terça-feira, 20 de junho de 2017

Leituras


(Via Maria João Pires, vídeo de Ricardo Robalo: «um pouco do vento que veio de Pedrogão Grande e que originou os incêndios... Passámos do sol com 44 graus, para uma trovoada seca, e vento forte... Um fenómeno que aconteceu em poucos minutos... Imaginem agora o vento a empurrar o fogo»)

«Quem tenha assistido de perto, como já me aconteceu, a grandes fogos, como o do Chiado e a vários fogos florestais, sabe que há momentos em que nem com todos os meios do mundo, aéreos, pedestres, subterrâneos, seja o que for, se controla um incêndio, uma inundação, um tornado, um terramoto, um tsunami, uma erupção, um meteorito. Pode acontecer que, depois de muita destruição, seja possível de novo controlar a calamidade, mas pode haver dias, horas, meses, em que nada se pode fazer a não ser minimizar os efeitos e esperar que acabe. Isto é a primeira coisa que deve ser dita, de forma geral e abstracta. Dito isto, há um segundo aspecto, aquele que é mais importante — é que qualquer calamidade natural (mesmo com origem artificial) desenvolve-se numa paisagem e numa ecologia que é quase toda construída pelos homens, moldada por actividades humanas, seja do domínio da agricultura, da indústria, da energia, do espaço habitável, das construções, etc. E aqui já as calamidades não são puramente naturais, mas sim ajudadas ou desajudadas pelo modo como manipulamos o espaço natural em que vivemos.»

José Pacheco Pereira, Natureza, homem, obra, vida ou morte

«Face à falta de meios linguísticos (e de tempo para qualquer elaboração mais cuidada) e porque a televisão pratica quase como ideologia jornalística um realismo ingénuo que acaba por nunca produzir o desejado efeito de real, os repórteres ou debitam lugares-comuns que não têm nem valor expressivo nem descritivo, ou recorrem aos testemunhos. Põe-se um microfone e uma câmara diante de pessoas em estado de choque e pede-se-lhes que elas testemunhem, que elas descrevam, que elas superem a afasia em que a situação as colocou. A violência é inominável e a televisão torna-se patética, no duplo sentido da palavra: porque quer mostrar o pathos, dê por onde der; porque exibe a estupidez na mais elevada expressão. (...) Esta maquinaria é totalitária, expansiva, reduz tudo a uma peça integrada. Este jornalismo é um aparelho ao serviço da lógica da “partilha” da comunicação, da informação e da opinião da nossa época. A utilização dos drones realiza na perfeição esta atitude predadora de quem se acha munido do olho de Deus: o olho que abarca, na vertical, a totalidade do mundo.»

António Guerreiro, As vítimas dos incêndios e da televisão

«O colunista tem de escrever. O silêncio não é a sua profissão. Mas se o colunista não faz do seu estilo a estetização do terror e da morte, se o colunista procura mais a secura das palavras no meio da tragédia, se não procura o seu lugar entre as carpideiras e prefere a comoção discreta e solitária, resta-lhe pouco para escrever. Morreram 64 pessoas. É impossível imaginar o terror de cada uma delas. E nós pensamos nisso até porque pensamos no terror que sentiremos quando chegar a nossa hora. (...) O problema deste tempo é que é tudo tão rápido que em vez de silêncio temos gritos que se sobrepõem e nos impedem de pensar. Há um tempo para as coisas. Este é o tempo dos mortos. Não é o tempo para discutir política florestal, falar dos meios e muito menos de procurar culpados, se eles existirem, e pedir demissões, se for caso disso. Agora é o tempo para chorar, curar e enterrar. Porque precisamos disso e estamos a deixar de saber fazê-lo, sempre com pressa de ser os primeiros a dizer coisas relevantes. Nada tenho de relevante para dizer. Hoje, pelo menos.»

Daniel Oliveira, Agora, o silêncio

15 comentários:

Jose disse...

Entre o inevitável 'dilúvio' de vento e fogo, o ruído incoerente das vítimas e o tempo dos mortos, tudo converge para adiar que se julgue a evidência:

Um Estado remendão e capturado por clientelas nunca tem dinheiro ou vontade de salvaguardar o futuro.
Limita-se a fazer luto e a remendar recorrentes e inevitáveis presentes.

