamentares...e como tem sido normal o aproveitamento dos medias e políticos face aos acontecimentos!

Anónimo disse...

Como noutros domínios a liberalização da plantação do eucalipto foi um desastre.

Anónimo disse...

Não adianta andar a encher chouriços dignos duma literacia que se esgota nas frases ocas e vazias. O "ruído incoerente das vítimas" mais o raro e o improvável e ainda os limites do razoável a que se junta o possível são exemplos disso mesmo.

Este é um post que chama a atenção para um aspecto que tem sido descurado."Mas a excepcionalidade das dramáticas consequências, não retira um grama de importância e gravidade a esses problemas estruturais. Pelo contrário, redobram a necessidade e a premência de sobre eles agir"

E exige a responsabilização de facto pela "bandalheira florestal", muito para além das tentativas dum sacudir da águas para o "descuido e a anomia política". Como se estes não estivessem ligados até à medula aos interesses económicos em causa, aos seus intervenientes e ao modelo de sociedade em que vivemos

Anónimo disse...

A bandalheira florestal tem assim responsáveis. Muito para além de anódinas declarações sobre descuidos e "anomias" políticas que mais não fazem do que branquear o sucedido ao longo dos anos.

Quem foram os intervenientes políticos e decisórios que por missão ou omissão conduziram as coisas a este estado?

"A floresta em Portugal é o centro de mesa daquilo a que chamaram o arco da governação. É a personificação vegetal do centrão.”
JOÃO QUADROS, JORNAL DE NEGÓCIOS

Anónimo disse...

"O descuido e a anomia política", mais não são que eufemismos cúmplices

O CDS/PP quer fazer esquecer que Cristas foi ministra da pasta.

A 7 de Fevereiro de 2013 era notícia que Cristas admitia autorizar eucaliptos em zonas de regadio ao abandono.

Cristas e os eucaliptos. Cristas e os grandes interesses,sejam dos senhorios, sejam dos que vampirizam as nossas riquezas

Anónimo disse...

Há dias alguém bufava contra o Estado, numa atitude que tem paralelo com o "descuido e a anomia política" do presente.

Atirar para um bode expiatório tem dois grandes objectivos. Por um lado engrossa a voz dos que atacam o Estado com o intuito de fazer crescer a selva humana em prol dos mais fortes. A velha treta do neoliberalismo a tentar romper o círculo higiénico que se estabeleceu em torno deste, após a demonstração inequívoca do falhanço dos seus postulados.
Por outro oculta os verdadeiros responsáveis pela presente situação

Em Portugal o Estado tem 3% da floresta, na União Europeia tem em média 59%.

Anónimo disse...

"Se é verdade que sabemos muito pouco sobre se a resposta à emergência foi adequada nas circunstâncias difíceis, sabemos pela certa que o que desencadeou esta tragédia foi um acontecimento excepcional. O problema é que sabemos também que haverá cada vez mais fenómenos extremos, considerando a montanha russa das alterações climáticas. E sabemos, há décadas que se sabe, que o efeito de tenaz de duas mudanças económicas é devastador: de um lado, a desertificação do interior e o abandono do mundo rural implica que a mata não é limpa, usada e protegida, de outro lado a eucaliptização transforma o interior num barril de pólvora. Não é portanto a meteorologia que nos diferencia de Espanha, Itália ou Grécia: é o factor humano, a floresta não dá votos mas dá lucro.

E aí temos a incúria organizada nesta que será das mais graves faltas de autoridade do Estado. Sempre por austeridade, um governo PS extinguiu o corpo dos guardas florestais; depois, o PSD-CDS, pela mão de Cristas, terminou com os serviços florestais e desmantelou as normas que obrigavam à autorização de novos eucaliptos, até baldios e zonas de regadio foram entusiasticamente prometidas às empresas da celulose, promovendo-se a economia do desastre – mas a ministra anunciava rezar piamente para que chovesse quando a floresta ardia"

(Joana Lopes)

Cada vez mais claro que a "bandalheira florestal" vai muito para lá do "descuido". Ou da religiosidade duma anomia da treta

Dr Fog disse...

This is how things work in the remote mountainous regions of central and northern Portugal:

1) Unscrupulous investor (UI), living in a nice house and not surrounded by eucalyptus trees, usually in a big city (e.g. Lisbon) and with some local knowledge, specially people who have recently died in one of those remote villages.

2) Old pine tree forest owner dies, sons and daughters live far away, and couldn't care less about their ancestors land.

