sexta-feira, 10 de julho de 2015

O novo caminho para a servidão


Ao contrário do que os media dão a entender, o futuro da zona euro e da UE não se decide neste fim-de-semana. Já foi decidido no passado dia 5 de Julho quando, após uma intimidação sem precedentes conduzida ao mais alto nível pela UE, apoiada pelas televisões privadas, o povo grego respondeu com um rotundo “não” a mais austeridade.

Qualquer que seja o resultado das negociações, a visão dos cidadãos sobre a natureza da UE mudou substancialmente nos últimos dias. Quem, honestamente, ainda tinha ilusões quanto a uma mudança progressista da UE, perdeu-as. Revelou-se o que as expressões “economia social de mercado” e “Europa social” ocultavam. Caiu a máscara e ficou à vista uma UE totalitária, uma tirania. É isso mesmo, porque se trata de uma organização política supranacional que não acomoda a diversidade das escolhas democráticas dos Estados-membros. Confirmou-se que o ordoliberalismo da UE é irreformável e não admite dissidentes. E todos sabemos como terminou a URSS.

O que se decide neste fim-de-semana é se o governo grego ajoelha e contradiz o mandato que recebeu ou, intensificando o conflito, emite um meio de pagamento paralelo que lhe permita reabrir os bancos e evitar o colapso da sua economia. No primeiro caso, as causas profundas da crise não serão resolvidas, bem pelo contrário. O regresso da recessão, provocada pela incerteza das negociações, terá como resposta um programa de cortes na despesa pública ainda mais agressivos. Qualquer renegociação da dívida pública que ainda possa ocorrer não terá efeitos no curto prazo. Portanto, o desastre grego vai piorar, correndo-se o risco de a implosão do sistema político-partidário conduzir ao fim da democracia na Grécia.

No segundo caso, contra a vontade da maioria da direcção do Syriza, a saída de facto da Grécia da zona euro, com o litígio que tal implica, vai acelerar a sua desagregação. O princípio da irreversibilidade da adesão à moeda única será quebrado e a confiança dos mercados na estabilidade do euro, já não sendo muita, fica definitivamente posta em causa. Num artigo publicado no início da crise, Dani Rodrik lembrava que, em caso de confronto entre uma sociedade e um sistema monetário, os especuladores mais inteligentes apostam na sociedade.

Ou seja, os movimentos de capitais antecipam a vitória da sociedade (espanhola, italiana, portuguesa) e, no processo de fuga ao risco, produzem o que antecipam. No caso do euro, as profecias auto-realizadoras dos mercados forçarão o BCE a uma intervenção sem precedentes para manter os juros de vários países a um nível suportável, o que agravará as desconfianças na Alemanha. No caso de a crise financeira na China se revelar incontrolável, o cenário de instabilidade agudizar-se-á. Em todo o caso, uma coisa é certa. As regras de funcionamento da UE foram determinadas pela Alemanha e não são reformáveis, pelo que o desemprego se manterá em níveis insustentáveis e levará ao poder, noutros países, partidos que defendem a saída do euro.

Ao contrário do discurso dominante nos media, o caminho da Grécia para a insolvência começou com o resgate dos bancos alemães e franceses que lhe foi imposto em 2010. No essencial, a “ajuda” da troika serviu para pagar as dívidas aos bancos estrangeiros. A Grécia tinha e tem muitos problemas estruturais por resolver, mas aquela decisão de poupar os bancos às consequências das suas políticas de crédito foi determinante. Bill Mitchell faz uma síntese do caso grego (“Greeceshould not accept any further austerity – full stop!”) e realça que a situação calamitosa a que se chegou decorre da imposição à Grécia de uma austeridade inimaginável. De facto, é preciso ter descaramento para se dizer que a Grécia não fez “o trabalho de casa”.

Como disse um europeísta decepcionado (Engelbert Stockhammer, “Debt, Discipline and Democracy”), “No dia 5 de Julho saberemos se, a partir de agora, o lugar da democracia é fora da União Europeia, ou se prescindimos dela em troca do euro.” Entretanto, o povo grego não parece ter sido ouvido. A UE é hoje um caminho para a servidão.

(O meu artigo no jornal i)

27 comentários:

Jose disse...

As minhas expectativas sobre o progresso da UE cumpriram-se plenamente.

