quarta-feira, 22 de maio de 2013

A direita de sempre

Apesar de alguns (poucos) militantes do Partido Socialista quererem ver o CDS posicionar-se ao centro, na expectativa de que assim se possa tornar um potencial parceiro de coligação do PS, o CDS, nos momentos importantes, não deixa de ser claro quanto à sua matriz ideológica – é o partido mais conservador e mais à direita do sistema partidário português. Foi assim, na passada sexta-feira, aquando da votação do projecto de lei do PS sobre co-adopção por casais do mesmo sexo, onde da bancada do PSD, 16 deputados votaram a favor deste importante avanço civilizacional; mas da bancada do CDS, nem um único. Deste partido só ouvimos a ameaça de envio do diploma para o Tribunal Constitucional.

Em matéria de despenalização da interrupção voluntária da gravidez, procriação medicamente assistida, educação sexual em meio escolar, eutanásia ou direitos dos homossexuais, o CDS é sempre o adversário mais empenhado que o PS encontra pela frente. E apesar de estas questões serem suficientemente esclarecedoras do ponto de vista ideológico, não são as únicas a separar os dois partidos – é sobretudo em matéria de política social e económica que as divergências mais se fazem notar.

Nenhum socialista poderá algum dia esquecer a forma cínica, desonesta e ignóbil com que o CDS sempre combateu um dos mais importantes instrumentos de luta contra a pobreza em Portugal – o rendimento mínimo garantido. Da mesma forma que nenhum homem ou mulher de esquerda poderá ser indiferente aos repetidos ataques a outras políticas sociais de combate à pobreza e à desigualdade social, como acontece, por exemplo, com o próprio subsídio de desemprego. É também neste partido que estão os principais defensores do plafonamento da Segurança Social, do cheque ensino ou, pasme-se, do fim do salário mínimo e da progressividade do nosso sistema fiscal.

O CDS não é (e não voltará a ser) um partido democrata-cristão; aliás, já praticamente não existe democracia cristã na Europa. O CDS reúne, antes, o pior da direita: o conservadorismo nos costumes e o liberalismo na economia. Defender a presença do CDS num governo do Partido Socialista, só se for para garantir que o PS nunca governará à esquerda.

(crónica publicada no jornal i às quartas-feiras)

8 comentários:

Rui MCB disse...

De acordo. Agora falta o resto, como governar à esquerda? Alguém do BE e/ou do PCP que ajude a responder.

Anónimo disse...

Mas a natureza do PS é a de se aliar com o CDS,extrema direita(!),caso esteja em minoria.Tudo o resto,é conversa-é um gestor aplicado do capitalismo

André disse...

@Anónimo: De que fala? Em tempo algum o PS deu a mão ao CDS. Já do BE e do PC não se pode dizer o mesmo...

Anónimo disse...

talvez o andré devesse saber que o ps já governou com o cds, que o cds já viabilizou vários orçamentos do ps (um deles o limiano) ou que assis defende alianças preferenciais com o cds.

valha que pedro nuno santos tem outro juízo.

Anónimo disse...

Fala-se em coligações com o CDS porque este é o único pequeno partido que se tem revelado disposto a fazer compromissos. Quando é que foi a última vez que BE ou PCP fizeram o mesmo? Quando é que foi a última vez que disseram: "Discordamos desta medida mas votamos a favor porque ..."?

António Pedro Pereira disse...

Para alguns lembro que a principal função política dos partidos é constituírem soluções de governo.
Não é tornarem-se forças de bloqueio.
Outra coisa é a crítica legítima ao conteúdo que essas soluções governativas apresentem.
Até porque está em causa respeitar a vontade dos eleitores, que certamente não será que do seu voto resulte um bloqueio governativo.
Na Finlândia há um consenso implícito que leva a que na prática não exista a figura das eleições antecipadas. Cada votação destina-se a gerar uma (ou várias) soluções de governação durante o período de validade da vontade dos eleitores: 4 anos.
Nesse período pode formar-se um ou vários governos com base nos resultados eleitorais.
Uns atrasados estes finlandeses, comparados com os tugas, que gostam da festa eleitoral de 3 em 3 meses. Mas depois criticam as despesas nas campanhas eleitorais, os gastos com os partidos, etc.

D., H disse...

Em relação ao CDS, o partido dos “reformados”, do “contribuinte”, e por aí fora, é um partido que tem sobretudo um enorme apetite pelo poder. As cambalhotas recentes do seu líder quando teve efectivamente que escolher, falam por si.

Também penso que o problema não é haver coligações, soluções de governo, plataformas de entendimento, etc. As escolhas começam logo pelos “amigos”…
A questão central põe-se ao tornar a democracia uma farsa, propondo-se um programa, e fazer exactamente o contrário, acabando por tratar os eleitores como tolos. Onde já vai a legitimidade deste governo para governar por quatro anos?

Unknown disse...

isto só prova que o grande preconceito perante um cenário à Finlandesa parte como é obvio, das forças do bloco central de interesses (com o extremista CDS incluido). A destruição na praça pública e no inconsciente das pessoas de qualquer restia de pensamento alternativo é uma acção que vemos diariamente à décadas. É sempre relegado para o escandalo, para o insulto ou para a anedota qualquer opinião que defenda um entendimento básico para a formação de um governo de alternativa das esquerdas. O Ps nisso carrega às costas, não só o peso de anos de desgovernação em conluío com a direita de enfraquecimento e destruição da economia do nosso país, como a vergonha de fechar portas a ser um partido mesmo à esquerda e não uma muleta interesseira e colaboracionista da direita pura, desumana e dura, que são as AD´s deste país.