Anónimo disse...

Muitíssimo bom.

Parabéns pelas leituras convocadas

Anónimo disse...

Porque releva de má fé vamos colocar os pontos nos is.

Nenhum dos três excertos aqui colocados permite tirar como conclusão a tirada pelo sujeito das 11 e 06.

Pelo contrário. Os textos chamam a atenção de modo exemplar para aspectos fulcrais da abordagem da presente situação. Mas não se confinam a adiar coisa nenhuma,embora o texto de Daniel Oliveira sirva que nem uma luva a esta espécie de vestais hipócritas que povoam o universo medíocre das carpideiras que falam em clientelas como se lhes fossem alheias

Anónimo disse...

É de manifesto mau tom apelidar os momentos em que se morre e em que se morre desta forma, como um "ruído incoerente das vítimas".A coerência ( ou a falta dela) não passa por aqui. O horror não se confina a este rendilhado pernóstico e sem sentido.

Na tentativa de encontrar uma síntese ( de botar cá para fora "algo de relevante") generaliza-se a morte a banaliza-se a individualidade daqueles momentos trágicos. Olvidam-se os pequenos ou grandes gestos alguns deles provavelmente heróicos, que não foram de todo "ruídos incoerentes".

Anónimo disse...

Mas infelizmente não é isto que torna as coisas graves.

É que o "dinheiro" pelo qual se "chora" o estado nunca ter em quantidade suficiente, é o dinheiro capturado pelas clientelas. O dinheiro concentrado em meia dúzia de mãos. O dinheiro das rendas. O dinheiro desviado para os bordéis tributários, vulgo offshores.

Ora as rendas, a concentração da riqueza, os offshores, tudo isso são "coisas" defendidas por quem agora fala em remendos e noutras inevitabilidades.

Definitivamente estamos no reino do faz-de-conta

Anónimo disse...

Todos ou quase todos questionam a inevitabilidade desta tragédia especialmente pelas proporções que teve e que está a ter, as perguntas que estão a ser feitas e as questões que têm sido levantadas são um sinal de vitalidade, penso até que já contribuíram para que as autoridades tenham sido mais comedidas nas explicações e tenham tentado uma maior transparência. A realidade não tem de se cingir à velocidade de alguns intelectuais, há alguns ilustres que continuam de tal forma centrados em si que são incapazes de reconhecer a importância do contributo de todos para a construção de uma sociedade civilizada.

Anónimo disse...

Estes trechos aqui apresentados não fogem do debate nem escamoteiam as perguntas a fazer.

Apenas ( e é significativo) levanta outras pistas para a análise lúcida do que se está a passar.

Entretanto é ler na continuação por exemplo a crónica de Pedro Tadeu no DN.

A.R.A revolução disse...

De tudo o que se possa dizer, de tudo o que se possa questionar, restam apenas certezas de que houveram 64 historias de vida (muitas, demasiadas, com tanto ainda por viver) que foram ceifadas por um fogo velho e antigo que há muito vinha avisando ao que vinha.

TODOS os anos, pelo verão, somos informados de algo que aos demais se tornou perigosamente banal ... chegou a época dos fogos... como se fosse algo tão normal como a época das vindimas ou dos santos populares ... e todos apontam dedos, criticam, vociferam culpas como se isto fosse uma questão de direita ou esquerda mas não é, meus caros!
Num verdadeiro país de idiotas que somos as ideias pululam no que se deve fazer embora com a chegada do outono já ninguém se lembre dos hectares de floresta queimada, das famílias desalojadas e sem meio de subsistência, do luto dos seus entes ... FORAM 64 vidas e mais do dobro de feridos que para sempre terão cravados na pele o inferno Dantesco ao qual sobreviveram e isso, meus caros, isso não se se resolve com o irritante -É a vida!, isso resolve-se com acção.
- Queimadas no inverno
- Delinear áreas de plantação de sobreiros, castanheiros, e todas as outras árvores de combustão lenta junto a populações
- Criar empresas especializadas em limpeza de floresta sem ter que obrigar idosos a limpar o seu quinhão de terra
- Profissionalizar mais bombeiros com especialidade em fogo florestal, tornando-os parte integrante das forças armadas e receberem o respectivo financiamento como força de defesa nacional como assim deve ser designada
- E por fim, o tão propalado ordenamento do território que já devia ter sido feito ... ontem.