A Europa dos falsos coitadinhos não vai avançar.

Antonio Cristovao disse...

Negam aos gregos o direito de decidir o que fazer com o dinheiro dos outros. Uma chatice que se resolvia se usassem os seus próprios recursos; como fazem os alemães e ninguém lhes diz como devem governar o seu país; e outros países pequenos também fazem o que lhes aprouve porque usam os meios próprios.

Anónimo disse...

errado, antonio. quem usou e usa o dinheiro dos outros foi a banca. o sistema financeira, aliado a alemanha, ajudou a criar esta situacao tanto quanto a grecia.

e toda a austeridade imposta a grecia (e nao so a grecia) teve como objectivo limpar a divida dos privados. a divida toxica passou quase toda para os contribuintes.

nao sou eu que digo, é a bloomberg.

Anónimo disse...

"Qualquer que seja o resultado das negociações, a visão dos cidadãos sobre a natureza da UE mudou substancialmente nos últimos dias."

A generalidade dos cidadãos europeus tem alguma visão sobre a natureza da UE?

Tal como se viu em Portugal, a austeridade "primeiro estranhou-se" (grandes manifestações de rua, ...) e depois "entranhou-se" (festivais de verão, ...).

E na Grécia vai ser o mesmo, com ou sem referendos (show off). Os parceiros europeus encarregar-se-ão de manter uma linha de assistência mínima e o Syriza vai gerir a austeridade, e assegurar que há lugares no Estado para os seus (não conhece o Triunfo dos Porcos?).

O facto de quer a Igreja, quer o Exército, quer os oligarcas da marinha mercante saírem intocados de 6 meses de governo de extrema-esquerda e do novo plano de resgate é sinal mais do que evidente de que nada de fundamental mudará.

Anónimo disse...

Antonio Cristovao, um ignorante vítima da desinformação ou hipócrita defensor de políticas imorais e criminosas neoliberais?

É sabido que a larga, larga maioria do dinheiro de “ajudas” à Grécia foi parar nos bancos como o Deutsche Bank, Société Générale, ou seja, a banca alemã e francesa. Os contribuintes alemães e franceses não estão a pagar as reforma dos “preguiçoso” gregos, estão a sustentar própria banca, e se não a sustentassem já estaria falida!

Porquê, pessoas como o Antonio Cristovao, continuam a descarregar a propaganda simplista da Troika em sítios como este blogue?

Se não convenceram há 5 anos acham que é agora que vão convencer os Ladrões e outros que aqui passam?

Vão propagandear para outros sítios, aqui a vossa K7 só ocupa espaço e nada mais...

Anónimo disse...

oh palerma, a Alemanha que arrasou duas vezes a Europa e por duas vezes teve perdões de divida colossais é que anda há séculos a decidir o que fazer com o dinheiro dos outros! E pelos vistos não olha a meios! Mas há sempre um moralista de pacotilha que os defenda!

Anónimo disse...

Um bocado surpreenddido com a aparente capitulação do governo de esquerda grego só posso entendê-la desta maneira:

Hipótese 1. Sem um plano de contingência e sem outra alternativa ao Syriza não lhe restou senão ceder face à catastrófica falência do seu sistema bancário agendado para esta segunda-feira.
Hipótese 2. Será acordado um novo pacote com a garantia de mais à frente a dívida do país sofrer uma reestruturação "discreta", "quando ninguém estiver a olhar", para ninguém ficar mal na fotografia.
Hipótese 3. Será acordado um novo pacote que na prática serve apenas para ganhar tempo e esconder a criação de uma nova moeda e com isso a saída (ordenada e acordada) da Grécia da zona euro.
Hipótese 4. Ao nível da conspiração...haverá qualquer coisa que não nos estão a dizer, como por exemplo a possibilidade do euro estar na iminência de substituir o dólar como principal divisa internacional (e como tal foi pedido aos Gregos para se aguentarem mais um bocadinho, que depois isto vai ser uma festa para toda a gente)

Não faço ideia.

Anónimo disse...

Povo grego? Mas qual povo grego é que votou não? Dos 10 milhões de eleitores só 3 milhões e 400 mil votaram não. Os outros 6 milhões e 600 mil cagaram no referendo ou votaram sim. É esta a unidade do povo grego que votou num "rotundo" não? Ficamos assim

rui rosa disse...

