segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

As origens europeias da pós-verdade

Vale sempre a pena ler Wolfgang Munchau, editor de assuntos europeus do Financial Times, cujas crónicas semanais são desde há algum tempo também publicadas no DN: “A crise grega é apenas o exemplo mais flagrante do resultado de a verdade não ser dita. Há muitos outros. A adesão da Itália a uma união monetária com a Alemanha também é obviamente insustentável (...) Quando a verdade morre, não devemos surpreender-nos com a substituição desta por factos alternativos.”

E que dizer da adesão de Portugal? É que estamos estagnados como a Itália desde a viragem do milénio, mas tendo entretanto acumulado uma dívida externa, em percentagem do PIB, bastante superior. É verdade que não tivemos uma grande depressão, como a Grécia, mas se fizermos a comparação usando todo o período do Euro vemo-nos muito mais gregos do que se julga. De resto, e como temos por aqui insistido, os tais factos alternativos têm uma longa tradição numa economia política que, enquanto ideologia, tão bem tem servido as elites do poder europeu.

8 comentários:

Anónimo disse...

"Está muito na moda entre as elites do poder falar da preocupante entrada numa era da “pós-verdade”. Foi até considerada a palavra do ano. É preciso ter descaramento, já que, na economia política, há muito que muitas dessas mesmas elites nos vendem mentiras descaradas, da direita a uma certa esquerda. Lembram-se quando a modernização financeira era sinónimo de privatização e liberalização financeiras, à boleia da hipótese dos mercados eficientes, processo em que a UE esteve na vanguarda? Num registo que não fosse de pós-verdade, a crise financeira devia ter enterrado tais ideias".

Venham mais textos assim, para desespero das ditas elites e dos seus sicários

Jose disse...

As costas largas do euro!
Nunca há factos alternativos.
É a verdade única!!!

Geringonço disse...

Os governos ocidentais desde o princípio do milénio esforçam-se em contar realidades alternativas, desde às guerras à economia as “verdades” são cada vez mais descabidas!

Desde que o capitalismo quase faliu em 2008 tentam convencer que a recuperação aconteceu para o trabalhador e generalidade da população, mas o povo sabe que a “recuperação” é uma grande mentira!

O povo é desinformado mas desconfia das “verdades” que os políticos e os media lhes contam, então, reagem de forma digamos, alternativa, e votam no Brexit e em Trump. E prometem não ficar por aqui…

Fica aqui o meu conselho aos políticos, dirigentes, economistas e outros opinantes com alguma influência é bom que a generalidade da população comece a ver a sua situação a evoluir positivamente e significativamente porque se isto não acontecer preparem-se, não vão gostar o que está para vir...

Anónimo disse...

Em Maio de 2013, Münchau escreveu isto: "It doesn’t make much sense but I’m a eurofanatic (...). I simply do not need any economic reason to arrive at this position, or any rational reason at all for that matter. I am like a six year old in this respect. I want the EU because I want it." [https://www.ft.com/content/158e248a-be1f-11e2-bb35-00144feab7de]. Ele deixava perceber, é claro, que o seu "eurofanatismo" - que escolhia ignorar as questões económicas - era essencialmente baseado em questões geopolíticas, pois acreditava que a União Europeia merecia e devia ser uma superpotência.

Não creio que, entretanto, Münchau tenha deixado de ser "eurofanático", sempre com o "sonho imperial" europeu - muito comum na Alemanha mas também em França e nos três países do velho Benelux - a sobrepor-se a qualquer preocupação com a racionalidade económica e com o exercício da democracia no espaço europeu. Mas, perante a forma, arrogantemente displicente, como os que mais ordenam na União Europeia fingem ainda ignorar realidades como a óbvia insustentabilidade da dívida grega -, ele acaba agora de lançar o alerta: "Não dizer a verdade coloca em risco a Grécia e a Europa" [http:// www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/wolfgang-munchau/interior/nao-dizer-a-verdade-colocaem-risco-a-grecia-e-a-europa-5663150.html].

O que Munchäu escrevia em 2013 e escreve agora, quatro anos depois, corresponde a um sentimento muito comum, embora frequentemente recalcado, no âmbito das famílias políticas que têm sido conjuntamente responsáveis pela "construção europeia" em curso, baseada num mítico "projecto europeu" acima de qualquer crítica; isto aplica-se quer aos membros dessas famílias que lideram - como a CDU alemã - ou imaginam liderar - como o PS francês - o império europeu em construção, quer aos membros dessas famílias - como o nosso PS - que, na periferia da União desunida, esperam e desperam pela sempre prometida, mas cada vez mais ausente, "solidariedade europeia", e estão dispostos a ceder cada vez mais soberania para manter viva a esperança.

