domingo, 6 de setembro de 2015

Vale tudo?

«Primeiro Jornal da SIC de hoje, exibe-se uma peça sobre os gastos obrigatórios no início do ano escolar no ensino público e no ensino privado. Duas repórteres, Patrícia Mouzinho e Catarina Neves, colocam-se numa grande superfície de papelaria e material de escritório (deve ser a Staples, pelo aspecto).
A primeira repórter começa: "Diz a Constituição da República Portuguesa que o Estado deve assegurar o ensino básico universal, obrigatório e gratuito. Mas na hora da verdade logo no arranque do ano lectivo as famílias enfrentam sempre gastos não só com os livros, mas também com o material escolar".
Posto isto, cada uma com o seu carrinho de compras, decidem verificar os custos do material escolar pedido pelas escolas para o 1º ciclo. Uma parte para as compras com uma lista de material escolar (excluindo livros) pedida por um colégio privado (26 objectos); a outra faz o mesmo a partir de uma lista semelhante exigida por uma escola do ensino público (29 objectos). A primeira repórter (a da lista do colégio privado) avisou que ia optar por objectos de marca branca, enquanto a segunda (a do ensino público) revelou que optaria sempre pelos artigos de marca mais caros.
No final compararam as contas de cada uma das excursões aquisitivas e viu-se que a repórter que levava a lista do colégio privado pagou 33,81 euros pelos 26 objectos pedidos, enquanto a que levava a lista do ensino público (29 objectos) tinha um total de 109,64 euros para pagar...
No final concluem que há que escolher muito bem os materiais porque podem ser até três e quatro vezes mais caros.

Pelo meio passaram para os espectadores menos atentos, de forma subliminar, duas ideias fundamentais: o ensino público fica muito mais caro que o privado; e a Constituição não serve para nada, é uma anedota, já que determina que o ensino deve ser gratuito e é mais caro no público que no privado... Exactamente as ideias que os ARREBENTAS que nos desgovernam se esforçam por fazer passar para propagandear a privatização total do ensino...
Isto em termos de jornalismo não só é de uma nulidade absoluta como vai contra todas as regras profissionais estabelecidas. Já em termos de manipulação é de grau máximo e de um descaramento e falta de seriedade absolutamente confrangedoras...
Ó Patrícia Mouzinho e Catarina Neves, tenho vergonha de que vocês usem a mesma Carteira Profissional de Jornalista que eu e tantos outros camaradas que se esforçam por exercer o jornalismo com seriedade e sentido de serviço à cidadania...»

José António Pimenta de França (jornalista da Lusa, via facebook)

9 comentários:

Anónimo disse...

Pois é, grandes falácias e um gigantesco "vale tudo".
Passo a explicar-me:
O meu filho foi inscrito num colégio privado. Vai para o 5º ano. Tenho vantagens óbvias em fazê-lo, pois o colégio fica a 30 metros da minha casa e a escola pública a 3 quarteirões para apanhar o autocarro, seguido de cerca de uma dúzia de paragens. Poupo passe, almoço e outros custos.
Para minha surpresa, após a inscrição, recebi um e-mail a referir a necessidade do meu filho adquirir um equipamento caríssimo para uma espécie de projeto educativo. Não faço ideia do que se trata (o Projeto), mas o equipamento podia igualmente ser alugado à escola mediante o pagamento de uma caução.
Ao falar com uma professora de outro colégio sou elucidado: se vai para uma privada, o colégio tem todo o direito em exigir os materiais julgados necessários para a aprendizagem do aluno.
Resta-me dizer que o custo do equipamento (com os acessórios imprescindíveis) é igual ao ordenado mínimo nacional.

Anónimo disse...

Hoje em dia nos locais de trabalho as pessoas são constantemente coagidas a anularem-se, fingir que todos os profissionais gozam de plena liberdade é absurdo, fingir que esta sociedade é um sítio decente onde existem indivíduos com comportamentos menos próprios é uma visão incrivelmente ingénua, muitas vezes os arautos da decência e da moralidade são eles próprios o expoente da insuficiência.