O Direito à Autonomia Legislativa
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Não acontece só nos clubes de futebol, acontece em muitos ramos das sociedades (e das regIões):
- os melhores duma região/sociedade tendem a deslocar-se para regiões/sociedades mais ricas [é natural].
De facto, todos nós sabemos que as regiões/sociedades mais pobres... tendem a ficar mais pobres... em relação às regiões/sociedades mais ricas -> pois, estas vão buscar os melhores das regiões/sociedades mais pobres.
Tudo ok... agora, todavia, no entanto, como é óbvio... as regiões/sociedades mais ricas NÃO PODEM TER O DESPLANTE DE PRETENDER IMPOR LEGISLAÇÃO às regiões mais pobres!
Dito de outra maneira: as regiões/sociedades mais pobres devem possuir Autonomia Legislativa em relação às regiões/sociedades mais ricas (isto é, ou seja, em relação àquelas que vão buscar os seus melhores)!
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P.S.
Já há alguns anos que aqui o je vem divulgando Direitos que considera serem importantes:
1- O Direito à Sobrevivência de Identidades Autóctones : ver blog "http://separatismo--50--50.blogspot.com/".
2- O Direito à Monoparentalidade em Sociedades Tradicionalmente Monogâmicas: ver blog "http://tabusexo.blogspot.com/".
3- O Direito ao Veto de quem Paga: ver blog "http://fimcidadaniainfantil.blogspot.pt/".

Anónimo disse...

Aquilo que desnorteia um pouco é a desonestidade evidente e persistente seguida pelos neoliberais de turno.

Veja-se a forma deplorável e "rasca" como o das 21 e 43 "arruma" o assunto. E sejamos objectivos:
Eleitores : 9 858 508
Votos expressos: 6 161 140 (62,50%)
Votos no Não- 3 558 450
Votos no Sim -2 245 537
Votos nulos: 5,04%
Votos em branco:0,75 %

Para além das "pequenas aldrabices" contabilísticas em relação ao número de eleitores e ao número de votos no Não, poder-se-ia dizer com mais propriedade que apenas 2 245 537 dos gregos votaram no Sim e que os restantes gregos se cagaram para a chantagem da troika, votaram Não , ou votaram Não a ambas as propostas.

Um rotundo Não de facto que deve incomodar sobremaneira o coitado do das 21 e 43 para mostrar desta forma a pesporrência ignorante de que faz alarde.

De

Anónimo disse...

A Grécia precisa de Siriza como pão para a boca.
As reformas só se conseguem com um partido comunista no poder. Pois assim os sacrifícios são por uma boa causa.

cumps

RAui SIlva

Anónimo disse...

Gosto da palavra pesporrência

cps

Rui SIlva

Ricardo disse...

check http://www.shiftfrequency.com/germany-cant-prop-up-entire-eurozone/

Anónimo disse...

A grave situação da Grecia começou precisamente Quando lhe foi imposto o primeiro programa de asfixia económica e financeira pela UE e pelo FMI, que sabotou todo o seu aparelho produtivo.A partir daí foi a chantagem e a agressão económica e financeira pricipalmente à Grecia e a Chipre mas em sentido lato foi a toda Europa do Sul. O Grupo dominante da UE teve a agessividade e o despudor de inventar na sua imprensa alinhada o vocabulo "PIGS "
Entretanto a situação na margem Sul do mediterrâneo está totalmente destabilizada numa extensão que vai do Leste ao Oeste e que constitui um perigo para a paz.
As políticas do Eixo que impõe a lei na Zona Euro são o que todos estamos a ver e não sabemos onde irão conduzir. Talvez conduzam à civilização do mêdo

Anónimo disse...