Resta o silencio, como diz o DO, mas que, desta vez, este seja tão ensurdecedor que cada um de nós não deixe de o ouvir e que desta feita nos una em prol do bem comum, em memória das passadas e presentes 64 histórias de vida que se foram embora ... cedo demais.

Choro como se fossem meus pois se escrevo este desabafo com lágrimas nos olhos é porque me impossível não sentir um pouco a dor de um pai (como eu) de uma família ( como a minha) e do pranto (na mesma língua que falo) perante o horror do lume e do silencio da sua passagem.

Jose disse...

Sobre esquerda e direita.
Pode dizer-se que o respeito pela propriedade privada é relevante para a inacção no ordenamento do território num país em que:
- ninguém é penalizado por defraudar credores em falências obscenas
- senhorios há que têm que sustentar as casas de inquilinos a expensas próprias
- o IMI rústico cresce com o rendimento - ainda que isso signifique sobre-exploração
- um Estado caloteiro cobra juros e coimas extorsionárias (até à próxima balda)

Não. É tão só um Estado incompetente na mãos de canalha que só cuida de se manter na mama orçamental satisfazendo clientelas.

Anónimo disse...

Pois é... Agora há quem se cale, porque a dor é muita. Agora (como é apanágio nas grandes desgraças nacionais) há sempre quem se não esqueça de dizer que somos um povo magnificamente solidário e olimpicamente "resiliente". Acontece é que a morte foi dos outros; a morte foi daquelas 64 pessoas que jamais voltarão a viver; a morte foi daquelas dezenas de crianças, mulheres, homens, novos e velhos, filhos e filhas, mães, pais e avós que nunca mais voltarão a respirar. As vozes para sempre mudas desses nossos concidadãos exigem-nos explicações. Os seus olhos ausentes pedem-nos respostas acerca de algumas coisas: provavelmente perguntar-nos-ão a razão de termos um interior que é uma vergonha de abandono, de desertificação, de falta de planeamento rural e urbano, de envelhecimento, de baixíssima natalidade, de extinção de serviços públicos e de mesquinhos proprietários de meia dúzia de pinheiros raquíticos que não valem a ponta de um chavelho mas da qual não abrem mão nem que sejam ameaçados de morte. Perguntar-nos-ão por que razão só agora começamos a ouvir algumas verdades inconvenientes que foram cuidadosamente escondidas na gaveta durante décadas de incêndios florestais (o recorrente "fogo posto" sempre foi o conveniente bode expiatório para a generalizada incompetência, o omnipresente compadrio das negociatas à volta do fogo e para o universal desleixo criminoso) e de aldeias cercadas pelo fogo. Perguntar-nos-ão qual a razão de o nosso celebrado poder local, depois de ter investido largamente em pavilhões desportivos e piscinas olímpicas, ter passado a investir o dinheiro de todos nós em ciclovias e pistas de btt e de tracking, em "centros de excelência" em porra nenhuma e em interessantíssimas e concorridíssimas feiras gastronómicas do agrião e do feijão-frade em vez de o investir na limpeza e no ordenamento da floresta. Obterão eles e elas, novos e velhos, todos eles horrorosamente falecidos, respostas?
Sabem que mais? A dor vai passar, as lágrimas vão secar, o debate vai esgotar-se ao fim de uns meses sem que a alguma conclusão se tenha chegado. Para o ano, em Maio, em Junho, em Julho, em Agosto e em Setembro, voltaremos a ter o espetáculo dantesco do fogo e das aldeias por ele cercadas e, desgraçadamente, mais algumas vidas ficarão por cumprir. Nós gostamos - talvez por não termos o menor sentido do trágico - é de dor, de lágrimas e do fadinho que chafurda eternamente na autocomiseração e aponta o olho vesgo para a proteção da Nossa Senhora de Fátima.

