segunda-feira, 23 de março de 2015

Fogo e contrafogo

Se nos vêm agora explicar, como fazem em relação à Grécia, que os povos podem votar, mas que, na realidade, o seu voto não tem qualquer importância nem influência, quer dizer que estamos numa ditadura. É o que eu chamo uma ‘euroditadura’ (...) O euro e a austeridade estão indissociavelmente ligados (...) Se abandonarmos a defesa da nação, como faz actualmente a maioria da classe política, que está numa visão europeísta que, de facto é uma visão pós-nacional, caímos num sistema de ruína da grande maioria em benefício da ultraminoria (...) Tsipras serviu de veículo da revolta democrática do povo grego. Espero, repito, que ele e o seu governo não cedam à UE e que assumam porque arriscam-se a decepcionar os que votaram nele.

Podia ter escrito isto, já escrevi isto, concordo com isto. Quem disse isto foi Marine Le Pen, em entrevista ao Expresso do último sábado. Cá está, dirão os do costume: os extremos atraem-se, etc. As companhias nunca definiram a justeza de uma posição. De resto, é a própria Le Pen que reconhece que quando a esquerda assume a nação, a sua direita tem menos hipóteses. É o melhor contrafogo, de facto.

Acontece que grande parte da esquerda francesa, do PSF até ao PCF, abandonou de diferentes formas esse terreno que foi o seu historicamente e que era e é popular; tudo em nome de europeísmos sem raízes e sem resultados. Hoje, em parte por causa desse abandono, a Frente Nacional é o grande partido operário em França. Uma desgraça já várias vezes assinalada: como é que se diz depois queixem-se em francês?
Uma desgraça que não é portuguesa. É que por cá, certa esquerda, a minha esquerda, usa politicamente recursos intelectuais disponíveis, cultiva uma certa memória histórica e tem juízo político: do patriotismo republicano e socialista – ainda há dias assisti a uma interpelação corajosamente eurocéptica de António Arnaut, vinculada a uma mundivisão ético-política, dos direitos, liberdades e garantias, que é a antítese de Le Pen – até à ideia de uma revolução democrática e nacional da tradição do Rumo à Vitória, o antifascismo mais consequente. É por aqui: em nome das liberdades democráticas, que têm na soberania uma condição necessária, e da igualização de condições de todos os que vivem aqui, em nome de uma comunidade política inclusiva que está sendo destruída. É o poder do tal nós, que faz contramovimento, contra o euroliberalismo e contra os monstros que resultam da sua crise.

4 comentários:

Ricardo disse...

Mais conversa menos conversa(e ela é necessária até certo ponto,depois passa a absurdo se não houver acções correspondentes)a questão é a que poucos têm levantado(Ferreira do Amaral mais uma vez o disse neste sábado na tsf)e é esta "queremos ser independentes e ter progresso ou queremos ficar no euro?" e isto porque é pura perda de tempo(e enterrar mais o povo e o futuro)esperar por reformas mais amigas dos Estados do sul pois os do norte não vão abdicar de seus interesses(mais ou menos egoístas)Dixit e ponto final.

João disse...

Passo por aqui, em ritmo muito acelerado e com uma única motivação para o meu comentário: saudar a qualidade da prosa. Sucede que por ser ela assim - densa e convocante - terei que regressar depois, com mais calma, para verter opinião ou, se mais não for, para me reencontrar com uma escrita que pode bem ser lida duas vezes sem cansaço.

Aleixo disse...

Que legitimidade tem uma organização política,

para impor algo,
contra a sua própria maioria?!

Eu lá quero saber, se é de Esquerda ou Direita.

Sendo a minha opinião,

não abdico do direito de a expressar e defender.

Se está errada...
Se não sou politicamente correcto...

Hipócrita não sou.


Afinal em DEMOCRACIA, respeita-se ou não a vontade da MAIORIA ?

Se a idéia(?!), é defender o POVO...


Não é fazer de conta, que está tudo mais que esclarecido!

Nota:

Estou disposto a ir á " Escola "!

Nightwish disse...

Sou novo aqui e eu só não percebo o que é que o escreve sobre mudança tem a ver com o PS (se percebo bem).
De resto, blog subscrito, tarde, mas sempre a tempo.