Nunca vi tanta preocupação com a Grécia e com os gregos como aquela que ora reina nos nossos "media". Descobriram eles, agora, que há miséria na Grécia, como também recentemente descobriram que há lá fome, desespero e uma colossal onda de suicídios. E, pasme-se, a julgar pela sua anterior ignorância desses factos, parecem querer convencer-nos de que tudo isso aconteceu... nos últimos cinco meses. Enquanto os partidos "mainstream" lá do sítio desgraçaram o país, os nossos queridos "media" estiveram surdos, cegos e, sobretudo, mudos, e nada disseram sobre o autêntico massacre a que foi submetido o povo grego. Distração? Não me parece: cá como lá, os "media", esses lobos mercenários travestidos de cordeirinhos-guias, tentam manter o rebanho no carreiro. Há que fomentar e entranhar o medo, e dissuadir a lusa grei, por todos os meios, de seguir o exemplo da ovelha negra: o Syriza.
Esquecem-se os nossos queridos "media" e "comentadeiros" de serviço aos mesmos de colocar honestamente as coisas como elas são: podemos nós não seguir o Syriza, mas seguiremos, de certeza absoluta, a Grécia, se ela sair do Euro. Mas isso só eles perceberão, como excelentes profetas "post-factum" que são, uma vez acontecido. Aí, será tarde. Para eles e, infelizmente, para todos nós.

Jose disse...

O caso grego está a silenciar o pessoal das 'lutas'.
Finalmente começa a compreender-se que o dinheiro dos credores é afinal o bolso de contribuintes em algum lugar.
Podem usar os exorcismos que são de uso, mas é inevitável quue essa percepção venha a sobrepôr-se à cínica e teatral figuração desse mítico 'grande capital' e dessa perene associação de malfeitores conhecida por 'Banca'.

Anónimo disse...

"O pessoal das lutas"?

Isso é um convite à submissão submissa, obediente e venerada à botifarra germânica.

Não há já vergonha para aqueles que gritavam "Angola é nossa" naquele patrioteirismo rasca e que agora são os primeiros a saudar o triunfo dos porcos do BCE ,do FMI e quejandos e a venda ao desbarato do país a esses mesmos porcos. Vistas bem as coisas os porcos de hoje pertencem ao mesmo filão do de antigamente, com tiques para passarem por mais modernos. Porque se antes era ao governo do próprio capital financeiro que prestavam as honras em missas, em beija-mãos e em choradinhos de versalhada medíocre, agora prestam as devidas honras aos agiotas e usurários que funcionam de acordo com os mesmos princípios e os mesmos objectivos só que duma forma ainda maquilhada

Por isso a zanga extrema pelas referencias ao "grande capital" como se dum coitado se tratasse, a modos dum candidato aos cuidados sempre prazenteiros duma jonet de ocasião.

Por isso a pieguice insuportável e insuspeita pela banca, como se se tratasse do próprio passos ou cavaco ou portas encavalitados em cima dum andor, de mão dadas com os ilustres banqueiros que, à vez, vão caindo da tripeça enquanto se vai sabendo o modus faciendi da dita ("bendita" para os cúmplices) banca.

Ainda por cima a pregação beata do " mas é inevitável" a confundir a realidade com sonhos húmidos paridos sabe-se lá onde, quem sabe se na Flandres, onde a confraternização amena e próxima com saudosistas do "arbeit macht frei" moldou espíritos mais fracos mas já propensos a tais missas.

De

Nightwish disse...

Vai estudar economia, Jose.

E com apenas 20% dos eleitores o governo português cumpriu um programa (de destruição total do que existia) que não foi a votos. Só para informar alguns anónimos.

Jose disse...

O 'grande capital' é em larga medida Fundos de pensão em busca de rendimento que melhore reformas. Mas os treteiros querem comer tudo e já e quem vier atrás que feche a porta.
Nostálgicos de um Outubro que lhes franqueie as portas dos ricos lá se vão entretendo nas 'lutas' e na treta.
E invocam a democracia seguros do princípio de que 'pão e circo' é o mais constante principio regulador das massas.

Anónimo disse...

Ah!
Mais pieguices rascas em torno do "Grande Capital" A que se adicionam mais choraminguices pelos fundos de "pensões em busca de"

O que não pode passar é que paralelamente a este choro pelo grande capital, venha agora o das 9 e 48 à pressa falar em "melhoria das reformas".Ele, logo ele, que se atira como abutre a tudo o que lhe desperte a genética do dito.
Eis como ele vê de facto a questão das pensões, e cito ipsis verbis:"Para quando informar os reformados de quanto deveria ser a sua pensão segundo uim razoável critério de capitalização para que TODOS saibamos quanto de assistencialismo e de benesses nos arruina?"