Essas famílias políticas - ainda dominantes, mas a perder terreno face às margens, direita e esquerda, da euro-política - já perceberam que "se vogliamo che tutto rimanga com'è, bisogna che tutto cambi". Hoje mesmo, foram discutidos à pressa num Parlamento Europeu agora presidido pelo berlusconiano sr. Tajani (a alternativa era o seu compatriota Pittella), três suculentos projectos de resolução inspirados no bom e velho leopardino princípio, não por acaso com eurodeputados da Alemanha, da França e da Bélgica como relatores. É conveniente conhecer já, em detalhe, os conteúdos destes projectos - que deverão ser aprovados depois de amanhã, por esmagadora maioria -, até porque, em vez de procurar divulgá-los, o "mainstream" mediático parece que pretende escondê-los por agora, para que surjam depois como facto consumado que só anti-europeus empedernidos, nacional-populistas e objectivamente "amigos de Putin e de Trump", poderão atrever-se a contestar:

http://www.europarl.europa.eu/sides/getDoc.do?type=AGENDA&reference=20170214&format=XML&language=EN&secondRef=SIT .


A. Correia

Anónimo disse...

As “elites incensadas” para disfarçar a falta de argumentação prepositiva da vida em sociedade inventaram a «dança semântica». E vai daí, crescem ´pós´ por tudo quanto e´ prosa escrita e falada. Ate´ parece que preferem ser tudo menos cidadãos. Depois querem fazer crer que os povos são uma camada de atrasados só porque votam naqueles já «carimbados» por eles, “as elites incensadas”. Penso que e´ altura de ler «Ensaio sobre a Cegueira» de José Saramago…mas não admira, pois aqui ate´ deram o título “desprestigiante” de ´´geringonça´´ ao governo que obteve a maioria parlamentar e por conseguinte da maioria do povo eleitor. de Adelino Silva

Anónimo disse...

A memória é uma coisa lixada.

Quem fala em verdade única aí em cima é quem postou milhares de posts a arengar, gritar, urrar, insultar e ameaçar quem não seguisse a verdade única austeritaria. Sem caminhos alternativos, restando apenas a obediência cega à troika, a Passos, a Cavaco e a Schauble.

Está documentado e se a hipocrisia reflectida nos pontos de exclamação semi-histéricos pretende esconder o passado, pode-se sempre esfregar-lhe diante dos olhos as suas palavras de ódio pro-troika e de vende-pátrias

Anónimo disse...

Reposição de rendimentos anima crescimento económica

"A economia cresceu 1,9% no último trimestre de 2016, em relação ao período homólogo. O ano passado fechou com um crescimento anual de 1,4%. A estimativa supera previsões das Finanças, da OCDE, do FMI e da Comissão Europeia.

Os dados do Instituto Nacional de Estatística apontam o crescimento do consumo e a recuperação do investimento como responsáveis pelo melhor trimestre do ano para a economia nacional.

Apesar de o saldo externo (diferença entre exportações e importações) ser negativo, fruto do aumento do consumo privado, a reposição de rendimentos iniciada no ano passado permitiu que o Produto Interno Bruto (PIB) crescesse acima das previsões.

Apesar de se manter em níveis historicamente muito baixos, a evolução do investimento no quarto trimestre de 2016, em conjunto com o consumo privado, permitiu um contributo positivo da procura interna.

Apesar de superar as expectativas, nomeadamente as criadas pelas recentes notícias que especulavam em torno dos valores que foram divulgados esta manhã, o crescimento do PIB mantém-se em níveis abaixo dos registados antes da introdução da moeda única, há 15 anos.

O crescimento médio desde a entrada em circulação do euro foi de 0,17% ao ano, em Portugal. O único ano em que o crescimento foi superior a 2% foi 2007, com 2,49% – um valor inferior aos registados entre 1996 e 2000, sempre acima dos 3% ao ano."

(abrilabril)

Fernando Carvalho disse...

Não me parece que o BrExit ou Trump sejam resultados de um povo desinformado. É verdade que busca alternativa, já está farto de "mais do mesmo". Assumidamente, pode não saber para onde vai, mas sabe por onde não quer ir...