Anónimo disse...

Só mais uma coisa: esta desgraça da morte horrorosamente prematura destes nossos 64 concidadãos é a prova provada de que as políticas do navegar à vista - para mais sendo essa vista (irremediavelmente?) míope - podem, a curto prazo, render imensos votos e proporcionar mediáticos brilharetes, mas serão, a médio e longo prazo, o úbere ventre da morte e da destruição. E essa chã conclusão serve para as (inexistentes ou esquizofrénicas) políticas da floresta assim como serve para as políticas relativas a outros sectores.

A.R.A revolução disse...

A minha família materna é oriunda da Pampilhosa da Serra e desde que me conheço o fogo foi sempre uma constante por aquelas terras. Com o passar dos anos vi este mesmo famigerado fogo alastrar-se para o resto país, de norte a sul, como que deixando o porco engordar após a ultima matança. E assim foi, ele retomou à sua coutada para reclamar a sua voracidade.

Isto para apenas partilhar que de inquéritos em inquéritos e de inconsequentes acertos legislativos continuamos exactamente na mesma como à 40 anos atrás ... o que falta é acção, sermos práticos, racionais e não nos perdermos em tricas acusatórias que levam exactamente a NADA! Chega. Chega de conversa da treta. É para actuar e é JÁ ... reúnam engenheiros florestais, arquitectos paisagísticos, bombeiros, força aérea e protecção civil e resolvam esta constante calamidade de uma vez por todas, mas que sejam estes e não deputados e ou legisladores e ou gente de secretaria afins ... a opinião dos operacionais é que deve ser tida em conta e com a conclusão destes que se criem as condições para que se possa, já não digo evitar, o fogo faz parte da vida, mas ao menos mitigar os danos do mesmo com acções rápidas de combate numa atitude concertada entre as varias entidades.

Chega de semantica, é hora de ACÇÃO!!

Anónimo disse...

Alguns comentários aqui a merecerem reflexao atenta. Tal como os excertos citados pelo autor do post.

Mas é duma limpidez extrema a natureza das " mamas" que um sujeito para aí defende.

Bem como as " clientelas" que serve

Jose disse...

Esquerda e direita:
Ainda que possa dizer-se que o ordenamento da floresta a expensas de particulares seja improvável por razões de falta de conhecimento, dinheiro ou vontade, o que dizer das zonas ardidas?
Avaliado que o fogo ocorreu em floresta desordenada ou abandonada, que razão impede o Estado de determinar as regras da sua exploração e, não sendo aceite e executada, tomá-la a seu cargo até que seja ressarcido dos correspondentes custos?

É claro que não são contas para pôr a cargo dos mamões centrais, que aí tudo se dilui em golpadas sem escrutínio possível.

Anónimo disse...

A ação impõe-se. Contudo, ação sem reflexão não passa de agitação acéfala. Sessenta e quatro vidas incumpridas pedem respostas e, mais que essas, pedem o assumir de responsabilidades por quem as tem. Um território despovoado e desordenado é um convite ao recorrente desastre. Esse território despovoou-se e desordenou-se não por obra e graça do Espírito Santo, mas sim por ação e omissão das políticas que os homens e mulheres que nos têm governado, nacional e localmente, nas últimas décadas levaram a cabo. E isso nada tem a ver com guerras semânticas. Tem, isso sim, a ver com a mais chã decência e com o respeito que nos merece a memória destes nossos 64 concidadãos.
Chamem-me pessimista, mas, quanto a mim, continuamos na mesma: enquanto os nossos magníficos "media" andam num frenesim de especulação acerca das causas do começo do incêndio ( um bode expiatório pirómano é o mais seguro detergente para a mancha das mais incompetentes políticas e garante horas e horas de venda de espaço na pantalha, no papel ou nas ondas hertzianas) já se cozinha uma "comissão independente" para o apuramento do que "correu mal"... E quem é que sugeriu tal comissão? Pois quem a sugeriu foi esse mesmo magnífico PSD que a todos nos fez pagar a peso de ouro o não menos magnífico SIRESP. Perguntemos, assim sendo, à raposa por que razão desapareceram as galinhas...