E é este tipo agora que para defender o grande capital, da forma vergonhosa como o faz, vem falar em "reformas"? Quando ele defendia o ricardo salgado e o oliveira e costa e os mellos e o direito aos mais ricos ficarem a cada dia que passam mais ricos pensava nas costureirinhas desvalidas em busca dum tecto protector?

Quando ele diz, da forma que o sr rui silva gosta, e cito:
"O Capital Financeiro que alimentou a desbunda abrilesca"...estava a referir-se aos orfãozitos que ficaram a alimentar a tal desbunda?

Tudo isto é fundamentalmente uma questão ideológica que assume um lado particularmente obscuro com a raiva que se pressente no ódio à participação dos cidadãos na coisa pública e no "pão e circo" como invoca de forma tonta e canhestra o "princípio regulador das massas".Adivinha-se nos tais princípios ideológicos que mesmo o direito ao pão é um direito que lhe causa espécie e repulsa. Uma vergonha.

Mas a verticalidade e a dignidade também passam por aqui ( ou a falta delas)

De

Emmanuel disse...


O sistema capitalista mundial tirou da fome e da pobreza absoluta centenas de milhões de pessoas.

Ao mesmo tempo aumentou as desigualdades.

Mas, o que há de mais errado neste sistema é o sistema de valores de pobreza espiritual ao qual se encontra ligado: o individualismo, o edonismo, o materialismo, o consumismo, a cobiça, a inveja, a falta de escrúpulos.

O pior de tudo é a capacidade que o sistema tem para divulgar e massificar esses valores através de uma poderosíssima cadeia de meios de comunicação social de massas (internet e televisões). Os mais pobres e desfavorecidos são muitas vezes também os mais vulneráveis. Um pequeno exemplo desta realidade é o facto de, nos EUA, os mais pobres serem também os mais obesos.

Trata-se um poderosíssimo ciclo vicioso em que os valores destrutivos referidos atingem muitas vezes os espiritualmente e materialmente mais vulneráveis criando famílias desestruturadas cujos membros se tornam espiritualmente, económica e socialmente ainda mais vulneráveis em virtude da fuga que efectuam para os sites da internet e para os canais das televisões onde o individualismo, o edonismo, o materialismo, o consumismo, a cobiça, a inveja e a falta de escrúpulos são subliminarmente valorizados. Um ciclo vicioso de sofrimento e infelicidade que, se não for contrariado, aumenta tendencialmente geração após geração.

Mas todos são atingidos: o miúdo rico que, por ter umas calças de marca, julga que é mais do que os outros, vivendo num universo em que só existem coisas e não pessoas, como o miúdo pobre que por não ter umas calças de marca tem inveja do primeiro, também ele num universo em que só existem coisas e não pessoas.

O sistema capitalista em si não é errado. O eventual erro está no facto de se deixar que um tal sistema exista sem regulação económica e ambiental. O eventual erro está no facto de se deixar que um tal sistema exista sem um sistema de acentuada redistribuição dos mais ricos para os mais pobres. O eventual erro está no facto de se deixar que um tal sistema exista deixando-o difundir em total liberdade e impunidade, de forma maciça, sistemática e dolosa, nos meios de comunicação de massas, o seu nefasto sistema de valores.

Anónimo disse...

Segundo continua a noticiar a comunicação social , a Alemanha e seus satélites continuam a agredir a Grécia . Não se trata de uma agrassão atraves de um conflito armado , mas sim uma agressão atraves da chantagem e de imposição de uma ditadura económica e financeira. Não nos devemos esquecer que a Alemanha já esteve na origem de duas guerras mundiais ,ocupou a Grécia militarmente e nunca pagou a sua dívida de reparações de guerra que lhe foi exigido na Conferência de Yalta. Além disso a Alemanha foi o país que mais beneficiou do Plano Marshal.O que seria a Alemanha se não tivesse beneficiado desse plano? O complexo Financeiro-Industrial alemão foi muito abalado com a grave crise económica e financeira que assola a Europa desde 2007. uma crise devido à graves deficiências do próprio sistema económico.Foi o respectivo modelo económico o responsável por se ter chegado a esta situação degradante.
Não se afigura justo que a Alemanha tente recuperar dos graves efeitos preverssos do sistema à custa dos povos dos Países da Europa do Sul.

Jose disse...