3) UI contacts them, and proposes buying all their inherited properties, usually for a price as low as 1000 eur/hectare, and usually he succeeds because most descendants don't even have a clue where all that land is (the property borders or "extremas").

4) UI takes possession of all that land, sells all the pine trees (clear cutting) and then sends in big bulldozer machines to "plow" the land, usually on steep slopes.

5) Soon after that, long and equally spaced rows of eucalyptus seedlings are planted, without any objections or needed planing permissions. one can clearly see this on Google maps, satellite view.

6) In a few years, all those seedlings become quite big trees, almost ready to be harvested, if meanwhile all that does not burn down.

After a forest fire, buying land is even cheaper, so expect to see soon long rows of eucalyptus seedlings on those recently burnt slopes. Well, this time I have a faint, just a faint hope that more people will start objecting to that and that the EU will stops financing this madness. Otherwise, I'm afraid that only direct action would be able to help nature restore its balance.

Anónimo disse...

"Quem destruiu o aparelho do Estado para as Florestas portuguesas? E em nome de quê? E por ordem de quem? Estando tudo ou quase tudo cadastrado neste país, os homens, as casas, os carros, os contribuintes, porque nunca avançou o cadastro florestal? Quem fez avançar a ideia de que o problema dos incêndios florestais é da floresta abandonada? De terra sem dono? Dos pequenos proprietários que não cuidam das suas terras?"

Não se fez nem faz o que se tem de fazer, porque isso custa pilim… porque isso no Orçamento do Estado implica com o défice, com a dívida, com o grupo do euro, com o Semestre Europeu e o Programa de Estabilidade, com o Moscovici e o Juncker, com o Schäuble e a Merkel, com as e os… a todos!

Conhece-se o que são os matos, os pinhais, as bouças, a dita floresta do Norte e Centro de Portugal? Sabe-se que é uma floresta de pequenos proprietários. Imbricada até ao sabugo com as também pequenas explorações agrícolas. Sabe-se? Então se se sabe porque não se actua em conformidade?

Sabe-se que é «abandonada» porque a madeira nada dá… e sabe-se quem compra a «madeira», ou a cortiça… o Belmiro, o Queiroz Pereira, o Amorim… E senhores, gastam-se milhões de euros de dinheiros públicos – nacionais e comunitários – a subsidiar as fábricas desses senhores, e depois não há massa para os sapadores florestais, para o cadastro, para as equipas de análise do fogo, para as faixas de gestão de combustível???

Por que razão não se recompõe o corpo de guardas florestais, constatado o crime público que foi a sua liquidação? Custa dinheiro ao erário público? Pois custa, que ninguém trabalha de borla. Nem os da Santa Casa… Cresce o número de funcionários públicos, e isso mexe com a despesa orçamental, e sobretudo com os bonzos de Bruxelas? Pois mexe, mas a não ser que os convençam a ingressar nos corpos de bombeiros voluntários – e podia ser uma forma da burocracia bruxelense fazer férias activas – não há maneira…

E logo, faz-se uma lei para que essa terra possa ser roubada, faz-se outra lei para criar uma bolsa ou banco de terras, dão-se uns «incentivos fiscais» a uns fundos de investimento, que vem a correr da Bolsa de Nova Iorque para a arrendar/comprar e plantar rosas e orquídeas…

Quem são os responsáveis pela floresta em mancha contínua de pinheiro ou eucalipto? (E agora parece que já não lhes serve esse eucalipto…) Quem sacudiu os povos dos baldios do que era seu, para lá pôr pinheiro? Quem defendeu uma política agrícola de liquidação da pequena agricultura para lá pôr eucalipto?"

( Agostinho Lopes)

José M. Sousa disse...

Pois, mas também não se pode iludir o facto de que, há anos, a comunidade científica, internacional, mas também nacional, vem alertando para o aumento da frequência de fenómenos extremos e de que é preciso estar preparado, num contexto de alterações climáticas que se fazem já sentir. Aparentemente, estes avisos não têm sido levados a sério por governo nenhum. É ver a insistência em querer continuar a explorar combustíveis fósseis. Porque estas coisas estão relacionadas e ignoramo-las por nossa conta e risco.

Anónimo disse...

Porque não plantar pinheiro manso? O pinhão está a 90€/kg !!! E castanheiros? A castanha pode complementar a batata ou o arroz nas ementas é diversificar os hidratos de carbono . Nogueiras, etc, Afinal para quê tanto eucalipto se cada vez se lêem menos jornais e estes estão cada vez mais fininhol. O eucalipto nào serve para fazer mobílias nem pavimentos... ê um lobby estúpido e irracional, acaba por dar cabo de: 1º as pessoas 2º0ambiente 3ºa economia....para o lucro dos ganânciosos desta área ( eles estão assim organizados )

Carlos Sério disse...