Anónimo disse...


Só quem não andou numa instituição de ensino privada é que pode imaginar que a propina mensal é o montante fixo anunciado.

Antonio Cristovao disse...

Não é obrigatorio ser estupido, para se ver o programa pois não? è que a lista de 29 itens, foi avisada que seria dos artigos de marca. Mas com a interpretação aqui dos autro, ficamos a perceber a importancia de ter um explicador inteligente, a dizer nos o que devemos pensar. Se fosse eu fazia a comparação iten a iten , entre o marca branca e de marca, mas a opção jornalistica merece a critica dum colega, só que um pouco agressiva .

Anónimo disse...

Quando ate´ a morte e a própria “Alma” são negociáveis …os espaços dos cemitérios se trocam, se vendem, se compram…porque não negociar o ensino, a educação…!?
Se o próprio pais já foi a leilão e o próprio povo parece aceitar, que resta para negociar?
Me parece que a sede do concelho de ministros virou balcão de negócios dos do Arco da governança e a camara de deputados sua coadjuvante.
Pelos vistos, todo o espaço material e imaterial de Portugal esta sujeito a negociata…
Olhai os Lírios do campo !!!
De o “Catraio” com respeito


meirelesportuense disse...

Mas isto acontece em todos os diversos aspectos informativos, falamos da Educação, poderíamos falar de qualquer outro sector como a Saúde, etc...As televisões estão ao serviço dos grandes Investidores, que são no fundo os seus verdadeiros Patrões. E fazem tudo o que está ao seu alcance para os servir e servir Politicamente quem, embora eleito, os está também a servir. Isto está bem explicito no que Trump disse quando afirmou, que "em vez de estar a financiar outros", pensou financiar-se a ele mesmo. E que antes "primeiro ajudava -financiando- os candidatos" e depois "lhes ligava, quando precisava deles". Agora, se for eleito, nem precisa de gastar dinheiro nos telefonemas...

Zé Quintão disse...

Parabéns ao autor do blog, por este artigo e faço minhas, as palavras do sr. meirelesportuense.
Uma vergonha o que se passa, mas infelizmente, a maioria dos portugueses deixa-se manipular porque não tem um conhecimento básico formativo e cultural suficiente para perceber esta selva. Jornalistas? Onde? Vergonhoso.

Anónimo disse...

"Exactamente as ideias que os ARREBENTAS que nos desgovernam se esforçam por fazer passar para propagandear a privatização total do ensino"

Linguagem própria e isenta de um jornalista (verdadeiro, note-se) da Lusa.

A crítica feita à reportagem e à forma como foi conduzida é totalmente pertinente, nomeadamente quando feita por um profissional do ramo (jornalista, como é o caso). A classe jornalística peca até por uma falta de sentido crítico.

O meio escolhido (Facebook) parece-me também perfeitamente adequado.

O que me parece totalmente inaceitável o tipo de linguagem usado e a associação de ideias: um texto feito por um profissional a criticar (com argumentos e factos pertinentes) um trabalho de colegas é depois totalmente contaminado pela linguagem utilizada e pela associação a considerações de natureza política. Um jornalista, mesmo no Facebook, devia continuar a ser um jornalista.

Anónimo disse...

Será que os telespectadores são assim tão estúpidos como o autor do post quer fazer crer ?
Se são , então tenho uma critica adicional.
As jornalistas deviam também explicar que quando a constituição diz que o ensino é gratuito, o que se quer dizer é que o pagamento do ensino é indireto (não há nada que eu tenha conhecimento que não custe alguma coisa).
E como qualquer coisa em que o pagamento é indireto e ainda por cima obrigatório, há a tendência dos custos subirem e a qualidade baixar.


cumps

Rui Silva