Emmanuel, que me conste, a ideologia capitalista não presume definir valores para além da liberdade individual e da responsabilidade social.
Os parâmetros de um e outro desses valores não são matéria para um sistema de produção mas para a cultura e leis de sociedades que se supõem usufruirem de liberdade política.

O que se nota, e é assinalável, é que as lutas dos adversários do capitalismo normalmente se fundam, não em valores que se lhe oponham, mas em suscitarem a necessidade de mais meios de acesso aos bens que o capitalismo produz. Arvoram a abundância capitalista em valor pela força que põem em obtê-la e condenam-no por ter tais valores!
E fazem mais, dizem que diferente modo de produção criaria diferentes valores - e há prova histórica de que disso é consequência imediata a perda da liberdade individual com a consequência de que a responsabilidade social muda de natureza e passa a norma regulamentar.

Anónimo disse...

A Democracia acabou na UE, disso não tenho dúvidas. E acabou não agora mas aquando dos tratados de Lisboa e do Tratado Orçamental, servilmente aceite pela maioria dos integrantes do euro. Claro que até agora temos andado iludidos a pensar que as coisas ainda podiam mudar e melhorar mas isso, pelo menos para paises como Portugal e a Grécia, é pouco provável. O nosso país e a Grécia e não só, a pouco e pouco irá definhando e acabará por desaparecer pois aqui o futuro deixará de existir. Na Grécia vai acontecer o mesmo. Qaui como lá, a direita reacionária, nazi fascista, levará a sua avante e não permitirá que outras vozes e vontades se façam ouvir e governem os seus destinos.
Esta mascarada de democracia e de estado de direito,vai continuar a imperar na UE.
Esta não é a UE a que alguém gostará de pertencer.

Anónimo disse...

O jeito manso de defender a pulhice da miséria em que vivemos.
Já lá iremos. O que ama o Capital e que proclama o direito da riqueza se acomodar em poucas mãos defende o status quo.Se a tal se associar a exploração da mão-de-obra-alheia e a exploração do Homem pelo homem ,melhor. Não é por nada que "jose"defende o esato dito Novo... e a pátria do capital...
Em todas as línguas mas agora sobretudo em alemão

De

Anónimo disse...

Temos assim que os valores do capitalismo são...os valores.
Tão claramente exposta a miséria desses "valores" , convertidos em matéria de troca que permitiria até vender a própria mãe se daqui resultassem valores... desde que se respeitasse claro etsá os valores de liberdade...do vendedor,pois então.

E aí começamnos a ver como este discurso do das 234 e 30 é uma treta pegada.

"Ética define-se como a disciplina da filosofia que se debruça sobre os princípios ou valores que devem conduzir a vida quotidiana.
A questão é: que forças e que ideologia que determinam os fundamentos éticos. O capitalismo assume-se como o sistema que corresponde à “natureza humana”. Trata-se de um postulado arbitrário, que se pretende assumir como científico, quando não passa de especulação metafísica ou apenas retórica para camuflar o facto de se pretender a defesa dos direitos humanos e a satisfação das necessidades sociais, ao mesmo tempo que se aceita como princípio absoluto a maximização do lucro.
Trata-se de uma contradição irresolúvel. A concretização de direitos e a satisfação de necessidades sociais só puderam ser defendidos e contemplados lutando, limitando, cerceando o poder do capital e dos capitalistas, tal está patente na História dos povos, tal é evidente nos dias de hoje.
Os defensores do sistema e das suas leis afirmam que o desenvolvimento capitalista aumenta a disponibilidade de determinados bens, porém um destes bens é o trabalho humano. O aumento da disponibilidade da força de trabalho tem resultado não em benefício dos próprios – aumento do nível de vida, redução do tempo de trabalho - mas em desemprego. Ou seja, com esta maior disponibilidade, e em consequência das próprias leis do capitalismo e na sua terminologia, decresce a utilidade marginal. Daqui que os valores humanos, para além de declarações piedosas e inócuas para iludir os incautos, sejam os primeiros a ser sacrificados no altar dos valores mercantis.
Para os teólogos a noção de moral era e é dada por Deus e todas as injustiças explicadas pelos princípios da teologia. Fazendo uso destes princípios, os falsos puritanos do neoliberalismo continuam a proclamar a moral individual desligada de compromissos de identificação e integração social.
Falar em elevação espiritual quando as necessidades materiais básicas não estão satisfeitas e não existe segurança na existência, é refinada hipocrisia. Só garantindo às pessoas condições de existência dignas se pode falar em ética. Porém, a fome e a pobreza alastram e não apenas nos países considerados pobres. No entanto: “a moral económica da antipobreza consiste em espremer a classe trabalhadora e depois dar alguma coisa aos pobres”.