Mas alguma tem de ser feita. As Câmaras não se podem demitir das suas obrigações.

A legislação existe mas nem as Câmaras nem o Estado cumprem na obrigatoriedade de procederem à “gestão do combustível”, isto é, ao abate de árvores e à limpeza e da “biomassa vegetal” numa “faixa lateral de terreno confinante” numa largura não inferior a 10 metros ao longo das vias de comunicação.
Já apontámos anteriormente as razões pelas quais as Câmaras se demitem de tal obrigação.
Ora acontece que a legislação é mais abrangente e exige a quaisquer entidades igual tratamento. Por exemplo, à EDP nas suas linhas eléctricas de alta tensão ou à CP nas vias ferroviárias. A EDP resolve o problema comprando aos proprietários dos terrenos adjacentes a faixa de terreno ao longo das suas linhas eléctricas.
TANTO O ESTADO NAS ESTRADAS NACIONAIS, COMO AS CÂMARAS NAS ESTRADAS MUNICIPAIS, PODERIAM PROCEDER DE IGUAL MODO, ISTO É, COMPRAR AOS PROPRIETÁRIOS OS TERRENOS FLORESTAIS CONFINANTES NAS TAIS FAIXAS DE 10 METROS.
Creio que deste modo se poderia tornar a Lei eficaz e de uma vez por todas.

Quanto à protecção ao fogo das edificações urbanas em meios rurais, recorde-se que a legislação exige que os proprietários dos terrenos confinantes às edificações procedam à “gestão de combustível”, isto é, ao abate de árvores e à limpeza da “biomassa vegetal” numa faixa de 50 metros à volta das edificações. Em caso de incumprimento a Câmara poderá intervir e caso o não faça remete-se ao assunto para os proprietários das edificações o que dilui responsabilidades e torna a Lei ineficaz.
Vejamos contudo o seguinte. As Câmaras possuem o seu Plano Director Municipal de gestão do território onde se definem como principais espaços (existem outros tipos de zonamentos) as zonas urbanas, as zonas florestais e as zonas agrícolas.
Acontece que nos meios rurais, todos os lugares e aldeias são naturalmente considerados espaços urbanos e cada aldeia ou lugar tem o seu perímetro urbano perfeitamente assinalado no Plano Director. Contudo, em quase todos estes espaços urbanos a floresta invade a área circunscrita pelo perímetro urbano o que é causa de difícil tarefa para os bombeiros quando ocorrem incêndios florestais (dada a ineficácia da legislação e a falta da tal “gestão de combustível” e de limpeza da tal faixa de 50 metros circundante às edificações).
ORA BEM, POR QUE RAZÃO AS CÂMARAS MUNICIPAIS PERMITEM ZONAS FLORESTAIS DENTRO DO PERÍMETRO URBANO DAS ALDEIAS E LUGARES?
Por que razão não se obriga simplesmente os proprietários desses terrenos com floresta em espaços urbanos a procederem ao abate das árvores permitindo-se apenas o uso de agricultura enquanto não haja projectos de edificação para tais locais?
Uma tal actuação das Câmaras conduziria seguramente a uma grande eficácia da lei.

Uma outra sugestão de alguém que vive esta problemática seria exigir dos proprietários das zonas florestais e nas suas vias (privadas) de acesso à sua propriedade florestal, usadas para permitir o transporte da extracção da madeira, que tais vias fossem protegidas com faixas adjacentes de protecção com larguras de pelo menos 10 metros constituindo assim espaços, estradões de contenção dos fogos. Permitir-se-ia assim um acesso muito facilitado aos bombeiros no ataque aos fogos e seria, creio, uma medida muito mais eficaz que a exigência da limpeza da floresta que na prática é de muito difícil aplicação.

Uma outra sugestão ainda, seria as Câmaras dotarem as povoações de Bocas de Incêndio em cada um dos lugares rurais, hoje a esmagadora maioria das povoações possuem água canalizada da rede pública, de modo a que os moradores tivessem acesso a tais bocas de incêndio e para tal fossem devidamente instruídos pelas juntas de freguesia. Na falta ocasional de bombeiros evitar-se-ia o espectáculo de ver populares com baldes e pequenas mangueiras na tentativa de travar os fogos.
Possuiriam deste modo um meio mais eficaz de combate enquanto se aguardasse a chegada dos bombeiros.