(Cont)

Anónimo disse...

"Para Aristóteles, na sua “Ética a Nicómano” (seu enteado) a virtude seria um meio entre dois extremos, entre dois vícios: um por excesso outro por defeito. A justa medida tem de ser encontrada entre os extremos sem se deixar dominar por qualquer deles. O excesso de Estado pode ser tão perverso como o contrário, por isso fascismo e neoliberalismo são duas faces da mesma moeda: a imoral extorsão da mais valia criada pela força de trabalho.
O meio a que Aristóteles se refere, seria encontrado procurando em cada circunstância o que mais convém à natureza humana. De que fala o filósofo ao mencionar virtude e natureza humana? Será o objectivo mais elevado da vida a virtude moral? Não, segundo o mestre, pois pode-se ser virtuoso e moral no ócio – voluntário ou não – e na pobreza. O objectivo mais elevado da vida será, pois, a felicidade que não se compadece com aquelas duas situações.
Jeremias Bentham (1748-1832), um clássico do liberalismo, então contra as desigualdades aristocráticas, dizia que o objectivo de um governo virtuoso seria proporcionar a máxima felicidade ao maior número de pessoas. Bentham é um exemplo acabado das contradições éticas do capitalismo: defendendo a felicidade da maioria simultaneamente, defendia que “fazer leis para as fábricas são violações das leis económicas e não benevolência. Na verdade tornará pior a miséria dos pobres” – evidentemente, por obstarem ao “free-trade”. São princípios que aliás vemos com roupagem variada defendidos diariamente na comunicação social e que fazem parte dos acordos com a “troika” subscritos pelos partidos neoliberais. Marx, em “O Capital” vol. II diz “tivesse eu a ousadia do meu amigo Henrich Heine e chamaria ao sr. Jeremy um génio no percurso da estupidez burguesa.
Ora, a política de direita, sempre prometendo luzes ao fundo do túnel, cria um máximo de desigualdade e infelicidade para a maioria e um máximo de riqueza para uma minoria. Enquanto o país se afundava na crise, os direitos sociais eram restringidos, o desemprego e a pobreza atingiam números inéditos
Como na peça de Becket, (À espera de Godot) para aumentar o riso de uns aumenta o choro de outros. Nos países desenvolvidos, a social-democracia melhorava as condições dos trabalhadores – melhor dizendo cedia às suas lutas – porém aumentava a exploração neocolonialista, a fome, a repressão nos países dominados. J. K. Galbraith em “A Era da Incerteza” escreveu referindo-se ao colonialismo: “Os seus motivos reais eram demasiado bárbaros, egoístas e obscenos para serem expressos. Os colonialistas consideravam-se sempre alfobre de valores morais, espirituais, políticos ou sociais transcendentais”. Para F. D. Rosevelt - segundo consta - o ditador Stroessener podia ser um “son of a bitch”, mas “é o nosso “son of a bitch”. De que os EUA fizeram ampla colecção, diga-se...
Que espécie de ética se pode esperar de uma sociedade que tem como princípio, meio e finalidade o lucro empresarial, financeiro, monopolista e transnacional? Uma sociedade em que o aumento de qualificações e de pessoas qualificadas correspondeu à sua desvalorização social, pois decresceu a sua “utilidade marginal” de cada individuo. Que horizonte, que futuro se pode esperar quando os detentores de capital – não falamos das PME - não exigem apenas lucros, mas que estes tenham crescimentos em percentagem? E quando tal não acontece, despedem, fecham e deslocalizam empresas e pedem – impõem - que o dinheiro dos contribuintes os compense.
A única ética possível é promover o desaparecimento, a superação, deste modelo de sociedade. Como? Lutando por isso. Será possível? Como princípio ético, digamos que para conhecer os nossos limites temos de ter um ideal de perfeição e procurar atingi-lo".
Daniel Vaz de Carvalho

(De)